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Da rua às Olimpíadas

Com a vitória de Rayssa Leal e Kelvin Hoefler nas Olimpíadas de Tóquio 2020, a venda de artigos relacionados ao skate subiu 79,7% em relação à semana anterior ao evento, segundo a empresa Netshoes. Mas como um esporte, antes marginalizado, chegou ao pódio olímpico? Para entender a história do skate é preciso regressar um pouco no tempo

JPRESS
03 set 2021 | Por Por Larissa Leal e (larissa.leal@usp.br) e Mateus Cerqueira (mateus.cerqueira@usp.br)

Em uma São Paulo de 1988, a prática de skate era proibida. Inicialmente, Jânio Quadros, então prefeito da cidade, havia proibido a prática do esporte no Parque Ibirapuera, localizado na Vila Mariana. Nada contentes com a proibição, os skatistas realizaram protestos e, ao fim, Jânio acabou por abolir o esporte em toda a cidade. A medida durou até 1989, quando Erundina se tornou prefeita de São Paulo e voltou a permitir a circulação de skatistas na cidade.

Apesar da volta do skate na capital paulista, o esporte ainda não era visto com bons olhos. “Sempre teve isso de vândalo, maconheiro, malandro, bandido”, conta Fábio Bolota, editor da revista Tribo Skate no documentário Vida sobre Rodas (2010). Além da proibição, as pistas de skate não eram tão comuns na cidade, e existiam alguns pontos de encontro entre aqueles que tinham interesse em praticar. A Ultra Skate era uma pista localizada em um galpão particular sem fins lucrativos. Convencido pelo filho, o dono do galpão construiu uma pista e disponibilizou o acesso para outros skatistas que também queriam utilizá-la. Ali praticavam grandes nomes do skate brasileiro, como, por exemplo, Bob Burnquist.

 

 O estilo das ruas 

 

O skate no centro de São Paulo. [Imagem: Mateus Cerqueira]

 

Além de esporte, o skate é um estilo e possui uma cultura própria, como afirma Leandro Ferraz, que anda de skate desde meados da década de 80. “Acredito que eu já nasci skatista.” O esporte conta com seu próprio estilo de roupas, gírias e uma grande fraternidade entre os grupos, considerados como família por alguns. As tribos, ou crew, muito presentes principalmente no chamado skate urbano, são uma parte essencial do estilo skatista.

 

O autor de livros sobre a história do skate, Leonardo Brandão. [Imagem: acervo pessoal de Leonardo Brandão]

 

É impossível falar sobre skate sem falar de contracultura, movimento que cresceu nos anos 50 e 60, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Na época, o Brasil se encontrava em uma ditadura civil militar, mas existiam alguns elementos da contracultura, ainda que não de forma tão expressiva, no território nacional. “O skate faz parte deste momento histórico, assim como o surf e outras atividades que mais tarde seriam denominadas de esportes radicais”, conta Leonardo Brandão, professor da Universidade Regional de Blumenau e autor de livros sobre a história do skate no Brasil. Leonardo afirma que esse contexto é o motivo pelo qual o skate está tão relacionado com a música, artes plásticas, e a moda, por exemplo, o que não é comum em esportes tradicionais. 

Apesar do skate como esporte olímpico não demonstrar tanto esse lado cultural, o skate urbano carrega consigo essa bagagem. “O skate nasceu e se desenvolveu nesse ambiente da contracultura, e há uma tendência de uma parte dele continuar ligada a esse universo”, explica o professor. Exatamente por esse motivo que o skate urbano não compartilha da mesma aceitação que o skate como prática esportiva. 

Tendo a cidade como principal cenário, o skate urbano compete para a utilização do espaço da cidade que nunca dorme. A principal motivação para a não aceitação vem justamente do compartilhamento de uma cidade projetada para negócios. “Não cabe ao skate querer ser ‘certinho’ para conseguir ser aceito.” Para Leonardo, o skate urbano está longe de ter a aceitação e admiração que o skate esportivo conquistou.

 

 

Um pouco mais de história

Mesmo que ainda hoje alguns estereótipos continuem permeando o esporte, skatistas como Lincoln Ueda fizeram parte de uma geração que trouxe ao skate uma nova perspectiva: o que antes era feito escondido dos pais, enfim começava a contar com o apoio desses. Ainda assim, o estilo skatista deu passos lentos para a desconstrução da imagem marginalizada, até o grande salto que a entrada da modalidade nas Olimpíadas permitiu.

Mas antes de conseguir seu lugar no ranking mundial, os skatistas brasileiros de uma geração mais antiga tiveram dificuldades em competições no exterior. Devido à grande cópia de marcas estrangeiras no Brasil, os praticantes brasileiros acabavam sendo prejudicados pela “má fama” que os plágios trouxeram para a equipe nacional. Por conta dessas marcas, skatistas brasileiros chegaram a ser prejudicados nos treinos do evento Münster/Monster Mastership, na Alemanha, que reuniu equipes de diversos países. Durante os treinos da competição, a equipe brasileira foi a última a treinar e realizou o treino na pista com as luzes apagadas, como é relatado em Vida sobre Rodas. Mesmo assim, Lincoln Ueda mostrou o potencial da equipe brasileira e se posicionou em quarto lugar, estando atrás de Tony Hawk, Tony Magnussan e Jeff Kendal, grandes nomes do skate mundial.

Quando o Brasil parecia estar se consolidando no cenário internacional do skate, com grandes marcas e revistas de circulação nacional — Yeah!, Overall e Skatin’, por exemplo — a crise no governo de Collor em 1990 interrompeu a ascensão do desporto. “É um momento de quebra da indústria nacional do skate”, explica Leonardo Brandão. A pista Ultra Skate é fechada e diversas promessas do skate nacional saem de cena e vão em busca de empregos formais.

 

Entre os desafios e a vitória: 

Espaço de esportes tradicionais, como o atletismo, natação e ginástica, a milenar Olimpíada deu um salto rumo às tendências esportivas. O Comitê Olímpico Internacional (COI) viu no skate, surfe, escalada e o BMX Freestyle a oportunidade perfeita para atrair uma audiência maior e mais jovem para a edição de Tóquio. No Brasil, a escolha foi certa. Segundo o COI, o skate e o surf foram alguns dos esportes com maior audiência no gigante sul-americano.

Mas quem ficou sob a mira dos holofotes foi o skate. Com determinação e muito carisma, os atletas brasileiros, que estão entre os melhores do mundo, mostraram que em terra de futebol, o país também leva jeito sobre quatro rodas e um shape. O resultado foi a terceira colocação da seleção na classificação geral das competições, somando três medalhas de prata, respectivamente, com a vitória de Kevin Hoefler, Rayssa Leal e Pedro Barros.

As modalidades escolhidas pelo COI e pela Federação Internacional do Skate (World Skate) foram o Street de pista e o Park, este como um mix de várias transições de altura e curvas e com o predomínio das arenas em formato de bowl (piscina) e aquele como uma modalidade que simula a rua, em que escadas, paredões e corrimões são os obstáculos.

 

Rayssa Leal em prova nos Jogos de Tóquio 2020. [Imagem: Fotos Públicas]

 

O Centro de Esportes Urbanos de Ariake foi o local das competições. Projetado para cada modalidade, já é visto como um legado dos jogos no Japão. 

A identidade visual dos skatistas marcou presença. Os atletas brasileiros pousavam com os uniformes verde e amarelo adaptados ao seu estilo. Camisetas e calças largas, bermudas, bonés e as músicas da banda caiçara Charlie Brown Jr. embalaram as provas, dando um ar mais leve à competição.  

A tendência é a expansão da prática após as Olimpíadas, mas o skate já é hoje um dos esportes radicais mais populares, sobretudo entre os jovens de 18 a 29 anos, que correspondem a 57% dos praticantes, segundo o Ibope Repucom

Apesar disso,  sua chegada ao pódio do maior evento esportivo do mundo levou aproximadamente 60 anos. Período no qual, sem incentivos do poder público, os skatistas lutaram pelo seu direto à cidade, como explica Brandão. “A prática do skate remete ao tempo do lúdico e do lazer, diferente do tempo da cidade, que é atrelado a mecanismos de entrega, deslocamento rápido e ao tempo do trabalho. Então quando estes dois tempos entram em disputa pelo espaço urbano, você tem todo um estranhamento ao skate. A partir daí surge a necessidade de apropriação pelos praticantes.”

Questionado se as Olimpíadas gerou maior aceitação do skate nas ruas, o professor comenta que as competições melhoraram a imagem dos skatistas entre os não adeptos do esporte, mas que há observações: “Existe uma clara distinção do skate de rua e do skate em competições.” Ele afirma que o último  é mais aceito na sociedade por se tratar do “esporte espetáculo” que, como a ginástica artística, tem nos movimentos de difícil execução o deslumbramento dos telespectadores. “Já o skate de rua ainda sofre resistência, pois não faz uso de um local específico e determinado para prática. Então ele fica ligado à transgressão”, conclui Brandão. 

 

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Sergio Miyamura pratica a modalidade skate street no Vale do Anhagabaú. [Imagem: Mateus Cerqueira]

 

A visão de Brandão vai de encontro à de Sergio Miyamura, praticante da modalidade Street no Vale do Anhangabaú, que relata à J.Press os desafios de ser um skatista. “No meu prédio enfrento certo preconceito por ser adulto e andar de skate. As pessoas desacreditam que por conta do meu estilo de vida eu tenha faculdade e trabalho. Coisa que a gente percebe pelo olhar e pelos questionamentos.” Com a olimpíada, Sergio acredita que as coisas têm melhorado um pouco para os praticantes em relação ao preconceito e a perseguição. “Porém, enquanto não houver investimento no esporte, seja com pistas, campeonatos e até nos próprios profissionais, o skate vai continuar sem muito destaque e discriminado pelas pessoas.” 

Dos milhares de skatistas profissionais, apenas 65 conseguiram acesso ao Bolsa Atleta, que somou R$ 143,4 milhões investidos pelo governo federal. Em alguns casos, como o de Rayssa Leal,  a idade mínima, de 14 anos, é um empecilho ao recebimento do benefício. Seguem como as demais exigências do programa o alto desempenho na categoria escolhida pelo atleta e a filiação a uma entidade esportiva. Quando não atendidos estes requisitos, eles buscam patrocínios, correm por si com as suas próprias economias e, no pior dos cenários, com o exercício de atividades mal remuneradas para não ficarem de fora das provas.

 

Pista de skate na Sapopemba – Zona Leste de São Paulo. [Imagem: Bruno Gasperoni]

 

Pista no Bom Retiro – região central de São Paulo. [Imagem: Mateus Cerqueira]

 

Pistas para a prática também deixam a desejar, uma vez que andando pelas cidades não é difícil encontrar alguma sem a devida manutenção. É o caso de pistas no Centro de Esportes Radicais, no Bom Retiro, região central da capital, onde buracos e o piso desgastado são obstáculos indesejados, e da pista Sapopemba Skate Plaza, na Sapopemba, bairro da Zona Leste da cidade, onde se observam ondulações e a grama alta. Em nenhuma das duas pistas localizadas em São Paulo a J.Press observou bebedouros e banheiros para os praticantes.

A disputa agora é com motocicletas, carros, ônibus e pedestres nas vias da cidade. Sem o devido espaço, os skatistas são forçados a “remar” nas movimentadas avenidas e ruas da capital paulista, colocando as suas vidas em risco e estando sujeitos às  confusões com guardas de trânsito e policiais. 

Os skatistas profissionais também sentem na pele o descaso. Sem pistas apropriadas que simulem os percursos de cada modalidade, ou com pistas mal projetadas, eles seguem com a sua rotina de preparo em outros países. A exemplo, a seleção brasileira de skate foi à Califórnia, em março deste ano, para um melhor treinamento com foco em Tóquio. Aspectos como o tipo de solo, material utilizado, tamanho da pista e concretagem requerem rigoroso cuidado. Quando negligenciados, a má qualidade e a baixa segurança destes espaços são certas, o que resulta na maior dificuldade nos treinamentos dos atletas.

 

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Grupo de skatistas na pista de Sapopemba [Imagem: Bruno Gasperoni]

 

Com o descumprimento dos órgãos públicos ao artigo 217 da Constituição Brasileira, que afirma que o poder público tem o dever de incentivar o desporto educacional e o de alto rendimento, os skatistas usam de sua dedicação diária, esforço e criatividade para seguir com a prática. Eles se organizam nas “vaquinhas”, reparos e até solicitação de novas pistas junto às prefeituras e secretarias, com a consciência de que políticas públicas são os meios para a valorização do esporte e para a descoberta de novos talentos.

 

Skate em competições: liberdade em jogo?

Dotada de expressividade, a prática do skate condiz com a vida urbana: agitada, imponente e espontânea. Uma cultura de movimento que valoriza a corporeidade nas manobras, mas que em competições ganha um caráter esportivo carregado de parâmetros.

Nas Olimpíadas não foi diferente. As seleções de skatistas enfrentaram regras básicas para as classificações nas finais. O nível de dificuldade e a qualidade das manobras foram avaliados pelos juízes dentro dos 45 segundos dados a cada competidor nas modalidades Street e Park

Entre a comunidade de praticantes, esse cenário gerou o embate entre as tribos favoráveis e contrárias à participação do skate nos jogos olímpicos. Os primeiros veem com bons olhos a entrada do esporte em competições. Eles alegam que o skate é legitimado enquanto prática esportista e com isso é menos demonizado entre a tradicional parcela da sociedade, classe média e alta, ganhando mais adeptos, investimentos e respeito a sua cultura. Ou seja, defendem que as regras enxertam no skate um caráter profissional e agregador.

Já os praticantes contrários ao skate nos Jogos Olímpicos argumentam que há a perda do caráter libertário do esporte, em que se segue a padronização e a homogeneização de uma prática tão diversa no estilo, nas manobras e na composição de sua comunidade. Isto é, a prática cede espaço à dominação e não mais é vista como um símbolo de contestação cultural nos meios urbanos, tal como o Hip Hop, ao qual é intimamente ligado. 

 

[Imagem: Mateus Cerqueira]

 

Daniel Milari, tricampeão brasileiro na categoria mirim de Downhill Slide (descida em ladeiras com a execução de derrapagens), explica o porquê de as regras não serem um limitador nas performances dos competidores. “Não vejo que as normas estabelecidas nas competições tenham baixado o potencial dos atletas. A Rayssa [Leal], que concorreu no Street, mostrou que o skate também pode se enquadrar em certos detalhes técnicos e isso já vinha de muitos antes. Nas provas, é certo que você tem que tomar cuidado para não pecar pelo excesso, ou pela falta, nas manobras, e sempre buscar finalizar os movimentos. E isso, de certo modo, gera um choque entre liberdade, essência do skate, e os parâmetros, mas não uma limitação ao competidor”, afirma Daniel.

 

Recorte sobre o tricampeão brasileiro na categoria mirim de Downhill Slide, Daniel Milari. [Imagem: acervo pessoal de Daniel Milari]

 

O skatista cita algumas das competições em que participou, a partir da década de 1980, e as compara com o atual formato das provas. Daniel relata que começou a andar de skate aos seis anos de idade. Nas disputas, não tinha dificuldade quanto às regras. Seu primeiro campeonato foi no Street, em 1988, o primeiro no Brasil, realizado dentro do ginásio do Corinthians. Daí em diante foram vários campeonatos até conquistar o tricampeonato brasileiro na categoria mirim de Downhill Slide. “Em todos sempre busquei a ousadia como máxima. Coisa que atualmente é muito mais complicada nas competições, visto que o skate conquistou o seu espaço como um esporte. Então as regras já são um fator a mais de preocupação.”

Apesar das divergências, os praticantes ouvidos pela J.Press mostram similaridades. Eles apontam que o skate esporte e o skate de rua tem como premissas a superação de obstáculos e a fraternidade. Essas manifestações não passaram despercebidas nas competições e configuram a união em torno da prática para além da rua.

 

Marginalizadas: um breve histórico

 

 

Berço dos Jogos Olímpicos, a Grécia Antiga representou o ápice do desenvolvimento humano. Democracia e cidadania são termos intrinsecamente ligados a esta civilização. Contudo, fundada aos moldes do patriarcalismo, essa mesma Grécia esgotou as mulheres de todo e qualquer direito. Participações femininas nas competições olímpicas e a presença deste público nos estádios eram crimes cabíveis de morte.

Mas não é preciso ir muito longe para observar que o estigma contra as mulheres no esporte é estrutural. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1941, foi baixado o Decreto-Lei de número 3199, em que o esporte passava a ser tutelado pelo Estado. Na prática, significava que os esportes começavam a ganhar um caráter profissional no Brasil. Entretanto, seguiu-se o Artigo 54 que proibia a prática de desportos “incompatíveis” com as condições da “natureza feminina”. Atônitas, mas cientes de que a luta apenas começava, as mulheres viram a desigualdade de gênero se aprofundar ainda mais naquele que já era um setor predominantemente masculino. 

Em 1965, durante o regime militar, o decreto ganhou novos ares jurídicos, em que se definiam as modalidades as quais as mulheres eram expressamente proibidas de participar, dentre elas o rugby, pólo e halterofilismo. O decreto só foi revogado em 1979, 38 anos depois do seu estabelecimento. 38 anos em que a ascensão das atletas no esporte se viu estagnada no Brasil. 

Cenário diferente da década de 1970, 2021 foi o ano de conquistas das atletas brasileiras. A presença feminina representou 46,5% da delegação nacional, com 140 atletas, segundo o COB. A título de comparação, em 1964, também na olimpíada de Tóquio, apenas uma mulher, Aida dos Santos, entre 67 homens fez parte da delegação brasileira. 

O quadro de medalhas foi outra vitória. Superando a marca de Pequim, em 2008, as mulheres conquistaram nove medalhas: três de ouro, quatro de prata e duas de bronze.

 

E no skate?

 

“[…] quando ocupamos as pistas, como na Olimpíada, isso é uma quebra de paradigma e influencia mais meninas a praticarem o esporte.”

– Janaína Renata em entrevista à J.Press

 

Na seleção brasileira de skatistas, dos doze competidores entre as modalidades Street e Park, seis eram mulheres: Leticia Bufoni, 28, Yndiara Asp, 23, Pâmela Rosa, 21, Dora Varella, 19, Isadora Pacheco, 16 e Rayssa Leal, 13.

A medalha ficou a cargo de Leal, a fadinha. Com um Slide no Backside no corrimão, manobra em que o skate fica na diagonal e desliza, ela conquistou a medalha de prata, ficando atrás da japonesa Momiji Nishiya. A emoção foi grande e as praticantes do skate no Brasil se viram representadas. 

 

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As skatistas Beatriz Cristina (à esquerda) e Vitória Caroline (à direita). [Imagem: Mateus Cerqueira]

 

Mas de fato o skate ainda é um esporte de maioria masculina. No Vale do Anhangabaú, de todos os praticantes, a J.Press conseguiu observar e ouvir apenas duas mulheres, Beatriz Cristina e Vitória Caroline. Elas nos contam sobre a sua experiência e do preconceito enfrentado por serem mulheres e skatistas. 

“Meu primeiro skate veio de um amigo. Minha mãe quando soube quebrou ele na hora. Com isso vi que se quisesse seguir com a prática teria que superar o preconceito no próprio círculo familiar. Na visão deles, a prática era coisa de marginal e somente de homens, viciados e lésbicas,” relata Beatriz.

“O preconceito contra as mulheres ainda é presente entre os próprios praticantes do skate. Em alguns casos, eles acham que por sermos mulheres não podemos superar os mesmos obstáculos e lançar as mesmas manobras. Mas a olimpíada provou o contrário. Acho que podemos ver uma melhora com tudo o que aconteceu nos Jogos”, reforça Vitória.

 

A skatista Janaína Renata e o filho. [Imagem: acervo pessoal de Janaína Renata]

 

Para Janaína Renata, educadora física, mãe, instrutora e praticante do skate há mais de 20 anos, a ocupação de mulheres em espaços antes masculinos é uma quebra de paradigmas e gera um novo olhar para participação feminina em esportes radicais. Ela relata que do grupo de skatistas do qual fazia parte, em 1999, por ser a única garota, a recepção entre as pessoas não era a das melhores. “Eu usava roupas mais largas e vivia conforme o estilo da prática, então por tudo isso as pessoas tinham aquele olhar de apontar e pensar que talvez eu fizesse algo de errado pelas ruas. E saber lidar com esse preconceito e com o que a sociedade impõe nunca foi fácil. Mas quando ocupamos as pistas, como na Olimpíada, isso é uma quebra de paradigma e influencia mais meninas a praticarem o esporte.”

A instrutora ainda pontua a importância do incentivo dos pais às garotas na prática do skate. Para ela, o papel de inclusão das mulheres nas pistas não deve se restringir apenas aos praticantes e coletivos, mas também aos familiares. A instrutora indica que o aspecto afetivo possibilita maior empoderamento das garotas e garante uma vivência saudável nas pistas e ruas da cidade. O resultado será a evolução das praticantes nas manobras e o destaque em competições de alto rendimento.

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