Por Gabriela César (gabriela.oliveiracesar@usp.br) e Mariana Pontes (mariana.kpontes@usp.br)
Na manhã de terça-feira (23), o Auditório Freitas Nobre da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, recebeu a terceira mesa da Semana do Jornalismo, com a participação de parte da equipe do podcast Café da Manhã. Parceria da Folha de S. Paulo com o Spotify, o podcast acumula mais de 119 milhões de streams desde a sua criação, em janeiro de 2019. Referência na área, seus episódios buscam trazer notícias e análises sobre os assuntos mais relevantes no Brasil e no mundo, sempre de forma objetiva.
O podcast é apresentado pelos jornalistas Magê Flores, Gabriela Mayer e Gustavo Simon – os dois últimos assumiram o comando do programa ao lado de Magê em janeiro de 2023 e foram os convidados da mesa, com mediação de Victor Gama. Além deles, também esteve presente Raphael Concli, jornalista formado pela ECA-USP e editor de áudios da Folha de S. Paulo.

Os convidados
Gabriela Mayer é formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A comunicadora já passou pela TV Gazeta, Record News, TV Cultura, BandNews e Revista AzMina. Além disso, é criadora da plataforma literária Põe na Estante e co-fundadora da Rádio Guarda-Chuva. Em 2023, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog pela matéria “A Cova Rasa do Brasil”, publicada na Revista Piauí.
Em sua migração para o áudio, Mayer destaca como característica importante para a transmissão da notícia o teor das perguntas que o jornalista realiza. Apesar de não ser um especialista, deve realizar questionamentos coerentes aos entrevistados, de tom relevante para a audiência e ser um tradutor das informações sem ser condescendente com os ouvintes.
O outro apresentador, Gustavo Simon, possui bacharelado em Comunicação Social também pela Faculdade Cásper Líbero. Com experiência em reportagem, produção e edição no Grupo Abril durante seis anos e passagem por alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros, foi em 2013 que iniciou seu trabalho na Folha de S. Paulo e, em 2023, tornou-se apresentador do Café da Manhã.
Simon possuía uma carreira estabelecida no jornalismo gastronômico, especialmente em edições de texto. Foi assim que entrou em contato com a Magê, apresentadora do Café da Manhã, que, após a saída de outros dois apresentadores, o convidou para participar do podcast. Trabalhando com esse formato, Simon ressalta como passou a realizar um jornalismo mais coletivo. “A produção de podcast, especialmente a produção do Café, é muito coletiva, o que é muito bom. Foi uma das melhores surpresas que eu tive de migrar”.
Raphael Concli, também presente na mesa, é mestre em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e ex-integrante da Jornalismo Júnior. Ele iniciou sua trajetória na Folha em 2022 e, hoje, trabalha na edição de áudio de podcasts no mesmo veículo – função compartilhada com Thomé Granemann no Café da Manhã.
Para Concli, o jornalismo veio como sua segunda graduação. “Saber o que preservar do mundo de que eu tinha vindo para conseguir aproveitar isso no novo mundo onde estava entrando” é o que ele diz sobre sua mudança de um meio que tendia para o acadêmico para outro tipo de rotina.
Dia a dia no programa
Toda segunda-feira, o Café da Manhã participa de uma reunião da Folha com todos os editores para decidir as notícias da semana. Então, toda manhã, uma equipe de jornalistas levanta pautas prévias: “Chegamos no jornal entre meio-dia e uma da tarde e, então, batemos o martelo [sobre qual será o tema da gravação] e partimos para a feitura do episódio em si”, conta Simon.
Os processos de apuração, preparação e produção podem ser frenéticos principalmente com assuntos relevantes e recentes. No decorrer da tarde, os apresentadores entrevistam as fontes, roteirizam o episódio e gravam as suas partes do episódio, enquanto os editores tratam os áudios para que a faixa final possa ser ouvida, avaliada e, após aprovação dos “ouvintes da redação”, estar pronta para ser postada nas plataformas de stream.
“A parte boa e também ruim de realizar um produto diário, é ter outro para produzir no dia seguinte.”
Gustavo Simon
Os episódios, por mais que planejados e discutidos, são sempre dependentes dos acontecimentos imprevisíveis do mundo. Quando surgem pautas mais “quentes” e, portanto, urgentes e que precisam sair no próximo episódio, a equipe substitui a discussão anterior , mesmo que o episódio já tenha sido gravado. Simon contou sobre o episódio gravado no dia 5 de outubro de 2023, em que a milícia no Rio de Janeiro matou três pessoas por engano, gravado na sexta para ser postado na segunda, e no fim de semana ocorreu o ataque do Hamas a Israel – que se tornou o assunto final do podcast no dia 10 de outubro.
Para decidir quais assuntos serão tratados em cada um dos episódios, Mayer compartilhou que a equipe divide as possíveis pautas em três categorias: as quentes, as mornas e as frias. As primeiras são aquelas inescapáveis do podcast: “É o que é manchete. Não tem como não falar disso”, comentou a jornalista. Do ponto de vista da edição, Concli diz que não é possível realizar muitas variações estéticas nesse tipo de produto, como edições mais elaboradas e narrações criativas.
As mornas são as que estão ligadas ao que está acontecendo no mundo, servindo de um tema para iniciar uma dissertação: “recentemente, a gente fez um episódio discutindo o que é soberania. Isso era uma discussão que estava no noticiário, mas a gente não fez uma discussão sobre isso nesse episódio”, exemplifica Mayer. Já os temas frios podem ser feitos a qualquer momento e eles são especialmente importantes para realizar uma discussão crítica mais profunda, que não é possível ser feita com a mesma complexidade em episódios curtos.

Decidido o assunto, é preciso ir em busca das fontes. A equipe compartilhou que a escolha dos entrevistados é sempre um desafio. Por serem produções diárias e que exigem velocidade, há uma tendência a repetições de entrevistados, como especialistas, acadêmicos e, até mesmo, outros jornalistas. Há, por outro lado, uma tentativa deles de diversificar as vozes e as pessoas que são ouvidas nos debates diários.
“É um ponto de muita angústia para mim porque a necessidade de fazermos o podcast funcionar não pode ser uma justificativa para a falta de diversidade”, destaca Mayer sobre a busca por fontes plurais para participar dos episódios. Ela explica que as pessoas que costumam conceder entrevistas em suas rotinas respondem mais rapidamente e com uma melhor oratória – o que facilita o planejamento das edições.
Lições do Café para a vida
A tomada de decisão rapidamente e o desapego são os dois aprendizados que Concli destaca em sua carreira como jornalista. Gustavo Simon concorda com o colega: “Acho importante que a gente tome as decisões e as banque. As escolhas que fazemos de tema, de episódio, de caminho de entrevista”.
Em relação à edição, diz que é preciso aprender os fundamentos do programa Essa habilidade lhe dá a capacidade de ganhar uma certa autonomia criativa, expandindo o limite de sua liberdade de direcionamento da produção. Mais do que sobre as lições obtidas com o trabalho de hard news, Mayer destaca a coletividade presente no Café da Manhã. Para ela, é de extrema importância essa troca para a construção dos episódios, especialmente com as avaliações dos colegas de equipe sobre os roteiros, entrevistas, entre outros.
“O que me deixa feliz, ao final do Café, é aprender uma coisa nova. Toda vez que um entrevistado diz algo e eu penso ‘nossa, eu não tinha pensado nisso’, é algo que me realiza.”
Gustavo Simon
O que o público quer saber?
Ao final da mesa, o público pôde realizar perguntas aos palestrantes. Entre as dúvidas, foi questionado como é possível melhorar o podcast, ainda que realizando um programa diário e intenso. Para isso, os participantes do podcast se reúnem, em geral semanalmente, para falar, ouvir e analisar os pontos de produção, edição, ideias de pautas – além de escutar outros podcasts e trazer referências externas –sejam elas éticas, editoriais, temáticas, entre outras.

Em um segundo momento, trataram da voz como instrumento de trabalho e Mayer contou que não há uma preocupação muito grande quanto a isso – por mais que ela já tivesse encontros com um fonoaudiólogo em sua época de estágio, os quais a ensinaram sobre as diversas possibilidades de sua voz Ainda que hoje sua preocupação com isso seja menor, ela destaca que “a voz é muito representativa sobre nós, ela cria laços impressionantes”.
Mayer ainda explicou como consegue equilibrar o consumo de notícias para a produção do podcast e os assuntos que interessam para a sua vida pessoal. Segundo a jornalista, é aos finais de semana em que ela consegue se manter mais distante das notícias e consumir menos informações, possibilitando uma rotina menos desgastante.
[Imagem de capa: Hellen Indrigo/Jornalismo Júnior]
