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Tóquio 2020 | Cerimônia de Abertura: um pandêmico caso de sucesso

Mesmo após turbulentos cinco anos, o Japão consegue, pela segunda vez em sua história, encantar o mundo com uma cerimônia de abertura simples, forte e bem humorada.

ARQUIBANCADA
25 jul 2021 | Por Pedro Fagundes (pfmend@usp.br)

Atípicos cinco anos após a marcante cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, chegou finalmente a vez dos japoneses mostrarem ao mundo que ー mesmo em meio a tantos desafios e dificuldades ー é possível conduzir com maestria uma festa de larga escala em que se consiga demonstrar sua cultura, prezar pela solidariedade e apostar num futuro mais brilhante. 

Como já dito, foram cinco atípicos anos desde o primeiro pequeno aperitivo de Tóquio 2020, apresentado no encerramento dos jogos do Rio de Janeiro. Naquela ocasião, foram os videogames a principal marca da prévia japonesa ー com destaque para o ex-primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, que saiu de um cano verde em pleno Maracanã vestido com a roupa e boné do bigodudo da Nintendo: Mario. 

No entanto, perceptivelmente, após os acontecimentos causados pela epidemia do coronavírus, os planos iniciais para uma cerimônia de abertura em Tóquio tiveram que sofrer alterações. Até por isso, consegue-se dividir a apresentação em duas partes distintas, separadas pelo reduzido desfile dos atletas. 

Boa parte da primeira passagem, inclusive, jamais existiria caso a pandemia não tivesse ocorrido, visto que trata da superação dos atletas ao enfrentarem justamente a covid-19. A parte inicial ainda recorre à sustentabilidade ligada à cultura nipônica. Por outro lado, o segundo trecho é mais bem humorado e ー mesmo que envolto por debates sérios e importantes sobre união, diversidade e solidariedade ー busca envolver o espectador ao utilizar mais da tecnologia, música, teatro e até criativas performances humorísticas. Agora, seguindo o espírito olímpico, entremos juntos aos detalhes! 

Ex-primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, com o boné de Mario no Rio 2016 [Imagem: Reprodução/COI]


Parte 1: a superação olímpica

A cerimônia começou com a imagem de uma semente brotando no chão do estádio, que significou esperança e um novo começo. Em pouco tempo, as luzes se apagaram e iniciou-se um vídeo com um cronômetro que regride até o longínquo ano de 2013 — quando Tóquio foi escolhida para sediar os jogos. O relógio começa a avançar junto a um show de imagens, até que atinge o ano de 2020, quando tudo repentinamente para. Em instantes, as luzes voltam a acender e revelam-se vídeos de atletas treinando em casa devido a pandemia. Através de uma montagem dos mais diversos esportes, inicia-se uma contagem regressiva que começa, justamente, no número 21. Ao chegar no zero, o estádio olímpico explode em fogos, se preparando para a verdadeira apresentação.

Para a performance, aparecem diversos atores ー todos isolados ー correndo em esteiras, pedalando em bicicletas de academia e remando em aparelhos. Dentre eles, vale ressaltar a presença de uma única atleta que teve seu ciclo olímpico interrompido por conta da pandemia. Esse recorte representa a força daqueles que não desistem nunca e vão em busca da Olimpíada.

Em seguida, diversas luzes vermelhas conectam-se por todas as partes do chão do estádio. Junto às linhas, dançarinos ligam-se uns aos outros com elásticos igualmente vermelhos. É uma performance que remete aos nervos e músculos humanos que trabalham conforme o esforço de um atleta em ação. Estes pontos conectados também representam as novas formas de comunicação em tempos de crise. Por fim, retorna-se o foco na atleta do centro, que volta à sua esteira ー representando a persistência do sonho olímpico. As luzes vermelhas então se apagam.

Apresentação com luzes e cordas vermelhas remetendo aos músculos de atletas [Imagem: Reprodução/COI]

Como transição da primeira para a segunda parte desta etapa, apresenta-se o Imperador do Japão, Naruhito, e o líder do comitê olímpico, Thomas Bach. Posteriormente, há a entrada de diversos atletas no estádio, junto a um deficiente e uma enfermeira, que carregam a bandeira do Japão. Pede-se então um momento de silêncio pelas vítimas da covid-19 e presta-se homenagem aos membros sobreviventes do atentado de Israel.

A cerimônia prossegue com uma interpretação musical tradicional dos bombeiros japoneses. Em seguida, começa uma apresentação ligada à marcenaria e artesanato. Nela, martelos transformam-se em percussão, pessoas sobem nas mesas para sapatear e fazer acrobacias, entram em cena diversas lanternas japonesas e começam a ser formados os anéis olímpicos. Tudo utilizando uma madeira desbastada originária de árvores plantadas nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964

Ao final da primeira etapa, uma orquestra começou a tocar enquanto imagens variavam entre instrumentistas se preparando para um espetáculo e atletas se concentrando para enfrentar uma competição. Por fim, no ápice do espetáculo musical, para anunciar a entrada dos atletas, é escolhida uma criança, ou seja, o futuro japonês.

Apresentação de sapateado e percussão com martelos de marcenaria na Cerimônia de Abertura

Apresentação de sapateado e percussão com martelos de marcenaria [Imagem: Reprodução/COI]


Destaques do desfile

Marcada por delegações reduzidas, aglomerações inconsequentes, máscaras abaixadas, pulos, mortais, gritos de guerra, homens besuntados, atentados contra a moda, vestimentas tradicionais e, claro, muita euforia, a passagem dos atletas nesta edição dos Jogos foi, como esperado, atípica.

No entanto, algumas tradições conseguiram permanecer, como a Grécia, criadora das Olimpíadas, abrir o desfile. Fora a passagem dos gregos com belos seus ternos azul escuro, tivemos vários outros destaques. A começar pela Comissão dos Refugiados que contou com 26 atletas. Em sequência, a delegação dos Emirados Árabes que dispõe somente de esportistas naturalizados. Outro momento que saltou os olhos foram os argentinos, todos amontoados, se abraçando, pulando e gritando em êxtase. 

Delegação Argentina na Cerimônia de Abertura

Delegação argentina festejando alucinadamente [Imagem: Reprodução/COI]

Um dos atentados à moda foi a delegação do Uzbequistão, com sua jaqueta verde que muito lembrava um colete de raio-x. Outro atentado, mas desta vez contra a OMS, foram as delegações do Quirguistão e do Tajiquistão que praticamente não utilizaram máscaras de proteção. A Colômbia, por sua vez, ganhou atenção por entrar com uma roupa semelhante a um kimono. Um dos casos interessantes dessa Olimpíada foi  o Comitê Olímpico Russo, que apenas contou com atletas que provaram não terem participado do esquema de doping, o qual retirou a bandeira russa de Tóquio.

Um dos mais aguardados destaques foi a equipe de Tonga ー imitada desta vez por Vanuatu ー que foram representadas por porta-bandeiras sem camisa e besuntados no óleo. Outro recorrente ponto alto foi a delegação de Bermudas vestindo suas tradicionais bermudas salmão. O segundo atentado à moda ocorreu através da delegação do Paraguai e sua tradicional roupa de pipoqueiro. Quem também não podia ficar de fora era o Brasil, que foi representado por somente dois atletas ー Bruninho, do Vôlei, e Ketleyn, do judô ー calçando chinelos e com muito samba no pé. 

Delegação Brasileira na Cerimônia de Abertura

Bruninho e Ketleyn carregando a bandeira do Brasil no desfile [Imagem: Reprodução/COI]

O segundo eufórico da noite foi Portugal, que chegou quase derrubando sua própria bandeira. Os Estados Unidos da América, por sua vez, causaram espanto por trazer boa parte de sua delegação, como se a pandemia que nos cerca a quase dois anos não existisse mais. Um destaque acrobático foi a França que contou com a realização de um mortal de costas pelo seu porta-bandeira. Por fim, os donos da casa apareceram super animados com a cerimônia.

Delegação estadunidense na cerimônia

A delegação estadunidense aparecendo em grande número no desfile [Imagem: Reprodução/COI]

Para além das delegações vale um último destaque quanto às músicas tocadas durante o desfile e o art style das plaquinhas que continham os nomes dos países. Primeiramente, a música: este foi o momento pelo qual todo amante de jogos eletrônicos estava esperando desde a prévia da Olimpíada de Tóquio em 2016. Em um país tão tradicional no cenário dos videogames, seria impossível não encaixar sequer uma ou outra referência a esse setor tão apreciado. 

Por isso, dentre outros títulos, foi possível reconhecer, no decorrer do desfile, melodias de franquias de jogos clássicos como Monster Hunter, Final Fantasy, Sonic, Kingdom Hearts e Winning Eleven. Agora partindo para as plaquinhas, a referência é simples: todos os nomes dos países estavam dentro de balões de fala típicos do mangá japonês. Um detalhe simples que conseguiu encantar um pouco mais a cerimônia.

 

Parte 2: Faster, higher, stronger, together

A segunda etapa da apresentação iniciou-se destacando quatro palavras: faster (mais rápido), higher (mais alto), stronger (mais forte) e together (juntos). Todas elas, em unidade, representam o espírito olímpico, em que juntos somos mais fortes e podemos chegar mais alto cada vez mais rápido. 

As quatro principais palavras que definem o espírito olímpico [Imagem: Reprodução/COI]

Logo após a exibição das palavras, foram explorados num vídeo os conceitos de união e diversidade ー através dos depoimentos de uma medalhista de natação do Zimbabwe. Um destaque importantíssimo quanto a essa passagem foi que, pela primeira vez na história, o juramento olímpico foi alterado a fim de abarcar, justamente, os ideais de diversidade e união.

Em sequência, utilizando a performance de um grupo de jornalistas caricaturados como fio condutor da apresentação, começa uma sequência impressionante. Resumidamente, tudo inicia com várias caixas retangulares no centro do estádio. Aos poucos, essas caixas passam a formar no chão da arena o símbolo oficial das Olimpíadas de Tóquio. 

Mas não para por aí! Atentando-se alto no céu, foi possível vislumbrar 1824 drones que recriam o logotipo dos Jogos em pleno firmamento japonês. No entanto, esse era apenas o começo. Poucos instantes depois, os drones começam a se mexer e passam a formar uma figura tridimensional do planeta Terra. 

Drones formando no céu de Tóquio o globo terrestre [Imagem: Reprodução/COI]

Tal ponto que não conseguiria chegar mais alto recorreu então ao clássico da música internacional: Imagine, de John Lennon. A obra prima, que completa 50 anos em 2021, só pôde ser reproduzida graças à Yoko Ono ー designer japonesa e viúva de Lennon ー, que possui os direitos de todas as composições do ex-beatle

A música foi repartida e cantada por cinco artistas diferentes, um representante de cada Continente: um coro de crianças japonesas representou a Ásia, a cantora de Benin, Angélique Kidjo, representou a África, o espanhol, Alejandro Sanz, representou a Europa, o cantor e ator estadunidense, John Legend, representou as Américas e o neozelandês, Keith Urban, representou a Oceania.

Como de praxe, logo após a cantoria, a cerimônia foi interrompida para que ocorressem os discursos da diretora dos Jogos de Tóquio, Hashimoto Seiko, e do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach. Para além do atleta super animado que ficou pulando incansavelmente atrás do palco para aparecer por poucos instantes na câmera, vale destacar uma palavra em específico que preencheu o discurso do presidente do COI: solidariedade. 

Resumidamente, os principais pontos debatidos foram a perseverança japonesa para com a Olimpíada, a glorificação dos “heróis anônimos” como médicos e enfermeiros, a superação dos desafios que a pandemia trouxe para o mundo e a adição dos conceitos de inclusão, igualdade e união como novos lemas olímpicos. Bach encerrou seu discurso com uma série de palavras em japonês e passou a voz para o Imperador Naruhito, que brevemente anunciou o início dos jogos.

Caminhando para o final da cerimônia, a equipe de televisão voltou! Mais uma vez eles serviram como gancho, agora para uma das melhores performances da noite (ou da manhã, para nós brasileiros): a história dos pictogramas. O nome nada cativante refere-se aos símbolos de cada esporte olímpico que, curiosamente, começou a ser personalizado a partir de Tóquio 1964. 

Os pictogramas ganharam vida através de três atores fantasiados como bonecos azuis e cabeçudos que foram desafiados a reproduzir todos os 50 esportes que representam. É uma passagem muito bem humorada, criativa e utiliza de uma variedade incrível de objetos e ângulos de câmera para formar cada um dos pictogramas. A comemoração do ator principal ao final do espetáculo é totalmente justificada pois ele, ao certo, mereceu a primeira posição no pódio que construiu e subiu.

Três pessoas fazendo os pictogramas dos Jogos durante a Cerimônia de Abertura

Os pictogramas ganhando vida na cerimônia de abertura [Imagem: Reprodução/COI]

A penúltima apresentação da noite, nomeada “hora de brilhar”, segue o humor da sua antecedente e demonstra ao público um estagiário mexendo freneticamente em todos os botões da cabine do estádio olímpico. Após apagar e acender todas as luzes repetidas vezes, sua a chefe aparece lhe dando uma bronca e requisitando para que ele comece a fazer o que deveria. Assim feito! O estagiário começa a realizar devidamente o seu trabalho e passa a iluminar cada uma das arenas olímpicas e os principais pontos turísticos de Tóquio.

Com ajuda de sua chefe e após algumas tentativas frustradas, ambos conseguem iluminar um pedaço do estádio onde se encontrava um ator pintado no rosto e vestido com uma roupa clássica do teatro kabuki japonês. Dividindo espaço com o ator, destacava-se Hiromi Uehara, pianista de jazz e vencedora do Grammy que, extremamente animada, dispôs de uma apresentação musicalmente ótima e muito envolvente. Foi com essa dualidade entre a tradição e o futuro que se aplainou o terreno para a entrada da Tocha Olímpica.

Após um curto vídeo da tocha sendo acesa na Grécia, anos atrás, e percorrendo por todos os cantos e ilhas do Japão, a chama chega finalmente ao estádio. Ela primeiro é empunhada por um atleta de judô, que a entrega para três senhores ー dentre eles, um ex-jogador de baseball ー, o que demonstra o tão tradicional respeito e apreço aos idosos presente na cultura japonesa. 

Após uma longa e demorada caminhada, as ilustres figuras passam a chama para uma médica acompanhada por um enfermeiro, que vão correndo até chegar de encontro à uma atleta paraolímpica, que recebe a chama. Em sua cadeira de rodas, ela vai se locomovendo até chegar a um grupo de crianças ー o futuro ー, que a reverenciam e recolhem o fogo. 

Por fim, os jovens estudantes encostaram sua tocha na da tenista ex-número um do ranking, Naomi Osaka,  que partiu em direção à representação do Monte Fuji que tinha, em seu topo, a Pira Olímpica — o Sol Nascente japonês. Ao chegar aos pés do monumento, o monte se abriu numa escadaria que encaminhou Naomi até a beira do Sol, que neste ponto já havia se transformado em uma flor cromática. Com as emoções à flor da pele, a tenista pôde acender a pira olímpica que ardeu fortíssima em Tóquio. O show se encerra com o estádio explodindo em fogos e a lua aparecendo absoluta no céu.

Pira Olímpica acesa com Naomi Osaka na frente, durante Cerimônia de Abertura

Naomi Osaka e a pira olímpica acesa [Imagem: Reprodução/COI]


Veredito

Foi uma apresentação simples, minimalista, que soube alterar bem entre o tom mais sério e o humor japonês. No geral, foi um resultado mais do que positivo para uma edição que contou com três produtores diferentes, uma epidemia global, catástrofes naturais e incertezas quanto à existência da própria Olimpíada. 

Sinceramente, sente-se falta de mais espaço para a cultura popular ー como o J-Pop, videogames e animes ー, porém a justificativa de precisar abordar temas atuais como a própria pandemia é mais do que adequada. Vale destacar a positivíssima inédita mudança do juramento olímpico, que agora abarca a união e a diversidade. Meus parabéns, Tóquio! Arigatou gozaimasu.

 

*Imagem de capa: [Reprodução/COI]

 

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