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Observatório I Realização da Olimpíada em Tóquio em meio à pandemia

A realização da edição histórica dos Jogos Olímpicos em Tóquio 2020 não foi impedida de seguir em frente, mesmo diante do aumento de casos de Covid-19 no país e críticas da comunidade científica em relação à medidas sanitárias

ARQUIBANCADA
01 ago 2021 | Por Jaqueline Silva (jack_cristina12@usp.br) e Murillo César (murillo.cesar@usp.br)

A Olimpíada de Tóquio passou por diversos obstáculos até que se pudesse realizar a cerimônia de abertura, no último dia 23. Por conta da pandemia da Covid-19, os Jogos Olímpicos foram, pela primeira vez desde 1896, adiados, assim como qualquer outro evento desse porte. 

Seu início, após um ano de incertezas, foi marcado por controvérsias e discussões que ultrapassam o âmbito esportivo. Ainda passando por problemas de saúde pública em decorrência do novo coronavírus, algumas questões ainda estão no ar: como, e por quê, realizar essa Olimpíada?

Jogos da Recuperação

Em março de 2020, em meio à crise sanitária mundial, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou, após pedidos, o adiamento da Olimpíada. Em nota, afirmou que a medida foi tomada “para garantir a saúde de atletas, todos envolvidos nos Jogos e a comunidade internacional. “Mais de um ano após esse anúncio, o início dos Jogos Olímpicos em 2021 se deu, também, em meio a um cenário pandêmico, de desafios, erros e acertos do governo japonês.

Esperava-se, com a realização do evento, um impacto positivo sobre a economia japonesa. Com o lema de “Jogos da Recuperação” o país planejava, a partir de sua candidatura, celebrar o seu renascimento após o desastre de Fukushima.

A realidade da pandemia mostrou uma nova oportunidade de Recuperação, diferente da prevista inicialmente com os Jogos. No entanto, o atual momento se mostra pouco favorável para uma celebração.

Pouco antes do início previsto para a Olimpíada em 2021, o Comitê Organizador dos Jogos anunciou que iria permitir público nos estádios. Inicialmente com planos de receber 50% da capacidade total, até um máximo de 10.000 espectadores, a decisão teve de ser revogada em meio a  quarta onda de contágio pela Covid-19 no país.

A baía de Tóquio, sede dos Jogos Olímpicos de 2020 [Imagem: Reprodução/Twitter @Tokyo2020]

Ainda que os Jogos estejam sendo realizados, destaca-se o prejuízo econômico que o Japão terá, diferente do que havia sido previsto. Em condições normais, esperava-se um lucro de 86,3 bilhões de reais com o evento; já antes das novas medidas restritivas, o Instituto de Pesquisas Daiwa calculou um valor de apenas 24,8 bilhões.

Agora sem a presença de torcida e num ambiente controlado pelos atletas, Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, destaca a rigidez desse sistema criado para a Olimpíada. “Eles foram muito meticulosos para propor todos os seus planos, pensando em todas as possibilidades”, ressalta. Nos protocolos do Comitê, destacam-se, além da ausência de público, os testes para a detecção da doença e o isolamento daqueles que tiverem o resultado positivo.

Mesmo assim, sempre haverá um risco, como destaca Vecina: “Segurança 100% não existe. Mas realizando-se esses testes com alguma periodicidade, controlando o acesso da imprensa e mantendo o distanciamento, é um risco controlável dentro da Olimpíada. É o mais seguro que poderia se ter.”

Por outro lado, o professor Vecina aponta as possíveis consequências sobre a comunidade japonesa: “é óbvio que, com esse grande número de pessoas, é possível pensar em uma contaminação local potencializada e descontrolada”. Nesses últimos dias, o Japão observou recordes de novos casos de Covid-19, ao passo que o país vive seu pior momento sanitário dos últimos meses e consequentemente acende alerta sobre o futuro próximo.

As mudanças no desempenho de atletas profissionais

Desde as aulas de Educação Física nas escolas até o treinamento de atletas para competições mundiais, parte do desempenho esportivo depende de certos contatos, seja entre alunos e professores ou entre o atleta e a respectiva equipe de preparadores físicos. Mas com a pandemia generalizada causada pelo Covid-19, as formas de consumir e praticar esportes acabaram se alterando a proporções jamais antes vistas. 

Competições já haviam sido suspensas outrora, como em períodos de guerra, mas os fatores diferenciais dessa edição contam com medidas de restrição para coibir a interação física próxima e impedir que os tipos de comunicação verbal calorosas comuns aos esportes sejam praticadas.

As mudanças se alastraram às realidades dos atletas profissionais, que passaram por adaptações completas na rotina de trabalho e planos para o ano de 2020. Com a estreia da Olimpíada de Tóquio adiada para julho de 2021, os treinos se estenderam por mais um período, mas desta vez, de maneiras quase improvisadas. Costumeiramente, as preparações são mais calculadas para competir em grandes eventos esportivos e submetem atletas a um aumento escalável de treinos, que buscam desenvolver cada vez mais a força, velocidade e resistência pessoal. 

Com o apoio financeiro divergente perante cada modalidade esportiva, alguns atletas tiveram de treinar em casa ou em moldes que estavam ao alcance; comprando equipamentos e adaptando treinos individuais — que anteriormente eram acompanhados de maneira coletiva por equipes técnicas. 

Protocolos de retomada da rotina de treinamentos estão sendo colocados em prática no Brasil, mas não se estendem a todos os esportes, principalmente àqueles que possuem menor financiamento. Dentro das lógicas de uma competição como os Jogos Olímpicos, esse fato pode promover desigualdades de desempenho entre países, visto que nações mais controladas sobre a pandemia puderam retomar os treinos com mais agilidade.

O coletivo também pode ser visto em relação ao acompanhamento psicológico realizado por profissionais e que se mostrou essencial durante o período de isolamento social; mas também pelo apoio psicológico que as torcidas, comprovadamente, transmitem aos atletas. 

Em Tóquio, o avanço da pandemia levou ao fechamento de estádios e à orientação das autoridades japonesas para que o público evite aglomerações, incluindo provas de rua, como a maratona. Os gritos de apoio da torcida ficaram em segundo plano, visto que, de acordo com a pesquisa divulgada no periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a produção da fala durante um minuto pode expelir cerca de mil gotículas carregando o coronavírus.

Várias pessoas, com a montagem do símbolo da Olimpíada de Tóquio 2020

A Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos contou com a participação de apenas mil convidados, incluindo autoridades japonesas, como o Imperador Naruhito. O estádio com capacidade de 68 mil pessoas, teve arquibancadas sem público. [Imagem: Reprodução/Twitter @Tokyo2020]


As controvérsias

Em 23 de junho,dia da Abertura dos Jogos Olímpicos, centenas de manifestantes contrários à realização do evento se reuniram do lado de fora do Estádio Olímpico de Tóquio. Houve confronto com a polícia local e foi possível ouvir gritos em oposição durante as transmissões televisivas. 

Desde a manhã do dia 23, a cidade havia se tornado palco de protestos. Em frente à sede do governo metropolitano, manifestantes portavam faixas, cartazes e bradavam: “Vá para o inferno, COI”. O Comitê Olímpico Internacional se tornou alvo após flexibilizar a Regra 50, que proíbe manifestações políticas em cerimônias oficiais, locais de realização de jogos e em pódios. Segundo a Reuters, mais de 150 atletas, acadêmicos e advogados assinaram um abaixo assinado contra a Regra; e a flexibilização que sofreu não atendeu a todos os pedidos.

Parte dessas manifestações são reflexos da vacinação no país. O Japão foi considerado o pior entre os países ricos, por conta da lentidão e desconfiança da população japonesa em relação às vacinas, resultada por casos ocorridos no passado. Segundo estudo da Ipsos efetuado em dezembro de 2020 para o Fórum Econômico Mundial, apenas 60% dos japoneses desejavam ser vacinados.

Até o início de julho de 2021, aproximadamente 450 mil pessoas haviam assinado uma petição online pedindo o cancelamento dos Jogos. [Imagem: Reprodução/Twitter @Marcelauto]

Especialistas chamam o processo de resistência japonesa às vacinas de “lacunas de vacinação”, que prejudicaram a aprovação de imunizantes por anos. Essas lacunas tiveram início na década de 1970, após duas crianças falecerem por receberem uma combinação de vacinas contra coqueluche, difteria e tétano. Ao final dos anos 1980, depois de introduzir vacinas triplas contra sarampo, caxumba e rubéola, o governo passou por ações judiciais e danos, devido à ocorrência de meningite asséptica e inchaços no cérebro e medula espinhal em algumas pessoas que receberam as doses. 

Visto que a resistência japonesa às vacinas representa desconfiança e dificuldades do governo para imunizar uma população cética, a adesão a imunizantes contra a pandemia de Covid-19 torna-se escassa. A parte da população que foi recentemente imunizada teme por infecções generalizadas causadas pela circulação de pessoas durante a Olimpíada, medo refletido pelos dados da pesquisa realizada em maio pelo jornal japonês Asahi Shimbun, que revelava que mais de 80% dos japoneses eram contrários aos Jogos. Na mesma pesquisa, apenas 14% dos entrevistados desejavam que as Olimpíada acontecessem no dia 23 de julho, representando, à época, uma baixa adesão popular.

*Imagem de capa: Símbolo da Olimpíada, em meio ao por do sol [Imagem: Reprodução/Twitter @Tokyo2020]

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