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O salto para a história

A história de Aída dos Santos, a única mulher da delegação brasileira nas Olimpíadas de Tóquio em 1964, que após 53 anos, tem sua história relembrada e homenageada

JPRESS
20 ago 2021 | Por Carolina Borin Garcia (carolinaborin@usp.br) e Isabella Oliveira (isabella05oliveira@usp.br)

A única mulher na delegação brasileira dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Essa era a realidade vivenciada por Aída dos Santos em 1964. “Cheguei lá e a minha vida era chorar. Perdida, sozinha, não entendia nada. Foi olímpico, mas foi triste”, relata a ex-atleta.

As Olimpíadas de Tóquio 2020 entraram para a história. O evento que é realizado desde 1896 não pôde receber público pela primeira vez, em razão das medidas sanitárias de contenção da pandemia da Covid-19, adotadas pelo governo japonês e também por vários outros países ao redor do globo.

Tóquio já havia sediado os Jogos no ano de 1964, quando contou com a participação de 93 países, entre eles o Brasil. A delegação brasileira, na época, era formada por 68 esportistas, dos quais apenas uma era mulher: a atleta do salto em altura, Aída dos Santos.

 

Aída

[Imagem: Arquivo Nacional do Brasil/Flickr]

 

Aída dos Santos conquistou o quarto lugar após atingir a marca de 1.74 metros saltados. A modalidade, que faz parte do atletismo, integra os Jogos Olímpicos desde sua primeira edição. No entanto, somente em 1928, nas Olimpíadas de Amsterdã, as mulheres passaram a competir. No salto em altura, os atletas devem saltar sobre uma barra (conhecida como sarrafo) disposta horizontalmente sob dois postes, sem derrubá-la. Além disso, os competidores, que possuem três chances para transpor a barra, devem impulsionar o salto com apenas um dos pés, após percorrer uma pista de 45 metros.

Contudo, engana-se quem pensa que o caminho até a capital japonesa foi fácil. Nascida em Niterói (RJ) no ano de 1937, Aída gostava de jogar vôlei e descobriu o salto em altura por insistência de uma colega que praticava a modalidade. Segundo a carioca, quando saltou pela primeira vez atingiu a marca de 1.40 metros e quase bateu o recorde do estado do Rio de Janeiro, que na época era de 1.45 metros. Pouco tempo depois, começou a competir e logo conquistou sua primeira medalha, porém Aída não era apoiada pela família: “a primeira dificuldade foram os meus pais, que não queriam que eu praticasse, nem que eu estudasse”. No dia em que voltou para casa com a medalha o pai perguntou se ela havia ganhado dinheiro e quando respondeu que não, apanhou e foi proibida de treinar. “Passei a treinar escondido dele e foi aí que tudo começou.”

A atleta também sofria com a falta de incentivo fora de casa e praticamente não recebeu nenhum tipo de apoio dos clubes em que treinava, à exceção do Vasco, que ofereceu uma ajuda de custo para que ela fosse aos treinos, visto que Aída morava em Niterói e o centro de treinamento localizava-se na cidade do Rio de Janeiro. Apesar disso, na maioria das vezes, ela não conseguia comparecer aos treinos, pois seu pai ficava com a quantia da ajuda de custo.

 

Aída

[Imagem: Reprodução/Instagram]

 

Para integrar a equipe que irá competir nas Olimpíadas os atletas são obrigados a atingir um determinado índice olímpico, e nos Jogos de 1964 esse índice correspondia à marca de 1.65 metros, para o salto em altura feminino. Nas classificatórias olímpicas, Aída atingiu precisamente o índice requisitado e se classificou junto com sua colega, porém as duas tiveram que repetir a prova várias vezes. “Nós pensamos, alcançamos o índice e o certo, como acontece no mundo tudo, é treinar até chegar à competição e melhorar resultados, mas não foi isso que fizeram comigo e com ela.”

Aída quase desistiu de participar da última eliminatória, realizada um mês antes da abertura dos Jogos, em razão do cansaço. “Eu falei para a minha mãe que tinha que ir e ela falou: ‘você só vai no horário, porque eu preciso sair e você vai ter que carregar água, lavar roupa, esfregar casa, depois disso tudo você vai.’” Felizmente, seu técnico a convenceu a saltar e ela alcançou novamente o índice se classificando definitivamente, porém sua colega não conseguiu manter a marca e ficou de fora das Olimpíadas.

Como o resultado da classificação foi decidido pouco antes da abertura dos Jogos, Aída ficou sem uniforme para competir. Segundo a atleta, tempos depois ela se deu conta de que não era comum ter que atingir o índice olímpico repetidas vezes e chegou a conclusão que isso aconteceu porque tanto ela quanto sua colega eram mulheres e negras, em uma delegação totalmente masculina.

De acordo com Kátia Rubio, professora associada da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos da Escola de Educação Física Esporte (EEFE), da USP, Aída é um sinônimo de resistência numa época em que não se falava em movimento feminista, “era como se as mulheres atrapalhassem, e essa determinação da Aída em persistir no seu índice, apesar de tudo, a fez ser confirmada na delegação brasileira apenas uma semana antes do embarque da delegação para os jogos de Tóquio”.

 

A solidão em Tóquio

 

“Eu tinha que fazer aquele resultado, era a pátria amada. Mas os dirigentes não estavam nem aí para mim”

– Aída dos Santos, em entrevista à J.Press

 

Aída foi às Olimpíadas em um país completamente distinto do seu, sem equipamentos adequados para competir, sem uniforme, sem apoio algum dos demais atletas ou do próprio comitê olímpico de seu país. A atleta teve que utilizar um uniforme que havia usado em uma competição anterior, pois sendo a única mulher da delegação, não houve qualquer tipo de preocupação prévia ou intenção de se fazer um uniforme diferente do restante da delegação formada exclusivamente por homens. “Cheguei a conclusão que a minha ida ao Japão foi da maneira que foi feita porque era mulher e era negra.”

A atleta relata que as dificuldades permaneceram no Japão. “Dentro da Vila Olímpica existia uma pista de atletismo e tinha alguns atletas lá treinando. Umas tinham três técnicos, outras tinham dois, e eu não tinha ninguém.” Desde o momento de sua chegada com a equipe masculina de vôlei até o último dia de competição, Aída teve que lidar com a solidão à sua própria maneira. “Quando elas acabavam de treinar, os japoneses guardavam os materiais e eu ia atrás deles, por mímica, pedia o material, eles colocavam para mim e aí eu treinava. Se estava dando certo ou errado eu não sei, mas eu fiz.”

Já na semana da competição, Aída e o atleta cubano e, também, colega, Lázaro Bittencourt, foram até uma das lojas da Vila Olímpica para que pudessem comprar o sapato que a atleta usaria para saltar. No entanto, o nome de Aída não estava naquela nem em nenhuma outra lista. Em um dos estandes, nas palavras da atleta, uma senhora teve dó e deu a ela um sapato de sprinter, inadequado para o salto em altura e normalmente utilizado por corredores. Mas não havia possibilidade de escolha. “Ou eu aceitava aquele sapato, ou iria competir descalça”, diz Aída.

No dia da competição, mais desafios. Ao chegar no estádio, os atletas do salto em altura junto aos seus respectivos técnicos precisavam ir até uma sala na qual seria realizada uma espécie de chamada para verificar os atletas ali presentes. Aída estava sozinha novamente, sem técnico, sem qualquer orientação e sem ao menos entender aquilo que a perguntavam. Em um determinado momento, os voluntários fizeram perguntas aos técnicos das atletas. “Todos eles falaram que não, eu também disse que não. Até hoje eu não sei o que foi perguntado”, relembra Aída.

Enfim, chegou o momento de saltar. Para chegar até a final, Aída precisaria alcançar a marca inédita de 1.70 metros, posto que ela tinha como recorde pessoal a marca de 1.68 metros. “Eu pensava que eu precisava fazer o resultado por causa de tudo que eu deixei lá atrás, eu tinha que chegar à final.” De fato, Aída se classificou. Porém, acostumada a saltar em pistas de terra e com o sapato inadequado, a atleta brasileira torceu o tornozelo.

 

[Imagem: Reprodução/Instagram]

 

Com o pouco dinheiro que tinha, se alimentou minimamente para que tivesse condições de participar das finais no período da tarde. Depois, foi atendida pelo médico da atleta cubana, Miquelina Cobian, já conhecida por Aída e que solidariamente decidiu prestar auxílio à brasileira ao vê-la caminhar mancando com dor pelo estádio.

Na final, Aída conseguiu repetir os resultados e saltou 1.74 metros. “Psicologicamente, eu havia acabado. Eu estava ali porque eu tinha que saltar, mas não tinha mais ânimo, não tinha mais nada.” A brasileira, mesmo sem saber, ocupava até então a terceira posição com aquela marca, mas no último salto foi ultrapassada pela atleta russa, que saltou 1.76 metros.

Quando retornou à Vila Olímpica, os demais atletas brasileiros, que pouco conheciam Aída, contaram que estavam torcendo por ela e que por pouco havia ficado fora do pódio. A saltadora relembra até hoje aquilo que respondeu: “Torceram onde? Eu rodei o estádio e não vi nenhuma bandeira, se eu soubesse que tinha mais brasileiros…”.

Contra todas as expectativas daqueles que a assistiam de Tóquio e daqueles que nunca haviam dado apoio ou incentivo, Aída brilhou. A atleta conseguiu alcançar o 4º lugar no salto em altura, uma posição inédita para a história do Brasil e, também, para as mulheres brasileiras no mundo do esporte daquela época. Uma época na qual as mulheres ainda eram vistas como inferiores, como menos capazes, como seres frágeis e não resistentes. Aída e toda sua trajetória afirmam justamente o contrário.

Quando perguntada por jornalistas ainda no Japão se havia ficado feliz com a sua participação e resultado nos jogos, Aída afirmou: “Ah, eu fui feliz, mas tinha horas que perguntava o que estava fazendo ali e pensava que tinha que estar no Brasil, preocupada com o que deixei aqui atrás. Eu tinha que fazer aquele resultado, era a pátria amada. Mas os dirigentes não estavam nem aí para mim.” Uma política de negligência e um cenário de pouco incentivo ao esporte nacional que já se faziam presentes no contexto brasileiro dos anos 60 e que permanecem até os dias de hoje.

 

Depois de Tóquio

Quando voltou ao Brasil, Aída continuou treinando e consagrou-se campeã estadual, brasileira, sul-americana e pan-americana. Pouco depois que retornou, desfilou no Clube Social do Botafogo com uma roupa de gueixa que havia ganhado ainda em Tóquio. “Meu colega me falou assim: Você vai desfilar de gueixa no clube do Botafogo? Eu nunca vi gueixa negra. Eu respondi: ah, então você vai ver pela primeira vez”, relata a atleta. “Quando passei na mesa do presidente, dei um quarto de volta, daí eu fui aplaudida. Dali eu soltei as plumas e fui em frente, aí eu falei: agora todo mundo conhece uma gueixa negra.”

Em 1968, nos Jogos do México, a atleta sofreu uma distensão no joelho e mesmo machucada não abandonou a competição. “O resultado foi horrível. Algo que eu nunca tinha feito: saltei 1.40m. Mas quis fazer para competir, eu ia voltar para o Brasil brava. Fiquei em vigésimo, mas mesmo aí eu bati o recorde sul-americano no pentatlo na Olimpíada no México.”

Por 32 anos, Aída dos Santos foi a brasileira com melhor desempenho em Olimpíadas, sendo superada apenas em 1996, nos Jogos de Atlanta, pela dupla de vôlei de praia Sandra e Jaqueline. Em 2006, recebeu o Troféu Adhemar Ferreira da Silva e, em 2009, o Diploma Mundial Mulher e Esporte.

Em junho de 2021, passados 56 anos da primeira Olimpíada de Tóquio, a carioca finalmente recebeu o uniforme que deveria ter usado na época, em um ato de reconhecimento da marca de produtos esportivos Centauro. “É muito gratificante, é muito bonito, eu fiquei muito emocionada. Depois de tantos anos, surgir um uniforme que nunca tinha existido antes”, conta Aída. O traje desenvolvido por Carol Barreto, designer, pesquisadora e ativista de moda, foi pensado a partir de elementos da trajetória da atleta e denominado “O Uniforme que nunca existiu”. Inicialmente, foram produzidas vinte peças que terão seu lucro totalmente revertido para as ONGs do Projeto Transforma.

 

Aída trajando um dos uniformes que foi feito especialmente para ela. [Imagem: Divulgação/Centauro]

 

Segundo Giorgia Prates, estar de frente com Aída dos Santos é maravilhoso em todos os sentidos, principalmente pela identificação enquanto mulher preta e periférica, em um país que vira as costas para essa população todos os dias. “Ela ter feito tudo que fez… a gente olha para ela e vê a própria história também contemplada ali.”

Prates é fotojornalista do Brasil de Fato, repórter do jornal Plural pelo programa É Nois Conteúdo, diretora criativa e Diretora de Fotografia. Também é integrante do CWB Resiste, que atua no sentido de denunciar os ataques aos direitos humanos. Giorgia foi escolhida para ser uma das diretoras do projeto “Uniforme que Nunca Existiu”, desenvolvido pela Centauro.

Aída dos Santos além de atleta também é formada em Geografia, Educação Física e Pedagogia. Aída é um exemplo não só para as meninas e mulheres, mas para toda a população brasileira. Uma mulher que sentiu na pele o machismo e o racismo estrutural presente na sociedade e não desistiu, foi à luta e conquistou seu merecido lugar entre os maiores atletas do país. “Por isso que eu falo, tem que insistir, se é algo que você quer, você insiste, porque vai conseguir. Tem que ter boa vontade e vai à luta. Eu apanhei do meu pai, eu desmaiei com fome, eu não tinha material para competir, mas cheguei lá. Eu vivi e venci.”

 

Aída levando a Tocha Olímpica da edição dos Jogos em 2016, no Rio de Janeiro. [Imagem: Ivo Lima/Fotos Públicas]

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