Por Ana Luisa Benedito (analuisapb@usp.br)
O k-pop, abreviação para korean pop (“pop coreano”, em tradução livre), tem atingido proporções globais. Entre tantos grupos e artistas, alguns se destacam, como é o caso do Stray Kids, conjunto que atraiu 175 mil fãs em três shows no Brasil. Nos dias primeiro, cinco e seis de abril, eles se apresentaram no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, e no MorumBIS, em São Paulo. Com sua turnê dominATE, conquistaram recorde de público do gênero musical no país.
Parte dos números impressionantes se deve ao tempo de espera dos fãs, já que somente após sete anos de carreira, o grupo fez sua primeira parada na América Latina. Entretanto, a popularidade do Stray Kids nasceu muito antes de sua vinda. Com suas músicas excêntricas, videoclipes chamativos e performances arrebatadoras, eles têm crescido no meio artístico. Com seis álbuns estreando no topo da Billboard 200, mais de dez milhões de ouvintes mensais no Spotify, três entradas na Billboard Hot 100 e até mesmo o feito de ser o primeiro grupo de k-pop a ser convidado para o Met Gala, Stray Kids domina a quarta geração do pop sul-coreano.
Identidade, trajetória e a indústria
O grupo masculino de oito membros é formado por Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N. Estreou na JYP Entertainment no dia 25 de março de 2018 com a música District 9, após o programa de sobrevivência Stray Kids, em 2017. Possuía uma proposta ousada, que permitiu que o líder, Bang Chan, escolhesse os membros, o nome e até produzisse as músicas do grupo — esse processo normalmente é feito pelo CEO da empresa.

Sua discografia conta com mais de 200 músicas, produzidas majoritariamente por três dos membros — Bang Chan, Changbin e Han — que juntos formam a unidade de produção chamada 3RACHA. O grupo também se divide em DANCERACHA, o trio de dança composta por Lee Know, Hyunjin e Felix, e VOCALRACHA, da união de Seungmin e I.N, que são responsáveis pelos vocais. As melodias criadas são diversas e, muitas vezes, misturam gêneros musicais diferentes em uma única faixa. A marca registrada é o barulho, com elementos de EDM e hip-hop.
Além das músicas, o nome do grupo também carrega um significado especial. Em tradução livre, Stray Kids significa “crianças perdidas”, e foi escolhido pelos membros pensando em impactar o máximo de pessoas ao redor do mundo com sua mensagem. “Nosso objetivo desde que estreamos era alcançar o maior número de ‘crianças perdidas’ possível, entregar nossa música e dar força a quem realmente precisa”, afirmou Bang Chan em entrevista para a Billboard, em 2022.
Por se tratar de um grupo autoproduzido, o Stray Kids carrega em suas criações uma identidade artística que encanta. Ao analisar as letras e a evolução na sonoridade, os Stays — nome dado aos fãs do grupo — enxergam as mensagens baseadas nas trajetórias pessoais dos membros, o que torna a relação com a arte ainda mais forte. Eduarda Fernandes, que é fã desde 2022 e foi ao show do Rio de Janeiro, fala sobre o impacto das canções na sua vida pessoal. “Eu escuto os álbuns deles todos os dias, então, se não tiver a música do Stray Kids, acho que não tem vida para mim”, conta.

[Imagem: Reprodução/Stray Kids]
Até a consolidação da identidade musical, o som do Stray Kids foi marcado pela incorporação de elementos pessoais e experimentais às músicas, os quais, geraram inicialmente um estranhamento por parte do público. Porém, o que começou como fraqueza tornou-se o fator individualizador que convida os ouvintes a explorarem a discografia do grupo. “O que diferencia eles de qualquer outro grupo de k-pop na mesma geração é que você ouve uma música e sabe que ela é do Stray Kids”, comenta a fã Larissa Fernandes, que encontrou neles uma nova oportunidade de apreciar o gênero musical.
Essa autenticidade mantém a relevância do grupo em meio ao mercado rigoroso. Em entrevista ao Sala33, Dunia Schabib Hany, cientista social e pesquisadora de cultura pop sul-coreana, comenta sobre a descartabilidade dos ídolos e grupos que não atingem os padrões irrealistas de qualidade. “Para os fãs domésticos, a cobrança da perfeição ainda é maior”, explica. Essa visão é aprofundada em seu livro K-pop: A Fantástica Fábrica de Ídolos (Appris, 2020).
Dunia também afirma que não há um trajeto único para alcançar a popularidade. “São processos distintos para grupos distintos e essa diferenciação depende muito do nível de consolidação e da fórmula da empresa”. Acrescenta ainda que a expansão do Stray Kids foi intensificada pelo consumo de conteúdos nas mídias sociais durante a pandemia, que trouxe um novo público para o k-pop.
Parte do apelo para essa audiência recente tem relação com o espetáculo que acompanha os lançamentos musicais do grupo. Desde dançarinos de apoio que enchem o palco até os shows de pirotecnia que acompanham as batidas das músicas, os elementos visuais impressionam a plateia. Com as nuances musicais que acompanham as mudanças de fase da vida, eles inovam e deixam sua marca na indústria enquanto se divertem no processo.
A arte de cativar
O senso de irmandade e as relações profundas entre os membros não passam despercebidos pelos Stays e fazem com que a imagem do grupo seja acolhedora e familiar, mesmo para quem o observa de fora. Essa sensação se estende para os fãs e contribui com a criação de uma comunidade que acredita estar realmente próxima dos ídolos.
Sara é criadora de conteúdo sobre cultura coreana e seu perfil ultrapassa a marca de 120 mil seguidores no TikTok. Ela relata que, apesar de ser mais velha que os integrantes, sempre aprende coisas novas com cada um deles. Após ir em dois shows da dominATE, afirma que essa experiência solidificou o sentimento que ela já tinha pelos membros: “Eu tive uma confirmação que eles são realmente tudo o que eu imaginei que eles seriam.”
A interação com o grupo elevou a experiência do show a nível de espetáculo. Da setlist até o formato do palco, é possível observar o cuidado em atender todas as expectativas e necessidades do público. “Eu sinto que eles tiveram essa preocupação de tentar recompensar a gente pelo tempo perdido, pelos momentos que eles não puderam viver”, acrescenta Sara. Assim como no slogan “Stray Kids everywhere all around the world, you make Stray Kids Stay” (“Stray Kids em todo lugar ao redor do mundo, vocês fazem o Stray Kids permanecer”, em tradução livre), o grupo quer continuar a alcançar novos lugares e pessoas com excelência e autenticidade.

[Imagem: Reprodução/Stray Kids]
Outro ponto importante é o carisma e a presença de palco que cativa o público. Apesar do caráter espetacular das produções de k-pop, Larissa discorda que esse modelo só funciona com técnicas, fabricações e jogos de câmera específicos. “A experiência da dominATE foi mostrar que um grupo de k-pop tem capacidade de subir no palco de um estádio e dar um espetáculo como qualquer outro artista no mundo”. Sem essa conexão entre os espectadores e os artistas que performam, os vocais afinados, figurinos chamativos, jogos de luzes e danças produzidas não passam de elementos superficiais, apesar de serem importantes para manter o público interessado na exibição.
A estrutura do show também conta uma história. O início do espetáculo traz elementos da cultura coreana aliados com as músicas mais barulhentas, quase como se avisasse que o Stray Kids chegou no espaço. Após essa introdução, as músicas em duplas levam o espectador a sentir diferentes emoções. Truman e Burnin’ Tires, com seus instrumentais carregados e elementos de rock e hip-hop, animam o público, que canta a plenos pulmões. Logo após, Escape chega com seu segmento sexy e envolvente. E, para encerrar as performances em dupla, Cinema emociona a plateia com sua letra sensível. Na última porção de tempo, o grupo alterna entre músicas animadas e emocionais para encerrar e despedir-se da melhor forma possível.
Mesmo após o fim dos shows e da estadia do grupo no Brasil, o assunto continuava em alta nas mídias sociais. Fãs, criadores de conteúdo e até mesmo pais que foram apenas acompanhar seus filhos seguiam comentando sobre a excelência das apresentações. O consenso era de que, independentemente da organização e da vista no setor escolhido, o grupo era hipnotizante e cada membro brilhava de um modo diferente. Outro ponto apontado pelos fãs foi a diferença de energia entre os dias, cada um com suas interações e momentos especiais e únicos. Neles, está incluído o projeto de fã do show do dia seis, que apresentou aos membros a definição da palavra saudade. E, no fim, foi o Stray Kids que ensinou o que é saudade para os fãs brasileiros.

[Imagem: Reprodução/Stray Kids]
A passagem do grupo pelo país só provou o que os fãs já tinham certeza: eles são diferenciados e continuarão trazendo coisas novas para apresentar ao público. Os próprios membros têm incorporado esse desejo de novidade nos lançamentos. Na música Muddy Water, eles afirmam: “Nós somos a chuva que vem depois que a água parada secou”. Esse verso tem como objetivo evidenciar o anseio latente que o Stray Kids tem de trazer algo moderno para a indústria que, na busca pelo sucesso, continua a fazer mais do mesmo. E, apesar da liberdade criativa não ser absoluta, os integrantes continuam genuínos ao som e à mensagem que eles carregam desde a sua estreia em 2018.
A dominATE provou que, apesar do k-pop ainda ser um gênero nichado cujo alcance fora da bolha limita-se ao pop chiclete, ainda dá certo arriscar. “A geração que está vindo é o retorno do k-pop mais feminino. São poucos grupos masculinos que têm o que o Stray Kids tem”, finaliza Dunia. A turnê continuará até meados de agosto com diversas datas em estádios na Europa, Ásia e América do Norte.
*[Imagem de capa: Reprodução/JYP Entertainment/Iris Alves]
