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Futebol no Uruguai: a materialização da garra e da mística da América Latina

A história cheia de milagres do futebol uruguaio incorpora o espírito latino-americano de resistência e se prova, há muitos anos, uma força no esporte
Por Nina Nassar (niiina@usp.br

Desde que o futebol chegou às terras charruas, há uma identificação intrínseca entre a população uruguaia e o futebol. A Celeste carrega quatro estrelas em seu manto: duas pelas primeiras olimpíadas da História, de 1924 e 1928, e duas Copas do Mundo, de 1930 e 1950. Na Libertadores da América, os clubes uruguaios possuem, somados, oito títulos. “Há uma simbiose entre o país e seu futebol”, afirmou Mario Romano, diretor do Estádio Centenário de Montevidéu em entrevista ao El País. O Uruguai, então, construiu o imaginário épico de seu povo a partir do que viria a ser seu futebol, que ilustrou, dentro de campo, momentos históricos do país.

A “Garra Charrua” é a expressão que simboliza o espírito de resistência e luta do futebol uruguaio, identidade mística que paira sobre vitórias fantásticas de lances curtos e cheios de raça, com a bola grudada no pé, na mais alta velocidade. Os Charruas eram um povo originário do país: quando negaram submissão à colonização espanhola e portuguesa, lutaram até morrerem todos. O futebol reflete essa postura diante da Europa, do Brasil, da Argentina e do resto do mundo: o Uruguai pode até perder, mas não se rende.

O nascer do Sol na América Latina

A Celeste, como é conhecida a seleção uruguaia, tem sua cadeira cativa na história do futebol como a autora dos maiores milagres em campo do século 20. Em 1924, o Uruguai se afirmava no cenário internacional com a primeira estrela de uma camisa cheia de glórias: o título das Olimpíadas de Paris, anos antes da primeira edição da Copa do Mundo. Naquele momento, o Uruguai era a personificação da América Latina; era a primeira vez que uma seleção do continente sequer jogaria na Europa. 

O autor uruguaio Eduardo Galeano, em Futebol ao Sol e à Sombra (L&PM Editores, 1995), conta que a Iugoslávia, a primeira adversária da Celeste, mandou espiões aos locais de treino para observar o nível dos jogadores que enfrentariam. Como quem sabia que a Europa não faria nada além de lhes tirar o que tinham de surpreendente, durante os treinos, os atletas uruguaios chutavam a bola para qualquer lado, isolavam nas arquibancadas, rolavam no chão, com a intenção de proteger suas táticas e jogadas dos adversários à espreita. 

Assim, o time sul-americano ganhou de 7 a 0  a partida contra a Iugoslávia, assim como todas as nove seguintes do torneio. Após a vitória, liderados pelo capitão José Nasazzi, os Charruas corriam em volta do campo para saudar a torcida maravilhada por suas habilidades e, assim, criaram a primeira “volta olímpica”. Em 1928, nas Olimpíadas seguintes, na Holanda, venciam de novo. Essa seleção, formada por homens humildes (em sua maioria pedreiros, açougueiros e vendedores), unida com uma população de 1,5 milhão de pessoas, construiu o imaginário épico do país por meio do futebol.

José Leandro Andrade, jogador uruguaio, atrás do balcão, servindo bebida para seus colegas em Amsterdam, durante os Jogos Olímpicos [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Ainda em Futebol ao Sol e à Sombra, Galeano descreve este título como a prova de existência da nação: ‘o Uruguai não era um erro: o futebol havia arrancado aquele minúsculo país das sombras do anonimato universal’. Os jogadores uruguaios – majoritariamente atletas não remunerados – eram tão desconhecidos pelo cenário do futebol até então que, quando chegaram para a decisão de 1928, assistiram sua bandeira ser içada de cabeça para baixo e ouviram uma música brasileira no lugar de seu hino. Até esse dia, o Sol uruguaio brilhava do avesso. Galeano se refere a tal momento como “A segunda descoberta da América”, na qual o Uruguai, vestindo seu uniforme como uma farda da América Latina, ensinou seus colonizadores como jogar o esporte que eles mesmos diziam ter inventado.

Em 1930, apenas três anos antes de um longo governo totalitário ser instalado no Uruguai, o país existia para o futebol. Como tinha ganhado as duas edições das Olimpíadas, o Uruguai foi escolhido para sediar a primeira Copa do Mundo. No evento, apenas quatro seleções europeias compareceram à América Latina, sob o cenário do grande Estádio Centenário. De acordo com Fábio Piperno, jornalista da Jovem Pan, em entrevista ao Arquibancada, “houve um boicote muito forte da maior parte dos países da Europa: o Uruguai era longe, e muitos desses países ainda estavam muito endividados por conta da Primeira Guerra Mundial, então não queriam vir aqui para a América do Sul. Também havia aquela visão eurocêntrica do mundo de que tudo tinha que acontecer na Europa”.

Na final, os dois países do Rio da Prata, Uruguai e Argentina, lutaram pelo título que, em uma virada suada, foi conquistado pelo Uruguai, acarretando uma das maiores rivalidades entre nações no futebol. Segundo Piperno, não há exagero em dizer que naquela época, os dois talvez fossem as duas maiores potências do futebol mundial. O jornalista explica que a rivalidade começou muito antes, durante a primeira Copa América, em 1916, sediada na Argentina com a participação do Brasil, Uruguai e Chile. A Argentina se preparava para uma grande festa, para comemorar seu centenário de independência. No entanto, foi vencida pelo time excepcional do Uruguai.

A seleção uruguaia vencedora de 1930 foi a primeira no mundo a ter jogadores negros como titulares – infelizmente, não faltaram episódios deprimentes de racismo contra eles, por parte dos argentinos [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Piperno conta que o Uruguai, de certa forma, usou aquela Copa América também para melhorar as comunicações do próprio país. Os jogos eram narrados a partir de informações por telégrafo: “Na praça principal de Montevidéu, funcionava a estação da época. Então os caras recebiam aqueles informes para falar ‘Olha, fizemos um gol!’, ou, ‘Olhe, eles fizeram um gol’. A multidão ficava na rua, ouvindo”. Após esses três títulos mundiais consecutivos (1924, 1928 e a Copa do Mundo de 1930), o Uruguai retornava a Montevidéu com a capital transformada: não era mais um resto da fortaleza militar construída por espanhóis; agora, se tornava uma capital do futebol mundial.

Penãrol e Nacional: a essência de oito Libertadores

Somente em Montevidéu, cidade que engloba quase metade da população total do país, estão 13 dos 16 times que constituem a primeira divisão do campeonato uruguaio. A tradição futebolística no Uruguai tem raízes profundas: o Peñarol, de 1891 – muito mais antigo que os clubes brasileiros, por exemplo –, foi fundado por funcionários da empresa ferroviária do município.  A equipe se chamava Central Uruguay Railway Cricket Club, em alusão às raízes do clube nas ferrovias do Uruguai. 

Já o Nacional tem uma origem mais aristocrática, formado por descendentes de ingleses e escoceses, o que incentivou os atritos entre os dois clubes. Segundo Fábio Piperno, quando aconteceu o Sul-Americano de 1936, a seleção uruguaia já tinha muitos jogadores de Nacional e de Peñarol. No começo do século passado, o futebol já era muito mais difundido no Uruguai e na Argentina do que no Brasil – o Uruguai já possuía inclusive uma revista esportiva, a Sportsman (1908).

Equipe vencedora da Copa Aldao, competição entre argentina e Uruguai

Copa Aldao de 1916, vencida pelo Nacional, contra o Racing. Abdón Porte, em pé, é o primeiro da esquerda na imagem [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O estádio do Nacional, inaugurado em 1899, era o principal do país antes da inauguração do Centenário. A Copa do Mundo, na verdade, começa pelo Gran Parque Central: o Centenário, construído em tempo recorde, teve a inauguração atrasada devido à estação de chuvas, e a Copa teve de ser iniciada antes, no estádio do Nacional, que é, inclusive, onde o Brasil estreia em uma Copa do Mundo.

A aura mística que paira sobre este estádio apareceu pela primeira vez em 1918, quando Abdón Porte, ídolo do Nacional por mais de 200 partidas, começou a ser vencido pelo tempo. Já no banco de reservas, sem conseguir mais jogar como fazia antes, caminhou até o centro do Gran Parque Central, lugar que amara tanto e onde fora tão amado, e deu um tiro no próprio coração, à meia noite, no escuro. Ao lado do corpo do chamado “El Indio” foi deixada uma carta com uma declaração de amor ao time. Sua paixão fatal pelo futebol ainda vive na história do Nacional e na torcida uruguaia: um setor de arquibancadas leva seu nome e uma faixa escrita “Por la sangre de Abdón”, para relembrar os jogadores atuais do peso do escudo que representam. O clube, inclusive, lançou uma camisa vermelha, com a “cor do sangue de Abdón”, para homenagear o mártir.

Pelé e Alberto Spencer juntos antes de disputarem a final da Libertadores de 1962, que o Santos venceu em cima do Penãrol [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A década de 60 foram os grandes anos do Penãrol: conquistaram a América três vezes, e o mundo, duas. Uma das conquistas mais impressionantes da Libertadores foi em 1966, o terceiro título do Peñarol. Na final contra o River Plate, da Argentina, no primeiro tempo o River faz 2 a 0. No segundo tempo, o Peñarol arranca o empate, com um grande jogo de Pedro Rocha e do equatoriano Spencer, dupla dos maiores craques da história uruguaia, levando o jogo para a prorrogação. Peñarol ganha de 4 a 2. Piperno conta que a final de 1966 causou um trauma para o River, que passa a ter o apelido de “Las Gallinas”: cisca, cisca, cisca e perde depois. Se encontraram duas vezes com o Real Madrid no Mundial de Clubes e venceram, sem muito esforço, as duas partidas por 2 a 0.

Galeano, em “O futebol ao Sol e à sombra”, diz que quando entravam em campo, seus jogadores diziam aos adversários “trouxeram outra bola para jogar? Porque essa aí é nossa, e de mais ninguém” [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]    

Pedro Rocha, revelado pelo Ferrol, é lembrado no Uruguai de forma mágica, eterna. Foi para muitos o maior jogador estrangeiro que já atuou no futebol brasileiro; era a prova de que além de jogadores com muita raça e determinação, o Uruguai produzia também atletas com uma técnica espetacular. 

Mais tarde, esse Peñarol começa a ser desmontado; os clubes uruguaios já passavam a ter dificuldade para manter os seus grandes jogadores. Fábio Piperno explica essa decadência com o fato de que, cada vez mais, o Uruguai se torna um grande exportador, o que dificulta a formação de grandes times locais verdadeiramente competitivos. O título da Libertadores de 1988, o último do Nacional, foi também o último do futebol uruguaio.

Jogadores do Nacional, time do Uruguai

Equipe do Nacional em 1988. Enfrentaram o Newell’s Old Boys da Argentina na final, vencendo com saldo de dois gols [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A maldição do Maracanazo: o fantasma da resistência uruguaia

Na Copa de 1950, enquanto o Brasil deu duas goleadas, com todo o apoio de sua torcida em casa, o Uruguai chegou à final com uma vitória suada e um empate, como descreve Fábio Piperno. A Amarelinha foi declarada pelo povo como “campeã antecipada”; o país já comemorava. Em Futebol ao Sol e à Sombra, Galeano conta que, uma noite antes, a Seleção recebeu relógios de ouro com “aos campeões do mundo” gravado no verso.

 A população brasileira viu a brilhante seleção de Ademir de Menezes e Zizinho entrar em campo no Maracanã com toda a sua propaganda midiática e a viu sair derrotada. Com o primeiro gol de Friaça, a imprensa brasileira sentia que sua profecia de vitória já estava cumprida. O Uruguai, então, empata com um gol de Esquiófino no segundo tempo e vira o jogo, após um chute cruzado certeiro de Alcides Ghiggia. O mérito do atacante neste gol incrível foi desconsiderado pelo Brasil, que atribuiu a derrota ao goleiro Moacir Barbosa como uma sentença perpétua – ele nunca conseguiu desvincular sua carreira da culpa colocada em suas costas. O que na memória brasileira foi uma decepção histórica, para a torcida uruguaia foi uma virada fantástica, inesperada, heróica.

O Brasil, naquele momento, era o “país do futuro”, em um contexto de esperança vinda do fim da guerra e retomada da democracia. José Miguel Wisnik, em seu livro “Veneno Remédio”, analisa essa derrota como uma tragédia da inocência, que expôs a dependência da autoestima brasileira no sucesso esportivo e o lado messiânico do futebol, como um “oráculo” para o país. 

Graças ao Uruguai, o Brasil descobria que o outro existe, que o futebol não pertencia a si. Jules Rimet, então presidente da Fifa, entregou a taça homônima discretamente para a Celeste, desconcertado, escondendo no bolso o discurso ao campeão, que já havia preparado para o Brasil.

Alcides Ghiggia, o craque que assinou a vitória, com a taça Jules Rimet [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

32 anos depois, a história se repetia, agora sobre o gramado do Estádio Centenário. Assim como foi o palco do espetáculo uruguaio na Copa de 1930, foi também o cenário de uma das maiores performances – tanto em campo, quanto nas arquibancadas – do futebol mundial: A Copa de Ouro dos Campeões Mundiais, em 1981, o Mundialito

Foram reunidas cinco seleções campeãs mundiais: Uruguai, Brasil, Argentina, Alemanha Ocidental e Itália. A Inglaterra, convidada, se recusou a participar, e foi substituída pela Holanda, vice-campeã em 1974 e 1978. Em entrevista ao Arquibancada, o jornalista da Rádio Jovem Pan Wanderley Nogueira relata que o Uruguai, treinado por Roque Máspoli, brilhou em casa. Na fase de grupos, venceu Holanda e Itália, (ambas por 2 a 0), garantindo vaga na final contra o Brasil. A seleção brasileira, comandada por Telê Santana e com craques como Sócrates, Toninho Cerezo e Júnior, era favorita, mas carregava o peso do traumático Maracanazo de 1950.

Nogueira afirma que o cenário de ditadura no Uruguai era sombrio. Entre 1968 e 1985, cerca de 200 pessoas desapareceram em ações do Estado uruguaio, muitas presas na Argentina devido à colaboração entre os regimes autoritários sul-americanos. “Semanas antes do torneio, um plebiscito revelou a força da resistência popular: 57% dos uruguaios rejeitaram uma proposta constitucional que buscava legitimar o regime militar. A ditadura, irritada com o resultado, viu no Mundialito uma oportunidade de propaganda, articulada com o apoio da FIFA”. O futebol uruguaio, de acordo com Piperno, vinha se recuperando de alguns traumas: o país não tinha se classificado para a Copa de 1978. “Aquilo doeu muito, porque a Copa foi na Argentina, o Uruguai iria jogar praticamente em casa. Então, o Uruguai realiza aquele campeonato com toda a festa, apoio da ditadura, a fatura em cima e tudo mais.”

Ingresso para a final entre Brasil e Uruguai

Ingressos para a final. No Brasil, só se falava em exorcizar o fantasma do Maracanazo, com uma grande expectativa na equipe em ascensão [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Entrava em campo uma seleção uruguaia espetacular, com craques como o fantástico goleiro-capitão Rodolfo “La Pantera” Rodriguez, o lateral-direito Víctor Diogo e o centroavante Francisco Morena. O placar, idêntico ao de 1950, reacendeu a mística da “Celeste Olímpica”. Diante de 71.250 torcedores, o Estádio Centenário explodiu em festa, com cânticos de “Se va a acabar, la dictadura militar” ecoando como um hino de resistência, que cobriu o campeonato, conta Wanderley. O jogadores pularam no fosso ao redor do estádio, enchido pela água da chuva, e nadaram junto aos torcedores, em comemoração.

O objetivo do Estado uruguaio foi virado do avesso; aquele foi o início do fim do regime militar. Hoje, pouco se fala do Mundialito, especialmente em termos oficiais: a escassez de registros sobre o evento corrobora a teoria defendida por especialistas de que a FIFA mantém sua história silenciada, nas sombras, para evitar que a memória deste episódio de expressão política da “garra charrua” ressurja. 

Na ocasião, a torcida utilizou o estádio como um espaço livre do medo, aproveitou-se da impunidade do anonimato proporcionado pelas multidões e, como uma só, a população uruguaia comemorou o título como o fim do silêncio coletivo ao desabafar toda a sua força contra a violência. A vitória foi carregada de uma aura de esperança. Os heróis uruguaios demoraram a perceber o que a conquista significava – festejavam meio perdidos, incrédulos. Enquanto preparava seu corpo para levantar a taça, o olhar do capitão Rodolfo Rodriguez transparecia a surpresa e emoção com o placar que recaía sobre o Centenário como uma herança ancestral. 

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