Por João Pedro Teles Galante (joaoteles@usp.br)
Diogo Jota, português e jogador de futebol, e seu irmão, André Silva, faleceram no dia 03 de julho de 2025, em um acidente de carro na província de Zamora, no noroeste da Espanha. O atleta faleceu aos 28 anos, deixando para trás sua esposa, Rute Cardoso, e seus três filhos: Dinis, Duarte e Madalena, além de milhares de fãs de futebol.
Jota não foi apenas um jogador de futebol, ele foi uma força transformadora no campo e um símbolo de dedicação e paixão pelo esporte. De suas origens humildes nas categorias de base ao estrelato no futebol profissional, o atleta portugês construiu uma trajetória brilhante que culminou em sua chegada ao Liverpool, um dos maiores clubes do mundo.
Com talento ímpar e um espírito incansável, logo se estabeleceu como uma peça fundamental para o time e conquistou o coração de milhares de torcedores em Anfield, estádio do clube inglês. Marcado por gols decisivos, títulos memoráveis e uma identificação rara com o lema “You’ll Never Walk Alone“, Jota se tornou mais do que um craque: ele virou parte da história do clube.
Os Primeiros Chutes: A Infância de Diogo Jota
Diogo José Teixeira da Silva nasceu em 4 de dezembro de 1996, na cidade de Massarelos, em Portugal. Desde muito jovem, o futebol esteve presente em sua vida, não apenas como uma paixão natural, mas como parte essencial de sua rotina. O atleta cresceu em uma família que incentivava a prática esportiva e valorizava o trabalho duro e, logo nos primeiros anos de vida, mostrou que possuía uma relação especial com a bola.
Ainda na infância, seu talento era evidente. Diogo passava horas jogando em campos improvisados ou nas ruas de sua comunidade, onde frequentemente se destacava em meio às crianças da vizinhança. Influenciado pela intensa cultura futebolística de Portugal e pela paixão coletiva pelo esporte, ele sonhava em ser um jogador profissional desde cedo. Seus ídolos na época incluíam grandes nomes do futebol português, como Luís Figo e Cristiano Ronaldo, que serviam de inspiração para sua dedicação e ambição.
Aos seis anos, seus pais perceberam o potencial e o desejo do garoto de levar o futebol mais a sério. Jota foi matriculado na escolinha de futebol do Gondomar, clube local dos arredores do Porto. Ali, ele começou a refinar suas habilidades e a ganhar experiência no esporte. O Gondomar proporcionou a sua primeira grande oportunidade de aprender disciplina, tática e trabalho em equipe, formando a base de sua carreira.
Ao longo de seu tempo na escolinha, o atleta já mostrava características que o acompanhariam por toda a sua carreira: velocidade, inteligência tática e uma capacidade impressionante de finalização. Mesmo sendo menor que muitos de seus colegas, o jovem português compensava sua estatura com habilidade e proatividade. Ele era incansável nos treinos e jogos, dedicando-se ao máximo para melhorar em todos os aspectos possíveis.
Sua infância não foi apenas marcada pela dedicação ao futebol, mas também pela humildade que carregaria ao longo de sua vida. Mesmo com o talento evidente, ele manteve os pés no chão, apoiado por sua família, que sempre priorizou valores como respeito, disciplina e trabalho duro. Esses alicerces seriam fundamentais para moldar não apenas o atleta, mas também o ser humano que Diogo se tornaria.
A paixão por futebol, que surgiu nas ruas de Massarelos, logo abriria portas maiores, levando o português a brilhar em times mais expressivos na juventude. Esses anos formativos não apenas revelaram seu talento, mas também construíram uma base emocional e técnica sólida para suportar os desafios do futebol profissional.

Diogo Jota atuando pelo seu time de formação, o Gondomar, contra a futura equipe que o destacaria no futebol, o Porto [Reprodução: Gondomar/X]
Do futebol português ao topo mundial
Em 2013, aos 16 anos, Jota deixou seu clube de infância e se juntou ao Paços de Ferreira. Apenas um ano depois, em 2014, ele fez sua estreia pela equipe principal na Primeira Liga Portuguesa, tornando-se o jogador mais jovem a atuar profissionalmente pelo clube na época.
Na temporada 2015/16, o atacante começou a atrair os olhares de grandes clubes. O jogador marcou 14 gols no campeonato nacional, destacando-se em um time modesto como o Paços. Suas habilidades chamaram atenção não apenas pela técnica e faro de gol, mas também pela maturidade tática que demonstrava. Com sua capacidade de atuar em várias posições no ataque, Jota se tornou rapidamente uma promessa do futebol português.

Jota comemorando um gol enquanto jogava pelo Passos de Ferreira, time que o profissionalizou no esporte [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
Transferência para o Atlético de Madrid
O desempenho em Portugal foi suficiente para que um gigante europeu batesse à porta. Em 2016, Diogo Jota assinou contrato com o Atlético de Madrid, comandado pelo técnico Diego Simeone. A mudança para o futebol espanhol foi um grande salto na carreira do jovem, que recebeu a oportunidade de se desafiar em uma das ligas mais competitivas do mundo.
Embora não tenha tido muitas chances de atuar durante sua passagem no clube de Madrid, Jota usou o período para aprender com seus companheiros de equipe e se adaptar a exigências do alto nível do futebol europeu. Pouco tempo depois, ele foi emprestado ao FC Porto, durante a temporada 2016/17, para ganhar mais minutos em campo.

Apresentação de Diogo Jota no Atlético de Madrid [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
Destaque no Porto e ida para a Inglaterra
No Porto, o atacante português começou a mostrar todo o seu potencial em grande escala. Atuando sob o comando de Nuno Espírito Santo, ele teve um papel fundamental na equipe, contribuindo com gols e importantes atuações na UEFA Champions League daquela temporada. Seu primeiro gol no torneio europeu foi contra o Leicester City, em 2016, uma conquista simbólica de sua crescente importância no futebol internacional.
As atuações pela equipe mostraram que Jota não era apenas uma promessa, mas uma realidade no futebol europeu. A experiência na liga portuguesa e na Champions League consolidaram sua habilidade de jogar em alto nível sob pressão.

Diogo Jota se apresentando ao Porto, clube que se destacaria pela primeira vez em um contexto internacional [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
Em 2017, Diogo Jota iniciou uma nova etapa de sua carreira, ao ser emprestado ao Wolverhampton Wanderers, clube que disputava a Championship, segunda divisão da Inglaterra. Sob o comando de Nuno Espírito Santo, técnico com quem teve boas atuações nos anos anteriores pelo Porto e que solicitou a sua vinda ao clube inglês, Jota rapidamente adaptou-se ao físico e intensidade exigido no país. Sua primeira temporada foi um sucesso absoluto: marcou 17 gols e foi peça-chave na conquista do título da Championship, garantindo a volta dos Wolves à Premier League, principal competição nacional e que não disputavam desde 2012.
Impressionado com seu desempenho, o clube inglês decidiu contratar Jota em definitivo, em 2018. Na Premier League, o atacante continuou a se destacar, mostrando não apenas sua capacidade de marcar gols, mas também sua habilidade criativa e inteligência tática. Ele formou uma dupla devastadora com o seu parceiro de ataque, Raúl Jiménez, ajudando o time a atingir posições surpreendentes no campeonato, que garantiram uma vaga na UEFA Europa League.

Diogo Jota e Raúl Jiménez, sua dupla de ataque, enquanto atuavam pelo Wolves [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
O período no Wolverhampton foi fundamental para a consolidação de Jota como um jogador completo e versátil, capaz de atuar como atacante ou ponta. Sua velocidade, movimentação inteligente e precisão nas finalizações o tornaram cada vez mais visado por clubes de maior expressão.
A Primeira Convocação
Diogo Jota estreou pela Seleção Principal de Portugal em 2019 e rapidamente se tornou uma peça importante no ataque, graças à sua versatilidade, garra e inteligência tática. Ele marcou seu primeiro gol em 2020, na Liga das Nações da UEFA, e teve uma atuação marcante contra a Suécia, a qual anotou dois gols e deu uma assistência.
Além disso, o jogador também se destacou nas eliminatórias para torneios importantes, como a Euro 2020, onde marcou contra a Alemanha, e nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, com gols decisivos, incluindo dois de cabeça contra a Sérvia. Apesar de perder o Mundial do Catar devido a uma lesão, sua ausência na seleção foi impactante para a equipe, que foi eliminada precocemente, destacando sua importância.
Pela seleção, Jota somou 27 gols e deu 15 assistências em 64 jogos, e conquistou duas Liga das Nações da UEFA (2019 e 2025). Foi também por Portugal que ele teve a oportunidade de jogar e fazer parceria com um dos seus ídolos de infância: Cristiano Ronaldo.

Momento da estreia de Diogo Jota pela seleção portuguesa, substituindo o próprio ídolo Cristiano Ronaldo [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
Chegada ao Liverpool: O Ponto Alto
O ápice da trajetória profissional de Diogo Jota ocorreu em setembro de 2020, quando o Liverpool, comandado por Jürgen Klopp, decidiu apostar em seu talento, contratando-o por uma quantia estimada de 45 milhões de euros. Muitos consideraram sua contratação uma aposta ousada pelo valor investido, mas Jota rapidamente silenciou qualquer dúvida.
Já em sua temporada de estreia, o atleta mostrou ser um jogador essencial para a equipe inglesa. Ele marcou gols decisivos em competições como a Premier League e a Liga dos Campeões. Alternando entre titular e reserva, o atacante conseguiu se consolidar como uma peça importante em um elenco estrelado, que contava com nomes como Mohamed Salah, Sadio Mané e Roberto Firmino. Sua versatilidade ofensiva e capacidade de decisão fizeram dele uma das transferências com maior retorno esportivo ao clube na última década.
Em entrevista ao Arquibancada, Mário Marra, jornalista e comentarista da ESPN, destacou que o comportamento ético e profissional do atleta, juntamente com seus bons números, foi fundamental para que Jota conseguisse ganhar oportunidades e destaque pelo time.
“Jota era um cara agradável, trabalhador, com ótimos números e que respeitava sempre seus companheiros, esperando pacientemente por sua oportunidade. ”
Mario Marra
Nas temporadas posteriores, o seu destaque e importância na equipe aumentaram ainda mais. Após as saídas de Sadio Mané e Roberto Firmino, Diogo Jota começou a ter um papel mais consistente e protagonista no ataque do Liverpool. Com o adeus de dois dos principais ícones do time, o português assumiu maior responsabilidade no sistema ofensivo de Jürgen Klopp. Apesar de um início difícil na temporada 2022/23, marcado por lesões que o afastaram dos gramados por cerca de três meses e o tiraram da Copa do Mundo de 2022, o atleta conseguiu retornar na reta final, de forma decisiva. Seus gols contra equipes como Leeds United e Tottenham foram fundamentais para ajudar o Liverpool a buscar a recuperação na Premier League, garantindo uma vaga em competições europeias.
Já na temporada 2023/24, em melhor forma física, Jota consolidou sua posição como titular frequente no elenco. O jogador passou a ser uma peça indispensável no ataque, exercendo um papel não apenas de goleador, mas também de liderança, em um setor que perdeu grandes nomes históricos. Mesmo com a chegada de reforços como Darwin Núñez e Cody Gakpo, Jota demonstrou maturidade e adaptabilidade, contribuindo tanto como atacante central quanto nas pontas.
Mário destaca que Diogo era um profissional de comportamento exemplar, que auxiliava muito os companheiros dentro do vestiário, o que criava um ambiente amigável e de muito respeito entre os atletas, fundamental para o sucesso coletivo do time. Além disso, o comentarista ressalta que esse comportamento não se restringia com os colegas de time: Jota já ajudou até os seus próprios rivais, como Beto, jogador do Everton (rival do Liverpool), no processo de adaptação, quando foi contratado. ‘’Mostra a grandeza, a educação e a humanidade que ele tinha’’ complementa o jornalista.
Pelo Liverpool, Diogo Jota marcou 65 gols e acumulou 26 assistências. Também, conquistou diversos títulos como FA Cup (2022), Copa da Liga Inglesa (2022 e 2024), e recentemente, da Premier League (2024/25). O Português, além disso, desempenhou papel crucial em campanhas europeias no time, sendo um dos responsáveis por levar o Liverpool à final da Liga dos Campeões na temporada 2021/22.

Diogo Jota conquistou a Premier League pelo Liverpool durante a temporada 2024-2025, a última que atuou pelo clube [Reprodução/Instagram: @diogoj_18]
A conexão com a torcida e o lema: ‘You’ll Never Walk Alone’
A identificação de Diogo Jota com a torcida do Liverpool ocorreu desde sua chegada ao clube. Sendo um jogador que combina habilidade, intensidade e comprometimento dentro de campo, ele rapidamente conquistou os corações dos torcedores de Anfield. A torcida do Liverpool valoriza jogadores que demonstram esforço e dedicação em cada jogo, características que definem o estilo de Jota. Sua capacidade de marcar gols importantes em grandes jogos e sua versatilidade tática contribuíram para aumentar ainda mais essa identificação.
O impacto de Jota vai além de seus números. Ele foi um jogador que simbolizou a filosofia do canto da torcida: “You’ll Never Walk Alone”, mostrando espírito de luta mesmo diante de adversidades, como as lesões que enfrentou. Essa mentalidade de resiliência se conecta diretamente com a paixão e o espírito de apoio incondicional característicos dos torcedores dos Reds.
Em entrevista ao Arquibancada, Daniel Vieira, dono da página Liverpool Brasil, cita que o torcedor do Liverpool valoriza, acima de tudo, a entrega, um fundamento que jamais faltava em Diogo. Mesmo que não fosse titular absoluto, ele sempre demonstrou maturidade, respeito e união, tanto com seus companheiros de equipe, quanto com a torcida.
‘’Jota era um daqueles jogadores que o torcedor olhava e pensava: ‘esse cara veste a camisa como se fosse um de nós’. Ele não precisava ser o protagonista para ser amado. Esse jeitão ‘gente como a gente’ nos conquistou.’’
Daniel Vieira

Jota e a torcida, uma conexão que fora única desde sua chegada [Reprodução: Liverpool/X]
Momentos como suas comemorações enérgicas após gols e seu envolvimento em momentos cruciais reforçam essa relação. Ver Jota celebrar sob os aplausos da Kop, parte do estádio onde os torcedores mais apaixonados ficam, criou um vínculo emocional com quem está nas arquibancadas. Ele entendia o peso do hino como uma inspiração, tanto para o clube quanto para os jogadores, e demonstrava isso em sua atitude dentro e fora de campo.
“Ah, ele veste o número 20. Ele vai nos levar à vitória. Quando ele estiver correndo pela ponta esquerda, ele vai cortar por dentro e marcar para o LFC. Ele é um rapaz de Portugal. Melhor que o Figo, sabia? Ah, o nome dele é Diogo”.
Canto da torcida do Liverpool

Desenho representando Diogo Jota e Anfield, uma conexão que ficará para a história [Arte: Raí Carvalhal]
Legado
Diogo José Teixeira da Silva transcende as quatro linhas do futebol, deixando uma marca que vai muito além de seus feitos dentro de campo. Desde sua chegada ao Liverpool em 2020, ele não apenas provou ser um atacante técnico, versátil e decisivo, mas também se tornou um símbolo de humildade, trabalho duro e inspiração para milhões de torcedores dos Reds e fãs de futebol.
O atacante representa um perfil raro no esporte de elite. Não foi um jogador que busca os holofotes para si, mas preferia que suas ações falassem por ele. Seja batalhando para recuperar a bola, se sacrificando pela equipe ou comemorando com emoção genuína cada gol, Diogo reflete os valores fundamentais que os torcedores do Liverpool tanto admiram: paixão, comprometimento e resiliência. ‘’Acho que é um cara que vai ser muito sentido a ausência, não só pelo papel dele dentro de campo, como marcar pressão e gols, mas também fora dele, visto que era muito identificado com o torcedor e com seus companheiros de equipe’’ disse Mário Marra.
O jornalista relembra um comentário do técnico Enzo Maresca, do Chelsea, em uma de suas coletiva de imprensa. De acordo com o treinador, é incrível a forma como o time do Liverpool está vivendo e competindo mesmo após a tragédia. ‘’Para os torcedores e profissionais que conviviam com Jota, todo dia parece que está faltando aquela pessoa que sempre usava aquela camisa do seu lado, e isso é muito difícil, vai durar por muito tempo na vida dessas pessoas a dor da perda’’, disse Mário.
Jota também deixa uma marca emocional profunda no esporte em geral. Sua história é uma narrativa de esperança para qualquer amante do futebol. Diogo mostrou que o esforço consistente e a dedicação são capazes de superar qualquer obstáculo. Mais do que um jogador, ele é um modelo de caráter e ética no mundo do futebol moderno, muitas vezes tão saturado por egos e vaidades.
Mário Marra destaca a última atuação de Jota como a mais memorável dele nos tempos de Liverpool. ‘’Claro que tem os gols importantes nos confrontos do ‘’Big Six’’, mas o último gol dele foi muito marcante. O gol contra o Everton, em um clássico de Merseyside, um gol que praticamente decretou o título, ainda mais em um jogo tão difícil. Além de importante, foi um belíssimo gol. Eu acho que fica uma imagem muito forte, muito triste também, porque acaba sendo o último gol dele, mas que foi fundamental para o título’’.
A memória de Diogo Jota vai além das estatísticas e troféus. Ele será lembrado não apenas como um grande jogador de futebol, mas como alguém que carregou consigo os valores mais nobres do esporte, mostrando que, com humildade e esforço, é possível tocar o coração de milhões.

Em homenagem a Diogo Jota, o Liverpool aposentou a camisa 20, utilizada pelo jogador [Reprodução/Instagram: @liverpoolfc]
