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“Sons não convencionais e pretensão, esse é o jeito de romper estereótipos” – Kpop: da Coreia do Sul para o mundo

Propostas musicais diferentes, vídeos com grande investimento em cenografia, muita preocupação em relação ao figurino e grandes produções: características marcantes do gênero musical que vem conquistando o ocidente

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27 ago 2021 | Por Larissa Leal (larissa.leal@usp.br)

O termo kpop, abreviação de korean pop (pop coreano), caracteriza o estilo musical que ganha cada dia mais espaço entre os jovens e acumula fãs pelo mundo todo. Marcando presença no cenário musical com altíssimas colocações nas paradas musicais mundiais, grupos como BTS e BLACKPINK são grandes influenciadores da geração. 

No início, era Sobangcha

Para entender como o pop coreano se solidificou durante os anos, precisamos voltar à lógica de uma Coreia do Sul que acabava de se desfazer das amarras do colonialismo japonês, e que se abriu para influências ocidentais. Assim surgiram outros gêneros no cenário musical coreano que iam além das músicas tradicionais e das baladas – músicas de ritmo mais lento. 

Sobangcha, o primeiro grupo a unir dança e canto em suas performances, estreou na década de 80. Eles acabaram caindo nas graças do público por terem uma proposta diferente do que estava em alta na Coreia do Sul na época. O grupo se separou em 1990, e foi apenas em 1992 que houve o grande marco do kpop: o início da primeira geração, ou seja, uma leva de grupos que tiveram sua estreia entre 1992 e 2000, com o formato que é conhecido hoje, ajudando a indústria a dar seus primeiros passos. Um grande representante dessa geração é o grupo Seo Taiji & Boys, composto por Seo Tai-ji, Lee Ju-no e Yang Hyun-suk. Posteriormente, Hyun-suk se tornaria o CEO de uma das empresas mais famosas do gênero: YG Entertainment

Junto a ela, duas outras empresas surgem no mercado: JYP Entertainment e SM Entertainment. Esse grupo de empresas – conhecidas como Big Three (as três grandes) – lideram a indústria, lançam tendências e são a casa de grupos populares. Mas há exceções: a BigHit (agora conhecida como HYBE), empresa do BTS e de outros dois grupos masculinos, começara como uma empresa pequena, o que leva muitas pessoas a se impressionar com a popularidade que o BTS conquistou ao longo dos anos, vindo de uma companhia menor  que não tinha tradição.

Para além dos oceanos

O kpop se faz presente no ocidente, pela primeira vez, com o fenômeno Gangnam Style em 2012, do cantor PSY, que atualmente tem sua própria empresa de entretenimento: a PNation. Apesar da música ser um grande marco, antes disso, os artistas da segunda geração já faziam barulho na indústria musical internacional. A solista BoA, por exemplo, foi a primeira artista de kpop a entrar no Billboard 200 em 2009. Além da solista, os grupos Girls Generation, Super Junior, 2NE1, Wonder Girls, SHINee consolidaram-se na segunda geração e começaram a chamar atenção no ocidente.

Apesar desses grupos terem fãs fora do oriente, foi durante a consolidação da terceira geração que o mundo abriu as portas para o kpop e o gênero começou a dominar o cenário, com o BTS e BLACKPINK sendo os principais representantes dessa geração. O fato de ser praticamente impossível não conhecer tais nomes demonstra que a terceira geração se firmou do outro lado do oceano de forma sólida e hoje são referência, não só na música, mas também em outros aspectos, como na moda, por exemplo. Os sete meninos do BTS se tornaram recentemente embaixadores da marca Louis Vuitton, e as meninas do BLACKPINK lançam tendências e servem de inspiração para muitos jovens, mostrando que sua influência vai além da música.

 

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Mas qual a diferença?

A realidade é que antes dos grupos de kpop estarem sob os holofotes, já existiam grupos musicais no ocidente, como o One Direction, que foi uma grande febre entre os jovens dos anos 2000 e, mesmo separados, fazem sucesso até hoje no meio musical. No entanto, o pop coreano tem seus próprios diferenciais e por isso seus grupos não se enquadram na mesma classificação que as boybands ocidentais. Além de performarem coreografias elaboradas enquanto cantam, os grupos coreanos normalmente misturam dois idiomas em suas músicas – coreano e inglês – e possuem conteúdos exclusivos e mais interativos para integrar os fãs, como o quadro “Going Seventeen” do grupo Seventeen, na qual os integrantes participam de jogos variados a cada episódio, e o Bangtantv do BTS, que mostra um pouco dos bastidores do grupo.

Em um documentário da Netflix, Light up the sky, a integrante Jennie que integra o BLACKPINK conta que o que mais diferencia o kpop de outros gêneros é o tempo que os chamados trainees passam se preparando para ter a chance de estrear. Eles entram na empresa muito jovens e têm aulas de canto, dança, etiqueta, para – talvez – estrearem com um grupo depois do treinamento. O tempo varia muito: existem pessoas que debutaram, ou seja, estrearam com meses de treinamento, e aqueles que treinaram por 10 anos para se unirem a um grupo, por conta das empresas prezarem muito por esse tempo “pré-estreia”.

A bagagem do kpop para a Coreia do Sul

É impossível dizer que o kpop não colocou a Coreia do Sul em um lugar diferente aos olhos internacionais. Com a explosão da cultura coreana ao redor do mundo, o país começa a se tornar um dos destinos desejados por muita gente. Desde 2017, a Coreia do Sul ocupa o 6º lugar no ranking de maiores mercados da indústria musical de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), além do grupo BTS ocupar o primeiro lugar no ranking de artistas mais populares.

O governo não perdeu a oportunidade de usar a ascensão do kpop para conquistar seu soft power – conceito que significa o poder de influência de um Estado com base em questões culturais ou ideológicas. Criando um departamento para o kpop em seu Ministério da Cultura, o governo coreano investiu cerca de 1 bilhão de dólares em 2005 para o crescimento do estilo.

Mas o investimento não teve início em 2005. Ainda em 1997, a Ásia passou por uma crise econômica que afetou grande parte de países do sudeste asiático, entre eles a Coreia do Sul. Um ano depois, em 1998, o governo decidiu iniciar algumas políticas para o incentivo ao crescimento da indústria que poderia ser uma alternativa para se recuperar da recessão, como apoio financeiro e a criação de centros culturais em outros países. Assim, desde meados dos anos 90 o governo coreano investe em produções culturais nacionais, atitude consolidada como extremamente frutífera nos dias atuais.

De acordo com dados divulgados pela Organização de Turismo da Coreia em 2020, 7,4% do turismo no país tinha o objetivo de entrar em contato com produtos de kpop e outros elementos da cultura coreana. Além disso, em 2018, as escolas da capital do país, Seul, abriram as portas para estudantes estrangeiros que tivessem interesse em se matricular regularmente nas instituições. 

Somando-se esses aspectos, o mundo também se torna mais aberto às produções culturais coreanas ao exterior da música. Isso é visto com o sucesso dos chamados doramas coreanos – séries de poucos episódios. Até mesmo o serviço de streaming Netflix começou a investir na produção de suas próprias séries do gênero, sendo a primeira delas Love Alarm, que estreou em 2018, seguida de diversos outros títulos como Tudo Bem Não Ser Normal (2020), Passarela de Sonhos (2020), e Itaewon Class (2020), que foram grandes sucessos na plataforma.

Mas o pop coreano não está presente apenas no quesito cultural e algumas aparições de grupos de kpop em encontros políticos mostram isso. Já ocorreram apresentações de artistas coreanos para representantes de outros países, como o encontro do grupo EXO e Donald Trump, que ainda era presidente dos Estados Unidos na época, e a performance do grupo feminino Red Velvet na Coreia do Norte, onde as relações são estreitas e o kpop proibido.

 

Ivanka Trump, loira, usando vestido azul está ao lado de Trump, à direita da imagem, e cumprimenta os integrantes do grupo que estão de costas para a imagem e usam terno

O grupo de Kpop, EXO, foi convidado para receber o ex-presidente dos EUA, Donald Trump e a filha, Ivanka Trump, em uma passagem pela Coreia do Sul. [Imagem: Reprodução/KoreaTimes]

O lado não tão glamuroso da indústria

Apesar de tudo, muitos aspectos negativos assombram a indústria. A pressão estética é um deles. Os idols são submetidos a dietas constantes, e não é difícil perceber a perda de peso extrema em artistas desde os períodos de suas estreias. Muitos deles sofrem com o ódio vindo do público por conta de seu peso e por estarem fora dos padrões de beleza estabelecidos na Coreia do Sul. Consequentemente, muitos artistas passam por cirurgias plásticas para se enquadrar melhor nos padrões exigidos pelas empresas. A cor de pele também é uma questão: muitas empresas e mídias coreanas utilizam filtros e tratam a imagem dos idols para deixar suas peles mais brancas, em um processo chamado de white washing (“lavagem branca”, em tradução literal).

 

 

Duas imagens. Na primeira, Jungkook está com a pele mais clara e editada; na segunda, a pele está com tons naturais

Jungkook do BTS [Imagem: Reprodução: Twitter/@semicolomns]


Além disso, o kpop se baseia na “cultura idol”, na qual os artistas não são só cantores, mas atores, modelos, e precisam ter personalidades que atraiam admiradores dedicados aos grupos. Bruna, Cibeli, Gabriela e Paloma, administradoras da página
Kpop Vintage no Facebook e que acompanham o kpop há anos, explicam que muitas vezes as empresas estimulam comportamentos extremos vindos dos fãs, que criam cenários nos quais os idols são propriedade deles e não podem ter suas próprias vidas pessoais. “É meio que um roteiro para elas serem mais leais”, conta Gabriela sobre a falta de posicionamento das empresas em relação a essas atitudes.

 

“O abuso da indústria em cima do idol é uma das coisas que mais me revolta. Eu acho que chega a ser cruel como eles não são humanos para as empresas, eles são produtos.”

Paloma, administradora da página Kpop Vintage

 

Essa concepção de que o idol tem que dedicar sua vida 100% ao grupo é o que cria a polêmica dos namoros entre celebridades coreanas. Para as pessoas ocidentais pode ser um tanto difícil de entender, mas entres os fãs asiáticos é muito comum que os idols sejam proibidos de terem relacionamentos. Muitas vezes o artista que está envolvido neste tipo de notícia sofre muito ódio vindo dos fãs, que em alguns casos pedem para que o integrante seja retirado do grupo que faz parte, como aconteceu com Kim Jong-dae, mais conhecido por seu nome artístico Chen.

Chen divulgou, por meio de uma carta em janeiro de 2020, que iria se casar com uma não-celebridade e que ela estava grávida. Em meio a muitas discussões e fãs que o apoiavam, alguns outros pediram pela saída de Chen do grupo EXO, do qual faz parte há mais de 10 anos. Apesar de tudo, o idol ainda integra o grupo, mas esse é um exemplo claro de como os fãs costumam reagir aos relacionamentos de seus ídolos. 

Além dos relacionamentos, as tatuagens e até mesmo a interação com outros idols podem se tornar polêmica. Com toda essa pressão e com cada passo sendo monitorado, muitos deles desenvolvem problemas psicológicos e acabam se afastando de seus respectivos grupos. Com três casos de suicídio conhecidos no mundo do kpop, as fanbases pedem para que as empresas prezem mais pela saúde dos artistas. “O abuso da indústria em cima do idol é uma das coisas que mais me revolta. Eu acho que chega a ser cruel como eles não são humanos para as empresas, eles são produtos”, explica Paloma.

Ainda sim, há uma esperança de que as proibições diminuam já que alguns artistas andam se desprendendo delas. Como, por exemplo, o Jungkook do grupo BTS, que possui várias tatuagens nos braços e não tem problema em deixá-las à mostra. 

A resistência ao diferente

Somado aos problemas internos, o kpop enfrentou muitas barreiras antes de se tornar a febre que é, e que ainda hoje atrapalham o estilo a continuar crescendo. Existem as questões culturais que acabam entrando em conflito com os pensamentos ocidentais. Na Coreia do Sul, é comum que homens – principalmente celebridades – utilizem maquiagem com frequência, sendo assim, há um grande estigma sobre o uso de cosméticos, estilos de cabelos e figurinos diferenciados pelos artistas para o público não-coreano.

As meninas da Kpop Vintage contam como algumas pessoas acabam não aderindo ao gênero por conta de um preconceito velado contra a cultura coreana. “Eu acho que é muito mais por preconceito cultural, porque eu já mandei músicas para amigos meus sem dizer que era de kpop e eles escutaram e acharam legal”, diz Paloma. Além disso, elas também contam que em alguns momentos foram alvos de piadas, na escola e até mesmo na faculdade, por ouvirem kpop.

Em grande escala o kpop também sofre com as barreiras linguísticas. Apesar de ter conquistado marcos incríveis na indústria musical, grupos de kpop ainda sofrem para serem validados pela indústria ocidental. Ainda em 2018, BTS conquistou o marco de ter o 3º videoclipe mais visto na estreia em todo o Youtube com o single Fake Love, mesmo assim, o septeto só foi indicado para uma categoria do Grammy quando lançou seu primeiro single em inglês em 2020, nomeado Dynamite. Assim como ocorre com artistas latinos, se torna raro ver artistas que não têm o inglês como primeira língua nessas premiações.

E no Brasil?

Com a onda hallyu (onda coreana) se alastrando por diversos países, o Brasil não poderia ficar de fora. No início de 2020, a plataforma de música Spotify divulgou uma lista de países que mais escutavam kpop no mundo, e o Brasil estava em 5º lugar, ficando atrás apenas de Estados Unidos, Indonésia, Filipinas e Japão. Além disso, o Twitter também divulgou em 2020 um ranking de países que mais postam sobre kpop na rede social, e o Brasil marca presença novamente, aparecendo em 6º lugar.

 

[Imagem: Reprodução/Spotify]


Com o interesse nacional crescente, há o surgimento de um gênero musical que busca unir elementos do kpop com a cultura brasileira: o
bpop (junção de “brazilian pop”). Apesar de muito criticado no início e sendo acusado de uma tentativa de cópia, o novo gênero vem ganhando mais identidade. Mesmo se inspirando no pop coreano, o bpop vem se afastando um pouco mais do kpop para se adaptar ao público brasileiro e dar seus próprios passos sozinho como gênero musical.

Em 2014 o grupo estreante Champs, vindo de uma empresa brasileira administrada por coreanos, foi considerado o primeiro grupo do bpop, mas acabou não durando por muito tempo. Desde então, outros grupos tentam se consolidar e conquistar espaço nesse estilo “recém-nascido” no cenário brasileiro. EVE e WIBE são os dois grupos que mais tiveram sucesso nessa tentativa: a música de estreia do WIBE, intitulada Alma Gêmea, já possui mais de dois milhões de visualizações no Youtube, assim como Fogo e Ar do EVE.

 

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Assim como esses, o grupo Nextar, composto por Keli Ji, Sunny, Lizzie e Ciena, se prepara para a estreia de seu primeiro clipe, com a música Tudo que quiser. Diferente de outros grupos, o Nextar é um grupo independente que escreve suas próprias músicas  e desenvolve suas próprias coreografias. Apesar de terem se inspirado no kpop no início para a montagem de coreografias e divisão de funções, as inspirações agora vão além disso. “O bpop é um movimento cultural brasileiro que mescla a música pop brasileira, com outros gêneros e estilos internacionais” explica Keli Ji, líder do Nextar. O grupo acredita que o bpop pode se firmar como um gênero de sucesso no Brasil, mas falta oportunidade, valorização cultural e mais aprovação dos ouvintes nacionais.

 

[Imagem: Divulgação/Nextar]

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