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‘A Multidão’: uma juventude comum a diversas nações | 49ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Filme iraniano integra categoria ‘Competição Novos Diretores’, em que concorre ao Troféu Bandeira Paulista
Por Leticia Yamakami (leticiayamakami@usp.br)

O iraniano A Multidão (جماعت, 2025) estreia nas telonas brasileiras durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre oficialmente entre os dias 16 e 30 de outubro. O filme passou pelo Festival Internacional de Cinema de Roterdão e pelo Festival Internacional de Cinema de Seattle, em que venceu o Grande Prêmio do Júri na categoria Competição Novos Diretores. É na mesma modalidade que a obra concorre ao Troféu Bandeira Paulista no festival paulistano.

Quarta produção do cineasta Sahand Kabiri, sendo o primeiro longa-metragem, A Multidão é feito por jovens adultos para jovens adultos. Quando Raman (Faraz Modiri), namorado de Hamed (Keyvan Mohammadi), personagem principal que vem de uma família religiosa e abastada financeiramente, consegue seu visto para emigrar de país, seu maior descontentamento se torna não conseguir passar uma última noite com seu grupo de amizades devido à falta de um espaço adequado para se reunirem.

Motivado a festejar como forma de despedida ao parceiro, Hamed se junta a seis outros amigos a fim de tomarem a garagem deixada pelo seu pai falecido e a arrumarem para uma rave surpresa organizada por eles mesmos. Durante o dia, todavia, os personagens sofrem interrupções que envolvem conflitos familiares, traumas advindos da violência estatal e a lembrança da morte recente de um amigo próximo.

Com gravações que duraram 12 dias, o drama consegue capturar aspectos canônicos do início da vida adulta, sobretudo de adultos queer, em apenas 70 minutos. Em momentos como a reivindicação o uso de uma propriedade inutilizada, o combate contra o conservadorismo da família ou a consagração do ato de festejar como forma simbólica de união e carinho, o longa conceitua o mais intrínseco da juventude, que é comum a todos os cantos do globo: a ambição e a luta por liberdade.

O filme retrata jovens adultos da comunidade LGBT+ com naturalidade, por meio de cenas e interações verossímeis [Imagem: Reprodução/Instagram/@cheriescherisparis]

A narrativa ganha mais força por ser filmada em um país que criminaliza a homossexualidade, o que inclui flagelação pública e até pena de morte como punição. Assim, os personagens são uma alegoria à subversão somente por existirem. Kabiri os retrata de maneira crua, e, ao mesmo tempo, otimista. No entanto, os acontecimentos se desenrolam de forma crível, afinal, a maior preocupação do jovem médio é como passará sua noite de sexta-feira e qualquer impedimento os faz partir naturalmente para a rebeldia.

Em contraste com a sua curta duração, o filme consegue colocar em pauta ideias e sentimentos diversos, sempre em bom ritmo. Um exemplo é o saudosismo de uma geração que, apesar de nova, logo entrará na casa dos 30 anos e acumulará cada vez mais responsabilidades pessoais. Essa ideia é representada por meio de uma sequência longa, em que um dos meninos narra as  aventuras passadas pelo grupo na Copa do Mundo de 2014, específico e coincidentemente durante o jogo do Brasil contra a Alemanha.

O que torna a obra ainda mais especial é que o objetivo final do grupo de amigos, a rave, nunca é o foco da imagem. O espectador acompanha somente os preparativos para a celebração, desde a manhã invadindo o espaço abandonado até a chegada dos primeiros convidados. Nesse meio tempo, é provado que a alma do filme — e, consequentemente, da juventude —, está nos percalços durante a construção do clímax que se quer atingir.

O caminho é tão envolvente que frustra o público ao final. Quando a música eletrônica preenche a cena, que logo em seguida se torna preta para dar espaço aos créditos, o que consome é a vontade de assistir o desenrolar da festa.

Essa parte, entretanto, pode render um novo longa-metragem, porque A Multidão não precisa de mais tempo de tela para provar seu ponto. O diretor integra com ferocidade e frescor a “nova nova onda” de produções iranianas — como Foi Apenas Um Acidente (یک تصادف ساده, 2025), vencedor da Palma de Ouro, prêmio mais importante do Festival de Cannes — que desafiam a repressão estatal e o ortodoxismo religioso.

‘Nós temos que nos expandir’ ‘Para que?’ ‘Nos expandir para festejar’ é um dos diálogos que sumariza o espírito do longa [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O filme é, acima de tudo, identificável. Assistí-lo sendo um jovem adulto é quase como ver a si mesmo em cena, sobretudo para aqueles que não medem esforços para viver a sua própria vida pelos seus próprios termos — com uma ajudinha dos amigos.

Esse filme faz parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.

*Imagem de Capa: Reprodução/The Movie Database

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