Por Gustavo Santos (gustalima1306@usp.br) e Bernardo Medeiros (bernardo10medeiros@usp.br)
As atividades das 9ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos foram iniciadas na última terça-feira, dia 19. O evento ocorreu no prédio central da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), entre os dias 19 e 22 de agosto. De doutorandos a alunos secundaristas, a participação foi plural e as Jornadas contaram com diversas mesas, em que foram apresentadas pesquisas sobre o mundo dos quadrinhos. Na abertura, Benoît Peeters, famoso quadrinista e pesquisador francês, esteve presente durante todo o evento e palestrou no final do dia.
As Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos acontecem desde 2011. A ideia surgiu a partir do núcleo de pesquisa Observatório de Histórias em Quadrinho, fundado em 1990 na USP. Waldomiro Vergueiro, um dos fundadores e atual coordenador do núcleo, destacou ao Sala33 como o evento cresceu junto ao cenário de aceitação dos quadrinhos no mundo acadêmico: “As jornadas têm um impacto muito grande nas pesquisas. Os quadrinhos são muito mais aceitos hoje em dia nas universidades.” Ele ainda reforça a maior presença no cenário acadêmico contemporâneo: “Hoje, olhando no Diretório da CNPq — Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico —, acho que são 12 ou 13 grupos de pesquisa de histórias em quadrinhos nas universidades brasileiras.”
As mesas da terça-feira
O evento é dividido em quatro eixos temáticos: artes e mídias, educação e inclusão, história e sociedade, linguagem e narrativa. Cada mesa possui aproximadamente quatro apresentações de diferentes pesquisas dentro do tema. Ao final, é conduzida uma sessão de debates e perguntas entre os pesquisadores e os convidados.
Das 14h às 15h30, foram realizadas quatro mesas simultaneamente, uma para cada eixo temático. No debate conduzido por Bernard Martoni — pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora —, foi discutido o papel das vanguardas na integração entre arte e quadrinhos. O próprio mediador apresentou uma pesquisa sobre as semelhanças entre os quadrinhos Jimmy Hopper e os quadros de Edward Hopper. A mesa destacou o diálogo crescente entre arte e quadrinhos, como pontua Vergueiro: “ Essa aproximação tem sido cada vez mais intensa, tendo em vista a ligação dos quadrinhos com outras áreas. Tanto com as tradicionais, como o cinema e a televisão, mas também com as novas, como a escultura, a arte e o design.”
No debate conduzido por Alex Caldas Simões, professor no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), a conversa apresentou caráter técnico sobre a digitalização dos quadrinhos e o surgimento de novos gêneros. O trabalho do professor defende a definição das tiras de homenagem como um novo objeto de estudo: “As tiras de homenagem estão presentes em momentos simbólicos, fazem referências a artistas relevantes”, afirma. Outros pesquisadores também apresentaram seus trabalhos e contribuíram para o debate.
Felipe Gustavo Guimarães, doutorando em Ciências da Comunicação pela USP, estuda o fenômeno dos “quadrinhos quadrados” no Instagram, onde analisa 5 diferentes artistas que conseguiram trazer para o físico histórias produzidas para a rede social. As Webtoons, gênero de quadrinho digital emergente na Coreia do Sul, também foram tema de debate. O trabalho de Maria Luíza Tápias, graduanda de letras na Unicamp, defende as Webtoons como gênero multissemiótico ao universo digital, com quadrinhos verticalizados, formato “infinito” e o uso de sons, brilho e vibração para persuadir o leitor.
Fernanda Martins, mestre pelo programa Letras Estrangeiras e Tradução (PPG-LETRA) da USP, também estuda esse fenômeno ao analisar o novo gênero como objeto de estudo para narrativas transmídia no caso de 7Fates: CHAKHO. “Vou olhar para o webtoon com mais carinho agora, porque aprendi muita coisa hoje”, finalizou Alex, ao encerramento do debate.
[Imagem: Acervo pessoal/Gustavo Santos]
Das 16h às 17h30, o destaque foi a mesa conduzida por Vergueiro, onde foi discutido o papel social dos quadrinhos para a formação identitária racial. Edmar Neves, graduado em letras pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), analisou a construção de três diferentes imaginários construídos sobre Zumbi dos Palmares nos livros Zumbi dos Palmares (La Selva, 1955) e Angola Janga (Veneta, 2017). Em seu trabalho, Neves constrói uma linha temporal dos imaginários entre Zumbi e Palmares como “fenômeno de instabilidade”, um “empecilho para a civilização branca” e, por fim, “símbolo de resistência negra e das classes oprimidas”.
O desenho de personagens como afirmação de estereótipos também foi tema da conversa. Renato Ponzetto, graduado em história, apresentou diversas imagens dos personagens de Cumbe (Veneta, 2014), livro de Marcelo d’salete, com marcas corporais que traziam complexidade para a trama. “O mais interessante da obra do salete é que essas marcas não são só detalhes, são construção psicológica”, diz.
Já Lucas Mello, doutorando em história social pela USP, expõs como a personagem Lamparina, da revista infantil O Tico-Tico (O Malho, 1905-1962), contribuiu para a formação do olhar racista do período: “Ela é feita de forma cômica, baseada no estereótipo do selvagem negro”. Edmilson Forte — doutorando em Estudos Culturais da Universidade de Aveiro — finalizou o debate ao apresentar o conceito de africanofuturismo em Djeliya (Skript Editora, 2021): “Falamos muito sobre África mas uma África do nosso ponto de vista, é preciso uma visão deles. É disso que se trata o africanofuturismo”.
As Aventuras da Página
Este ano, o evento trouxe mais pesquisadores internacionais. Benoît Peeters, por exemplo, acadêmico e quadrinista francês formado em filosofia na Universidade de Paris I, realizou a conferência de abertura das 9ªs Jornadas, nesta terça (19). A palestra “As Aventuras da Página”, feita no auditório Lupe Cotrim, passou por todo o desenvolvimento das histórias em quadrinhos, desde o século XIX. Benoît ainda comentou sobre a sua experiência no mundo dos quadrinhos, como criador das séries “Les Cités Obscures” (As Cidades Obscuras), que está em andamento desde 1983, e de “Love Hotel” (Casterman, 1983), além de muitas outras.
Peeters é mestre pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, em Paris, e lecionou para a Universidade de Lancaster e Collège de France. Além de quadrinista e pesquisador, Peeters é autor de diversos livros sobre o meio dos quadrinhos, como Le monde d’Hergé (Casterman, 1983), biografia do famoso quadrinista francês Hergé — conhecido pela série As Aventuras de Tintim. Ele também é roteirista para o cinema, com um portfólio de três curtas-metragens, um longa e inúmeros documentários.
*Foto de capa: Acervo pessoal/Gustavo Santos
