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Volta ao mundo em nove filmes: os vencedores do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de fora da Europa

Com histórias do Irã, África do Sul, China, Japão e diversos países latinos, a categoria tem se democratizado e seus roteiros promovem uma interessante viagem por diferentes culturas  

CINÉFILOS
19 out 2019 | Por Suzana Petropouleas (suzana.correa@usp.br)

A categoria Melhor Filme Estrangeiro foi criada no Oscar de 1957, quase trinta anos depois da criação da premiação, em 1929.  Antes, em 1948, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles decidiu conceder prêmios especiais no Oscar para filmes estrangeiros lançados nos EUA. Até então, não existiam prêmios na cerimônia para produções  em outras línguas. A distribuição desse novo prêmio não aconteceu todos anos e a categoria não era competitiva — só um filme era escolhido para a honraria, sem competir diretamente com nenhum outro.    

Nesse contexto, ganharam o Oscar honorário de melhor filme estrangeiro diversas obras europeias e três japonesas: o thriller psicológico Rashomon (1950), em 1952; o drama histórico Portal do Inferno (Jigokumon, 1953) em 1995; e a aventura Samurai: O Guerreiro Dominante (Miyamoto Musashi, 1954), em 1956.

Premiado com o Oscar honorário em 1950, Rashomon marcou a entrada do Japão na premiação pela primeira vez na História. [Reprodução]

Em 1957, é criada oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar: agora anual e competitiva, foi feita para premiar longas-metragens produzidos fora dos EUA e numa língua diferente do inglês. Outra diferença em relação as demais categorias da premiação é que contempla o país de origem do filme e não apenas um profissional ou equipe do cinema, embora o prêmio seja geralmente recebido pelo diretor. 

Mas a categoria levaria anos para se democratizar. A ampla maioria dos prêmios concedidos dali em diante seria para filmes europeus, principalmente de França e Itália. 

Federico Fellini foi o maior diretor já premiado na categoria — foram quatro estatuetas, por A Estrada da Vida (La strada, 1954), Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957), Oito e meio (8½ , 1963) e Amarcord (1973). A categoria também consagrou nomes como o sueco Ingmar Bergman, vencedor em dois anos seguidos, 1961 e 1962, com A Fonte da Donzela (Jungfrukällan) e Através de um espelho (Såsom i en spegel). Bergman venceu também em 1984 com o drama Fanny e Alexander (Fanny och Alexander). 

Orfeu Negro (Orphée Noir, 1959) foi uma das parcerias de países europeus premiada. A primeira produção em língua portuguesa a ganhar a estatueta, em 1960, representou, na verdade, a França. Ambientado numa favela brasileira durante o Carnaval, o longa é considerada uma produção ítalo-franco-brasileira. 

O mesmo aconteceu com Z (1969), filme franco-argelino premiado em 1970; e a comédia teuto-franco-helvético-marfinense (ufa!) Preto e Branco em Cores (La Victoire en Chantant, 1976), premiada em 1977.

Preto e Branco em cores foi uma das poucas comédias premiadas na categoria. [Reprodução]

Com a exceção dos prêmios honorários ao Japão e das produções em parceria, a Europa reinava absoluta na categoria até meados dos anos 80, quando o argentino A História Oficial (La Historia Oficial, 1985) garantiu a primeira estatueta realmente competitiva e não européia na categoria.

Foram longas décadas de monopólio europeu até que o cinema internacional premiado pelo Oscar de fato contemplasse produções originais dos mais diversos cantos do mundo. Desde então, no entanto, tem o feito com crescente frequência. 

Esses filmes são uma verdadeira volta ao mundo, um mergulho cultural no que há de melhor no cinema. Com histórias sobre uma família de classe média iraniana, um músico do interior do Japão e um morador dos guetos da capital sul africana, entre diversas outras, proporcionam experiências avassaladoras e bem diferentes do cinema Hollywoodiano a que estamos tão habituados. 

Na lista a seguir, saiba mais sobre todos os filmes de produção não-europeia já contemplados competitivamente na categoria:

 

  1. Em 1986: A História Oficial (La Historia Oficial, 1985) 

[Reprodução]

A História Oficial foi a primeira produção verdadeiramente não-europeia  a vencer a categoria competitivamente. Uma grande vitória para a América Latina, que só aconteceu em 1986. 

O filme argentino conta a história da professora de História Alícia (Norma Aleandro), casada com um burocrata que trabalhara para o regime militar no país. Alheia à ditadura que corroía sua própria nação, ela passa a desconfiar que sua filha adotada, Gaby, possa ser uma das “filhas da Guerra Suja” — nome dado aos bebês sequestrados de militantes de esquerda assassinados por membros do regime, que foram adotados por famílias conservadoras durante a ditadura argentina.

Com diálogos ágeis e complexos, o clímax da narrativa é violento e estarrecedor. Mostra o despertar de Alícia para a realidade política ao seu redor, trazendo à tona importantes questões sobre família e co-responsabilidade: também somos culpados pelas nossas omissões e por aquilo que deixamos de saber sobre a realidade ao nosso redor? 

É possível traçar diversos paralelos com a situação política atual em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. A narrativa mostra como regimes políticos perversos beneficiam-se de bolhas de informação e distorção como àquelas em que Alícia vivia. Em conversa com um colega professor, a protagonista questiona a possibilidade do país ter perseguido e matado seus próprios cidadãos.  “É sempre mais fácil que acreditar que isso é impossível, certo? Especialmente porque, para possibilitar isso, seria necessária muita cumplicidade, muitas pessoas que não acreditassem, mesmo se estivesse bem na sua frente, não?”, responde seu amigo.

 

  1. Em 2001: O Tigre e o Dragão (Wòhû Cánglóng, 2001)

[Reprodução]

Com produção multi-milionária e fotografia belíssima, o longa taiwanês foi sucesso de bilheteria e é considerado um dos filmes mais importantes sobre artes marciais. 

O Tigre e o Dragão conta a história de duas mulheres lutadoras na China do século XIX, sob a dinastia Qing, a última dinastia imperial chinesa. Discute sutilmente o papel da mulher nas sociedades orientais e nas narrativas sobre guerreiros e guerreiras orientais. Yu Chu Lien (Michelle Yeoh) e Jen (Zanghi Ziyi) têm suas histórias entrelaçadas por um artefato bélico centenário, desafiando seus destinos através de escolhas que promovem profundas reviravoltas. O filme também discute transcendentalidade e superação através das artes marciais.

O longa também venceu as categorias de Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora no Oscar 2001. Também foi indicado para as categorias de Melhor Direção (para Ang Lee), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Figurino e Melhor Canção Original. Por isso, inunda olhos e ouvidos com sua estética e as músicas do chinês Tan Dun. Até 2019, tinha sido o filme estrangeiro com o maior número de indicações ao Oscar na história. Esse ano, Roma de Alfoso Cuáron empatou com O Tigre e o Dragão no número de indicações a filme estrangeiro na premiação. 

 


  1. Em 2006:  Infância Roubada (Tsotsi, 2007)

[Reprodução]

O ano de 2006 marca o início de filmes não-europeus vencendo a categoria em intervalos cada vez menores. 

O sul-africano Infância Roubada não é para os sensíveis. Há uma cena de assassinato à sangue frio logo nos primeiros minutos. Mas, no fim, talvez agrade justamente aos sensíveis, porque a amizade e o carinho que o líder de gangue Totsi (Presley Chweneyagae) constrói com o bebê rico que sem querer leva durante um roubo é tocante. 

Embora a história comece retratando-o como anti-herói que parece disposto a qualquer coisa, Infância Roubada é sobre desigualdade social, família, recomeços e sobretudo sobre falta de amor. A trilha sonora é ótima e impactante, bem como a possibilidade de ver as paisagens urbanas de uma África do Sul bem diferente da que costuma ser retratada no cinema. 

 

  1. Em 2009: A Partida (Okuribito, 2009)

[Reprodução]

Com A Partida, o Japão volta a vencer a categoria, agora competitivamente. O longa é um mergulho na cultura japonesa e na relação da cultura do país com a morte. Seria ela realmente um tabu menor por lá? A história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) indica que a resposta não é tão simples. 

Músico frustrado, o jovem retorna de Tóquio para sua cidade natal, Yamagata, desempregado. Encontra sustento como “encaixotador”, alguém que prepara o corpo dos defuntos para o caixão. A ocupação é vista com preconceito por ele mesmo e por quase todos ao redor, exceto seu mestre e companheiro de ofício, o espirituoso Sr. Sasaki  (Tsutomu Yamazaki). Com ele, Daigo descobre a importância e a beleza do ritual de preparação de alguém para conhecer o além. 

O filme tem ritmo lento, quebrado por algumas cenas divertidas e outras um pouco sentimentais demais. Aborda com delicadeza temas como nossa relação com tudo o que é vivo, vegetarianismo e transexualidade. O ciclo de vida e morte é delicadamente ilustrado pela trajetória do protagonista, que renasce através de seu contato com a morte. 

 

  1. Em 2010: O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2010)

[Reprodução]

Vinte e quatro anos depois da vitória com A História Oficial, a Argentina trouxe novamente para a América Latina a estatueta na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com o excelente O Segredo dos Seus Olhos. O longa conta a história de um funcionário da justiça penal, Benjamín Espósito (Ricardo Darín) que, ao se aposentar, resolve escrever sobre o caso mais chocante que acompanhou em sua carreira na Justiça. 

Com um assassinato misterioso resolvido rapidamente e um romance pra lá de dispensável entre o personagem de Darín e sua chefe, a tensão do filme parece esvair-se no meio do longa, levando o interesse do espectador. Mas segure-se na cadeira, porque o filme traz um fim arrebatador. 

É o tipo de longa que choca o espectador nos últimos minutos e deixa a audiência ansiosa para debater o filme entre si após os créditos finais. O que acontece quando a violência é relativizada com fins políticos? Como se lida com o luto? Quando a justiça não funciona, ainda existe certo ou errado? Essas e outras questões interessantes são sugeridas pela narrativa e tornam o filme imperdível para qualquer fã de cinema.

 

  1. Em 2012, Irã: A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2012)

[Reprodução]

A Separação é um mergulho tenso e delicioso na sociedade iraniana, para além de estereótipos e preconceitos. Somos levados para o seio de uma família de classe média no Irã. Sua casa, sua rotina, tudo é retratado com delicadeza e precisão.  O filme de Ashgar Farhadi, assim como o também seu O Apartamento e o libanês O Insulto, traz no centro do roteiro conflito ético entre duas partes obstinadas em defender suas posições. É, sobretudo, retrato do papel atribuído às mulheres no país. 

Quando o casal Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami) decide se separar, Razieh (Sareh Bayat) é contratada por Nader para cumprir as tarefas domésticas que sua esposa antes executava.  Um incidente e uma briga colocam Nader e Simin num grande conflito com Razieh e seu temperamental marido, Hodjat (Shahab Hosseini). O roteiro mostra as diferenças econômicas no país, o funcionamento da justiça iraniana e o impacto da religião na liberdade e cotidiano das mulheres. 

Um dos grandes destaques do longa é a atuação de Kimia Hosseini, no papel da adorável Somayeh, filha de Razieh que a acompanha nos serviços domésticos. Além disso, a edição e roteiro contribuem para uma narrativa não-linear bastante interessante, que faz do espectador o responsável por juntar as peças que compõem o conflito no cerne do drama. 

 

  1. Em 2017: O Apartamento (Forushande, 2016)

[Reprodução]

Cinco anos depois de A Separação, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro voltou a ser entregue para um filme não-europeu do diretor iraniano  Asghar Farhadi. Em O Apartamento, a fotografia novamente nos proporciona uma espiada na vida cotidiana da classe média iraniana, dessa vez com um recorte mais ousado. Conhecemos o casal de atores Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), cuja vida é balançada por um brutal ataque à Rana dentro do novo lar do casal. 

Discutindo prostituição, violência e fidelidade numa sociedade profundamente conservadora, o roteiro segue a receita de A Separação e desvela um conflito entre o casal e um terceiro personagem, em um dilema ético que pode deixar o público dividido. Ashgar Farhadi prova-se um mestre em humanizar “vilões” mostrando toda a multidimensionalidade de que o ser humano é capaz e garantindo boas reflexões e debates pós filme. 

 

  1. Em 2018: Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica, 2017)

[Reprodução]

Filme chileno com direção de Sebástian Lelio, Uma Mulher Fantástica tem Daniela Veiga no papel de Marina, uma garçonete transexual que lida com a morte súbita de seu companheiro Orlando (Francisco Reyes) numa sociedade profundamente conservadora. Além do luto, Marina tem que lidar com o preconceito e rejeição da também conservadora família de Orlando.

O roteiro é um retrato doloroso sobre as diversas violências a que a comunidade trans é submetida na América Latina e no mundo. Mas consegue fazer isso permitindo que Marina fale para além de suas cicatrizes. É apresentada como um personagem multidimensional, um ser humano complexo para além de sua identidade de gênero.  

Jogando com as percepções e cores, o filme tem sequências de fantasia quase mágicas que funcionam como metáforas para os dilemas e desafios da protagonista. 

Uma Mulher Fantástica também carrega o mérito de ter sido o primeiro filme estrelado por uma mulher transexual a vencer o prêmio, um reflexo da modernização da premiação e abertura a novas narrativas vindas de todo o mundo.

  1. Em 2019: Roma (2018)

[Reprodução]

O mexicano Roma marcou uma dobradinha de dois anos seguidos em que o prêmio da categoria foi entregue para a América Latina. Tem sido um dos filmes mais falados de 2019 por sua qualidade e por incitar debates a respeito da força dos serviços de streaming na democratização do cinema — foi o primeiro filme da Netflix indicado nas categorias mais importantes do Oscar. 

O longa-metragem conta a história de Cleo, jovem mulher de raízes indígenas, empregada doméstica de uma família de classe média no México dos anos 70.  Mas Roma é sobretudo um tributo delicado à beleza do cotidiano no país, em meio às violências e desigualdades que lhe são características. Cuáron presta homenagem, ali, a seu país, à sétima arte e a Libo, a empregada doméstica de sua família que inspirou a criação da protagonista Cleo. Roma foi considerado pelos críticos seu melhor filme e lhe rendeu também o Oscar de Melhor Diretor em 2019.

Para o espectador cansado das produções de ação ou comédia romântica norte-americanas e europeias que dominam a indústria cinematográfica, os nove filmes listados proporcionam um sopro de ar fresco em termos de roteiro e personagens. Além de explorarem paisagens e costumes em geral inéditos para o grande público, abordam questões universais e sociais delicadas com originalidade e maestria. Tiram o fôlego, chocam, fazem refletir, chorar e rir. É improvável que se passe ileso à experiência de assistir qualquer um deles. Assistir a esses filmes é um exercício naquilo que o cinema faz melhor: nos transportar para realidades singulares enquanto nos conecta com o que há de mais profundamente humano em todos nós. 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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