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No princípio era o verbo, e depois as fake news

Apesar da banalização do termo, nem toda notícia incorreta é fake news: entenda melhor a expressão e sua origem

JPRESS
07 fev 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por José Carlos Ferreira (jcarlosferreira@usp.br)

Fake news ou, simplesmente, notícia falsa. O termo ganhou destaque de forma exponencial a partir de 2016 e, hoje, está intrínseco ao debate público. O que poucos imaginam é que sua origem perambula o século XIX. Desde então, a expressão vem ganhando diferentes roupagens dentro e fora da academia.

Da yellow press ao Trump

O entendimento atual de fake news, naturalmente, difere bastante do que circulava na década de 1890, período em que o vocábulo “entrou para o uso geral”, segundo o dicionário Merriam-Webster. As primeiras definições de fake news eram atreladas ao conceito de jornalismo sensacionalista e à chamada yellow press. Um jornalismo de baixa qualidade, sem compromisso com a veracidade dos fatos, que publicava notícias absurdas, boatos e fofocas.

Na década de 1970, as fake news adquirem uma nova roupagem. O termo passa a ser utilizado para definir o jornalismo de paródia ou satírico. A partir de 1990, dezenas de comediantes começaram a se definir como sendo fake news. Talvez Jon Stewart seja o caso mais notório dessa fase. Esse período foi marcado por espetáculos que simulavam o fazer jornalístico, mas havia bastante clareza sobre o que era conteúdo factual e o que não.

Donald Trump (Colagem: José Carlos Ferreira/ Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

Em novembro de 2016, durante as eleições estadunidenses, as fake news voltaram à tona. A expressão ressurge a fim de definir um movimento crescente de informações falsas, majoritariamente pró-Trump. Passaram a ser compartilhadas nas redes sociais e influenciaram o resultado do pleito.

Agora, presidente dos EUA, Donald Trump, recorre ao vocábulo com a intenção de deslegitimar o jornalismo verdadeiro e bem apurado – a exemplo de sua reação no Twitter após o New York Times publicar reportagens relatando possíveis irregularidades nas eleições.

Isso aí é fake news

A esfera pública se digitalizou e as discussões que eram travadas exclusivamente em bares, cafés e bancas de jornal alcançaram as redes sociais. Não há expressão mais popular e maltratada nos debates dentro da web que fake news. No entanto, há uma definição central do que basicamente podemos considerar notícia falsa, sobretudo, no recorte atual.

O professor e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Ivan Paganotti, esclarece que nem toda informação falsa é, necessariamente, fake news. Para uma informação ser considerada uma notícia falsa precisa obedecer à quatro princípios: “Ser propositadamente falsa, comprovadamente falsa, feita para viralizar nas redes sociais e ter sua autoria nebulosa”, explica Paganotti.

As fake news se caracterizam pelo seu fim, “há uma intenção de enganar alguém em primeiro lugar”, expõe o professor. “Em segundo lugar, é possível comprovar que a informação não é verdadeira. Elas são feitas com o intuito de viralizar nas plataformas digitais e, às vezes, não conseguimos ter certeza sobre quem é seu autor”.

O fenômeno que marcou as eleições dos EUA foi notoriamente um caso de fake news. Craig Silverman, editor de mídia do BuzzFeed norte-americano, realizou um grande trabalho de apuração chegando até “os meninos da Macedônia”. Silverman descobriu que jovens da Macedônia, mais precisamente da cidade de Veles, estavam ganhando dinheiro fazendo notícias falsas. A pequena cidade de 43 mil habitantes era lar de inúmeros sites criados unicamente para propagar fake news e lucrar com anúncios online.

Logo, os empreendedores das notícias falsas perceberam que cliques de estadunidenses eram mais rentáveis, pois o algoritmo os julgava como um público consumidor em potencial. O mercado de fake news de Veles se direcionou para os EUA, produzindo muitas das notícias falsas que circularam no período eleitoral em 2016.

Município de Veles, na Macedônia (Imagem: Reprodução)

Em fevereiro de 2017, Fabio Victor, repórter especial da Folha de S. Paulo, escreveu no caderno Ilustríssima a reportagem intitulada “A engrenagem de notícias falsas no Brasil”. Fabio denuncia o que ele próprio denominou de “macedônia tropical”, um aglomerado de sites especializados na propagação de notícias falsas com o objetivo de lucrar através de publicidade e anúncios.

Gilmar Lopes, fundador do E-farsas e pioneiro na checagem de fatos no Brasil, corrobora com a reportagem de Fabio ao falar da lógica de circulação das notícias falsas: “Existem pequenos sites ou blogs, mas que fazem parte de grandes redes, especializados em disseminar fake news com o objetivo de lucrar através de cliques, AdSense [propagandas] e coisas do gênero”.

Uma vez entendido o que de fato é fake news e sua lógica de operação, fica mais fácil definir o que não é. O caso Marielle Franco é um belo exemplo a ser analisado. O editor chefe do HuffPost Brasil, Diego Iraheta, traçou a genealogia das informações falsas compartilhadas sobre a figura de Marielle e chegou à conclusão de que “a priori, não houve uma orquestração”.

Os muitos boatos que circularam na rede após o assassinato da vereadora do PSOL surgiram de maneira orgânica, através de múltiplos compartilhamentos. Claro que em seguida, esses mesmo boatos foram apropriados por setores extremistas, mas, ainda assim, o caso Marielle Franco fica fora de uma definição mais purista de fake news.

Mais que falsa, é fraudulenta

Donald Trump foi o primeiro a distorcer o conceito de fake news a fim de rebaixar o jornalismo crítico e apurado, mas não foi o único. Setores extremistas da sociedade sequestraram a expressão para o mesmo propósito. Alguns já advogam que o conceito está contaminado e deveríamos deixar de utilizá-lo. No Brasil, temos a Agência Lupa encabeçando esse discurso. Nos EUA, autores como Claire Wardle e o Massachusetts Institute of Technology (MIT) defendem outros conceitos como os de false news ou false information.

A tradução para o português não é muito boa, explica Ivan Paganotti. “Fake news poderia ser melhor traduzido como uma notícia fraudulenta, não apenas falsa. Um meio de comunicação que publica uma informação incorreta não é fake news, precisamos distinguir esses dois conceitos”.

Apesar de alguns segmentos ligados à comunicação defenderem o abandono do termo, ele continua quase onipresente no debate público. E há aqueles que não acreditam que o conceito esteja tão contaminado a ponto de caducar, principalmente, por se tratar de uma expressão de fácil reconhecimento do público. “É um deserviço deixarmos de usar o termo e abandonarmos essa esfera de discussão. Grupos radicais vão continuar usando o vocábulo, já ativado politicamente para suas finalidades”, ressalta Paganotti.

Impactos e lógica de operação

Uma pesquisa realizada pelo MIT estipulou que notícias falsas têm 70% mais chances de viralizar do que uma notícia real. O estudo revelou, também, que temáticas ligadas à política possuem maior poder de penetração no tecido social, maximizando o alcance em diferentes níveis de educação e renda. A velocidade de propagação é quase três vezes mais rápida que boatos de qualquer outra natureza.

Por estar inserido na checagem de fatos desde 2002, o fundador do E-farsas, Gilmar Lopes, possui um panorama único sobre a circulação de notícias falsas no Brasil. As primeiras checagens realizadas pelo E-farsas tinham como alvo boatos compartilhados via e-mail, diferente do conceito atual de fake news. “No início, me dedicava a pesquisar correntes que circulavam naquela época, como ‘Passe essa mensagem para o maior número de pessoas que a American Airlines irá ajudar no tratamento dessa criança’”.

Dados retirados da pesquisa feita pelo MIT (Imagem: Letícia Camargo/ Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

Gilmar relata que acompanhou as mudanças nos veículos em que os boatos circulavam. Do e-mail para o Orkut. Do Orkut para o Facebook. Do Facebook para o WhatsApp. E que, hoje, qualquer plataforma digital é terreno fértil para as fake news. O pioneiro do fact-checking também comenta sobre acontecimentos políticos. “Notei um momento drástico, um aumento exponencial de notícias falsas, sobretudo, relacionadas à política, na época do impeachment da Dilma.”

Outro levantamento do MIT aponta que os maiores disseminadores de notícias falsas são usuários reais e que os robôs atuam somente como catalisadores. Ao eliminar os bots dos dados amostrais, apenas 26% das fake news foram excluídas. Além disso, os usuários costumam seguir o viés de confirmação, compartilhando notícias que corroboram com suas visões de mundo.

O fact-checking tem sido umas das principais ferramentas no combate às notícias falsas. Jornais tradicionais como O Globo já possuem suas próprias plataformas de checagem (É isso mesmo?). Agência Lupa, Aos Fatos, Truco e É ou não É são outros exemplos dessa prática no Brasil. “É difícil mensurar a eficácia dessas iniciativas, mas elas são por princípio essenciais”, discorre o professor Ivan Paganotti. “Não podemos deixar que uma informação incorreta seja difundida. É próprio da ética jornalística contestar, criticar e apontar as falhas”.

Nas bancas

Maria de Lourdes é proprietária de uma banca de jornal na Rua Aristides Viadana, no bairro da Lapa. A banca é rodeada por condomínios, fica próxima da Praça Jacomo Zanella, do Sacolão da Lapa e do Cursinho Pré-vestibular da Poli. Em decorrência de sua localização, o estabelecimento possui um público bastante heterogêneo: jovens estudantes, a turma da terceira idade, donas de casa indo para o sacolão. “As vendas dos jornais caíram bastante nos últimos anos, ainda mais depois dessa crise”, relata Dona Lourdes.

Banca de Jornal (Imagem: Reprodução)

O vestibulando Lucas Castro pretende seguir carreira jurídica. A leitura diária de jornais faz parte de seu cronograma de estudos. Lucas é assinante do site da Folha de S. Paulo, mas conta que gosta de ir à banca comprar outros jornais. “Desde o ano passado, venho acompanhando o jornalismo com maior intensidade por recomendação de professores. No começo, apenas acessava alguns portais online. Hoje, prefiro comprar jornal impresso. Acho mais prático na hora de estudar”, expõe.

A Pesquisa de Mídia Brasileira, publicada em 2016, realizada pelo Ibope sob encomenda do Governo Federal, trouxe informações úteis de como o brasileiro está se relacionando com jornais e plataformas digitais. A pesquisa revelou que os leitores brasileiros aumentaram sua confiança junto aos jornais impressos em 7% entre 2014 e 2016. Segundo o relatório, 60% dos entrevistados disseram que confiam sempre ou muitas vezes nos jornais impressos, contra 20% na internet.

O estudo apontou que, nos último dois anos, a preferência dos leitores em plataformas digitais aumentou de 10% para 30%, enquanto houve uma diminuição do impresso de 79% para 60%. Apesar do fenômeno das fake news, a credibilidade do jornalismo tradicional se mantém quase intacta. Um levantamento realizado pelo Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo na Universidade de Oxford, apontou que 70% dos executivos de comunicação de 24 países, incluindo o Brasil, acreditam que as fake news podem servir para fortalecer o jornalismo.

O entendimento de que a veiculação de notícias falsas levará ao revigoramento dos meios de comunicação tradicionais ganha cada vez mais força. A ideia parte do pressuposto de que diante de um emaranhado de notícias potencialmente falsas, o público recorreria aos jornais como uma espécie de curadoria da informação. No entanto, essa concepção opera no campo das suposições. Não há dados empíricos suficientes para corroborar que as fake news, de fato, irão fortalecer o jornalismo. Provavelmente, essa é uma questão que apenas o tempo será capaz de responder.  

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