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‘Ele vive em você’: a representação do luto nas animações infantis

Entenda como longas animados contribuem na percepção infantil do enlutamento e desmistificam o tabu em volta da morte
Por Gustavo Santos (gustalima1306@usp.br)

Personagens carismáticos, cores, vibração e alegria. Os desenhos animados são uma grande fonte de bem-estar, não somente para o público infantil, como também para os adultos. As animações podem ser utilizadas como ferramenta de desenvolvimento do caráter e da percepção de mundo de uma criança, promovendo a criatividade, o raciocínio, a ampliação do vocabulário e a interação social. Mas, mesmo com sua importância reconhecida, porque abordar tabus e temas polêmicos nas animações? 

Por que falar da morte para crianças?

Inevitável, permanente, irreversível. Lidar com a morte não é uma tarefa fácil, especialmente quando lida com crianças. Em entrevista ao Cinéfilos, a psicóloga clínica Débora Vitória, estudante da pós-graduação em terapia cognitivo-comportamental pela PUC Minas, afirma que o luto é o fim de um ciclo, um rompimento, não estando necessariamente associado à morte. Seja perder um relacionamento ou uma amizade, o luto também é um processo de redimensionamento de fantasias e de libido, antes ligadas ao objeto perdido. 

Pelo tema sensível, da mesma forma que há uma dificuldade de explicar o que é esse sentimento de vazio, existe, também, um tabu para retratá-lo. Após a análise de 23 animações, um estudo comprova que esse mesmo receio era observado nas animações da Disney até antes de 1970, em que a morte de personagens em Branca de Neve (Snow White, 1937) e Bela Adormecida (The Sleeping Beauty, 1959) são representadas apenas como um “sono profundo” ou como uma maldição, sem abordar conceito de morte explicitamente.

Em um processo parecido com o luto, os Sete Anões sofrem após Branca de Neve ser amaldiçoada eternamente com um ‘sono profundo’ [Imagem: Reprodução/IMDb]

Ao ser questionada, Débora aconselha que esse tema não deve apenas ser “jogado” para interpretação de uma criança, já que os níveis de informação que o público adulto compreende não são os mesmos que o público infantil. A entrevistada, porém, adverte que, no momento certo, a criança precisa saber da verdade.

“A verdade é importante de se dizer, como isso vai ser dito vai depender de cada pai, de cada crença e conforme a idade de cada criança, mas a verdade precisa ser dita.”

Débora Vitória 

Assim, uma boa escolha para elucidação da abordagem do luto é o uso das animações, já que assistir um personagem lidando e superando a morte de alguém querido permite a compreensão do processo, a identificação dos sentimentos e a criação das chamadas “imagens mentais”. Durante a entrevista, Débora cita o poder da arte e do audiovisual em exemplos como Divertida Mente (Inside Out, 2015), já que visualizar o nosso próprio cérebro e sentimentos, de uma forma lúdica e personificada, promove a auto reflexão e compreensão de quem somos. Em momentos como o luto, “a tristeza tem função também”.

As fases do luto: o caso Rei Leão 

Na animação O Rei Leão (The Lion King, 1994), acompanhamos Simba, herdeiro do reino de seu pai, Mufasa, brutalmente assassinado pelo ganancioso Scar. Dentro do audiovisual, essa é uma das melhores representações do luto e de suas fases, uma vez que apresenta um retrato fiel e coerente dos diferentes sentimentos típicos do processo. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, quase todas as fases propostas no livro On Death and Dying, da psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross, encontram-se presentes na narrativa, permitindo a elucidação realista do tema para as crianças

A sequência de 3 minutos do estouro da manada de Gnus, em que Mufasa se sacrifica para salvar Simba, demorou 2 anos para ser produzida pelo studio [Imagem: Reprodução/IMDb]

Simba assiste a morte trágica de Mufasa, pisoteado por uma manada de antílopes após cair de um penhasco. Perplexo, o personagem demonstra negação ao dizer “Vamos, você precisa se levantar, termos que ir para casa” enquanto chora perto do corpo de seu pai, já morto. A culpa é outro sentimento presente em tela, uma vez que Scar, o verdadeiro assassino, engana Simba afirmando que “se não fosse por você, ele ainda estaria vivo! o que sua mãe vai pensar?”, obrigando o jovem leão a fugir do reino. Simba se sente culpado e confuso, justamente, porque não teve a oportunidade de processar a despedida repentina do pai: “a criança fica em busca se não falarem nada, se isolarem a criança daquele momento. “Eu vi ele, ele tava bem, e agora cadê ele?”, afirma Débora. Após a fuga, o personagem se isola em depressão no deserto, também à beira da morte.

As fases do luto não são lineares, não apresentam tempo específico e se sobrepõem umas às outras. No luto, é possível sentir tudo ao mesmo tempo, assim, após conhecer Timão e Pumba, Simba retorna à fase da negação ao assumir o lema “Hakuna Matata”, levando uma vida sem preocupações dentro da floresta.  É curioso observar que, nesse momento da narrativa, Simba começa a se comportar como suricato, já que a perda de seu pai promoveu, também, a perda de sua própria identidade. Esse sentimento de vazio é comum em meio ao luto, especialmente com a morte de um dos pais: “as pessoas que diziam o que eu tinha que fazer não estão mais aqui, quem eu sou sem eles?”

“Os seus problemas você deve esquecer, isso é viver, é aprender, Hakuna Matata!”

Timão e Pumba, o Rei Leão

Escrita por Elton John e com letras de Tim Rice, a música e mantra Hakuna Matata se tornou um dos maiores sucessos da Disney [Imagem: Reprodução/IMDb]

Simba evita ao máximo lembrar de seu passado. Acorrentado à culpa e ao medo, prefere ter liberdade e seguir sua vida sem se preocupar com os horrores que ocorrem dentro de seu reino, agora, dominado por Scar. A fase da aceitação, porém, chega quando Simba é confrontado por Rafiki. Lidar com o luto é ressignificar a saudades do objeto perdido e enxergá-lo sob uma nova perspectiva. “Ele vive em você”, afirma Rafiki, após Simba ver seu rosto e o de seu pai refletidos, juntos, na água. O personagem chega a tentar barganhar com o espírito de Mufasa “Não posso voltar, não posso mudar o passado”, e se tudo tivesse sido diferente? O sábio Rafiki, porém, finaliza dizendo que o passado pode sim doer, mas que devemos escolher entre fugir ou aprender com ele.

“Lembre-se de quem você é”. A narrativa se encerra com Simba retornando ao reino, enfrentando seus medos e seu tio Scar. É possivel novamente observar a não linearidade das fases do luto, já que o período da raiva se sobrepõe ao da aceitação quando Simba, enfim, descobre sobre o assassinato de seu pai. Mas, ao ressignificar sua dor, mesmo diante do culpado de seu sofrimento, o personagem escolhe não se vingar de Scar que, em meio a suas próprias mentiras, acaba morrendo devorado por hienas. Simba aprende a lidar com sua dor, permitindo-se tomar seu lugar como rei e vivendo os ensinamentos de seu pai, que ainda se faz presente na saudades. 

Como lidar com o luto: a faixa etária em UP altas aventuras

“Alguém faleceu ou alguém morreu, o que a gente faz com isso?”. Assim como suas fases, a forma como se lida com o luto é variável e pessoal. Em Up: Altas Aventuras (Up!, 2009), acompanhamos Carl Fredricksen, um senhor de 78 anos que está prestes a perder sua casa devido a construção de prédios comerciais em seu bairro. Rabugento e solitário, o personagem não aceita a proposta de mudança, uma vez que a casa é sua última ligação com a vida de sua falecida esposa Ellie. Para muitos, esse é considerado um dos filmes mais tristes da Pixar. Assistir, já nos minutos iniciais, toda a vida do casal, desde sua infância, a construção de sua casa até a morte de Ellie é de partir o coração. Carl não consegue lidar com seus sentimentos e prefere viver recluso, personificando a esposa nos objetos e na própria casa.

Com apenas 11 minutos, a cena da história de amor entre Carl e Ellie, que funciona de forma análoga a um curta-metragem dentro do próprio filme, é um dos grandes marcos da Pixar pela sua sensibilidade e profundidade [Imagem: Reprodução/IMDb]

Tudo muda quando, ao fazer a residência flutuar pela cidade até a América do Sul com milhares de balões, Russell, um jovem escoteiro, fica preso na varanda da casa do casal. Antes de falecer, a última mensagem de Ellie para Carl dizia “Obrigado pela aventura. Agora parta para a próxima!”. Mesmo com dificuldades, aos poucos, o senhor de 78 anos vai criando afeto pelo garoto e por 2 animais, o cachorro Dug e Kevin, um pássaro exotico. No final da narrativa, independente de sua idade, Carl percebe que nunca é tarde para seguir seus sonhos ao observar que, no fim, a casa que antes representava sua esposa, é apenas uma casa, permitindo-se seguir em frente sem ela. 

Como explicar para uma criança de 4 ou 5 anos que alguém nunca mais vai voltar? A psicóloga explica que a forma como lidamos com o luto varia conforme a faixa etária. Carl passou a vida toda com sua esposa e a perdeu já na velhice, sua experiência de vida é muito diferente da de uma criança, logo, seu luto também é. Segundo o estudo citado anteriormente, crianças com menos de 5 anos não entendem a irreversibilidade da morte, já na análise da faixa etária de 5 a 9, o estudo levanta a possibilidade que as crianças já tendem a entender, mas acham que só se aplicam a adultos mais velhos ou com desconhecidos. Sentimentos e sintomas como tristeza, irritabilidade, pesadelos, medo do escuro, interação social afetada e rendimento escolar enfraquecido podem ser comuns, mas no fim, a entrevistada recomenda que, no processo de luto

 “A criança precisa ser conquistada, requer paciência, ela precisa ser validada, amparada, respeitada. Vai ter horas que ela não vai querer falar e tá tudo bem, mas ela precisa se sentir amada. As crianças precisam se sentir amadas.” 

Débora Vitória

Espiritualidade e cultura: novas perspectivas sobre o luto 

A passagem do luto, porém, não precisa ser um processo tão doloroso. Além de fatores como faixa etária e gênero, lidar com a morte é também uma questão regional e cultural. As animações do Studio Ghibli demonstram como a contemplação, a reflexão e a espiritualidade também são formas válidas de lidar com o luto. O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988) faz uma representação cruel dos efeitos da Segunda Guerra Mundial na vida de duas crianças pobres, Seita e Setsuko. Após a morte brutal da mãe, que é representada em tela sendo devorada por larvas, e o desaparecimento do pai, os irmãos são obrigados a morar sozinhos em um abrigo antiaéreo. Em meio à guerra, as duas crianças tentam buscar ajuda de seus familiares, mas estes apenas se aproveitam dos poucos bens herdados pelos personagens. A infância de ambos é perdida.

Em dado momento da narrativa, Setsuko, de 4 anos, questiona Seita, de 14 anos, o porquê dos vagalumes morrerem tão cedo, frase essa que traz uma metáfora sobre a própria vida dos irmãos já que, ao final da narrativa, ambos morrem por desnutrição. O Túmulo dos Vagalumes é uma animação com classificação indicativa de 14 anos, não sendo livremente recomendado para crianças, mas o desenho mostra uma rápida mensagem de esperança: no final, os espíritos de ambos permaneceram conectados em meio aos vagalumes que tanto admiravam, mesmo após o fim da vida. 

Considerado pela crítica como o filme mais sombrio de todo o Studio Ghibli, a cena retrata o espírito de Setsuko, em meio aos vagalumes, assistindo seu irmão morrendo por desnutrição em uma estação de trem [Imagem: Reprodução/IMDb]

A representação da pós-vida também é mostrada com outro viés em O Menino e a Garça (Kimitachi wa Dō Ikiru ka, 2023), ganhador de Melhor Filme de Animação do Oscar 2025, marca o retorno da aposentadoria do brilhante Hayao Miyazaki ao estúdio. Após perder sua mãe em um bombardeio no hospital em que estava internada, durante a Segunda Guerra, assim como em O Túmulo dos Vagalumes, Mahito é um personagem obrigado a amadurecer muito cedo ao se mudar da capital, Tóquio, para o campo. Em meio ao seu processo de luto, com pesadelos, raiva e isolamento, o jovem é persuadido por uma Garça-Real, que o transporta até um reino paralelo, entre a vida e a morte, afirmando que poderia trazer sua mãe de volta à vida. Nesse universo fantasioso, Mahito de fato encontra sua mãe, porém ainda jovem, que o ajuda a resgatar Natsuko, a atual esposa do pai do menino. Ao final da narrativa, o personagem, infelizmente, não consegue evitar a perda da mãe, mas aprende a lidar com os sentimentos e aceita a madrasta como parte da família.

Ao ser questionada sobre o uso da espiritualidade como forma de lidar com o luto, inclusive entre as crianças, Débora afirma que acreditar na existência da pós-vida pode, sim, ser um método válido para lidar com a morte. “Tem pessoas que vão pensar em reencarnação, tem pessoas que vão pensar em céu e inferno, isso vai depender de cada família, vai depender da fé de cada um”, complementa ela, mas adverte que é sempre importante elucidar que houve um rompimento, uma ruptura. 

“E até que eu possa te abraçar, Lembre de mim”. Esses são versos de uma música de ninar em Viva – A Vida é uma Festa (Coco, 2017), outra animação que também indica como, além da religião, a cultura pode influenciar no processo do luto. Passado durante a comemoração do Día de los Muertos, famoso feriado mexicano, a animação cria um universo lúdico de pós-vida em que todos os mortos seguem felizes e presentes na vida daqueles que ainda não morreram, desde que esses nunca deixem de esquecer daqueles que já partiram. O desenho mostra que é, sim, possível lidar com o luto de uma forma leve ao celebrar a vida do falecido por meio de comidas, flores e, principalmente, as lembranças: “Não importa a distância, nunca vou te esquecer, cantando a nossa música, o amor só vai crescer.”

As flores laranjas que aparecem pela casa de Miguel e que guiam os mortos até o mundo dos vivos são chamadas Aztec marigold, flores essas que, de fato, são utilizadas no feriado da vida real [Imagem: Reprodução/IMDb] 

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