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Antonio Benetazzo como artista: aquilo que a ditadura militar nos privou
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20 abr 2016 | Por Jornalismo Júnior

Silenciada por cerca de 40 anos, a obra do militante e artista plástico Antônio Benetazzo toma vida em uma exposição no Centro Cultural São Paulo, que colocou à mostra a desconhecida obra do militante violentamente assassinado pela Ditadura Militar Brasileira. “Antônio Benetazzo: permanências do sensível”, foi organizada pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo numa tentativa de resgatar a memória do militante que teve direitos civis e humanos brutalmente transgredidos.

A produção de Benetazzo conservou-se graças ao cuidado de amigos e familiares, que ora enquadravam seus desenhos e pinturas, ora guardavam-os nas gavetas, sem mesmo imaginar o valor artístico que possuiam. Marie Goulart, coordenadora da exposição e assessora da coordenação, enfatiza a importância de tornar pública toda a produção do artista, numa forma de restituir o que lhe foi tirado pela ditadura. “O projeto tira da clandestinidade a desconhecida obra artística de um importante militante político. Ao mesmo tempo, é também uma forma de reparação histórica”, afirma.

Durante quase 21 anos de regime militar, muitos artistas foram silenciados por suas obras que buscavam por meio da arte encontrar meios alternativos para sucumbir a censura imposta pela ditadura. Mas com Benetazzo não foi assim. De toda a sua obra como artista e de todos os seus estudos produzidos ao longo de sua trajetória política, pouco se fala respeito de sua militância e de sua participação nos movimentos sociais, mas ainda sim, as consequências de sua morte prematura afetaram o acesso às suas obras.

O silenciamento sofrido nas obras do artista é uma resposta direta a ditadura, que dificultava a produção artística, e interditava diversos campos simbólicos passíveis de expressão. O assassinato político de Benetazzo, afetou sua produção no momento de maior maturidade de suas obras, além de tornar, até então, inacessível toda a memória de sua trajetória artística.

Além de reparação histórica, do acesso à memória, e da inserção de Antonio Benetazzo no círculo artístico brasileiro, a exposição tem como objetivo promover a reflexão entre os visitantes, de forma a mostrar as consequências cruéis da ditadura militar brasileira, que atenta contra o Estado Democrático de Direito, a liberdade de expressão e viola incessantemente os direitos humanos por meio de mortes, desparecimentos e torturas.

Antônio Benetazzo

Além de artista, Benetazzo também tinha vida política ativa, principalmente dentro dos movimentos estudantis que ocorreram durante a ditadura militar. Estudante de arquitetura e filosofia na Universidade de São Paulo, militou dentro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), além de agir com a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Dois anos após de endurecimento da ditadura com a instauração do Ato Institucional Número 5, em 1968, Benetazzo se desvinculou do PCB e se juntou primeiramente a Dissidência Universitária de São Paulo, para posteriormente fazer parte da Aliança Libertadora Nacional (ALN), notoriamente conhecida devido a presença de Carlos Marighella. Sendo obrigado a deixar todas as instituições que dava aula e a universidade, o militante passou a viver na clandestinidade, e no mesmo ano, foi para Cuba receber treinamentos de guerrilha junto com amigos próximos. Ainda lá, ajudou a fundar o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), que tinha caráter revolucionário e lutava a mão armada contra o regime militar brasileiro.

Voltou secretamente para o Brasil em 1971, quando ainda estava na clandestinidade e realizava ações por meio das forças do MOLIPO. Atuou como redator da Imprensa popular, principal meio de comunicação do grupo, onde defendia a luta armada e criticava as forças censoras da ditadura militar. Foi preso no dia 28 de outubro de 1972 por agentes do DOI-CODI e dois dias depois foi violentamente assassinado por pedradas em Parelheiros, grande São Paulo. Benetazzo era considerado desaparecido político até 1990, quando suas ossadas foram encontrada na vala de Perus, um cemitério clandestino usado pelas forças de repressão para enterrar os mortos políticos.

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Exposição no Centro Cultural São Paulo. Foto: Victória Damasceno

Exposição: “Antonio Benetazzo, permanências do sensível”, com curadoria de Reinaldo Cardenuto.

Data: de 31 de março até 29 de maio de 2016

Local: CCSP – Centro Cultural São Paulo | Rua Vergueiro, 1.000 – Paraíso.

Entrada gratuita

Por Victoria Damasceno
damascenovictoria@gmail.com

 

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