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Observatório: O vírus que adiou as Olimpíadas
ARQUIBANCADA
29 mar 2020 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br) e Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

Na última terça-feira (24), o Japão anunciou o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 por conta dos casos de coronavírus cada vez mais crescentes. Os pronunciamentos da Austrália e do Canadá de que não enviariam seus atletas para participar da competição em meio à pandemia fizeram com que o COI (Comitê Olímpico Internacional) – junto aos representantes do governo japonês e do Comitê Organizador de Tóquio – adiantasse o anúncio da suspensão do evento.

As previsões atuais apontam que os jogos serão sediados no verão japonês de 2021, informou o comitê. Mas, até lá, o país-sede ainda passará por desafios na economia e no turismo. 


O que leva a adiar as Olimpíadas?

Adiar as Olimpíadas é uma decisão já considerada em outros contextos, porém sua efetivação é inédita. Ainda assim, o torneio já sofreu com eventos extremos. Ao todo, foram três Olimpíadas canceladas ao longo da história, todas por conta das Grandes Guerras.

Em 1916, o torneio seria sediado em Berlim, mas a cidade alemã era um dos principais cenários da Primeira Guerra Mundial. Acreditava-se que o conflito, iniciado em 1914, não iria se estender por muito tempo, tanto que os preparativos para as Olimpíadas não pararam inicialmente. Foi somente no ano seguinte, com o início da guerra, que o torneio foi cancelado.

As duas outras Olimpíadas canceladas foram as de 1940 e 1944, ambas por conta da Segunda Guerra Mundial. A primeira citada, inclusive, seria sediada em Tóquio, mas a Guerra Sino-Japonesa fez com que o torneio fosse inicialmente transferido para Helsinki, capital da Finlândia, em 1937. 

Dois anos depois, as Olimpíadas de 1940 foram oficialmente canceladas, com o início da guerra no ano anterior. O conflito, que se encerrou apenas em 1945, também fez com que as Olimpíadas de 1944, programadas para acontecerem em Londres, na Inglaterra, fossem canceladas. Na edição seguinte, em 1948, a cidade inglesa sediou o torneio. Tóquio recebeu as Olimpíadas apenas em 1964.

Nesses contextos, foi possível impedir que as Olimpíadas fossem realizadas, mas em duas edições posteriores às Guerras, o torneio foi surpreendido por atentados durante sua celebração.

Bandeira de Israel é hasteada a meio-mastro em Olimpíada de Munique.

Bandeira de Israel é hasteada a meio-mastro em Munique [Imagem: AFP/Archivo]

No dia 5 de setembro de 1972, durante as Olimpíadas de Munique – cidade-sede que fazia parte da Alemanha Ocidental – oito integrantes do grupo terrorista palestino Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica. Eles mataram dois membros da delegação de Israel e sequestraram mais nove. O objetivo era negociar a soltura de presos palestinos em prisões israelenses.

Com a tentativa falha da polícia local em montar uma emboscada, os sequestradores mataram os nove reféns. Ao todo, foram 17 mortes – onze membros da delegação israelense, cinco membros do Setembro Negro e um policial. O torneio foi interrompido por 34 horas e prorrogado por mais um dia. Nas palavras de Avery Brundage, presidente do COI à época, “os Jogos devem continuar”.

Em 27 de julho 1996, nas Olimpíadas de Atlanta (EUA), uma bomba foi detonada no Parque Centenário Olímpico – local que recebeu diversos eventos culturais ao longo dos Jogos – durante um show do grupo Jack Mack and the Heart Attack. Duas pessoas morreram e cerca de 111 ficaram feridas. Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos, afirmou que não iria parar os Jogos pois “a nação não seria intimidada por atos de terrorismo”.

 

Os atletas diante da pandemia: saúde em primeiro lugar

Antes da decisão oficial do Comitê Olímpico Internacional, o Canadá e a Austrália já haviam se posicionado contra o envio de seus atletas ao torneio. O Comitê Olímpico Canadense informou no dia 22 de março, em nota oficial, que “isto não é somente sobre saúde dos atletas – é sobre saúde pública.” Afirmou ainda que enviá-los para o torneio seria contrariar as orientações de saúde dadas pelo próprio país à comunidade canadense.

Já o Comitê Olímpico Australiano (AOC) informou que os atletas deveriam se preparar para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021. “O AOC acredita que nossos atletas agora precisam priorizar sua própria saúde e a de todos ao seu redor”, declarou. Os posicionamentos pressionaram o pedido de postergamento do torneio feito pelo primeiro-ministro do Japão, por Shinzo Abe e aprovado pelo COI.

Procurado pela Jornalismo Júnior, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) informou que encarou a decisão do adiamento com alívio. “Desde o início da pandemia, a postura do COB tem sido priorizar a saúde e o bem-estar dos atletas e dos demais envolvidos com o esporte olímpico brasileiro.” No dia 21 de março, o COB emitiu uma nota oficial defendendo o adiamento do torneio.

Participação da seleção brasileira feminina de vôlei nas Olimpíadas de Londres, em 2012

Participação da seleção brasileira feminina de vôlei nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 [Imagem: Comitê Olímpico do Brasil]

Quanto à preparação dos atletas, o Comitê afirmou que decisões como replanejamento e conversas com patrocinadores e fornecedores devem ser estudadas e tomadas. “Seguiremos trabalhando para oferecer uma estrutura de excelência ao Time Brasil”, assegurou.


A situação japonesa

Com a pandemia da COVID-19 aumentando exponencialmente o número de vítimas todos os dias, não houve alternativa senão adiar as Olimpíadas e aguardar para que o tumulto passasse.

O impacto econômico de adiar os Jogos Olímpicos pode ser negativo, mas poderia ser ainda pior se fossem mantidos. O professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, Pedro Feliú Ribeiro, aponta que a decisão tomada pelo país-sede foi absolutamente correta. “Na verdade, não havia espaço para opções alternativas. Cancelar seria péssimo e manter, ainda pior.” As Olimpíadas atualmente contam com 206 delegações competidoras, o que poderia facilmente impulsionar uma nova onda de contágio da doença. 

Além disso, Feliú explica que os dois fatores que afetam PIB japonês quanto aos Jogos são as obras e o turismo. Quanto ao primeiro aspecto, com as construções finalizadas, seu valor já foi agregado ao PIB. Em relação ao turismo e seu consumo, se o evento fosse realizado durante a atual pandemia, os resultados econômicos seriam muito abaixo do esperado. O adiamento, nesse caso, provavelmente será benéfico para que o turismo alcance os níveis esperados na nova data.

O adiamento dos jogos nesse momento crítico também pode contribuir para a imagem do Japão e dos jogos. Os Jogos Olímpicos de Verão de 1992, sediados em Barcelona, deixou um legado turístico para a cidade. “Essa é uma das apostas de Tóquio. O cancelamento seria muito danoso. A postergação não impacta muito a parte econômica e é boa para a imagem do Japão e dos Jogos.”

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe [Imagem: Charly Triballeau/Pool/AFP]

Quanto à parte econômica, com o número de casos de coronavírus aumentando no Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou o lançamento de um pacote de estímulos à economia. A fim de evitar que a crise do coronavírus afete ainda mais a nação, o novo pacote deve superar o criado na Crise de 2008, de 56,8 trilhões de ienes (US$ 526 bilhões).

Para os próximos jogos, espera-se que o COI e o país-sede organizem um protocolo de segurança sanitária. “Desde o aeroporto até o transporte e as arenas”, informa Feliú. Além disso, “trabalhar muito a comunicação com a comunidade internacional, países, comitês olímpicos e público no geral, divulgando as medidas e protocolo.”

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