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‘Nouvelle Vague’: a brincadeira-fetiche de Richard Linklater | 49ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Longa do cineasta americano retrata bastidores da base do cinema moderno com graciosidade e humor
Por João Lucas Casanova (joaolcasanova@usp.br)

“Sabe quais foram minhas primeiras palavras? New York Herald Tribune! New York Herald Tribune!”, diz a personagem de Eva Green em Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), filme de Bernardo Bertolucci sobre a geração de cinéfilos erupcionada sob os ventos transformadores da Nova Onda francesa, nos anos 60.

É a esses “cinefilhos”, os primeiros da história a se constituírem como tal, que o cineasta americano Richard Linklater acode em seu Nouvelle Vague (2025), exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre de 16 a 30 de outubro.

O filme trata do processo de criação de Acossado (À bout de souffle, 1960), longa de estreia do então crítico de cinema, Jean-Luc Godard, que estruturou a base com que se pensa o Cinema Novo francês: modernismo, paixão, ruptura e encontro, tudo ao mesmo tempo, em conflito ou conciliação.

Ninguém é alheio à Godard. Poucas experiências soam mais frescas enquanto linguagem, mesmo com a vastidão que o antecede e o sucede — tudo que Godard roubou ou deu forma. Acossado é a potencialidade inexplorada do cinema, a criação do que antes permeava somente as arestas. Romântico, jocoso e deslumbrante até o último grão da película.

A tarefa de Linklater era, por sua vez, filmar o infilmável. Melhor dizendo: capturar o que só Godard capturou. A sorte é que o cineasta americano possui consciência de sobra. Ele sabe que nenhum relance sobre Acossado diz mais do que a obra em si. Não há nada que já não estivesse contido ali, no rosto de anjo caído de Jean Seberg, no dedo sobrepondo os lábios — como Humphrey Bogart  — de Jean-Paul Belmondo, nos faux raccords (sobressaltos na montagem que rompem com a continuidade esperada), no ritmo de um controle libertário, nos planos orgânicos, etc. Tudo explicitado, em forma e ideia, na obtusidade da arte que, com Acossado, renasce.

A impossibilidade de acrescentar, no entanto, não restringe a graça, nem a legitimidade, de meramente delinear. E por tudo que a Nova Onda francesa carrega em si, enquanto parte autoconsciente da história, é natural que seus feitos e mitos sejam transpostos também em imagem e som. Afinal, como escreveu Alfredo Manevy no capítulo sobre a corrente que Godard ajudou a criar, parte do livro História do Cinema Mundial (Papirus Editora, 2015): “A Nouvelle Vague foi o primeiro movimento cinematográfico produzido com base em um interesse pela memória do cinema”.

Essa ligação com um pensamento cinematográfico constituído, surgido antes mesmo da criação artística, ainda enquanto jovens críticos, sustentaria a produção de todos os egressos da Cahiers du Cinéma — Godard, Truffaut, Chabrol, Rohmer e companhia. Assim como esses autores — no sentido mais definitivo da palavra — observavam Alfred Hitchcock, Howard Hawks e Roberto Rossellini como figuras já pertencentes a um panteão da arte, nós repetimos suas inovadoras constatações, acrescidas aos nomes que ali os colocaram.

Cena clássica de Acossado, aqui sob a encenação de Linklater [Imagem: Reprodução/TMDb]

É por isso que a ideia de um filme como Nouvelle Vague soa tão clara e desnuda de cinismo, ainda mais advinda de um autor como Linklater. A Paris efusiva dos anos 60, seus símbolos, personagens e manias, estão tão integradas ao cânone cinematográfico, passível de exaltação e sátira, quanto a Hollywood clássica ou o período mudo. Isso implica toda uma sucessão de erros e acertos, formulações, simplificações e charmes temporalmente localizados, que o retorno ao passado parece sempre causar.

Bertolucci o fez em Os Sonhadores, numa jovialidade autêntica, sensual, fetichista por natureza, cuja aproximação à Nova Onda soa tão tortuosa quanto inegável. É também com fetichismo que Linklater o realiza em Nouvelle Vague, mas há diferenças. Aqui o tom é o de uma brincadeira, como crianças manipulando seus bonecos favoritos, revisitando as histórias dos desenhos animados, trocando falas ou as dizendo pelo que resguarda suas frágeis memórias, pontuando caracteres por facilidade ou por ser assim mais divertido. 

E não poderia ser diferente, a menos que toda leveza fosse transformada em uma reprodução estéril, propositadamente elevada, de um tempo complexo e significativo. O filme de Linklater opta por desvirtuar o peso do cânone para assim inferir sua importância. Seus personagens são caricaturais e disso emerge sua humanidade. 

Obviamente, toda tentativa de densificar o pensamento daquelas figuras soa insuficiente, apenas beirando a ilustração. O retrato mais cristalino do “cinema de autor” mostra-se no modo afeiçoado que Linklater filma o jovem Godard a criar, a pensar sua relação com a composição imagética, e não nos diálogos expositivos. No fundo, o americano sabe que nada explicita isso mais do que o próprio Acossado, e tantos dos outros filmes do movimento.

É, no fim, um deleite caminhar pelos contratempos e excessos de artistas conhecidos, menos capturando-os e mais aproveitando a mera oportunidade de contato, lúdica por excelência. Há quem veja nisso uma referenciação desnecessária, improdutiva. Me incluo dentre os que atribuem olhos menos condenadores e simplesmente se deixam levar. Nesse sentido, o humor inteligente, comedido, afetado sem nunca cair no pastiche, ajuda.

Em Nouvelle Vague, a cinefilia torna-se um personagem, que vagueia sobre os quadros encantados pelo fazer cinematográfico, sua mecânica aparente e história, em um movimento semelhante, em espírito, ao que se dava em Godard. O autorismo de Linklater, no entanto, opera em uma ótica diferente. Seu apreço pela linguagem do cinema não parte do impacto abrasivo de ideias, como no francês, e sim da afetividade propiciada pelo que é compartilhado entre espectador e obra — menos enquanto teste de limites e mais como aprofundamento das dinâmicas capturadas pela câmera.

O jovem Godard, sempre a fumar, com fotos de várias atrizes americanas ao fundo; o cinema dos EUA, principalmente da Era de Ouro, foi aclamado pelos críticos da Cahiers [Imagem: Reprodução/TMDb]

Godard provavelmente odiaria o filme de Linklater. Ao menos o Godard que escreveu “ninguém irá chamá-lo de mentiroso, portanto faço-o eu” a François Truffaut, depois de assistir A Noite Americana (La nuit américaine, 1973), filme do — a partir dali — ex-amigo sobre as desventuras no processo de gravação de um longa. A verdade inferida pelo diretor de Acossado talvez não seja vista em Nouvelle Vague. Há, em seu lugar, um outro tipo: a que lida com a mentira, a fabulação, como meio de chegar a algum tipo de verdade. A que lida com a cinefilia como ser constituinte da história do próprio cinema. Isso Linklater alcança, e com naturalidade.

Antes de ser sobre os bastidores de um dos grandes filmes modernos, Nouvelle Vague é sobre as pessoas, as que o fizeram e as que estão do outro lado da tela, sempre a observar. Pessoas cujas vidas se baseiam nas horas a fio dentro do escuro de uma sala de cinema. Não só as que apenas assistem, mas também pensam a arte cinematográfica. É significativo o encerramento típico de biografias, com letreiros mostrando o futuro de cada personagem. Linklater filmando o do outro sem deixar de ser o seu. Autores se encontrando à medida que se distanciam. E a graciosidade que reside nisso tudo.

Esse filme faz parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.

Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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