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‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’: fantasmas só assombram os vivos

Novo longa de Chloé Zhao testa os limites do sofrimento em drama sobre os martírios do luto
Por João Lucas Casanova (joaolcasanova@usp.br)

A tônica do novo longa de Chloé Zhao é dada pelos fantasmas que o assombram. Baseado no livro Hamnet (Intrínseca, 2021), de Maggie O’Farrell, co-roteirista do filme junto à diretora, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) trata da suposta influência da morte do filho de William Shakespeare sobre uma de suas obras-primas: Hamlet (1623). 

É, no sentido mais amplo da palavra, uma tragédia. Do encontro inicial de Shakespeare (Paul Mescal) com sua futura esposa, Agnes (Jessie Buckley), até a primeira apresentação da peça, que encerra o filme, um clima mórbido paira a narrativa, sem nunca arredar o pé. A escolha pela manutenção tônica do longa, ditada pela sucessão de acontecimentos melodramáticos, mas não apenas, não deixa de surpreender pela coragem. Afinal, mesmo as mais tristes histórias tendem a se permitir um tempo de respiro.

Aqui a força advém da percepção contrária. Relatado principalmente pela perspectiva de Agnes, Hamnet tem raros momentos de felicidade. Quando existentes, parecem sempre assolados por uma sensação de dissolução à espreita. Ainda assim, o já conhecido cinema distanciado de Zhao, marcado por uma resolução formal mais rígida que afeita a sentimentalismos, dá aos infortúnios contornos mais significativos do que sua mera significação literal. 

De certa forma, é possível dizer que essa característica da diretora impede que o melodrama se materialize em seu estado natural. A intensificação dos sentimentos de dor e luto atendem antes à ordem do assombro. Essencialmente, é um filme marcado mais por uma angústia quase fantasmagórica, que assola os personagens, do que a vivência prática dessas dores.

 Quando, por vezes, opta-se pelo embate mais direto com os martírios, a obra tende a perder em peso, justamente pelo caráter estático do tom empregado. São as cenas mais catárticas, por assim dizer, em que o choro e o grito ganham protagonismo. Esses momentos não são ruins, mas pouco fazem para sair de um lugar-comum, dando ao sofrimento nada além de sua faceta mais evidente. É na abordagem esquiva, quando há o tempo para consolidar o que de maneira sorrateira se forma nas arestas, onde o longa realmente brilha.

O pequeno Hamnet a brincar com o pai, William Shakespeare; foi o único filho homem do lendário escritor [Imagem: Reprodução/TMDb]

É inegável a habilidade de Zhao em compor planos belíssimos, aliando a monumentalidade da natureza a perspectivas inusuais. Sua capacidade de dar profundidade afetiva a eles é outra história. Isso não significa, necessariamente, um problema. O filme anterior da diretora, Nomadland (2020), premiado com o Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor, extrai sua força da adoção de um olhar sem afetações. É um drama humano cuja humanidade crua, sem adornos, é o centro de tudo.

 Em Hamnet, a história parece pedir o exato oposto. Os sentimentos estão sempre à flor da pele, acentuados pela sucessão repentina e intermitente dos acontecimentos. É aí que a direção afastada de Zhao, que privilegia a paisagem enquanto porta-voz do espírito, soa mais adequada. Cria-se, pela imposição da forma, da exploração do espaço material visível, um meio de prolongação no espectador dos efeitos trágicos que a trama impõe quase que brutamente. 

O processo inverso é também verdadeiro. A predileção do olhar de Zhao pela interação dos personagens com o ambiente onde a ação se desenrola, a beleza inata que surge dessas composições, são ressignificadas pelo drama em que estão inseridas. É uma via de mão dupla: a tragédia ganha encorpamento para além do imediato e a imagem se desprende do vazio estético.

A construção dos personagens acaba também por seguir essa lógica. Descobre-se mais sobre eles pelo sofrimento do que por características de origem mundana. É, afinal, o interno que está em jogo. Shakespeare é menos o escritor brilhante e mais o filho condenado, o marido insuficiente e o pai que observa à distância. Mesmo Agnes, verdadeira protagonista da trama, tem sua relação com a família e a espiritualidade antes pautada pela angústia, a premeditação. 

É interessante como o que poderia soar um exercício à exaustão de dor infligida encontra uma linguagem capaz de superar a repetição tonal, sem nunca sair da corda bamba que a condição impõe. Quando a linha se estica ao máximo possível e o espectador está perto de denunciar sinais de cansaço, Hamnet sabe conceder seu grand finale. Esse jogo, disputado nos cúmulos, dá intensidade ao que se sucede e torna o encerramento mais passível de exacerbar sentimentos, dando enfim algum tipo de êxtase capaz de coroar a jornada tortuosa.

Em última instância, o longa de Zhao não é sobre a criação de Hamlet. Assim como ocorre à Agnes, a criação da peça se dá alheia às lentes da câmera. Na historiografia, pouco se sabe sobre o real impacto da morte do filho de Shakespeare na concepção da obra. Mais humana, porém, é a hipótese formulada por Maggie O’Farrell, que entende os acontecimentos da vida privada como indissociáveis da criação artística. Hamnet parte dessa afirmativa tomada aqui por inquestionável.

Agnes (centro) assistindo a primeira apresentação de Hamlet; sequência representa o ápice emocional do filme [Imagem: Reprodução/TMDb]

O fato de seu marido conceber uma peça sobre o filho morto, encenada e vista por pessoas desconhecidas é, inicialmente, um choque para Agnes. Para ela, que sofreu o martírio do luto pela reclusão, pela abdicação da vida, a ideia de uma tragédia tão pessoal renascer sob a luz do palco e os olhos do público é ultrajante, quase ofensiva.

 Quando, na sequência final, a esposa de Shakespeare assiste à encenação da peça, Zhao utiliza o clássico campo e contracampo para nos mostrar sua reação ao passo que acompanhamos o desenrolar da trama no palco. Pelo olhar que Agnes fornece ao espetáculo, todo um cânone da literatura universal se torna alvo de ressignificação. A glória e a política, tão destacadas na discussão histórica da obra, apequenam-se aos simples olhos de uma mãe que perdeu o filho e, ali, vê um espaço para recuperar o que não mais se tem. Sua visão se confunde a do espectador. A busca pela compreensão da existência humana é resumida, então, a mais primária das relações: a familiar.

É obviamente o momento catártico do filme, quando Hamnet, o filho morto, e Hamlet, a peça viva, encontram-se. Se restam dúvidas sobre quem acabou por assombrar mais o outro, o longa não tarda a fornecer respostas: fantasmas só assombram os vivos. De algum modo, Shakespeare deu ao filho uma existência para além da própria vida. Uma existência que nunca deixa de ser marcada pela ausência de quem o compõe.

A dor da morte do filho, que atinge em cheio a mãe, tem propriedade enfim para permanecer — bem como para se redimir. Em Hamnet, a redenção se atinge pela arte, porque só o que vive permanece. É preciso, então, dar aos sentimentos receptáculo, forma e conteúdo, como fez Shakespeare, como aqui tenta Zhao. Para que se cure dores intransponíveis, para dar aos que já não estão aqui imunidade ao efeito do tempo. Isso, ao seu modo fúnebre, o longa alcança.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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