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Observatório: Epidemia do medo
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08 mar 2020 | Por Júlia Carvalho e Luana Franzão (juliacarvalho2602@usp.br e luanafranzao@usp.br)

Na última semana, subiu para 19 o número de pessoas infectadas com coronavírus no Brasil. No mundo, já são mais de 100 mil casos registrados. O vírus, que tem provável origem nos morcegos, tinha como epicentro a cidade de Wuhan, na China, e vem se espalhando a cada dia, atingindo países de todos os continentes. Quase com a mesma velocidade em que crescem diariamente as estatísticas sobre o vírus, a histeria acerca da doença se prolifera em todo mundo, como se ela fosse a real nova epidemia.

Os estoques de máscaras e álcool gel acabaram em grande parte das farmácias de São Paulo quando o primeiro caso da doença no Brasil foi divulgado. A cidade é a que concentra a maior parte dos registros de infectados. A situação da falta de máscaras não foi solucionada desde então, muito porque os insumos para a produção desses itens vêm da China – e o governo chinês proibiu a exportação de tais produtos diante da epidemia que atinge o país. Apesar do crescimento diário do número de infectados, o medo e a histeria acerca do assunto são justificáveis?

Luiz Gustavo Goés, Pesquisador da Plataforma Científica Pasteur-USP e especialista em vírus emergentes de morcegos, acredita que o pânico só trará consequências negativas como, por exemplo, a realização de uma corrida desnecessária aos supermercados e farmácias, o que pode levar as redes comerciais ao desabastecimento. Dessa maneira, a atitude da população paulista, assim como de todo o Brasil, está sendo exagerada.

Falta de máscaras atinge também a cidade de Belo Horizonte. [Imagem: Juarez Rodrigues/Estado de Minas]

A indicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o uso de máscaras é que apenas aqueles que já estão com alguma doença respiratória transmissível (gripe, resfriado, pneumonia e o próprio Covid-19) o façam. As máscaras realizam o bloqueio de gotículas que possam transmitir um vírus, entretanto seu uso irrestrito também pode causar consequências negativas. Por exemplo, os fabricantes do material descartável alertam para a importância do descarte correto desse produto, pois caso dispensado em local inadequado, pode acabar transmitindo doenças para pessoas que estejam nessas áreas.

O pânico já existe no imaginário de muitos. Para compreender como esse nível de alerta foi alcançado, é preciso entender o início. Algumas medidas tomadas pelo governo chinês no começo da epidemia em Wuhan foram, de certa forma, alarmantes. A China declarou estado de quarentena em uma cidade inteira, com aproximadamente 11 milhões de habitantes: “A humanidade usou quarentena para controlar a peste negra na Idade Média, a febre amarela quando ainda não se sabia qual era a causa da doença, a gripe espanhola no início do século XX. E nada mais. Agora aparece um novo vírus e se diz: ‘vamos lá, lembrem-se disso.’ Ninguém está preparado. Ninguém tem experiência com quarentena porque era algo em desuso”, declarou Pedro Vasconcelos, epidemiologista que preside a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em entrevista à revista Piauí.

Pessoas na China se previnem do vírus com o uso de máscaras. [Imagem: Tyrone Siu/Agência Brasil]

Para Fredi Alexander, professor doutor de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, o único efeito positivo que esse medo em relação à doença poderia gerar são as ações preventivas e o envolvimento da comunidade – uma vez que “a importância do coronavírus tem a ver diretamente com o risco de disseminação a nível global”. No entanto, ele acredita que “se tivéssemos em conta outros critérios, várias outras doenças seriam mais preocupantes. Por exemplo, a dengue pela sua incidência, a tuberculose pela mortalidade associada e o sarampo pela transmissibilidade”. Em um ano, os casos de dengue no Brasil cresceram 72% e são cerca de 180 mil infectados no país. Com relação ao sarampo, os números também são preocupantes: em 2019, houve 17,5 mil ocorrências só no estado de São Paulo.

Diferentemente dessas doenças presentes no Brasil há décadas, a maneira mais simples de conter o coronavírus está literalmente nas mãos da população. Ainda segundo Luiz Gustavo Goés, “nós temos a capacidade de diminuir as chances de transmissão do vírus. Só depende de nós. Afinal, o vírus não tem pernas e depende totalmente de atitudes humanas para infectar um novo indivíduo”. A forma mais comum de transmissão da doença é através do contato com a saliva de um indivíduo infectado.

A mídia tem papel fundamental na divulgação de ações preventivas que podem conter a disseminação do Covid-19. “A educação da população sobre medidas de prevenção como lavar as mãos várias vezes ao dia, evitar tocar o rosto, manter distância social de pessoas com sintomas respiratórios, além da correta orientação de como pessoas com sintomas devem se comportar (como o uso de máscaras ou auto quarentena), são orientações que devem ser seguidas e podem sim controlar, ou pelo menos diminuir, a disseminação viral”, acrescenta Luís.

É importante se ter informação sobre a evolução do vírus no mundo e sobre pesquisas que já estão sendo feitas para tentar combatê-lo, mas é preciso entender que as medidas tomadas por cada governo – como a já citada quarentena em massa na China – são particulares, de acordo com a evolução da doença em cada região. No Brasil, onde há tamanha deficiência no sistema educacional, é função da mídia, também, combater a possível histeria coletiva, trazendo as recomendações mais indicadas para que a população se previna.

 

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