Por Giovanna Martini (m.martini@usp.br), Victória Guedes (victoria.guedes12@usp.br) e Letícia Longo (letlongo2006@usp.br)
No dia 7 de setembro de 1965, a Seleção Brasileira, representada pelo Palmeiras, venceu por 3 a 0 a Seleção Uruguaia em jogo festivo de inauguração do Mineirão. A equipe alviverde foi a primeira a ser convidada para vestir as cores da Amarelinha. A excelência do Verdão, combinada com seus dias de glória, fez com que o grupo conquistasse o título de Academia do Futebol na década de 60.
Um estádio novo, um jogo histórico
As expectativas para a construção do estádio Governador Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão, eram altas. O estádio seria o terceiro maior do mundo na época e procurava mostrar Minas Gerais como um estado moderno e desenvolvido. Por isso, uma grande inauguração foi feita, com dois jogos amistosos: Seleção Mineira contra o River Plate (Argentina) no dia 5 de setembro, e Brasil contra o Uruguai no dia 7 de setembro, data escolhida por ser o Dia da Independência do Brasil. A qualidade da seleção uruguaia e a rivalidade histórica contra o Brasil contribuíram para dar legitimidade à inauguração.

O Maracanazo, que garantiu ao Uruguai o bicampeonato mundial, consolidou a rivalidade entre os dois países [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]
Os bastidores da história
A honra de representar a Seleção não veio ao acaso. Sendo a atual campeã da Taça Rio-São Paulo, a equipe alviverde vivia momentos de glória. Com o título conquistado, 10 pontos acima do segundo colocado na classificação geral, o Vasco da Gama, e dono do melhor ataque e defesa da competição, o Palmeiras era o time ideal para vestir a Amarelinha. A Academia contava com jogadores como Tupãzinho, Dudu, e o maior ídolo do clube, Ademir da Guia. Outras equipes com renome mundial foram ofuscadas pela fase do Alviverde na tarefa de carregar o peso da Seleção Brasileira, como o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha.
O privilégio de representar a nação brasileira em campo não se deu apenas pelo excelente ano que o Palestra viveu em 1965. Logo após vencer a Copa Rio em 1951, a Academia enfrentou longos anos de jejum, nos quais presenciou seus maiores rivais se alternando no topo como campeões. Mas foi em 1959 que os anos de ouro se iniciaram na história palmeirense. A equipe trabalhou para montar um time competitivo e com isso, nos anos 60, foi bicampeã da Taça Brasil, bicampeã do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (campeonatos precursores do Brasileirão) e tricampeã paulista. Para completar a década recheada de títulos do Palmeiras, o título do Torneio Rio-São Paulo consagrou o Verdão na Seleção Brasileira.
O torneio Rio-São Paulo
O Palmeiras começou o campeonato, que contava com 5 representantes de cada estado, com um empate em 2 a 2 no Pacaembu, contra seu maior rival, o Corinthians. Em partida válida pela última rodada da primeira fase, a Academia goleou o Santos pelo placar de 7 a 1, vitória que viria a se confirmar como a maior goleada da edição do torneio.
Na segunda fase da competição, o Alviverde perdeu por 2 a 1 para o Flamengo, no Pacaembu. O resultado negativo, entretanto, serviu como choque de realidade para o elenco, que seguiu até o final da competição invicto, acumulando 5 vitórias e 1 empate. O grito de campeão do torneio aconteceu após vitória de 3 a 0 contra o Botafogo.
O campeonato se encerrou com destaque total ao alviverde paulista. Além do título, o Palmeiras tinha em sua equipe o artilheiro do torneio, Ademar Pantera, com 14 gols. Todos os feitos conquistados fizeram com que a equipe chegasse confiante para o duelo contra o Uruguai.

O Palmeiras venceu os dois turnos do torneio Rio-São Paulo de 1965, garantindo o título sem necessidade de final [Imagem: Reprodução/X: @SelecaoVerde]
Apesar do grande elenco, o time do Palmeiras estava sob uma grande pressão, segundo o técnico do clube na época Filipo Nunes, em entrevista ao O Globo .“Estamos numa rodada de fogo, pois sábado sofremos com o zero a zero com o XV de Piracicaba. Amanhã teremos nada menos que a seleção uruguaia pela frente e domingo o Corinthians, no Morumbi. Na quarta-feira seguinte o São Bento, no Parque Antártica, e a seguir, no outro domingo nada menos que o Santos na Vila Belmiro. Como vê, os jogadores vão suportando a carga e estou sem voz de tanto gritar, pois cada jogo é uma tarefa mais complicada ainda”, afirmou o treinador.
A Seleção Uruguaia era potência no futebol mundial. Embora o jogo fosse festivo, não se esperava que a Seleção do Palmeiras levasse vantagem no placar, mesmo que os uruguaios não tenham entrado com seu time titular completo, já que era meio de temporada.
“ Era uma seleção temida (o Uruguai) e jamais vista em prognósticos anteriores como um adversário fácil de ser batido. O Palmeiras contava com jogadores experientes, selecionáveis e com um jogo de equipe muito sólido, mas longe de ser apontado de véspera como um favorito.”
Fernando Galuppo, jornalista e historiador
Mesmo que as circunstâncias estivessem contra o Palestra, a Seleção Brasileira contava com uma torcida apaixonada, que se empenhou para empurrar o time dentro de campo e ser o 12º jogador nas arquibancadas. A paixão pela pátria superou o clubismo: a torcida ia além dos palmeirenses orgulhosos de seu time, as arquibancadas do Mineirão estavam lotadas de amor ao Brasil.
“Era um tempo diferente e isso tem que ser ressaltado. Claro que havia o clubismo, mas o sentimento pátrio com o futebol era muito maior entre os torcedores. ”
Fernando Galuppo
Que o melhor seja o convocado
O jogo estava programado para acontecer durante a temporada nacional. Esse fator dificultava a liberação dos atletas por partes dos clubes, que disputavam partidas mesmo durante os jogos da Seleção. Além disso, na época, a convocação era um processo longo, feita a partir de treinos com um grande grupo de jogadores, até a escolha dos melhores atletas para integrar a lista final.
Sem tempo para fazer uma convocação usual, a CBD (Confederação Brasileira de Futebol, atual CBF) escolheu, então, o melhor clube da época para representar a seleção brasileira no Dia da Independência. Apesar do Santos de Pelé, a Confederação escolheu o Palmeiras. Em entrevista ao Arquibancada, Fernando Galuppo, jornalista e historiador palmeirense, afirma que o motivo crucial da convocação foi o título da Taça Rio-São Paulo. O torneio servia como um “definidor” da qualidade dos clubes, já que contava com os principais times da época.
A partida
A seleção brasileira entrou em campo sendo representada pelos palmeirenses: Valdir de Morais ; Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar Carabina e Ferrari; Dudu e Ademir da Guia; Julinho Botelho , Servílio, Tupãzinho e Rinaldo. O Brasil foi comandado pelo técnico argentino Filpo Nunez. Ao lado do Uruguaio Ramón Platero, ambos foram os únicos estrangeiros que tiveram a honra de comandar a Seleção Brasileira.
Por outro lado, o Uruguai entrou em campo com os jogadores: Walter Taibo ; Héctor Cincunegui , Jorge Manicera e Luis Alberto Varela; Omar Caetano, Raúl Núñez, Héctor Salvá e Horacio Franco; Héctor Silva , Vladas Douksas e Víctor Espárrago. A albiceleste foi comandada pelo treinador Juan Lopez.

O troféu da Taça Independência Brasil-Uruguai ficou 23 anos na sede da CBD antes de chegar ao museu alviverde [Imagem: Reprodução/ Site Oficial do Palmeiras]
O jogo, que valia a Taça Independência Brasil-Uruguai de 1965, aconteceu no estádio do Mineirão e foi comandado pelo árbitro brasileiro Eunápio de Queiroz, com um público de quase 50 mil pessoas e renda de Cr$49.162.125,00. A seleção Uruguaia até tentou, mas foi superada pelo Palmeiras por 3 a 0 em um jogo que marcou a história do futebol mundial.
A conquista ficou marcada na história de títulos e conquistas do verdão. Os gols do embate foram marcados pelo ponta esquerda Rinaldo e o atacante Tupãzinho: o primeiro aos 27’, depois do juiz ter marcado uma penalidade máxima e o segundo aos 34’, finalizado dentro da pequena área, mesmo diante da reclamação dos uruguaios de um toque de braço do autor do gol um pouco antes do chute, quando ele caiu sobre a bola. No segundo tempo, Germano, que entrou ao longo da partida, marcou o terceiro gol.
“O Palmeiras um dia foi Brasil, e isso ninguém mais vai apagar”
Ademir da Guia
O passado estampado no presente
O Palmeiras lançou, em comemoração aos 111 anos do clube, comemorado dia 26 de Agosto, uma terceira camisa inspirada na data de 7 de setembro de 1965, apostando no amarelo em homenagem à Seleção Brasileira. O novo uniforme estreou na vitória do Verdão por 3 a 0 sobre o Sport em partida realizada no Allianz Parque pela 21° rodada do Campeonato Brasileiro.

A campanha “Palmeiras, meu Palmeiras” homenageia a paixão da torcida palestrina, que vai além dos limites do campo [Imagem: Divulgação/Palmeiras]
Composto pela camisa amarela, o short azul e meiões brancos com as faixas verde e amarela, o conjunto Alviverde remete ao design utilizado pela Seleção Brasileira de 65, representada pelo time do Palmeiras. O uniforme do Palestra contém detalhes visuais marcantes, como o alto relevo frontal que reforça o título de “Maior Campeão do Brasil” que traz tanto orgulho aos torcedores palmeirenses. A camisa também foi feita em gola V, que remete ao mesmo detalhe utilizado em 65.
*Foto de capa: [Reprodução/ Site Oficial do Palmeiras]
