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Mocinhos, vilões e ferrovias: o universo à parte do faroeste americano

Em quase 122 anos de existência, o gênero western revolucionou técnicas cinematográficas e se reinventou diversas vezes ao longo das décadas
Por Laura Roson (lauraroson@usp.br)

Os Estados Unidos são internacionalmente conhecidos por utilizar a arte — especialmente o cinema — como uma maneira velada de exportar seu modo de viver e pensar para o resto do globo. Foi nesse cenário que os filmes de faroeste se consolidaram como um dos primeiros gêneros cinematográficos originalmente americanos, produzindo novas técnicas relacionadas ao desenvolvimento da sétima arte e servindo como propaganda da civilização ocidental. 

A grande maioria dos filmes western se passa no contexto da “Marcha para o Oeste”, ocorrida em meados do século 19, em que os Estados Unidos, após seu processo de independência, iniciaram a ocupação das terras a oeste das Treze Colônias originais, por meio da compra ou da conquista militar daqueles territórios. Essa nova etapa da colonização foi legitimada por meio da doutrina do “Destino Manifesto”, que proclamava a superioridade intelectual e racial do povo americano, escolhido por Deus para dominar o território compreendido entre o Oceano Atlântico e Pacífico. 

Essa conquista se deu, principalmente, mediante às guerras travadas contra o vizinho México e o extermínio de diversos povos indígenas que antes habitavam as planícies centrais da América do Norte, bem como a expulsão de outros de suas terras originárias. À medida que essas terras eram tomadas, eram construídas ferrovias e redes de telégrafos, que representavam o triunfo do Ocidente sobre as formas de vida adotadas pelas populações autóctones.

O quadro American Progress (Progresso Americano, em tradução livre do inglês), de John Gast, é uma alegoria do Destino Manifesto [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Outra consequência da expansão territorial estadunidense em direção ao Pacífico foi a enorme explosão demográfica, ocorrida principalmente via imigração. A descoberta de diversos recursos minerais nas regiões recém-conquistadas e a oferta de terras, garantidas pelo Homestead Acts ou Lei de Povoamento, que previa a posse do terreno para os colonos que nela produzissem por cinco anos, foram responsáveis por atrair uma ampla gama de imigrantes europeus — sobretudo ingleses e irlandeses — em direção ao Novo Mundo. 

Western: um universo à parte

Segundo Francisco Etruri Parente, doutor em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o gênero Western é muito amplo e abrange uma infinidade de subcategorias. Francisco conta que, em seu auge — durante as décadas de 1930 e 1940 —, eram lançados cerca de 200 filmes por ano. Sendo assim, encontrar uma definição exata do que é o cinema de faroeste se mostra uma tarefa complexa, já que o volume de produção acumulado dessas obras ao longo das décadas é muito elevado.

“O faroeste é uma espécie de utopia agrária, que rejeita a ‘degeneração’ vinda da modernidade, sobretudo a europeia, mas também preserva o conceito ocidental de ‘civilizar’ os territórios ‘selvagens’.”

Francisco Parente

Contudo, há algumas características comuns aos filmes de faroeste que já estão profundamente enraizadas no imaginário popular. Homens brancos corajosos; indígenas malvados e perigosos; xerifes, pistoleiros e cowboys; e espingardas, tiroteios, perseguições e duelos. É quase impossível consumir algo do gênero sem se deparar com ao menos um desses tipos sociais.

O cowboy, figura típica do Velho Oeste americano [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O cinema western também ficou conhecido por retratar minorias sociais, como as mulheres e os povos indígenas, de modo bastante estereotipado. As primeiras eram frequentemente alocadas como coadjuvantes e reduzidas à condição de esposa ou companheira, habitando sempre um dos extremos: dentro de casa, onde eram responsáveis pelas tarefas domésticas e isoladas do restante do mundo, ou em prostíbulos e saloons, bares típicos do Velho Oeste americano. Nesse cenário, elas ficavam limitadas a cuidar dos cowboys após as frequentes trocas de tiros ou ainda servi-los sexualmente, de maneira a fornecer histórias — reais ou não — para que seu parceiro trocasse com os amigos posteriormente. 

Já os indígenas costumavam ser representados como pessoas unidimensionais, de poucas palavras, incapazes de vivenciar ou demonstrar emoções mais complexas. Caracterizados como guerreiros selvagens ou curandeiros dotados de poderes sobrenaturais, esses personagens tinham pouca função na trama além de guiar os personagens brancos na direção certa ou auxiliar no seu processo de redenção, ocupando regularmente o papel de força antagonista a ser derrotada. 

Surgimento e os anos dourados 

O gênero faroeste, assim como vários outros, foi importado da literatura e adaptado para a linguagem cinematográfica que, à época, ainda dava os primeiros passos. Os primeiros filmes western da história, Kit Carson (1903) e The Great Train Robbery (O Grande Roubo do Trem, 1903), foram lançados apenas oito anos após a invenção do cinema pelos irmãos Lumière. Para se ter uma ideia da importância do gênero na história da indústria cinematográfica americana, o primeiro filme rodado em Hollywood foi exatamente um western: In Old California (1910), dirigido por D. W. Griffith. 

Com a consolidação de Hollywood e a popularização dos filmes de faroeste, surgiram também grandes nomes associados ao gênero. John Ford, diretor consagrado pelos seus filmes de Velho Oeste, obteve reconhecimento da indústria e do público pela sua parceria com o ator John Wayne. No caso de Ford, seu primeiro trabalho a contar com um grande orçamento foi The Iron Horse (O Cavalo de Ferro, 1924).

John Ford já tinha sete anos de experiência como diretor de cinema quando dirigiu The Iron Horse [Imagem: Reprodução/IMDb]

O longa aborda a construção da primeira ferrovia transcontinental dos Estados Unidos, originalmente conhecida como Pacif Railroad, por meio da história de Dave (George O’Brien), filho do agrimensor David Brandon (ator não creditado), que sonha com uma ferrovia que conecte o Oceano Atlântico ao Pacífico. Enquanto os conflitos relacionados à posse de terras na região dificultam a construção da linha férrea no decorrer da trama, o protagonista e seu pai rumam em direção ao Oeste. 

Além de impasses judiciais, a ferrovia transcontinental é ameaçada pela ação dos indígenas Cheyennes, que atacam um trem que levava suprimentos para os operários. Dessa forma, a construção da Pacific Railroad simboliza a modernização e o desenvolvimento trazido pelo homem branco colonizador, enquanto os povos originários representam o atraso e, até mesmo, um empecilho para o progresso. 

Nesses primeiros anos dourados, também alcançaram sucesso os longas Stagecoach (Nos Tempos das Diligências, 1939), Jesse James (1939), The Ox-Bow Incident (Consciências Mortas, 1943) e vários outros.

Western revisionista

Com o esgotamento do gênero, ocorrido principalmente a partir dos anos 1960 e 1970, e os avanços historiográficos conquistados pelas minorias sociais por meio dos grandes movimentos de contestação, os longas de faroeste lançados a partir dessa época — inclusive por Hollywood — tornam-se mais críticos de si mesmos. Com isso, os ideais propagados durante décadas por esse tipo de filme passam por um processo de questionamento, principalmente aqueles relacionados à representação da dicotomia entre o bem e o mal.

Ao retratar um mundo moralmente questionável, onde os heróis e vilões muitas vezes se pareciam — utilizando-se de conceitos como anti-herói, vilão simpático, etc. —, a noção de certo e errado tornou-se confusa, já que algumas ações já não podiam mais ser consideradas como boas ou más. Enquanto na maioria dos western clássicos, em que a ética era clara e definida em “preto e branco” — como o cowboy mocinho e o indígena vilão —, o faroeste revisionista buscava pintar uma área moral “cinzenta”, repleta de dualidades. Nesses filmes, além de apresentar o colono branco como detentor de uma moralidade questionável, os indígenas começam, lentamente, a desocupar o posto de antagonistas e passam a ser alocados no papel de vítima. 

Em The Man Who Shot Liberty Valance (O Homem que Matou o Facínora, 1962), dirigido também por Ford, o senador Ransom Stoddard (James Stewart), conhecido por matar o fora-da-lei Liberty Valance (Lee Marvin) em um duelo ocorrido há muitos anos, retorna à sua cidade natal para o funeral de seu amigo Tom Doniphon (John Wayne). Por meio de flashbacks, Stoddard passa a contar a verdadeira história do assassinato para um jornalista, além de revelar quem foi o responsável por derrotar Valance. Ao final da trama, o senador profere a famosa frase “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend” (em tradução livre do inglês: “Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda precede os fatos, publique-se a lenda”).

O duelo entre Ransom Stoddard e Liberty Valance [Imagem: Reprodução/IMDb]

The Man Who Shot Liberty Valance é considerado o último grande filme de Ford e representa o mal-estar em relação ao mito do Velho Oeste americano, que passa a ser desconstruído a partir daquele momento. Assim, conforme destacado por Francisco em entrevista ao Cinéfilos: “Ele [western] sempre foi usado como uma ferramenta ideológica, sim, mas também pode ser usado como revisão da própria ideologia e dos próprios mitos americanos.” 

Além do longa, também se destacaram no período revisionista obras como Two Road Together (Terra Bruta, 1961), The Wild Bunch (Meu ódio será sua herança, 1969), Butch Cassidy and the Sundance Kid (Butch Cassidy, 1969) e Little Big Man (Pequeno Grande Homem, 1970), bem como os trabalhos dos cineastas Clint Eastwood, Howard Hawks e Sam Peckinpah. 

Faroeste residual

A partir da década de 1980, o western entrou em franca decadência, sobrevivendo apenas em algumas produções residuais nos últimos 30 anos, com algumas delas alcançando considerável sucesso de bilheteria e crítica, como Unforgiven (Os Imperdoáveis, 1992) e Django Unchained (Django Livre, 2012).

Killers of the Flower Moon recebeu 10 indicações ao Oscar no total [Imagem: Reprodução/IMDb]

Atualmente, o gênero faroeste só costuma aparecer como plano de fundo para histórias que rompem radicalmente com o cenário idealizado que outrora reinava em suas produções. O principal e mais recente exemplo disso ocorre em Killers of the Flower Moon (Assassinos da Lua das Flores, 2023). O filme de Scorsese, de acordo com Francisco: “traz essa dignidade e, ao mesmo tempo, mostra como havia todo um pacto na sociedade branca que não aceitava que esses recursos [terras ricas em petróleo] estivessem na mão daquele Outro, o indígena.”

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