por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
Estreia nesta quinta-feira (22), o aguardado longa Marty Supreme (2025). No filme, o primeiro do diretor Josh Safdie em sua carreira solo, o jovem Marty Mauser (Timothée Chalamet) persegue, certo de sua realização, o sonho de se tornar o maior jogador de tênis de mesa – ou simplesmente ping-pong – do mundo.
Inspirado pelo livro de memórias The Money’s Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler (Morrow, 1974), uma biografia do mesa-tenista norte americano Marty Reisman, o cineasta Josh Safdie, já conhecido por seu trabalho com seu irmão, Ben Safdie, em aclamados longas como Jóias Brutas (Uncut Gems, 2019) e Bom Comportamento (Good Time, 2017), se encantou pela história e começou a desenvolver um roteiro sobre um jovem judeu que no cenário pós-Segunda Guerra Mundial enxerga no tênis de mesa uma oportunidade de seguir seus sonhos e se tornar alguém grande e poderoso. Apesar de inspirado na persona de Marty Reisman, Marty Supreme não passa de uma adaptação ficcional baseada na biografia do atleta.
Definitivamente caótico, o ritmo ansioso do filme se faz presente desde o primeiro momento, com cortes rápidos, uma trilha sonora estimulante que passa pelas mais diferentes décadas da música, cenas rápidas de uma história que se move com agilidade e situações que beiram o absurdo. Apesar de flertar constantemente com a fantasia ao situar o protagonista nas mais catastróficas situações, o longa mantém uma narrativa coerente e bem realista. Não é porque Marty Mauser é o protagonista que sai ileso das situações que ele próprio constrói em nome de seu tão sonhado sucesso.
Assistir a Marty Supreme é acompanhar uma narrativa movida por um grande sonho que, apesar de ambicioso e até inspirador, deixa um doloroso rastro por onde passa. O longa nunca situa seu protagonista como herói, muito pelo contrário, não teme em revelar ao espectador as maiores falhas de caráter de Mauser e a destruição que deixa na justificativa de sacrifícios, malabarismos e enganações que devem ser feitos em nome de seu grande objetivo.
Nesse sentido, Josh Safdie faz um ótimo trabalho como diretor e roteirista ao construir uma atmosfera tão charmosa e envolvente que, mesmo após momentos questionáveis do protagonista, é impossível desviar o olhar ou não se envolver com a trama. Em diversos momentos, a obra causa uma sensação real de ansiedade perante as catástrofes causadas e enfrentadas por Mauser, característica reforçada também por uma montagem frenética.
Tal mérito também se estende a Timothée Chalamet, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator na Categoria Filme de Comédia ou Musical. O ator vai do estado arrogante tão característico do personagem à fragilidade de uma criança indefesa em segundos, além de um timing cômico impressionante, que conversa muito bem com a narrativa do filme e o tom ácido que constrói perante um humor voltado a críticas sociais e à ideia do sonho americano.

[Imagem: Divulgação/Diamond Films]
Ambientando na década de 1950, mais especificamente em 1952, o filme se situa brilhantemente em um cenário marcado pelo pós-Guerra e seus efeitos. Esse êxito se destaca principalmente na fotografia, com a escolha de tons mais voltados a cores terrosas que transmitem bem a imagem e sensação do período, mas também se sobressai nos diálogos e até em momentos mais cômicos, que apresentam de forma sutil e gradual os resquícios de um mundo ainda carregado de antissemistismo. A origem do personagem, sua fé judaica e os horrores do holocausto são parte importante da narrativa, da vida de Mauser e daqueles que o cercam.
Apesar da carga cômica e caótica, Marty Supreme não desaponta quando atinge um patamar mais dramático. Em diversos pontos, as situações absurdas se tornam momentos de perigo iminente, transformando o clima até então frenético em opressivo e assustador. Nesses momentos, a natureza tumultuada e a seriedade de seu drama se mantém, culminando na construção de um longa que vai de um sentimento a outro de forma rápida e fluída, inserindo completamente o espectador em sua narrativa e contribuindo ainda mais para a sensação expansiva de se acompanhar uma história como a de Marty Mauser.
Marty Supreme conta com personagens coadjuvantes muito interessantes e de fato importantes para a narrativa. Sem eles, o personagem de Mauser não se move e jamais poderia alcançar sua aspiração, mas isso não altera o fato de que, acima de tudo, trata-se de um filme egoísta. Tudo gira em torno do protagonista, pouco se sabe ou se vê sobre a vida de outros personagens, coisa que também demonstra a competência dos roteiristas, Josh Safdie e Ronald Bronstein, da direção e a natureza cativante de Chalamet no papel, já que, com suas mais de duas horas de duração, o longa não cansa o espectador, que se mantém atento e envolvido até o momento final.
Como coadjuvantes, Gwyneth Paltrow e Odessa A’zion se destacam. No caso de Paltrow, que interpreta Kay Stone, uma atriz mais velha casada com um grande empresário, a personagem é mais contida, menos envolvida na vida pessoal e no dia a dia absurdo do protagonista, com uma presença mais distante em tela mas que, mesmo assim, causa uma forte impressão e revela parte do que está por vir na narrativa.
Odessa A‘zion, que interpreta Rachel Mizler, uma amiga de infância de Marty, é, por sua vez, uma personagem muito mais instável. Vinda do mesmo lugar que Mauser, ela é, à sua própria forma, uma malandra, indo da comédia ao drama extremo em uma atuação sútil que vai crescendo ao longo da trama, e acaba por se tornar uma das coisas mais chamativas do filme.
Uma característica interessante sobre o elenco de Marty Supreme é que parte dele não é composto por atores, mas sim pessoas fora da área escolhidas a dedo pelo próprio diretor. O exemplo mais emblemático disso está com o personagem de Milton Rockwell, um empresário essencial para um dos momentos mais marcantes do longa, interpretado pelo empresário Kevin O’Leary, conhecido mundialmente por integrar o elenco do reality show Shark Tank (AMC, 2009-presente).
O empresário foi convidado por Josh Safdie e, apesar de ser sua primeira vez como ator, desempenha um ótimo papel como uma espécie de antagonista da trama. Em partes por méritos da direção e outras por si mesmo, a presença de O’Leary em tela é de fato antagônica, sua natureza sádica é evidente e, ao decorrer do filme, os embates de seu personagem com o protagonista se tornam cada vez mais sufocantes e absurdos sem perder o tom contido e frio estabelecido em sua apresentação.

[Imagem: Divulgação/Diamond Films]
Outro grande feito de Marty Supreme é a forma como situa o espectador sobre o ping-pong. Não são necessários grandes conhecimentos sobre o esporte ou sua história para acompanhar o longa, que se dá ao trabalho, de forma sútil, de apresentar conceitos, competições e diferentes formas de se praticar o esporte.
Isso, claro, sem nunca tratar sua audiência como incapaz ou desatenta, confiando completamente nas habilidades do espectador para acompanhar os jogos do protagonista. Tudo complementado por planos extremamente interessantes das partidas de Mauser, além de uma trilha sonora eletrizante e que mantém até o mais desinteressado por ping-pong atento ao jogo cinematográfico que Josh Safdie entrega de forma tão excelente e cuidadosa.
Marty Supreme é, por essência, um filme frenético. Isso não altera em nada o fato de que os elementos da obra conversam entre si em uma harmonia surpreendente. A ponto de inflar a experiência quase que para além da tela, transmitindo angústias, ansiedades e sentimentos tão reais que o espectador se sente envolvido com a trama de forma quase sobrenatural, como se fosse engolido pelo roteiro e atuações ferozes da maior parte do elenco e, especialmente, de Timothée Chalamet. A grandiosidade almejada por Marty Mauser é, sem dúvida nenhuma, atingida por Josh Safdie com facilidade.

Marty Supreme já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de Capa: Divulgação/Diamond Films






