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‘A História dos Documentários: Introdução’: uma ode metalinguística | Festival Amor ao Cinema 2026

Primeiro episódio da série de longas-metragens de Mark Cousins remonta os primórdios dos documentários de forma refinada
Por Marte Politano (marte.cp@usp.br)

O que faz um documentário ser um documentário? Esta parece ser a pergunta central na mais nova obra de Mark Cousins: A História dos Documentários: Introdução (The Story of Documentary Film, 2026). Inédita no Brasil, a obra estreou no Sundance Film Festival, o maior festival de filmes independentes nos Estados Unidos, e concorreu ao L’Œil d’or,prêmio de melhor documentário em Cannes. A primeira exibição da obra ocorreu na estréia da mostra Amor ao Cinema, promovida pelo CineSesc, em setembro deste ano.

Mark Cousins, já conhecido por suas outras obras que tratam dos bastidores da indústria audiovisual – como A História do Cinema (The Story of Film, 2021), Women Make Film (2018) e A Story of Children and Film (2013) – traz uma linguagem metalinguística neste filme para contar a história dos documentários. 

Na obra inicial da série, o espectador é apresentado ao nascimento e à “primeira infância” do gênero, a partir de clássicos e obras não tão conhecidas, num esforço do diretor de demonstrar como os documentários nos ajudam a entender e mudar a realidade. 

O longa é organizado de forma cronológica, remontando desde os primeiros filmes do gênero, feitos ainda no final do século XIX, até os da década de 1920, exibindo o que Cousins define como os documentários basilares da história do cinema. 

Ao longo de toda a obra, fica evidente para qualquer espectador que o roteiro é resultado de uma extensa e minuciosa pesquisa, que poderia muito bem compor um livro de história ou a ementa de uma aula num curso superior de audiovisual. O foco do filme é o passado e a formação do nicho de documentários dentro da indústria. Apesar disso, o diretor faz algumas relações com o cenário atual.

Ainda relacionado à pesquisa, o acervo escolhido pela produção para compor o filme foi muito bem calculado. A edição conta com documentários como Nanook, o Esquimó (Nanook of the North, 1922) de Robert J. Flaherty, A Pesca do Peixe Dourado (La pêche aux poissons rouges, 1895) e O Almoço do Bebê (Repas de bébé, 1895) dos irmãos Lumière, Rien que les heures (1926) do brasileiro Alberto Cavalcanti, A queda da Dinastia Romanov (Padenie dinastii Romanovykh, 1927) da Esfir Shub, entre outros títulos preciosos.

A narração é feita em off, então as imagens do filme são todas trechos de outros documentários ou gravações que ilustram as falas de Mark Cousins [Imagem: Reprodução/IMDB] 

A escolha dos documentários presentes na obra não foi feita ao acaso ou baseada apenas em critérios técnicos ou de recepção do público. Em entrevista ao jornalista Duda Leite, Cousins diz que prezou pela diversidade geográfica na hora de escolher quais títulos incluir. Para ele, “os documentários praticamente são uma máquina de solidariedade” e tem o potencial de diminuir preconceitos. 

Outro aspecto que merece elogios no filme é a montagem. Apesar de ser narrado exclusivamente pelo próprio Cousins – com as únicas interrupções à voz do diretor sendo trechos dos documentários utilizados de exemplo –, o longa não se torna monótono ou arrastado. O espectador é instigado por cada questionamento ou afirmação nova feita na narração e se prende à narrativa por relembrar títulos clássicos ou por ser apresentado a títulos pouco conhecidos e que oferecem uma perspectiva diferente sobre o gênero.

O filme, mesmo sendo apenas a introdução da série, responde à pergunta que o guia, sobre a essência deste gênero cinematográfico. A tese defendida no roteiro é que os documentários surgem como a maneira que os cineastas encontraram de capturar, estudar e entender o movimento, para depois se tornar uma ferramenta responsável por quebrar a “redoma de vidro” que existia antes da globalização e permitir que as pessoas conheçam lugares e culturas diferentes. 

Cousins, em sua narração, diz que muito rapidamente o público que assistia aos primeiros documentários logo começou a se questionar sobre quem estava por trás das câmeras e decidia o que era ou não gravado, transformando a produção destes em um debate sobre quem consegue escrever e preservar a história. 

A última afirmação defendida pelo filme é que os documentários, ao menos neste momento inicial, são registros do mundo físico numa tentativa da humanidade de replicá-lo e compreendê-lo.

Seguindo essa linha de respostas, A História dos Documentários: Introdução desmonta o senso comum sobre o que é um documentário e constrói uma nova narrativa para definir o gênero. No início, são exibidos diversos cortes de pessoas gravando situações cotidianas, uma ação quase automática na sociedade atual, e a cada um deles Cousins afirma: “This is documentary”. 

Apesar de tecnicamente impecável, o longa trata de um tema muito nichado e não foi feito para tentar agradar a todos os públicos. Além disso, a falta de previsão sobre os demais episódios da série pode desanimar os espectadores. De acordo com o diretor, a série contará com 15 capítulos diferentes. Até agora, no entanto, somente os dois primeiros – Introdução e Os Anos 1930 e 1940 – possuem previsão de exibição em cinemas brasileiros, ambos no CineSesc. 

A mostra Amor ao Cinema deste ano, além da programação que será exibida no CineSesc, conta também com uma lista de filmes para o público infantil e títulos disponíveis no Sesc Digital [Imagem: Reprodução/CineSesc]

A quarta edição da mostra Amor ao Cinema, promovida pelo CineSesc entre 9 e 26 de setembro deste ano, possui dois eixos temáticos principais: obras sobre a própria linguagem cinematográfica e obras que representam rupturas. A História dos Documentários: Introdução foi a escolha de equipe para estrear a edição deste ano da mostra que, segundo os produtores, traz obras clássicas, inéditas e raras para a programação.

A História dos Documentários: Introdução é o primeiro episódio promissor de uma série muito ambiciosa. A construção minuciosa e bem detalhada do roteiro quase faz o espectador esquecer que a série ainda conta com mais 14 capítulos. Para quem já gosta de documentários, a vontade que dá é sair da sala de cinema e ir direto gravar um.

*Imagem de capa: Reprodução/Berlinale

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