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A realidade brasileira do nazifascismo através do cinema

Conheça três filmes brasileiros sobre o assunto e entenda a relação com a preservação da memória coletiva
Por Rachel M. Mendes (rachelmmendes@usp.br)

Em abril de 2024, o Brasil enviou à Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), um alerta a respeito do crescimento de grupos neonazistas em solo nacional, com 14.476 denúncias anônimas recebidas. Ainda no ano passado, de acordo com o levantamento da Confederação Isrealista Brasileira (Conib), registrou-se um caso de antissemitismo a cada 4 horas, com o aumento de 800% das denúncias entre outubro e dezembro de 2023.

O dia 27 de janeiro é dedicado anualmente à memória das vítimas do Holocausto, firmando-se na crença de que a lembrança é crucial à não repetição das barbaridades cometidas. Se lembrar é resistir, a arte é um canal para isso. Segundo o professor adjunto do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas, Roberto Heiden, em seu artigo “Arte Como Produtora de Memória Social: uma discussão a partir da obra de Vitor Meirelles”, uma obra de arte possui a capacidade de funcionar como suporte e produtora da memória coletiva. Diversos filmes utilizam, então, de sua linguagem cinematográfica para promover a memória da dura realidade do período de diversas partes do mundo. Entre eles, estão diversos filmes nacionais, que destacam a realidade brasileira durante a ascensão do nazifacismo e da Segunda Guerra Mundial. 

Os filmes apresentados a seguir se passam em meio ao governo do presidente Getúlio Vargas. Em um olhar atento ao contexto histórico, a simpatia de Vargas pelos ideais nazifascistas é debatida no mundo acadêmico. Para a professora de História Contemporânea no curso de Relações Interacionais da Universidade Federal Fluminense, em seu artigo “Governo Vargas e o Fascismo: Aproximação e Repressão”, o antissemitismo (característico do nazismo) esteve presente em ações e políticas implementadas pela administração de líderes do Governo Vargas.

Nesse âmbito, a relação política de Getúlio Vargas com a Ação Integralista Brasileira (AIB) – conhecida como o fascismo brasileiro, liderada por admiradores abertos do Eixo – e a escolha do sobrenome judeu “Cohen” para estruturar a teoria da conspiração que o garantiria o poder, o Plano Cohen, servem à explicitação da simpatia de Vargas pelo nazifascismo. Além disso, o historiador Boris Fausto notou as semelhanças entre a organização do Estado Novo, desde a estrutura sindical às técnicas de propaganda, com a Carta del Lavoro (vigente na Itália fascista) e as práticas nazi-fascistas. 

Na foto, o presidente Getúlio Vargas [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Olga (2004)

Lançado no dia 20 de Agosto de 2004, o longa-metragem de Jayme Monjardim narra a história da militante comunista, alemã e judia, Olga Benário Prestes. Ainda que novelesco e historicamente simplista, a trama inspirada na biografia homônima escrita por Fernando Morais torna a história da revolucionária acessível ao público. Olga foi enviada ao Brasil em 1935, pela Internacional Comunista, para escoltar o líder da Coluna Prestes, Luiz Carlos Prestes, em seu retorno. Durante a viagem, se apaixonaram e vieram a se casar.

A convivência do casal não chegou a alcançar um ano: com a descoberta da Intentona Comunista, foram condenados à prisão. Escondida até o momento sob identidade falsa, após investigações, a verdade sobre Olga como judia e ativista comunista aparece. Em um ato de barbárie, ela é deportada, grávida de sete meses, para a Alemanha de Hitler. Lá, ela viria a parir e amamentar a filha dentro do campo de concentração, e seria assassinada na câmara de gás alguns anos depois. O decreto de expulsão foi assinado em 28 de Agosto de 1936 pelo próprio presidente Getúlio Vargas.

A atriz Camila Morgado vivendo o papel de Olga Benário Prestes [Imagem: Reprodução/GloboPlay]

O filme reflete um cenário que, factualmente, afetou a experiência de vários brasileiros. Na realidade, isso extravasou a história de Olga e Luiz Carlos: o sobrenome “Prestes” no Brasil passou a ser alvo de perseguição. A advogada Áurea Prestes, em entrevista ao Cinéfilos revelou que, na década de 1940, no interior do estado de São Paulo, carregar esse nome não foi uma tarefa fácil para ela e sua família. O pai, Benedicto Pereira Prestes, foi preso por dois anos pelo Departamento de Investigação em 1942, sob falsa acusação de comunismo. “Achavam que todos [os Prestes] eram comunistas e perigosos. Papai não era comunista. Nem sabia de nada.” disse, lembrando que seu pai trabalhou a vida toda como tintureiro, por conta da dificuldade de contratação que seu sobrenome promovia.

A permanência da perseguição relacionada às figuras Luiz Carlos e Olga era tão grande que, mesmo após o fim do governo de Getúlio Vargas, na década de 1950, dois casos marcaram a memória de Áurea. Em 1951, o pai desejava que o irmão mais novo, Osmar, se chamasse Luiz Carlos. O batismo foi impedido pelo cartório, sem quaisquer explicações. E em 1953, quando a escola registrou ela e todos os seus irmãos com o sobrenome “Prates” ao invés de “Prestes”.

Áurea Prestes ao lado dos quadros de sua família [Imagem: Acervo Pessoal/Rachel Mendes]

Menino 23 (2016)

O filme-documentário lançado em 2016 acompanha a descoberta do historiador Sidney Aguilar de um acontecimento assustador: durante a década de 1930, uma fazenda no Rio de Janeiro serviu de cenário para a escravização de cinquenta meninos órfãos, todos negros. Ali, eram identificados por números e dominados por uma família admiradora dos ideais nazistas.  Para além da apuração, no documentário, sobreviventes contam ao público suas histórias. 

A busca de Sidney pela história aterrorizante iniciou em 1998, quando uma de suas alunas, durante a aula, mencionou a existência de centenas de tijolos marcados com suásticas na fazenda de sua família, a Fazenda Santa Albertina de Osvaldo Rocha Miranda. A investigação do professor comprovaria o fascínio de todos os empresários ligados ao crime com ideais eugenistas.

Tijolo com suástica encontrado na fazenda [Imagem: Reprodução/Elo Company]

Durante o documentário, Sidney Aguilar, junto a outros historiadores, revela como o Brasil absorveu e aceitou teorias de pureza racial e eugenia, as quais estão incluídas na Constituição de 1934. Conhecida como a Segunda Carta Magna brasileira, foi criada pelo Governo Vargas, durante o Governo Provisório, e durou apenas três anos. 

Aleluia, Gretchen (1976)

O filme teve sua estreia mundial em Novembro de 1976 [Imagem: Divulgação/Embrafilme]

O drama dirigido por Sylvio Back narra a história de uma família alemã que, após fugir da Alemanha nazista, muda-se para um hotel no interior do Paraná. Longe dos domínios de Hitler, o pai da família, com ideais liberais,  parecia bem. Mas não era essa a realidade. Os problemas aparecem quando o hotel se torna um ponto de encontro para simpatizantes do nazismo.

Para o jornalista Rubens Ewald Filho, é um absurdo que Aleluia, Gretchen (1976) tenha sido o único filme ficcional brasileiro a trazer à tona a influência nazista no Sul do Brasil simultaneamente ao governo de Hitler. 

O filme foi o terceiro longa-metragem dirigido por Sylvio Back [Imagem: Reprodução/Itaú Cultural Play]

Retratando a fuga da família por volta de 1937, o estado político brasileiro vivenciado pelos refugiados era um: o início do período ditatorial de Getúlio Vargas, o Estado Novo, no qual a admissão de ideias nazifascistas foi absorvida.

*Imagem de capa: Acervo Pessoal/Rachel Mendes

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