Jornalismo Júnior

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O papel das aranhas no ecossistema e na cultura da América Latina 

Controladoras biológicas e representações divinas, as aranhas têm sua função muitas vezes menosprezada por conta do medo transmitido em elementos da mídia
Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br

Aracnofobia é o medo irracional de aranhas e outros aracnídeos. A condição é uma das fobias específicas mais comuns e pode atingir entre 2,7 e 6,1% da população geral, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental de Klecany, na República Tcheca.

A América Latina abriga cerca de 11.280 espécies de aranhas, sendo 7.500 na América do Sul.

Embora muitos temam esses animais, os aracnídeos são importantes para o controle biológico na região latino-americana. Eles também têm relevância no aspecto cultural, já que estão presentes em algumas religiões afro-brasileiras e na cultura de povos nativos. 

As aranhas têm, em geral, oito olhos, mas podem ter seis, quatro, dois ou até nenhum. 
{Imagem: Egor Kamelev/pexels]

As terríveis tecelãs

Aranhas fazem parte do grupo dos aracnídeos (Arachnida), junto dos escorpiões e ácaros. Vivem em quase todos os territórios terrestres, com exceção da Antártida, das geleiras e dos vulcões. 

A principal importância ecológica destes animais é o controle biológico. Em artigo publicado na revista de divulgação científica The Science of Nature, foi aproximado que aranhas consomem de 400 a 800 milhões de toneladas de presas por ano. A quantidade de insetos consumidos demonstra que as aranhas têm papel na estabilização do índice populacional de moscas ou baratas, motivo pelo qual recebem o apelido de “maiores inimigas dos insetos”.

Sua caça funciona da seguinte forma: as aranhas produzem um tipo de seda, fina, leve, resistente e pegajosa, que é estrategicamente posicionada em locais de passagem frequente de muitos insetos. 

A seda é composta majoritariamente por proteínas. Por isso, quando não caçam nada, as aranhas a consomem para conseguir produzi-lá no futuro. 
[Imagem: Ellie Burgin/pexels]

Os animais capturados são, então, picados pelas aranhas, pois seu veneno tem a habilidade de alterar alguns íons do corpo da presa. Diferentes tipos de aranha atingem o organismo de formas diferentes. Quando o animal é muito pequeno, ele pode ser abocanhado sem sequer ser picado, mas o veneno auxilia no processo de alimentação e de digestão. Diante disso, é natural se perguntar: se aranhas não se alimentam de seres humanos, por que as picam? 

A resposta é simples: atacam humanos quando se sentem encurraladas. Quando alguém vai coçar uma região na qual ela está, ou tenta matá-la, por exemplo. 

O pesquisador do Instituto Butantan, Antônio Domingos Brescovit, explica que a imagem de perseguição transmitida pela mídia, em filmes como Harry Potter e a Câmara Secreta ou Infestação, é fantasiosa. Até mesmo nos filmes do Homem-aranha. Em vídeo do canal do YouTube pertencente ao Instituto, Antônio brinca ao afirmar que, se dependesse dele, o super-herói teria um aparelho que o permitiria soltar teias pelo “traseiro” não pelas mãos, o que seria, segundo o profissional, mais anatomicamente correto. 

A aranha que picou Peter nos filmes é fictícia, suas características são uma mistura de diferentes espécies, e a forma como simplesmente o ataca sem motivo aparente, incentiva estereótipos falsos. Na realidade, se um desses aracnídeos vir alguém se aproximar, provavelmente fugirá.

Mesmo assim, é comum ouvir histórias de alguém que viu uma aranha no banheiro e disseram tê-la matado por pensar que poderia ser venenosa. Ela provavelmente era, mas não significa perigo, já que provavelmente não era peçonhenta.

Peçonhentas X Venenosas

A atribuição do termo “venenosa” às aranhas é normalmente confundida com o que, na verdade, significa peçonhenta. Por utilizarem veneno para caçar, a maioria dos indivíduos são venenosos (com exceção de duas famílias que não tem glândulas de veneno, obrigando-as a caçar de forma distinta).

São consideradas peçonhentas espécies que causam ameaça à saúde pública e comprometem o bem-estar ou a vida dos seres-humanos, essas são poucas. No Brasil, por exemplo, representam quinze espécies das quase 3.400 presentes na fauna. As armadeiras (Phoneutria), as viúvas negras (Latrodectus) e as aranhas marrom (Loxosceles). No restante da América Latina, a lista também não se alarga muito, por mais que a diversidade de aracnídeos na região seja vasta, poucas espécies representam riscos ao homem que ultrapassem uma coceira no braço.

Muitas aranhas, poucos aracnólogos

No mundo, existem pouco mais de 40 mil espécies de aranhas. A América Latina tem aproximadamente 28% da variedade de aranhas conhecidas. A razão dessa distribuição se explica por dois fatores: a presença de floresta tropicais (com muito substrato) e as altas temperaturas. No entanto, essa fauna não é tão explorada quanto a europeia ou a asiática. A ausência de museus, coleções e especialistas é a razão de aproximadamente 40% da fauna da América do Sul ser conhecida e catalogada, enquanto, em países como o Japão, esse índice se aproxima de 99%.

Brescovit afirma que faltam aracnólogos no Brasil e que, quando esses profissionais se formam, muitas vezes não tem lugar para trabalhar. Pode parecer contraintuitivo, mas a razão é o investimento da área estar concentrado em grandes centros metropolitanos. São Paulo, por exemplo, recebe recursos, enquanto a região Amazônica, que concentra grande parte das aranhas brasileiras, não recebe tantos fundos. Isso obriga parte dos pesquisadores formados no assunto a migrarem para outras áreas do conhecimento. 

Para além do aspecto científico, as aranhas também se fazem presentes na cultura regional.

Nanã: a teia da vida e suas protetoras

O candomblé é uma religião que surgiu no Brasil, resultado do sincretismo de elementos culturais de matrizes africanas, tradições indígenas e aspectos do catolicismo e do espiritismo. Nela, existem diferentes ramos de pensamento (ketu), nos quais os papéis e representações dos orixás (divindades) variam. No Ketu Angola, seguido pela Mãe Vivian D’Obá, as aranhas são animais de Nanã.

Nanã é a Orixá mais velha e a mais nova a aparecer, explica Mãe Vivian. Ela é a mais antiga de todas em idade, pois é a dona do barro, o que impede o uso de objetos metálicos na confecção de suas oferendas. Ao mesmo tempo, foi uma das últimas a se tornar conhecida pelos seguidores da religião.

Nanã é a senhora da sabedoria e quem trabalha o perdão na vida das pessoas. Cuida do “rio da vida”, que representa dois momentos: a passagem do espírito para a terra e seu retorno. Esse é o papel das aranhas, a habilidade de produzir teias as associa à Nanã, quem cuida da teia da vida.

Os aracnídeos são responsáveis por abrir os portais que transportam esses espíritos, “tanto indo para o lado espiritual quanto vindo para a Terra”, de acordo com Vivian. As aranhas fazem o papel de guardiãs, cuidam para nada ultrapassar os campos quando não for o momento correto.

Mãe D’Obá acrescenta que, quando muitas aranhas aparecem em um local, estão agindo como protetoras energéticas, pois existe algum espírito tentando passar para o lado terrestre. 

A arte da Cultura Cupisnique

O animal não está presente apenas nas religiões afro-brasileiras. Em 2021, foi descoberto um mural de 3,2 mil anos no Peru, que ilustra uma aranha de quase cinco metros de altura segurando um facão. A representação da aranha como divindade era comum ao culto dos Cupisnique, encontrada em diversos de seus vasos e artes. 

A civilização pré-colombiana Cupisnique floresceu na costa norte do Peru, conhecida por suas produções de cerâmica. Em sua religião, os deuses eram representados como animais, o significado da aranha, nesse caso, é incerto: sua imagem poderia ser associada à fertilidade, mas também se acredita que estivesse ligada  à guerra, à caça ou ao tecido. 

5 aranhas que se destacam na América Latina

O conhecimento sobre esses aracnídeos é vasto, mas a aracnofobia faz com que muitas pessoas os temam demais para prestar atenção em suas qualidades e em sua importância. Conhecê-las pode ser uma forma de desmistificar suas figuras assustadoras. Por isso, em entrevista à Jornalismo Júnior, o professor Antônio Brescovit fez uma lista de cinco aranhas presentes na região latino-americana, que, em sua opinião, valem a pena ser conhecidas:

Theraphosa blondi

Conhecida como aranha-golias ou aranha-golias-comedora-de-pássaros, é uma espécie de caranguejeira (ou tarântula). Uma peçonhenta presente em florestas tropicais no Brasil, na Venezuela, na Guiana e no Suriname.

Seu apelido vem do fato do aracnídeo ser capaz de predar pássaros, além de pequenos répteis e roedores. No entanto, raramente os caça, já que costuma se alimentar de minhocas e outros bichos espalhados pelas folhas no solo. Essa habilidade é consequência de seu tamanho, em média 28 cm de envergadura, e pode chegar a 170g, maior aranha (conhecida) quando se trata de massa. 

Uma característica da Golias é sua habilidade incomum de emitir um som estridente quando se sente em perigo. Algumas das cerdas (espécie de pelos) em suas pernas são cobertos por ganchos microscópicos que raspam outras cerdas e produzem um chiado alto. 

Aranhas golias moram dentro de tocas
[Imagem: Manuela Trafane/acervo pessoal]
Phoneutria 

A famosa “armadeira”, ou “aranha-macaco” é encontrada no Brasil, no Paraguai, no norte da Argentina e no Uruguai. 

Phoneutria é uma palavra que vem do grego e significa “assassina”. Apesar disso, são reportadas poucas mortes humanas por sua picada. Mesmo sem alto índice de fatalidade, a espécie é perigosa ao homem, o ataque pode causar taquicardia, convulsões, vômito e pressão alta. 

O nome “armadeira” se popularizou pelo modo como se comporta ao se sentir ameaçada. A aranha levanta suas patas dianteiras e fica apoiada nas traseiras, como se estivesse “armando” um ataque, para parecer maior e mais intimidadora ao predador.  

Sua presença é mais comum em bananais, entre folhas e troncos, mas não é incomum encontrá-las dentro de casa. As aranhas-macaco se escondem dentro de sapatos, roupas e móveis.

As armadeiras não constroem teias para caçar como a maioria das aranhas
[Imagem: Manuela Trafane/acervo pessoal]
Nephila Clavipes

A “aranha-de-teia-amarela” pode ser encontrada por toda a América Central e parte da América do Norte. O apelido se refere ao fato dos fios de suas teias serem amarelos ou amarelados. O macho é normalmente bem menor do que a fêmea, essa é quem constrói as teias, colocadas estrategicamente nos altos das árvores, em locais onde passam insetos e borboletas. A resistência da teia dessas aranhas é maior que o comum, devido a uma camada externa de seda adesiva revestida por uma película oleosa, a qual permite ocasionalmente a captura de alguns pássaros. 

Seu processo reprodutivo à diferencia de algumas outras espécies. Nele, os machos se aglomeram nas teias das fêmeas e competem pela posição de “marido”, atribuída aos maiores em tamanho. Eles ganham exclusividade no acasalamento, além da vantagem de poderem se alimentar das presas captadas. Os menores são jogados para áreas periféricas e podem até servir de comida. 

As teias da Nephila Clavipes podem chegar a um metro de diâmetro.
[Imagem: Manuela Trafane/acervo pessoal]
Micrathena

Presentes na América Central e na América do Norte, as aranhas levam o nome Micrathena que vem do grego mikrí “pequeno”, e do nome da deusa Atena. A divindade era considerada protetora dos tecelãs, e a associação com as aranhas-de-espinho faz sentido, já que têm a habilidade incomum de produzir teias orbiculares (em forma de roda).

O nome popular é associado ao abdômen cheio de espinhos e colorido que as fêmeas apresentam. Os machos têm o abdômen mais liso e cores menos chamativas. A diferença na aparência muitas vezes impede a captura de ambos os sexos para pesquisa, pois o dimorfismo sexual faz com que não sejam reconhecidos como pertencentes à mesma espécie. 

A aranha-de-espinho pode fazer a manutenção de sua teia por até 17 dias.
[Imagem: Manuela Trafane/acervo pessoal]
Avicularia avicularia

A tarântula-de-dedos-rosa é uma aranha comumente adotada como pet pelas pessoas. Seu corpo é coberto por pelos escuros, com exceção das pontas das patas que tem coloração rosada (origem de seu nome popular). É possível diferenciar as fêmeas dos machos, já que o último exibe um par de ganchos usados para a construção de “teias de esperma” e cerdas urticantes espalhados por todo o corpo, enquanto a fêmea as possui apenas nas extremidades.

Pode ser encontrada no Brasil, na Guiana Francesa, na Guiana, no Suriname, em Trinidade e Tobago, na Venezuela, no Peru e na Bolívia.  Por mais que seja uma predadora de emboscada, ainda utiliza teias para sentir os movimentos das presas, para proteção e para reprodução.

Sua alimentação consiste principalmente em insetos, mas pode incluir também pequenos répteis e anfíbios. 
[Imagem: Manuela Trafane/acervo pessoal]

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