Home Saúde Pandemia no morro
Pandemia no morro

Moradores de favelas encontram dificuldades para se proteger e sobreviver em meio à pandemia

JPRESS
16 jul 2021 | Por Larissa Leal (larissa.leal@usp.br)

O Morro da Providência

Em O Cortiço, obra realista de Aluísio de Azevedo, é retratada a história do Cortiço Cabeça de Porco, o maior do Rio de Janeiro. Cercado de problemáticas e questões estruturais, o cortiço era um lugar onde pessoas humildes encontravam uma forma de sobreviver e trabalhar. É impossível falar sobre a história das favelas sem lembrar-se dos cortiços, já que o fim de um culminou no início do outro.

A primeira favela brasileira está localizada no chamado Morro da Providência, que completou 120 anos em 2017. Após a demolição do cortiço Cabeça de Porco em 1893, que era muito esperada pelos burgueses da época, os moradores expulsos deslocaram-se para o morro. Apesar dessa migração, a favela é consolidada de fato a partir da chegada de ex-combatentes da Guerra de Canudos. Os soldados que lutaram na guerra haviam recebido a promessa de que teriam sua casa própria ao cumprir sua missão, porém, quando voltaram ao Rio de Janeiro, não receberam as moradias e então protestaram em frente ao Ministério do Exército. Cansados de esperar, eles construíram suas próprias casas no Morro da Providência, e se juntaram aos ex-moradores do Cabeça de Porco. Assim, a história da favela já começa rodeada de negligência e invisibilidade, aspectos que impactam até hoje a vida dos moradores.

 

Fotografia em preto e branco do vilarejo de Canudos

Vilarejo de Canudos [Imagem: Flávio Barros/Acervo Museu da República]


Favelas X Pandemia

De acordo com a última pesquisa do IBGE, realizada em 2019, existem cerca de 13 mil aglomerados subnormais no Brasil, distribuídos entre todos os estados e em 734 municípios, totalizando 7,8% do território nacional. Na cidade de São Paulo, o índice de óbitos pelo novo coronavírus é maior em bairros da periferia, apesar da primeira pessoa contaminada no Brasil ter sido um empresário de 61 anos que havia voltado de uma viagem à Itália. Mesmo sendo o lugar da concentração de casos, bairros periféricos são os que menos contém pessoas vacinadas com as duas doses. Se manter em quarentena, para pessoas da periferia, é um privilégio que poucos conseguiram ter.

 

[Imagem: Reprodução/Labcidade]


Segundo o
Data Favela, pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com a CUFA (Central Unificada das Favelas), 4 em cada 10 casas localizadas na comunidade possuem mais de três pessoas por quarto e cerca de 48% dos entrevistados têm entre quatro e sete pessoas morando na mesma casa. Assim, quando uma dessas pessoas precisa se expor, outras seis correm o risco de serem infectadas. Um exemplo disso aconteceu na família de Lucas Henrique Ferreira, morador do complexo de favelas da Maré. Lucas mora com mais três pessoas e, apesar de ele e sua esposa terem conseguido ficar em quarentena por um tempo, sua sogra, que é empregada doméstica, não conseguiu se manter em casa. Ela foi a primeira infectada e acabou contaminando também os outros três moradores. Em sua casa, apenas ele recebeu a imunização, por ser professor de educação física, categoria priorizada na fila da vacinação.

Lucas tem 28 anos e é coordenador de dois projetos na Maré. O projeto Luta pela Paz é uma fundação internacional que possui sedes no Rio de Janeiro e em Londres. Além de trabalhar com boxe e artes marciais, a ONG oferece apoio à educação, empregabilidade, suporte social e liderança juvenil. “A gente também faz trabalho de formação, espalhamos nossa metodologia para instituições do mundo inteiro que atuam com esporte para desenvolvimento pessoal”, explica Lucas. 

O segundo projeto é o Redes da Maré, que tenta garantir direitos básicos e fundamentais para moradores da comunidade. Dentre os assuntos abordados pela organização estão: segurança pública, direito à arte, educação, cultura, memória e desenvolvimento territorial. Ademais, a ONG apoia projetos de empreendedorismo dos moradores e tenta debater sobre questões raciais e de gênero, por exemplo. “É muito importante esse trabalho, mas infelizmente ele só é tão importante porque o estado não cumpre com seu dever de promover saúde, segurança e educação de qualidade”, comenta o coordenador.

Lucas afirma que houve dificuldades de adaptação das atividades durante a pandemia. Pela segurança das crianças, e da própria equipe, a organização preferiu não continuar as aulas presenciais. “A gente teve muita dificuldade para se adaptar, não por falta de métodos e estratégias, mas por falta da outra ponta. Nossa realidade é de alunos que não têm acesso a internet.” O professor aponta que a maioria das famílias na Maré possui apenas um celular e grande parte dos moradores utiliza a internet de dados. “Então você imagina: estudar por um celular em uma família que tem três, quatro crianças e ainda ter que assistir aula da organização social, fica um pouco inviável.” Muitas vezes, a ONG deixou de dar as aulas para distribuir cestas básicas para a população da favela devido à precariedade das famílias.

O medo de perder o emprego e não conseguir sustentar suas famílias foi um fator de peso para que muitos moradores da comunidade voltassem ao trabalho. No Data Favela, em uma pesquisa feita em julho de 2020, 89% dos moradores entrevistados relataram estar preocupados com a renda familiar por causa do Covid-19, e 66% afirmaram que não conseguiriam passar nem uma semana sobrevivendo apenas com as reservas financeiras que possuíam no momento, sem trabalhar.

 


Como consequência da volta de muitos trabalhadores para seus respectivos trabalhos, aqueles que têm filhos acabam passando por dificuldades, pois diversas creches e escolas ainda não estão normalizadas. Lucas relata que os vizinhos ajudam uns aos outros na falta de alternativas. “Muita gente aqui trabalha na informalidade, ou seja, vai fazer uma faxina um dia na casa de alguém, outro dia na casa de outra pessoa, faz uma obra aqui e ali. Então, quando a pessoa não está em casa ela deixa os filhos na vizinha, ou deixa com o irmão mais velho.” 

Medidas de segurança: não querer segui-las, ou não poder?

A falta de opção para os moradores das favelas os expõe diretamente ao vírus. A exigência de que toda a população siga as recomendações para a contenção do Covid-19 não contempla locais que não possuem as condições para que isso seja possível. Como exemplo, muitas favelas do país sofrem com a falta de saneamento e não possuem água disponível o dia inteiro.

Como registrado na pesquisa Data Favela, 72% dos entrevistados afirmam não seguir as recomendações de segurança por falta de dinheiro e necessidade de trabalhar. “Para muitas pessoas que moram nas favelas existe até um sofrimento, porque elas sabem muitas vezes o que é necessário fazer, mas não conseguem porque as condições são essas”, afirma Alexandre da Silva, doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP).

Soma-se a esses fatores a falta de unidade entre os discursos do governo sobre como se portar durante a pandemia. Enquanto alguns governadores e prefeitos se posicionam fortemente a favor das medidas de segurança, outros, como o próprio presidente Jair Bolsonaro, disseminam discursos negacionistas. “Essas atitudes dificultam a construção de um pacto nacional, a gente precisa de um pacto nacional”, comenta Alexandre sobre essas discordâncias.

O doutor também comenta que muitas vezes as fake news  são mais compartilhadas que informações baseadas na ciência. “Eu entendo que há um aumento da exposição e vulnerabilidade das pessoas mais pobres, pela informação incorreta, informação insuficiente, por não usar uma linguagem que possa alcançá-las”. Muitas vezes as campanhas de conscientização não utilizam uma linguagem acessível para todos, consequentemente, aqueles que não conseguem compreender as informações ficam mais vulneráveis.

“É um dever de todo profissional da saúde e de áreas  relacionadas adequar o conhecimento já obtido, o nosso  conhecimento formal, científico, para uma linguagem que qualquer pessoa possa entender”. Apesar de afirmar que já existem iniciativas  sobre isso dentro do SUS, Alexandre explica que faltam legitimações para essa competência. “São poucas pessoas pensando diante de um problema dessa dimensão.”

Ações solidárias nas favelas

[Imagem: Reprodução/Kalyne Lima]

Com todas essas problemáticas, algumas pessoas se dispõem a ajudar os moradores que estão passando por um momento de crise, tanto financeira, como na saúde. Para Kalyne Lima, a falta de apoio do Estado agravou a vulnerabilidade social. “Acho que o que a gente mais escuta é as pessoas falando da dificuldade que elas têm de garantir o básico.” Kalyne é vice-presidente da CUFA Nacional, que realizou projetos solidários e de lazer, tentando se adaptar à pandemia.

A Central lançou a campanha “CUFA contra o vírus” com o objetivo de disseminar informações importantes no combate contra o Covid-19. “Todas as nossas ações têm como principal objetivo promover a vida através da doação de alimentos, mas também promover a consciência através da informação”. A Central também lançou o projeto “Mães da favela”, uma campanha de doação que leva alimentos para mulheres que residem nas comunidades. “O projeto tem como público alvo as mães, por entender que elas são personagens importantes na gestão familiar desses territórios mais vulneráveis”, explica Kalyne.

 

Cufa (Central Única das Favelas)

[Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil]


A CUFA possuía diversos eventos que eram promovidos nas comunidades e que foram impedidos pela pandemia, como, por exemplo, a Taça das Favelas, um evento de futebol de campo que já havia mobilizado alguns estados. A CUFA tinha intenção de transformar o evento em um projeto nacional, mas em decorrência do coronavírus, a Taça teve que continuar de outra maneira. “Nós precisamos suspender a Taça das Favelas, mas fizemos a Taça das Favelas
Free Fire em 2020, e foi um sucesso”, conta a vice-presidente. 

Para fazer parte da CUFA é possível buscar os representantes estaduais e municipais de cada estado. Kalyne pontua: “é sempre bom ter uma perspectiva, conhecer um pouco da organização. Eu convido a todos a conhecer, justamente através do acesso aos sites, e colocar suas competências à disposição”. Cada CUFA regional possui suas próprias redes sociais, e por meio destas é possível entrar em contato com seus representantes.

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
COMENTÁRIOS
Ivone Leal
Ótima reportagem É sempre pertinente lembrarmos que a desigualdade social de nosso país vem de muito tempo atrás. O sonho de um dia vivermos numa sociedade mais justa deve ser incentivado com informações como dessa reportagem. Parabéns!
17 jul 2021
 
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*