Por Davi Milani (davimilanip@usp.br), Letícia Oliveira Menezes (leticiaomenezes@usp.br) e Nina Nassar (niiina@usp.br)
No dia 10 de julho de 2005, o vôlei masculino vencia em Belgrado a Sérvia e Montenegro, o time da casa, e se sagrava campeão da Liga Mundial de Voleibol. Não uma, nem duas, nem três, nem quatro: cinco vezes campeão, feito até então apenas conquistado pela Seleção da Itália. Sem saber que muito ainda venceriam em conjunto, o pentacampeonato representou a consolidação de um time histórico.
Olhando para trás
Campeã em 1993, 2001, 2003 e 2004, a seleção brasileira chegou de maneira brilhante para conquistar o pentacampeonato da Liga Mundial de Vôlei. Comandados por Bernardinho, técnico recordista em tempo na liderança do time e tricampeão da competição até então, os atletas estavam dispostos a repetir as atuações dos últimos anos e conquistar mais um troféu para a vasta galeria.
Em retrospecto, o time em 2003 conquistou a Copa do Mundo, a Liga Mundial, Campeonato Sulamericano e conseguiu o terceiro lugar nos jogos Pan-americanos. Já em 2004, o ano foi marcado por dois dos principais títulos do esporte: o ouro olímpico nos jogos de Atenas e o tetra na Liga Mundial, sendo esse último invicto.
O Brasil bateu a Itália por 3 sets a 1 e conquistou sua segunda medalha de ouro da história [Imagem: Reprodução/X: @timebrasil]
Inspirados com os resultados das últimas temporadas, o coletivo manteve consistência para conquistar três títulos em 2005, em especial o pentacampeonato, em que o time sofreu apenas uma derrota em 15 jogos.
O elenco e os destaques
A seleção sempre contou com diversos nomes de prestígio no time, que juntavam o talento individual com o espírito de coletividade para buscar sempre mais pontos e vitórias nas temporadas. Em 2005, jogadores como Giba, Serginho e Ricardinho se destacaram por tais características.
Giba
Estreante em 1995 com a camisa verde e amarela, Giba foi um atacante de ponta com muita velocidade e agilidade. Com ele, a seleção nunca ficou de fora de um pódio: foram 25 ouros (sendo oito deles na Liga Mundial), seis pratas e cinco bronzes. Além das conquistas em equipe, Giba foi eleito seis vezes o melhor jogador de vôlei de uma competição, o MVP, e entrou no Hall da Fama do Voleibol em 2018.
Giba foi eleito o melhor jogador de voleibol masculino nas Olimpíadas de Atenas [Imagem: Reprodução/X: @timebrasil]
Serginho
Apelidado de Escadinha, uma alusão ao famoso traficante carioca que se assemelhava ao jogador pelo jeito “malandro” de falar, o jogador é considerado um dos maiores da história em sua posição em todo tempo que atuou: cometia poucos erros e passava muita segurança ao lado brasileiro da quadra. Além de ser excelente na recepção e nos peixinhos, Serginho podia desempenhar a função de segundo levantador em situações adversas.
Escadinha é dono de quatro medalhas olímpicas, sendo duas de prata e duas de ouro [Imagem: Reprodução/X: @timebrasil]
Ricardinho
O levantador de 1,92m de altura tinha jogadas rápidas e imprevisíveis, deixando os adversários sem reação com o tempo de bola. Conseguia ter a precisão necessária para deixar a bola na melhor condição para que os atacantes matassem a jogada. Por muito tempo, sua melhor dupla foi Giba — ambos faziam jogadas que deixavam os oponentes apenas olhando.
Bernardinho
Não só de bons jogadores é formada uma equipe campeã; é necessário que o comando seja eficiente para que o coletivo sobressaia e possa vencer jogos e campeonatos. Bernardo Rezende, que coordenou a Seleção entre 2001 e 2017 e voltou a comandar a equipe a partir de 2023, é um exemplo disso.
O abraço entre Bernardinho e Bruninho, seu filho e levantador da Seleção [Imagem: Reprodução/X: @timebrasil]
Ao longo desse período, Bernardinho juntou talentos e como resultado, conquistou 33 títulos pela equipe masculina e nove com a Seleção feminina, sendo considerado um dos maiores técnicos da história do esporte.
O caminho ao título
O Brasil domina o esporte desde 2001, quando o técnico Bernardinho assumiu a equipe. Nos últimos anos, a seleção ganhou a Liga quatro vezes (foi campeã em 2001 e vice em 2002, além dos três últimos anos), do inédito Campeonato Mundial de 2002 e da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em agosto do ano anterior.
O caminho para o título iniciou-se na fase de grupos: com Portugal, Japão e Venezuela, a Seleção se classificou em primeiro, com 23 pontos. A campanha de 2005 foi quase perfeita. O Brasil ganhou 14 dos 15 jogos que disputou, com a única derrota sendo diante de Portugal, na cidade de Almada, no começo da primeira fase.
Os classificados para as semifinais foram Brasil, Cuba, Polônia e Sérvia e Montenegro. A Sérvia avançou para a final diante da Polônia por 3 sets a 2, e o Brasil conseguiu sua vaga vencendo Cuba por 3 sets a 1.Após passar pela seleção cubana em um jogo sem grandes sustos, a equipe brasileira, na final, venceu a Sérvia e Montenegro por 3 sets a 1, com parciais de 14-25, 25-14, 25-19 e 25-16.
A final
A final começou com uma surpresa: Nos primeiros 15 minutos de jogo, a Sérvia abriu a diferença de 12 a 5 sobre o Brasil. Bernardinho pedia tempo, mas nada funcionava para a Seleção brasileira. Com grande facilidade, a Sérvia fechou a parcial em 25 a 14, com um ataque de Goran Vujević.
No segundo set, o Brasil voltou fortalecido. Com muitos bloqueios de André Nascimento, a nova disposição do time virou o jogo: fechou o set em 25 a 14. Depois disso, o jogo se tornou um atropelo. Em nenhum momento a Sérvia ameaçou reagir. Quando o Brasil elevou a diferença para 11 pontos, em um bloqueio de Gustavo, a esperança da torcida sérvia se esvaiu de vez e, os gritos, que começaram eufóricos, foram ficando cada vez mais silenciosos.
A transmissão da partida foi realizada pelo SporTV [Imagem: Reprodução/YouTube/Volleyball Library]
O time do Brasil foi vaiado até o final do último set, que terminou com o placar de 25 a 16, com um ataque de André Nascimento. Apenas no pódio, para o recebimento do troféu, os brasileiros receberam os aplausos da torcida. Dessa forma, a Seleção masculina consagrou a vitória do campeonato mundial de vôlei mais importante daquele ano e manteve a hegemonia no esporte.
A seleção pós-penta e a atualidade
A Seleção, que já era dominante, se tornou hegemônica. Após o pentacampeonato da Liga Mundial, o Brasil foi campeão olímpico, duas vezes campeão do Campeonato Mundial, três vezes campeão da Copa dos Campeões e mais quatro vezes campeão da Liga Mundial.
Em 2006, o Brasil ocupava o primeiro lugar no ranking da FIVB, com distância em pontuação para o segundo colocado. Durante a era Bernardinho, entre 2001 e 2016, a Seleção nunca esteve fora da final das Olimpíadas, conquistando, em quatro finais disputadas, dois ouros e dois vices.
Se na beira da quadra quem dominava era o técnico, em quadra, o destaque era Giba. Titular em quase todas as conquistas durante a era Bernardinho, Gilberto Amauri Godoy Filho conseguia se destacar entre um recorte de convocados que já continha os melhores jogadores. Entre Nalbert, Ricardinho, Serginho, todos grandes voleibolistas, o ponteiro se destacou e foi eleito, entre outras honrarias individuais, o melhor de todos os tempos no vôlei brasileiro, através de voto popular.
Quem viveu os tempos áureos dessa imbatível Seleção Brasileira tem dificuldade em reconhecer o vôlei hoje praticado. Em 2023, o até então técnico que substituiu Bernardinho após sua saída em 2017, Renan Dal Zotto, deixou o cargo após conquistar a classificação para os Jogos Olímpicos de 2024. Já pressionado no Pré-Olímpico, devido aos resultados recentes ruins daquela Seleção, como o primeiro vice da história no Campeonato Sul-Americano, Renan anunciou sua saída logo após conseguir a classificação.
Renan foi o primeiro técnico da história da Seleção Brasileira a perder o Campeonato Sul-Americano, com direito a 3 sets a 0 para a rival Argentina, em pleno solo brasileiro [Imagem: Reprodução/X: @volei]
Tendo como único título de destaque a conquista de uma Liga das Nações, em 2021, o ex-técnico tinha uma missão nada fácil de substituir Ricardinho, que tinha quatro finais olímpicas no currículo. Apesar da impraticabilidade de reunir novamente tantos craques em uma equipe, o desaparecimento de clubes formadores e a falta de investimento são fatores que impactam diretamente a realidade da Seleção, para além da opção técnica.
Após a saída de Renan, Bernardinho retornou para seu cargo de técnico em 2023, que ocupa até hoje. Apesar da extensa lista de títulos e feitos pela seleção, o cenário agora é diferente daquele com o qual o treinador acostumou-se a viver. Em 2024, nas Olimpíadas de Paris, o Brasil ficou fora de uma semifinal de Olimpíadas no vôlei masculino pela primeira vez em 24 anos.
Por 3 sets a 1, o Brasil foi derrotado pelos Estados Unidos e teve sua eliminação nas Olimpíadas de Paris sacramentada [Imagem: Reprodução/X: @timebrasil]
Reflexo da conjuntura atual do esporte, em meio a crises, a eliminação reforçou o mau momento da equipe brasileira. A única vitória do time na competição foi contra o Egito, equipe muito abaixo das grandes potências, que só se classificou pela existência da cota continental.
*Foto de capa: [Reprodução/X:@timebrasil]

