Jornalismo Júnior

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Crônica | No meio de uma sessão

Por Luiza Torre (luizatorre@usp.br) Esses dias eu estava escutando o álbum de rap Bonde da Madrugada (2014), da banda ConeCrewDiretoria. Quando chegou na quinta faixa, No Meio de uma Sessão, comecei a perceber a genialidade de sua composição, algo que não tinha reparado antes. O letrista, Ari, cita na letra diversos filmes de maneira descontraída. …

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Por Luiza Torre (luizatorre@usp.br)

Esses dias eu estava escutando o álbum de rap Bonde da Madrugada (2014), da banda ConeCrewDiretoria. Quando chegou na quinta faixa, No Meio de uma Sessão, comecei a perceber a genialidade de sua composição, algo que não tinha reparado antes. O letrista, Ari, cita na letra diversos filmes de maneira descontraída. Acho muito original a forma como ele consegue transformar clássicos de Hollywood em analogias para narrar experiências vividas no Rio de Janeiro. 

A canção começa de um jeito bem diferente, que me lembra bastante o início de um roteiro de cinema. Uma voz ao fundo, em inglês, introduz os personagens da história, sendo os próprios rappers os protagonistas. É como se eles estivessem te trazendo para dentro da cena, proporcionando uma imersão completa; é uma verdadeira viagem.

Logo depois, aparece o primeiro trecho da letra: “Minha vida daria um filme, gênero mudando a cada segundo. O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) é a Lapa dos vagabundos. É um documentário vivo de tudo aquilo que vivo”. 

Já nas palavras iniciais, as referências cinematográficas surgem, e a música fez com que eu conseguisse enxergar a semelhança entre um ambiente urbano carioca e o cenário caótico e agitado da obra citada. A Lapa é uma região do RJ que imediatamente me faz pensar em um lugar boêmico e agitado, e o fato de os cantores a compararem com um filme que fala sobre a decadência da população humana é verdadeiramente cômico. Acredito que, antes de ouvir essa letra, eu nunca teria sido capaz de associar rap, Rio de Janeiro e um filme de ficção científica sobre primatas que dominam humanos.

O mais legal é conseguir sacar algumas das referências por já ter assistido aos filmes, parece que fiz parte do processo criativo da canção. Sinto que consigo entender exatamente a mensagem que estão tentando passar, porque apesar de não conhecer o Rio, conheço o necessário sobre cinema para captar as analogias feitas pelos MCs. É quase como se eles estivessem contando uma piada interna, que só funciona para aqueles com repertório suficiente para reconhecer as referências. 

Em um dos trechos, a música associa o Cantor Batoré, cujo apelido na banda é ninja, com os personagens do filme Kill Bill (2003), como se a única maneira de sobreviver no Rio de Janeiro fosse se tornar um guerreiro
[Imagem: Reprodução/ IMDB]

Em 3 minutos e 35 segundos eles conseguiram citar mais de 25 filmes (sim, eu contei), além de mencionar também atores, diretores, séries e personagens. O mais interessante é que as referências nunca aparecem de forma solta, e trocadilhos são sempre utilizados para aproximar as duas realidades: a dos rappers e a cinematográfica. 

O meu trecho favorito em que isso acontece é quando falam “disque 00Cert”, a junção do codinome de James Bond com o apelido de um dos cantores. Não vou mentir, fiquei com vontade de maratonar todas as obras na ordem em que foram mencionadas na música, só para dizer que tenho o exato mesmo gosto cinematográfico dos cantores. Comecei a refletir sobre essa “vontade de fazer parte”, e como isso é um daqueles sentimentos que só a arte consegue proporcionar. É igual quando você escuta uma música antiga e de repente parece que pertence àquela época, ou quando você assiste a um filme de fantasia e sente que é teletransportado para dentro daquele universo imaginário no momento em que seus olhos encontram os dos personagens. 

Isso também me fez pensar sobre o poder do cinema no processo de compor músicas. É muito louco analisá-lo como uma daquelas coisas que realmente tem uma influência diferenciada sobre o público, e que uma experiência que dura por volta de duas horas pode ser suficiente para nos afetar profundamente.

Assistir a um filme causa um efeito no espectador que o faz refletir, com narrativas que podem perpetuar na memória por horas, dias ou até mesmo anos. Quem nunca assistiu a um filme e sentiu que sua vida nunca mais seria a mesma depois? Em alguns casos eles são tão marcantes que funcionam como inspiração, e apesar de já ter notado que isso acontece em minha vida, não tinha notado o quanto isso acontece com compositores.

Depois de ficar tão intrigada com a música de ConeCrew, fui atrás de mais casos e percebi que o grupo não estava sozinho nessa de usar o cinema em suas letras. Charlie Brown Júnior já citou uma frase de Star Wars em sua música Papo Reto (2002), Lana Del Rey (apesar de polêmica) já fez referência ao filme Lolita (1997) em uma de suas canções de mesmo nome, Djonga frequentemente coloca seu gosto cinematográfico em suas produções, Oriente transformou A Dama e o Vagabundo em personagens de sua própria vida… Foi aí que percebi que isso realmente acontece bem mais do que eu reparava, e que muitos compositores têm a capacidade de relacionar o cinema com vivências reais e ainda por cima transformar isso em música.

Mesmo com os inúmeros exemplos que fui percebendo de músicas que citam filmes, não vi nenhuma canção que conseguiu fazer isso de maneira tão inteligente quanto a de ConeCrew. A letra conseguiu relacionar As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995), Advogado do Diabo (The Devil’s Advocate, 1997), Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings, 1993)  e Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem (Beetlejuice, 1988) em um mesmo contexto, mesmo sendo obras completamente diferentes uma da outra. 

O que mais me choca não é nem o quão ecléticos eles foram na escolha das referências, e sim como o grupo conseguiu transformar tudo isso em uma maneira de contar como é o cotidiano carioca. A banda foi capaz de perceber identificação em obras dos mais diferentes gêneros, o que só reforça a possibilidade de existir múltiplas interpretações e vivências sobre um mesmo local. Eles retratam a vida no Rio não deixando nenhum aspecto de fora, indo desde narrar de forma crítica a falta de segurança até exaltar uma cultura que é própria do lugar em que vivem, e fizeram tudo isso enquanto rimam, cantam e falam sobre cinema.

Apesar de eu não ter o menor talento musical, tem um hábito meu que se assemelha muito ao desses compositores: O prazer em buscar reconhecimento em filmes. Procurar me identificar com algum personagem ou tentar ver semelhanças entre a narrativa da obra e o contexto da minha vida é algo inerente à minha pessoa quando estou desfrutando de uma experiência cinematográfica. É legal quando você consegue comparar o que você está vendo nas telas com o seu cotidiano, mesmo que seja para apontar as diferenças entre ficção e realidade. 

Assisti a “Comer, Rezar e Amar” (Eat, Pray, love, 2010) pensando no quanto o meu desejo de conhecer o mundo se assemelha ao da protagonista; quando criança,  vi “Bambi” (1942) e chorei como se quem tivesse perdido a mãe (que era um cervo) fosse eu. No fim, concluí que nunca é “só um filme”, e que apesar de as emoções vividas ao consumir certas obras sejam únicas, o fato de que sentimos é compartilhado.

Acredito que talvez esse seja o maior poder do cinema, a capacidade de transmitir uma mensagem para um público de um jeito que cativa, que transforma e que proporciona identificação. Não importa o quão lúdica possa parecer a narrativa de um filme, ela vai conseguir se comunicar com a história da vida de alguém. 

Não é só a vida que imita a arte, a arte também “imita” a arte e ConeCrewDiretoria soube tirar bom proveito disso.

*Imagem de Capa: [Reprodução/Pexels]

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