Por Gabriella dos Santos (gabriella.santos12@usp.br)
O Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) lançou, na última sexta-feira (29), o policy brief “Estratégias de Adaptação Climática Visando o Bem-Estar das Populações Amazônidas”, em parceria com autores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O material propõe uma série de recomendações de políticas públicas que garantam a segurança alimentar e hídrica de populações amazônidas em situação de vulnerabilidade, especialmente povos indígenas, ribeirinhas e quilombolas que habitam a Amazônia.
Em estudo prévio da equipe, foram constatados os impactos negativos das mudanças climáticas em mais de 200 espécies de plantas consumidas por populações amazônidas, como a castanha-do-pará. A partir dessa constatação, os pesquisadores identificaram a necessidade de lançar o material, que sugere alternativas para melhorar a saúde dessas pessoas.
O policy brief é uma iniciativa multidisciplinar que reúne cientistas que trabalham com bioeconomia e sustentabilidade de cadeias alimentares na Amazônia. A publicação integra projetos em andamento vinculados ao ITV e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), os quais consultaram publicações prévias que compilaram o conhecimento sobre as plantas utilizadas como alimento pelas populações amazônidas.
Desafios e busca por soluções
“Os povos originários que vivem na Amazônia manejam, há anos, as plantas úteis para sua alimentação, medicação e produção de madeira e fibra. À medida que as mudanças climáticas modificam o regime de chuvas do bioma, o número de espécies de plantas úteis para a alimentação é afetado”, explica Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do ITV e coordenadora da publicação.
“As plantas dependem de ciclos regulares de chuva, sem períodos de escassez ou de excesso de precipitação. Quando esses ciclos são quebrados, a planta pode não frutificar adequadamente, alterando assim a disponibilidade de alimento”, afirma a pesquisadora.
Essa alteração nos padrões de precipitação, juntamente com o aumento da temperatura global, amplifica a exposição e vulnerabilidade tanto das florestas tropicais quanto das populações locais.

A partir disso, o policy brief destaca sete recomendações de estratégias de adaptação climática para proteger a resiliência dos habitats naturais e o bem-estar das populações amazônidas. As propostas incluem: a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais; a promoção dos serviços ecossistêmicos; a atenção às espécies úteis para a alimentação e resilientes às mudanças climáticas; a proteção de habitats e de espécies impactadas; o acesso à água e a adaptação hídrica; a preservação das espécies animais úteis para a produção de alimentos; e, por fim, a restauração florestal como medida de mitigação.
As estratégias ressaltam a necessidade de valorizar a natureza e os conhecimentos tradicionais das populações locais, ao reconhecer suas formas de relação com o meio ambiente. O diálogo entre comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas, academia e sociedade civil é apontado como fundamental para fortalecer o aprendizado mútuo e a preservação cultural.
Além disso, a proteção dos serviços ecossistêmicos ganha destaque, com ações voltadas ao combate do desmatamento ilegal e à restauração de áreas degradadas com espécies nativas, medidas que contribuem para a conservação da água e manutenção da biodiversidade, especialmente por meio de práticas agroflorestais.
“À medida que a crise climática afeta a natureza como um todo, ela impacta diretamente as espécies úteis”
Tereza Giannini
Outro foco desse sumário de políticas públicas é a identificação e promoção de espécies alimentares mais resistentes às mudanças climáticas, conhecidas como “plantas do futuro”. Giannini explica que essas espécies são consideradas mais resistentes e se adaptam às mudanças climáticas mais facilmente, e poderão ser “alternativas importantes para garantir alimentos no futuro.” Para isso, o material recomenda o fomento a pesquisas para mapear essas espécies, campanhas de valorização alimentar e o apoio à formação de redes de coletores de sementes e bancos de germoplasma.
A proteção dos habitats naturais e das espécies úteis também é destacada, com propostas de incentivos fiscais para municípios que reduzam o desmatamento, além do desenvolvimento de sistemas de monitoramento em tempo real para evitar a perda da diversidade biológica. A segurança hídrica é apontada como essencial, considerando o papel das florestas na proteção das nascentes, na regulação do ciclo da água e na manutenção das rotas fluviais usadas para transporte e distribuição de alimentos.
O documento evidencia a necessidade de políticas públicas que incentivem sistemas de captação e reaproveitamento de água, além da regulamentação de pagamentos por serviços ambientais relacionados à água. Também é ressaltada a importância de ampliar o conhecimento sobre a fauna útil, como polinizadores e dispersores de sementes, que garantem a reprodução das plantas alimentares.

A restauração florestal em larga escala é apresentada como uma solução para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, com a recomendação de fortalecer programas e ampliar o acesso a financiamentos para viabilizar essas ações.
“Acredito que incentivar parcerias entre setor público e privado possa ajudar. Seria importante que as políticas públicas pudessem incentivar novos negócios sustentáveis, contribuindo com geração de renda, inovação tecnológica e capacitação para as comunidades locais”, aponta Tereza Giannini.
Os projetos de pesquisa que embasaram o policy brief continuarão em desenvolvimento. Os próximos passos incluem a criação de uma cartilha sobre as “plantas do futuro”, a análise do impacto das mudanças climáticas em polinizadores agrícolas (principalmente os envolvidos na produção de cacau, açaí e castanha-do-pará), o mapeamento da vulnerabilidade alimentar de povos indígenas e a finalização de um trabalho sobre o genoma do cacau.
*Imagem de Capa: Reprodução/ Wikimedia Commons

