Jornalismo Júnior

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Entre viagens e delírios: a psicodelia no cinema

Imagens caleidoscópicas e cores supersaturadas traduziram experiências psicodélicas às telas em meio ao movimento contracultural
Por Leda Lôbo (ledalobo@usp.br)

Em meados dos anos 60, o movimento psicodélico teve a sua ascensão, seja na cultura, na ciência ou na arte. No meio disso, o cinema se apresentou como uma forma de transmitir as sensações dos psicodélicos às películas, transferindo experiências a obras audiovisuais por meio de jogos de câmera, sobreposição de imagens, cores e formas, além de recursos sonoros.

A psicodelia foi popularizada a partir da divulgação de pesquisas científicas que mostravam o potencial das substâncias no cérebro humano. Os psicólogos Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert, pioneiros nos estudos com essas drogas para uso em psicoterapia, descrevem no livro A Experiência Psicodélica (University Books, 1964) que os alucinógenos são capazes de alterar o nível de consciência e de ampliar a perspectiva de vida de uma pessoa. Além disso, é incentivado que os indivíduos usem suas cabeças, saiam de meios estáticos e pensem por si mesmas, tudo isso fazendo uso das drogas.

Ao tratar da possibilidade de mudança em pensamentos já impostos e aceitos socialmente, o movimento passou a dialogar diretamente com a contracultura. Diversos artistas e intelectuais ligados ao anticonformismo com as autoridades e com a cultura hegemônica à época adentraram na psicodelia para trabalhar a experimentação, bem como para explorar a possibilidade de novas ideias e pontos de vista que a expansão do consciente promove.

As artes foram muito influenciadas, seja na música psicodélica, na arte visionária ou no cinema. Em relação à sétima arte, as telas se tornaram palco para representar mentes que estão em um estado alterado de consciência e transpor à mídia imagens dificilmente vistas ou pensadas em condições ordinárias.

No artigo Psicodelia clínica e imagética cinematográfica em Deleuze, os pesquisadores Alessandro Gonçalves Campolina e Thiago Batista da Silva analisam a conexão entre o cinema e a experiência psicodélica, comparando a captura da imagem de maneira inconvencional ao padrão de observação e percepção comum ao estado de consciência alterada. 

De acordo com o artigo, “A afinidade entre o cinema como máquina de vidência e os estados psicodélicos como máquinas de desorganização do sensório-motor aponta para uma coincidência fundamental: ambos são tecnologias do tempo, meios de acesso ao que escapa à percepção ordinária. Ambos operam deslocamentos na forma como habitamos o mundo e como o mundo nos atravessa.”

A era psicodélica

A principal influência para o movimento psicodélico foi a descoberta das propriedades psicodélicas LSD em 1943 pelo químico Albert Hofmann, que havia sintetizado a droga em 1938 com o intuito de produzir um estimulante respiratório e circulatório. 

Enquanto ressintetizava a substância, Hofmann a manuseou e, horas depois, passou por uma experiência inesperada. No livro LSD: My Problem Child (McGraw-Hill, 1980), o pesquisador descreve suas sensações: “Em um estado onírico, de olhos fechados, percebi um fluxo ininterrupto de imagens fantásticas, formas extraordinárias com um jogo de cores intenso, como um caleidoscópio”.

Durante a década de 1950, pesquisas sobre o LSD e seu uso psiquiátrico foram lançadas à mídia, ampliando a discussão acerca da droga. Ao mesmo tempo que muitas pessoas passaram a entender os efeitos e surgiram interesses de usos recreativos ou terapêuticos, também houveram interesses políticos acerca dela. Nos Estados Unidos, a CIA passou a fazer testes com LSD durante o projeto MK-ULTRA, em busca de maneiras de controlar a mente humana. 

Fora do âmbito científico, a cultura também se voltava a essa e outras substâncias psicoativas, por meio da Geração Beat, um movimento literário que se baseou na liberdade artística, na rejeição ao materialismo e à conjuntura sociopolítica vigente nos Estados Unidos na época. Por meio de histórias que retratavam experiências de vida, aventuras e viagens de jovens que seguiam a ideologia do movimento, ele se tornou um dos principais símbolos da contracultura estadunidense, sendo uma grande influência para grupos que iam contra o sistema, como hippies e punks.

No início da década seguinte, os estudos haviam avançado, assim como os usos experimentais. Partindo deles, cientistas, escritores e artistas, como o neurocientista Timothy Leary, o filósofo Alan Watts e o escritor Aldous Huxley, passaram a defender substâncias alucinógenas como “expansoras da consciência humana”.

O psicólogo e mestre em saúde coletiva Iago Lôbo, responsável pelo projeto Cinedélico, que promove debates sobre psicodelia a partir de obras audiovisuais, explica: “No campo da consciência, o que acontece é uma amplificação não específica dessa consciência. Então tudo o que entendemos no campo da psicologia, da consciência e do inconsciente pode ser expandido naquele momento”. 

Segundo o pesquisador, as substâncias chamadas perturbadoras, classificação que inclui os psicodélicos, atuam no humor, nos afetos e na própria percepção humana, levando a rememorações e à dissolução do ego.

Ao passo que as pesquisas sobre drogas psicodélicas avançavam na ciência, o interesse também dominava o meio artístico. A contracultura se aproximou da psicodelia, buscando novas maneiras de se expressar e de fugir ao comum. Na música, na pintura, na literatura ou no cinema, os efeitos dos psicodélicos na criatividade humana contribuíram na idealização e na realização de diversas obras e deixaram suas marcas nelas.

Em meio à ascensão do movimento psicodélico, foi lançado o primeiro filme associado a ele, Viagem ao Mundo da Alucinação (The Trip, 1967), que retrata a história de Paul Graves (Peter Fonda), um diretor de comerciais que, em meio a uma crise em sua vida, usa LSD. Enquanto a narrativa se desenvolve, o filme procura transmitir à tela a experiência sonora, imagética e sensorial vivida pelo personagem.

Cores saturadas, imagens caleidoscópicas e jogos de sombra e luz tentam transferir as visões e a distorção da realidade de uma experiência alucinógena. Enquanto isso, também há um foco no psicológico do protagonista, em como sua consciência funciona como a droga e em como ele lida com as memórias e os medos que surgem em sua mente no momento em que não está no seu estado usual.

Jogos de luz e sombra funcionam como meio de formar imagens caleidoscopicas, que contribuem na inserção do filme
à estética psicodélica
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Assim como o movimento, Viagem ao Mundo da Alucinação recebeu críticas polarizadas. Enquanto alguns consideravam o filme uma reprodução alucinante e próxima aos efeitos psicodélicos, parte do público viu o filme como uma tentativa de propaganda do LSD, mas que funciona de maneira contrária a sua intenção primordial, ao falhar com planos repetitivos e cansativos a quem assiste.

O cinema em meio aos sons psicodélicos

A música foi grande destaque do movimento. Diversos artistas se tornaram adeptos em uma busca de inovar o repertório e experimentar novos sons, de forma a refletir a expansão mental nas canções. Os filmes acompanharam a experiência dos músicos, como maneira de acompanhar visualmente as sensações colocadas nos discos psicodélicos.

Magical Mystery Tour (1967) foi protagonizado, dirigido e produzido pelos Beatles poucos anos depois da adesão do grupo à psicodelia. A obra acompanha uma viagem de ônibus da banda com a presença de personagens excêntricos que aparecem ao decorrer do passeio. Mágicos, animais, militares e “homens-ovo” são algumas das figuras que aparecem e levam a cenas inusitadas que constroem a atmosfera surreal.

O terceiro filme dos Beatles esteve fortemente ligado aos movimentos que o grupo seguia na época. A banda foi um ícone da contracultura nos anos 60 e esteve ligada à psicodelia durante a segunda metade da década. Tanto na música quanto no cinema, as experimentações associadas ao movimento foram grandes influências à arte inovadora produzida pelos músicos.

A letra fantasiosa e confusa de I Am the Walrus (Parlophone/Capitol Records, 1967) é representada visualmente mesclando imagens dos Beatles em roupas coloridas
ou em fantasias diversas em momentos de maneira
distorcida ou com sobreposição imagética
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Sem um roteiro, Magical Mystery Tour foi feito baseado nas músicas do álbum homônimo. A câmera  tenta reproduzir os sentimentos transmitidos nas músicas que ambientam todo o filme. Sobreposições de imagens e câmeras que acompanham o movimento de personagens e objetos são constantes e contribuem para o clima onírico da produção.

Um ano depois de Magical Mystery Tour, estreou Yellow Submarine (1968), o quarto filme dos Beatles. A animação segue outra viagem da banda, dessa vez, com a missão de levar a música de volta a Pepperland. A história dialoga com o disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Parlophone/Capitol Records, 1967), mas também utiliza outras canções relacionadas ao estilo psicodélico para desenvolver a trama. A música continua seguindo o grupo na aventura, porém, nesse caso, o filme funciona como um passeio pela psicodelia dos Beatles, não como um álbum visual.

Os Beatles foram alguns dos mais notórios artistas que participaram do movimento. Como pioneiros do rock psicodélico, eles estiveram inseridos no contexto desde o início da segunda metade dos anos 60, com o disco Revolver (1966). O subgênero foi uma peça-chave para alavancar toda a psicodelia, a popularizando no seu auge e continuando sua influência no futuro.

Em meio a clássicos do rock psicodélico, Pink Floyd – The Wall (1982) foi lançado em uma época em que o subgênero já estava consolidado. O filme é protagonizado por Pink (Bob Geldof), uma estrela do rock que se droga enquanto confinado em um quarto de hotel. Assim, a narrativa acompanha a mente do personagem, enquanto ele se recorda da infância, da guerra, da louca juventude como roqueiro e de diversos outros aspectos que, mesmo que de maneira distorcida, dialogam com sua vida.

A animação se une às imagens gravadas como forma de representar as emoções e os delírios do protagonista
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O roteiro, feito por Roger Waters, vocalista e baixista do Pink Floyd, tem pouco diálogo, mas busca entrar na mente do protagonista e ilustrá-la ao som das canções do álbum The Wall (1979). Animações, música e flashbacks são usados para construir metáforas acerca dos sentimentos de Pink e promover uma imersão do espectador nos delírios do personagem.

Cores saturadas, imagens fragmentadas e viagens às consciências

De acordo com Iago Lôbo, podem ser traçados paralelos entre a experiência psicodélica e o cinema. O contato imersivo dos filmes, que colocam o espectador em outra realidade, sendo estimulado de maneira a afetar a consciência, a memória e as emoções, os aproximam do contato com substâncias perturbadoras.

A estética associada à psicodelia, marcada por imagens fragmentadas e saturadas, é uma das principais características do cinema psicodélico. Recursos imagéticos, como jogos de luz e sombra e o uso das cores, podem causar ainda mais impacto à possível imersão do público em relação aos filmes. Os cenários, junto à intencionalidade técnica e narrativa, contribuem nas cenas que buscam situar o espectador nos pensamentos e nos sentimentos dos personagens. 

Um dos filmes psicodélicos mais marcantes em termos estéticos é A Montanha Sagrada (La Montaña Sagrada, 1973). A obra é protagonizada por um alquimista (Alejandro Jodorowsky) que reúne um grupo de pessoas para representar os planetas do sistema solar. Imagens absurdas que dialogam constantemente com religião são dotadas de cores fortes e situações surreais, contribuindo para o misticismo que permeia o filme.

A temática mística da obra está ligada a ideia de conexão espiritual muito relacionada à psicodelia. O filme coloca metáforas religiosas, como o personagem do Ladrão (Horacio Salinas), que se assemelha à figura de Jesus, e as une a outros símbolos do misticismo, como ambientações que lembram seitas, para aproximar as imagens ao esoterismo.

Dotado de cenários e figurinos exagerados, a obra cria uma ambientação absurda, que acompanha bem a sátira do filme [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

As imagens surreais, que colocam a obra em meio à psicodelia e, de forma intensificada, ao contexto em que ela esteve, refletem os bastidores do filme. No documentário Duna de Jodorowsky (Jodorowsky’s Dune, 2013), o diretor comenta que, durante a preparação de A Montanha Sagrada, ele e os atores moraram com o filósofo Oscar Ichazo, que promovia experiências psicodélicas ao grupo como forma de exploração espiritual para aproximá-los ao filme.

A estética que se aproxima ao máximo da ideia mais comum da psicodelia, dotada por cores fortes e caleidoscópios, sempre foi algo que se destacou no movimento. No cinema, esse visual com distorções e saturações é a principal característica das obras psicodélicas. Além de A Montanha Sagrada, outros filmes, como Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas, 1998), se destacaram pelo foco na estética dentro da temática psicodélica.

Medo e Delírio retrata uma viagem de trabalho do jornalista Raoul Duke (Johnny Depp) com seu advogado, Dr. Gonzo (Benício Del Toro). O intuito da jornada é deixado de lado no momento em que os dois começam a usar uma série de drogas. Assim, a imagem fica cada vez mais turva e as cores mais intensas.

Todo o filme acompanha a narrativa com distorções, luzes e tonalidades que sobressaem na tela e embalam a audiência na aventura dos personagens. Os delírios de Duke e Gonzo são acompanhados por situações inusitadas em hotéis e cassinos, muitas vezes com hippies e animais que vão surgindo em meio às alucinações e à realidade.

O diretor Terry Gilliam e o diretor de fotografia Nicola Pecorini usaram lentes e filtros diferentes com base em cada droga consumida
pelos personagens durante o filme
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O renascimento psicodélico

Desde o início dos anos 2000, novas pesquisas acerca das substâncias perturbadoras vêm sendo publicadas. A partir disso, os psicodélicos voltaram a chamar atenção, porém, nesse momento, seu foco se voltou aos tratamentos psiquiátricos, levando ao movimento do renascimento psicodélico

Embora o mais recente movimento psicodélico esteja majoritariamente voltado à ciência, a arte continua sendo influenciada por toda a psicodelia e, especialmente, pelas obras marcantes de seu auge, como os livros ligados à Geração Beat, as músicas do rock psicodélico e filmes, tal como Viagem ao Mundo da Alucinação e A Montanha Sagrada.

Ainda em uma perspectiva mais clássica das imagens psicodélicas, cheias de cores neon e luzes estroboscópicas, Viagem Alucinante (Enter the Void, 2009) retrata Oscar (Nathaniel Brown), um traficante de drogas, em alucinações e flashbacks que, de maneira espaçada e não-cronológica, buscam entender o personagem, enquanto ainda não é possível conhecê-lo em seu estado ordinário de consciência. 

Gaspar Noé, diretor de Viagem Alucinante, nunca teve uma experiência fora do corpo, embora tenha tentado várias vezes, segundo entrevista ao Hollywood Chicago. O cinema se torna, então, um meio de imaginar sensações extracorpóreas
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

As referências do início do movimento psicodélico continuam a ser grandes influências às obras que dialogam com ele na atualidade. Queer (2024) é uma adaptação do romance homônimo de William S. Burroughs, importante  nome da Geração Beat. A trama acompanha William Lee (Daniel Craig), um americano que vive no México e fica obcecado por um conterrâneo, Eugene Allerton (Drew Starkey), um jovem soldado expatriado.

Embora o personagem de Craig tente se aproximar ao de Starkey, o jovem não se interessa romanticamente como Lee, não havendo uma conexão entre os dois por boa parte do filme. Isso muda em uma viagem à América do Sul, quando eles tomam juntos yagé – substância mais conhecida como ayahuasca, muito ligada aos povos originários latino-americanos, que provoca reações mentais e físicas ao usuário –. Nesse momento, em meio a alucinações, eles se comunicam telepaticamente e seus corpos se fundem.

Lee usa a conexão telepática entre os dois como um laço, mas ela não é duradoura como o protagonista espera
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O poder dos filmes de comunicar histórias surreais e levar o espectador a adentrar a visões e situações quase delirantes dialoga com a experiência psicodélica. A sétima arte pode funcionar como uma ampliação de ideias assim como substâncias psicoativas, inserindo o público em passeios visuais inesperados, intensificados pelo som, cores e narrativas.

O cinema psicodélico funciona como uma representação de diferentes situações em que a mente humana não se encontra em seu estado natural. Entre experiências realistas, modificadas ou idealizadas, a tela de cinema vira um espaço para transferir à audiência diferentes sentimentos e percepções.

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