Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

‘O Drama’: Quanto menos se sabe, mais se ama 

Caos, drama e incerteza em um filme ansioso que prende o espectador de forma quase tão obsessiva e desconcertante quanto seu conflito principal

por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)

O quanto você sabe sobre a pessoa que diz amar? E, mais importante ainda, o quanto você continua a amá-la mesmo sabendo das mais pavorosas verdades? O Drama (The Drama, 2026), que chega aos cinemas nesta quinta-feira (9), explora esse dilema a fundo em um filme estranho, desconfortável e repleto de tensão. 

Dirigido e roteirizado pelo norueguês Kristoffer Borgli, que vem ganhando destaque nos últimos anos por seus longas no mínimo desconcertantes, Doente de mim mesma (Sky pike, 2022) e O Homem dos Sonhos (Dream Scenario, 2023) são bons exemplos disso, mantém o padrão em O Drama. O filme acompanha Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um casal apaixonado se preparando para o casamento, que quando os conhecemos, será em breve. Pouco antes da cerimônia, um segredo é revelado e os dias, antes regados pelo caos de compromissos e preparativos matrimoniais, agora são tomados pela incerteza de não saber quem é seu parceiro.

A obra, que inicialmente parecia até mesmo uma comédia romântica para o espectador, se torna quase um terror psicológico. O casal antes apaixonado e ansioso para o casamento se torna distante e a ansiedade que dividem é agora em relação a incerteza de quem são de fato e, especialmente, o que aquele segredo revela sobre eles mesmos. Essa mudança é conduzida com maestria pela direção de Borgli e as atuações impecáveis da dupla principal. Com uma química forte, em uma relação que vai do céu ao inferno em poucos segundos, Zendaya e Pattinson funcionam muito bem como um casal em uma gigante crise matrimonial e existencial. 

O Drama é uma experiência difícil da melhor forma possível. A tensão crescente do roteiro, somada às atuações excepcionais de Zendaya e Pattinson, transformam a festa de casamento em algo tão conflituoso e inquietante quanto um campo de batalha ou um julgamento fadado ao fracasso. Nesse ponto, a sensação de assisti-lo é semelhante a de Shiva Baby (Shiva Baby, 2020), filme em que uma jovem passa pelo shivá mais tenso do mundo, com críticas de parentes e conhecidos, mentiras reveladas, uma antiga namorada que parece estar muito melhor do que a protagonista e seu Sugar Daddy, que aparece não só com a esposa, mas também com o filho bebê. 

Ambos os filmes criam com maestria um ambiente marcado por tensão e a sensação opressiva de transformar os momentos de confraternização em pura tortura para o espectador. A diferença é que enquanto Shiva Baby tem momentos de calma após a tempestade, com leves descontração e até momentos breves de conforto, O Drama se torna um eterno “pisar em ovos” desde o momento em que o segredo é revelado. 

O Drama é apenas um dos três filmes em que Zendaya e Pattinson trabalharam juntos que estreiam ainda em 2026, com Duna: Parte Três (Dune: Part Three) e A Odisséia (The Odyssey) sendo os próximos [Imagem: Divulgação/Diamond]

Tudo pode ser uma fonte de problema, o mais simples “bom dia” se torna quase um tapa, tudo lembra o segredo e, acima de tudo, qualquer coisa antes cotidiana parece hostil e perigosa. Isso, graças à direção e ao roteiro muito competentes e conscientes do que o filme se propõe a ser, conseguindo se tornar extremamente sufocantes muito rápido, colocando o espectador em uma posição quase tão angustiante e cheia de dúvidas quanto Emma e Charlie. 

Quanto a sua história, O Drama também não decepciona. Depois da revelação do grande segredo, o longa se torna um conglomerado de desdobramentos da verdade, coisa que mantém o espectador atento e com desejo de saber mais. O roteiro, paciente e bem construído, não entrega todos os porquês e entornos do acontecimento logo de primeira: pelo contrário, o meio é um vai e vem entre pensamentos, conversas sobre o assunto, silêncios, dúvidas e, eventualmente, o casamento. 

Com cortes rápidos e bruscos que brincam com a percepção do que é realidade e o que é um devaneio dos personagens, o filme aumenta ainda mais seu ritmo catártico. Utilizado diversas vezes, esse recurso narrativo não chega a ser exaustivo e muito menos confuso, funcionando como uma reação que parece canalizar o desconforto e ansiedade dos personagens com a situação. 

Esse estilo de edição também contribui para um dos pontos mais interessantes do filme: sua natureza cômica. Apesar de todo o “clima pesado” construído, a quebra de expectativa com os momentos de contraste entre imaginação e realidade gera cenas engraçadas, algumas vezes por criar certo “ar bobinho” em uma discussão tão séria quanto a proposta, e outras por montagens e falas que beiram o absurdo. 

A cantora Alana Haim, uma das integrantes da banda de indie rock Haim, vem construindo uma carreira aclamada como atriz nos últimos anos, principalmente por suas participações em Licorice Pizza (2021) e Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025 [Imagem: Divulgação/Diamond]

Outro grande destaque é a fotografia do longa. Sob direção de Arseni Khachaturan, também diretor de fotografia de Até os Ossos (Bones and All, 2022) e Eyimofe – Este é o Meu Desejo (Eyimofe, 2020), a produção utilizou o filme de 35mm, marca registrada dos projetos de Khachaturan que, semelhante a seus outros projetos, funciona muito bem no longa. Fosca, contida e com um granulado charmoso, a fotografia dá ao filme um aspecto agradável tanto do ponto de vista visual quanto narrativo. 

O movimento mais arriscado de O Drama está justamente no segredo, um assunto extremamente delicado que o roteiro não crucifica mas também não inocenta, ele o explora e questiona seus personagens e bússolas morais. Essa decisão funciona bem aqui, principalmente quando o filme deixa de ser sobre o segredo em si e se torna uma obra sobre questionamentos, relações humanas, diferentes perspectivas e, o mais perturbador de tudo isso, as escolhas feitas e as que deixam de fazer. 

Mesmo com todas suas características positivas, o longa não é de todo perfeito. Apesar do casal principal ser uma dupla de personagens bem escritos e multifacetados, o mesmo não pode ser dito com relação a maioria dos personagens secundários que, por vezes, são tão caricatos que acabam se tornando cômicos e quebram momentos que, de acordo com outros elementos narrativos do filme, deveriam ser dramáticos. 

Esse descuido com os personagens secundários acaba gerando certa descrença e até desconexão com suas histórias, motivos e funções ao longo da trama, fazendo com que diversos momentos, antes marcados por tensão e muito drama, sejam quebrados, afastando o espectador que antes parecia tão imerso. 

O Drama é arrebatador, com um começo descontraído que logo mostra sua verdadeira face e se revela como uma tortura cinematográfica da melhor forma possível. E faz isso muito bem por meio de um roteiro extremamente consciente e cuidadoso, uma direção competente e atuações brilhantes de Zendaya e Pattinson, que levam o espectador a um turbilhão de emoções que o consomem por todo o filme, passando por comédia e dramas extremamente caóticos. O produto final vai do desconforto à mais pura forma de ansiedade em segundos sem perder a compostura. 

O Drama já está disponível em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de Capa: Divulgação/Diamond

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima