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A psicologia na discografia do BTS

As músicas do BTS, com coreografias e ritmos viciantes, possuem, por trás, uma profundidade psicológica importante a ser analisada e explicada

Kim Namjoon, Kim Seokjin, Min Yoongi, Jung Hoseok, Park Jimin, Kim Taehyung, Jeon Jungkook, BTS! Essa fanchant — frase utilizada pelos fãs em determinadas partes do show ou das músicas, pertence ao famoso Bangtan Sonyeondan, conhecido também como BTS. Esse grupo possui 7 integrantes, todos os citados na fanchant, e é mundialmente famoso pelas suas músicas do gênero K-popPorém, suas músicas não ficam apenas na superficialidade dos temas, como amor, amizade e relacionamento. As letras de sua discografia possuem um conteúdo profundo do ponto de vista psicológico, mesmo quando não têm a intenção. O álbum Proof, lançado dia 10 de junho, é a primeira antologia do grupo, trazendo diversas músicas dos álbuns passados. A reunião dessas canções ajuda a entender a relação das letras do BTS com a psicologia.

Neste texto, o Laboratório vai analisar e explicar os temas presentes em alguns álbuns do BTS envolvidos de forma direta ou indireta, proposital ou não, com a psicologia.

Mas, antes de começar, o que é a psicologia?

A psicologia é a parte da ciência que estuda o comportamento humano e os questionamentos que aparecem durante a vida. Por isso, é muito comum se identificar com os temas que serão abordados nesta matéria.

Antes de nos aprofundarmos e pesquisarmos a tradução dessas músicas coreanas, há um interesse já na musicalidade.

 

“Todas as músicas que eu ouço deles eu sinto alguma coisa, eles passam alguma coisa de primeira.”

 

Luana Amorim, advogada e influencer conhecida pela sua presença no mundo B-Army — como são chamados os fãs brasileiros do BTS — relata: “Primeiro eu gostei do som da música, eu colocava a playlist no aleatório no YouTube para ficar arrumando a casa. Aí eu comecei a me perguntar  ‘mas o que que fala essa música?’ Só entendia o saranghae (“Eu te amo”, em coreano). Então, comecei a pesquisar, fiquei muito encantada pelas letras das músicas deles.”

Conforme estudos, como o realizado pelo Centro Universitário de Maringá (Weigsding & Barbosa, 2014), a música influencia os nossos comportamentos e emoções, porém, eles também influenciam-na. O artigo “A Relação da Preferência Musical Com os Cinco Grandes Fatores da Personalidade” busca explicar como nossa personalidade, baseada na teoria dos Cinco Grandes Fatores, reflete diretamente na nossa preferência musical. A teoria identifica cinco fatores centrais para a personalidade: a Extroversão (traço de tendência à comunicação e ao entusiasmo); Sociabilidade (nível de socialização); Escrúpulo (características que remetem à responsabilidade e à honestidade ou à negligência e à irresponsabilidade); Neuroticismo (compreende os aspectos positivos e negativos, como a ansiedade e a estabilidade emocional) e Abertura à Mudança (engloba a flexibilidade de pensamento, a fantasia e a imaginação). Assim, no artigo, a conexão que sentimos de primeira com uma música é feita com base nessas características intrínsecas ao ser e, se gostarmos de ouvi-la, há a liberação do hormônio dopamina, relacionado a sentimentos, como o amor, ou a situações cotidianas, como cumprir uma meta. Essas são algumas das respostas do porquê gostamos das músicas.

Agora, vamos continuar com o foco nas músicas, mas… nas do BTS!

 

imagem da banda BTS
Concept Photo do álbum You Never Walk Alone do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

A primavera que nunca chega

Em Spring Day, temos como tema principal a saudade. A saudade é uma palavra que só existe no português e já foi considerada a sétima palavra mais difícil de ser traduzida do mundo conforme a empresa britânica Today Translations. Porém, mesmo que ela só exista no nosso idioma, a emoção transmitida pela música merece esse termo. 

A psicóloga e psicanalista Iara Stabler comenta que a saudade, tal qual a presente na música, relaciona-se à presença incessante da ausência. “A saudade é uma resposta afetiva, como o amor, a culpa e a ausência. Ela está imbuída de muitos afetos”, diz a profissional. A afetividade, para a psicologia, abrange de modo complexo e dinâmico a emoção e o sentimento. A emoção está relacionada a alguma mudança no corpo, na maioria das vezes, momentânea. Já o sentimento é um estado psicológico de longa duração, acompanhado de uma dimensão subjetiva. Com essa combinação, a afetividade faz com que seja conferido um sentido especial às vivências e às lembranças. Nesse caso, “A saudade é a falta, é o sentimento bom, é o sentimento ruim”, analisa a psicóloga. A coexistência de afetos bons e ruins em uma única “sensação” pode parecer paradoxal, mas é o que torna a saudade tão bonita e interessante.

 

capa de álbum
Concept Photo do álbum The Most Beautiful Moment in Life, Part 2 do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

Uma maratona eterna

“Por favor, me faça correr mais/ Mesmo com os meus pés cheios de cicatrizes”. Esse trecho traduzido da música Run indica uma dependência emocional tão grande a ponto de você se machucar por conta da perseguição da atenção do outro. Iara coloca que essa relação de dependência é uma questão afetiva importante: “O que leva uma pessoa a fazer esse laço com o outro, onde ele se coloca nesse lugar e como a relação afetiva acaba indo por esse caminho?”. Na música, vemos que o indivíduo não faz nem mesmo esse processo reflexivo e mantém o pensamento de “É tarde demais, tarde demais, eu não consigo viver sem você”.

Estudos observam que os sentimentos amorosos utilizam as mesmas vias neurais que substâncias psicoativas, ativa o “sistema de recompensa” do cérebro e cria sintomas de dependência similares. Esse sistema consiste no processamento da informação relacionada à sensação de prazer ou satisfação, encontra-se próximo ao “sistema do vício” e, novamente, o hormônio dopamina entra na história como regulador ou viciante. Além disso, a dependência também é a permissão de que outros indivíduos afetem suas sensações e emoções e, assim, influenciem tanto nos sistemas cerebrais quanto nas decisões futuras relacionadas ao crescimento da pessoa, como a psicóloga afirma: “O outro não é tão maior assim, mas o medo de estar desamparado e sozinho é tão grande que você o coloca nesse lugar. Como se ele pudesse suprir isso”. A maior dificuldade está em fazer a reflexão e se libertar desses ciclos viciosos e, por isso, esses questionamentos irão te auxiliar na busca pelo amadurecimento emocional.

 

capa de álbum BTS
Concept Photo do álbum Love Yourself: Answer do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

Eu estou bem

Sabe quando seu amigo pergunta como você está e você responde “Ah, estou bem” mesmo sem estar? I’m fine trata exatamente desse sentimento de precisar “estar bem”. Quase como uma positividade tóxica, a qual representa a crença de que as pessoas sempre precisam pensar positivo e estarem felizes mesmo em situações ruins. Os versos dessa canção tentam passar uma sensação de tranquilidade, quando, na verdade, se está sofrendo. Isso é comum e as causas são variadas: não preocupar o outro, transparecer felicidade ou, até mesmo, tentar se acostumar com essa falsa sensação de estar bem. 

Na ciência existe a psicologia positiva, que foca nas experiências, traços e estados positivos em vez de apenas tratar os ruins. Sua diferença para a positividade tóxica está no grau de valor dado a essas positividades. Enquanto a toxicidade planeja suprimir o ruim de maneira forçosa e impor uma falsa felicidade, a psicologia positiva trabalha com a priorização do otimismo e o que fazer para melhorá-lo. Assim nos versos “Vou dizer isso a mim mesmo várias vezes/ Mesmo se eu cair de novo/ Eu estou bem” está explícita a positividade tóxica, a qual deve ser trabalhada, por meio da psicologia positiva, para que a felicidade não seja tratada como obrigação, e sim como um trabalho de reflexão e amadurecimento.

 

capa de álbum
Concept Photo do álbum O!RUL8,2? do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

Todos, digam não! 

O dinheiro é a principal engrenagem que move o mundo e, na teoria, ele só é adquirido com trabalho e estudo. A cultura coreana é extremamente rígida quanto à questão da educação e, muitas vezes, é excessiva em relação à pressão que coloca nos estudantes. A música N.O trata desse aspecto, porém, nossa interpretação não precisa se limitar apenas à escola. No verso “Não viva preso nos sonhos dos outros”, podemos expandir os horizontes e analisar, até mesmo, o nosso cotidiano. Essa adequação aos desejos da sociedade atual, que são, muitas vezes, ruins e obrigatórios, limitam o espaço para as escolhas individuais. A pressão social é um fator importante para sabermos da nossa capacidade de desejar e se estamos fazendo isso por nós ou pelos outros. “A gente vivencia isso o tempo todo, então, para que você faz algo? Faz para teu pai, tua mãe, para quem está olhando, para chamar a atenção. Quando a pessoa faz essa pergunta ela está num lugar muito reflexivo e bastante angustiante, porque você se põe em questão. Quem sou eu? O que eu estou fazendo no mundo? Passamos pela vida sofrendo o tempo todo. Se tivermos condições de analisar isso, podemos fazer algumas mudanças de local se ela [a pessoa] tiver coragem de enfrentar toda essa expectativa e investimento do outro.”

A fala da psicóloga coloca temas como a pressão e a angústia em pauta numa sociedade sufocante. No artigo “Opiniões e pressão social”, procura-se analisar até onde vai o domínio dessa pressão. Ao realizar experimentos, concluiu-se que, diante de uma opinião predominante, poucos conseguem manter suas opiniões iniciais e vários submetem-se às outras, mesmo quando  a maioria está  errada. A angústia entra nesse caso de complacência e é responsável pelo questionamento do que é imposto. Ela é tratada como uma sensação ruim, porém, no âmbito psicológico, é indispensável para a nossa formação e aprendizado. Assim, a escolha do seu sonho deveria depender de você e a pressão social, como a descrita na música, não deve ser um impeditivo, mas sim um combustível para se colocar contra e dizer não. Isso é importante pois, como Luana disse, “a gente sempre se motiva a fazer algo por conta dos nossos sonhos”.

 

capa map of the soul BTS
Concept Photo do álbum Map of the Soul: Persona do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

Andando em círculos 

Jamais Vu, traduzido do francês como “nunca visto”, é o nome da música. Ele significa o oposto do famoso “Deja Vu” e tem relação com a quebra da memória, ou seja, até as coisas mais cotidianas serão percebidas como novas. A repetição dos mesmos erros tem relação com esse conceito, em que cada erro repetido seria tido como novo. A incapacidade de avançar e, por isso, o desejo de que nada seja real, mostra um tipo de escapismo. 

No viés psicológico, o escapismo remete a uma forma de defesa. Ele é um mecanismo de prevenção que busca escapar de problemas recorrendo, na maioria das vezes, à fantasia. “Eu estaria melhor se isso realmente fosse um jogo” é o verso que explicita essa vontade de desaparecer com os problemas, mesmo que a criação de um imaginário só traga mais obstáculos. “Não é uma forma saudável. Você se isenta de arcar com o preço da mudança”, afirma Iara sobre o escapismo. Ela também explica sobre a incapacidade de mudar e a relação com essa defesa psicológica: “Você escolhe ficar nesse lugar, que ele não é bom e ele te faz sofrer, mas você não tem forças para largar isso e ir para um desconhecido”. É assim que as pessoas criam esse mecanismo de defesa devido a ilusão de que, se não mudarem de lugar, estarão protegidos. Por mais que encarar a realidade seja difícil, a ida a um mundo paralelo e imaginário traz mais problemas ainda.

 

love yourself: her
Concept Photo do álbum Love Yourself: Her do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

Tudo nas mãos do destino

A música Serendipity, traduzida para o português como “Acaso”, coloca a questão do destino em pauta. Por mais que a música não aborde de maneira direta sobre isto, colocar a responsabilidade das coisas no destino é problemático. Na psicologia do destino, o conceito pode ser dividido em: destino coercitivo, que não podemos controlar, como a genética e o idioma; e o destino livre, que representa o impulso para a liberdade, como o que comer, vestir, pensar e muitas outras coisas passíveis de escolha.

Porém, para o senso comum, o destino seria uma realidade maior que não temos acesso e na qual tudo que ocorre é premeditado. Seguindo essa lógica, caso façamos uma escolha ruim, não teríamos que arcar com a responsabilidade dela, pois seria “obra do destino”. Isso é uma problemática, mas a psicologia auxilia exatamente nesse processo: o amadurecimento do indivíduo para que ele consiga lidar com essas consequências e não fique estagnado. Assim, Serendipity traz o destino em seus versos “Talvez seja uma providência do universo/ Tinha que ser assim” e, embora não aborde sobre a responsabilidade, ela nos dá margem para explorar tal conceito.

 

map of the soul: 7 BTS
Concept Photo do álbum Map of the Soul: 7 do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

O baile de máscaras 

“Eu me tornarei qualquer coisa para você/ Você pode escolher e usar um de mim, sim?” Esse é o principal enfoque de Filter ou Filtro, em português, uma música solo de Jimin. Mudando um pouco para a psicanálise, a qual estuda de forma prioritária o nosso subconsciente, a letra é baseada no conceito de persona do psiquiatra e psicoterapeuta Carl G. Jung. Ele se refere ao uso de uma máscara, também chamada de filtro, que corresponde a nossa adequação ao que as outras pessoas querem ou esperam de nós. “Qual de mim você quer?” é um dos versos mais marcantes da música e deixa claro a adaptação com relação às preferências alheias.

As diversas personas criadas a depender da situação são de extrema importância na convivência. O papel delas é de representar a individualidade no contexto social, porém, é necessário cuidado para não dar mais valor ao que o outro pensa do que ao seu próprio eu.

 

love yourself answer BTS
Concept Photo do álbum Love Yourself: Answer do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

Demora, mas a libertação vem

O amor-próprio é um tema muito tratado atualmente. Muitas vezes, como na música Run, nós nos machucamos por outras pessoas, superando até mesmo nosso instinto de autoproteção. A música Epiphany, uma solo de Jin, remete à palavra epifania, que significa “momento súbito de revelação”. A canção começa com o questionamento de um amor que, assim como o retratado em Run, é obsessivo e doloroso e, a partir da reflexão, a epifania ocorre. A percepção da necessidade de amar a si mesmo passa a ser o foco principal e pelo o que o eu lírico vai lutar agora.

A psicologia entende o amor-próprio como a aceitação das próprias escolhas, fracassos, conquistas, enfim, da plenitude interior. Ele tem muita relação com o amadurecimento e o autoconhecimento, além do entendimento de que podemos melhorar a partir do momento em que nos acertamos com as imperfeições que temos. Não devemos colocar o outro num patamar tão alto a ponto de superar o apreço que temos por nós mesmos. A psicóloga analisa: “Nossa condição é de ser só. Os laços são muito importantes, somos seres sociais, e isso é muito saudável. Eles deixam de ser saudáveis quando você passa a acreditar que, sem esse outro para dar sentido, você é um vazio.  Saber que na essência, é você com você mesmo. Você pode ter uma parceria com o outro, mas antes disso você precisa se conhecer”. Essa mensagem veiculada pela canção deve ser seguida em todas as relações e, caso duvide de sua capacidade, ouça o Namjoon: “Vocês devem se amar”.

 

foto banda BTS
Concept Photo do álbum Map of the Soul: 7 do BTS [Imagem: Divulgação/BigHit]

 

Um novo dia muda tudo

Após reflexões profundas sobre os temas que circulam pelas nossas vidas, desde a saudade mais profunda até à libertação, I’m fine ainda perpetua e nós não estamos bem. Porém, mesmo assim, o BTS já dizia na música 00:00: “Meia-noite e você será feliz”. Essa é uma mensagem de esperança, para vermos a saudade como algo bom, que traz memórias e nos faz amadurecer; perceber que a pessoa que você precisa correr atrás é você mesmo — nem que o Jin precise pegar o piano e cantar Epiphany para você; aceitar não estar bem e aprender a lidar com os obstáculos; dizer não àqueles que te limitam e acreditar nos seus sonhos; parar e pensar no que está te prendendo no mesmo lugar, tomar cuidado com o destino e ser e amar quem você é.

“Não podemos nos perder no sonhos, mas essa possibilidade que a gente tem de sonhar, de querer mudar, de querer ser melhor, isso é muito humano. Freud dizia uma coisa bem bonita, ele dizia que quando você acreditar que já tem tudo e não precisa de mais nada, você morre”, diz Iara. Na psicologia, a esperança é considerada uma emoção antecipatória positiva e, para os ARMYs, como são chamados os fãs do BTS, é a mensagem dessa música que representa essa emoção.

 

“Me motiva muito saber que amanhã é um novo dia, sabe? O recomeço sempre vai vir, então, se o dia não foi bom, vai ter um próximo dia; se o dia foi bom, eu vou poder esperar por um dia melhor ainda amanhã”

 

“Fala sobre muita gente”, comenta Luana sobre a música 00:00. Porém, essa colocação se estende para todas as músicas abordadas nessa matéria porque representa o sentimento que temos ao ler as letras do BTS. Nós nos identificamos com elas pelo fato de tratarem de temas direta ou indiretamente psicológicos. A psicologia está em todos os lugares e não seria diferente nas músicas do BTS. Talvez, parte do sucesso deles até se dê por essa relação, além dos belos videoclipes e das incríveis e sincronizadas coreografias.

Com o mais recente álbum, podemos entender o peso das letras desse grupo mundialmente famoso e que faz com que milhões sintam o que Luana sente: “O BTS me motiva a ser uma pessoa melhor, ter esperança de que posso ser melhor.”

1 comentário em “A psicologia na discografia do BTS”

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