Por Ana Alice Coelho (anaalice.coelho@usp.br)
Durante a tarde do dia 5 de abril aconteceu o debate aberto sobre o documentário Minha Terra Estrangeira (2025), que sucedeu a primeira exibição aberta ao público em São Paulo. A mesa mediada por Amir Labaki contou com a presença de Txai Suruí, ativista indígena de Rondônia, o diretor João Moreira Salles, Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy. A sessão de exibição e debate aconteceu de forma gratuita no espaço do CineSesc.
O filme narra a campanha de Almir Suruí, ambientalista e líder do grupo indígena Suruí-Paiter, durante os 40 dias que antecedem as eleições de 2022, em que concorria ao cargo de deputado federal por Rondônia. Ao mesmo tempo, acompanha a história de Txai Suruí, filha de Almir e ativista de alcance internacional em sua luta por visibilidade e igualdade indígena e ambiental.
Após a exibição do documentário, Amir Labaki, fundador e diretor do Festival É Tudo Verdade, iniciou o debate aberto. João Moreira Salles, produtor e diretor do filme, comentou sobre como inicialmente seriam feitos dois filmes separados, contando a história do pai Almir Suruí e a história da filha Txai Suruí, respectivamente. Depois que decidiu-se pela junção das duas obras, ocorreu a enriquecedora colaboração entre Louise Botkay, o Coletivo Lakapoy e Salles.

Txai lembrou que um dos principais empecilhos durante a produção do filme aconteceu pela edição da linha temporal do documentário. A ativista comenta que a ordem cronológica do filme não passava a mensagem que ela e o Coletivo Lakapoy queriam transmitir ao mundo. “Para nós [coletivo Lakapoy], quando a gente viu o filme e a gente ainda estava vivendo tudo isso, a violência ainda não parou, a gente ainda tinha muita luta pela frente, não tinha como terminar o filme feliz. Aí a gente falou ‘não, tá errado isso aí João’”, afirma Txai.
“O nosso tempo é circular, pois sempre volta para a nossa ancestralidade”
Txai Suruí
Txai ainda denuncia as constantes depredações das terras indígenas não só de Rondônia, mas de todo Brasil. “Não dá para falar de justiça climática ignorando a situação das terras indígenas do Brasil, sem falar em demarcação dos territórios indígenas, sem falar desse racismo institucional, sistemático e estrutural que a gente ainda vive”. Depois das eleições de 2022, Almir Suruí ainda se candidatou a prefeito, mas também não foi eleito.
Ubiratan Suruí, um dos participantes do Coletivo Lakapoy, relembra que Salles chegou a mostrar cerca de 4 edições diferentes para o coletivo, e todas foram consideradas erradas, atrasando o lançamento do filme. Ainda assim, Ubiratan agradece João Moreira Salles pela oportunidade de espaço na narrativa, enfatizando que desde o princípio existiu ao longo da produção do documentário respeito por ambas as opiniões de todos os colaboradores. “Acho que uma das partes mais importantes do filme é que foi uma construção de uma narrativa coletiva”, alega o participante do Coletivo Lakapoy.
“A nossa arte também é pela luta”
Txai Suruí
Louise Botkay celebrou a parceria afetuosa com o coletivo durante as gravações do documentário, em que ambos trabalharam em conjunto para gravar o filme do pai enquanto João Moreira Salles gravava o filme da filha. Como começaram as gravações depois do início da campanha eleitoral de Almir, Louise e o coletivo tiveram que correr contra o tempo e chegaram a percorrer mais de 8.000 quilômetros. “Eu encontrei um coletivo que tinha um enorme desejo, e eu cheguei com um enorme desejo. E a gente tinha recurso e instrumento para fazer esse filme”, diz a cineasta.
Após o debate entre os participantes da mesa, Amir Labaki abriu espaço para perguntas do público, sendo elas três no total. Após as respostas dos integrantes do debate, Amir agradeceu a participação de todos e a sessão foi oficialmente encerrada.
*Imagem de capa: Acervo Pessoal/Ana Alice Coelho








