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O frágil equilíbrio entre os arcos olímpicos
ARQUIBANCADA
02 out 2019 | Por Julia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Olimpíada. Para muitos, sinônimo de superação, vitória, disputa. Apesar de seculares, os Jogos Olímpicos, no imaginário atual, se restringem ao esporte como entretenimento. Impensável acreditar que, na Antiguidade, todas as guerras e conflitos políticos eram suspensos durante as Olimpíadas – talvez porque, na Modernidade, o contrário sempre ocorreu. Esse espírito olímpico de tamanha valorização do esporte passou a ser mantido muito mais pelos atletas do que pelos governantes. As Olimpíadas, no século XX, assumiram o papel de ferramenta política, sendo utilizadas como forma de demonstração de poder. Foi nesse período que intensos movimentos de boicotes aos Jogos ocorreram.

 

Mundo em guerra

Os primeiros boicotes e interrupções às Olimpíadas do século XX ocorreram devido às duas Guerras Mundiais. Em 1916, os jogos aconteceriam em Berlim, mas foram cancelados em decorrência da Primeira Guerra Mundial. O mesmo ocorreu em 1940 e 1944, com os Jogos Olímpicos de Helsinque e Londres, suspensos devido à Segunda Guerra.

Porém, no período entre guerras houve a Olimpíada de Berlim em 1936 Os jogos, que ocorreram três anos antes do início da Segunda Guerra, se deram em meio a um ambiente de tensão entre judeus e apoiadores do nazismo. Houve um apelo por parte de diversas comunidades judaicas pelo mundo para que a Olimpíada fosse boicotada, movimento que teve grande força nos Estados Unidos. Naquele ano, apoiadores do boicote defenderam, até, a realização de competições alternativas – sendo a Olimpíada do Povo a mais importante delas. A iniciativa, que ocorreria em Barcelona, foi frustrada pela eclosão da Guerra Civil Espanhola.

Assim como o acontecimento da Olimpíada do Povo, os movimentos de boicote estadunidenses não obtiveram êxito – principalmente após a decisão do Sindicato dos Atletas Amadores dos Estados Unidos de participar da Olimpíada de Berlim. A iniciativa, que começou com aparente força e apoio, terminou com apenas alguns atletas judeus boicotando a competição.

Pôsteres das Olimpíadas de 1916, 1936 e 1948 [Imagem: pinterest.com / globopedia.com]

Já na Olimpíada de 1948, a primeira depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Japão e Alemanha foram impedidos de participar devido às suas atuações na guerra. Muitos ingleses acreditavam que o evento, sediado em Londres, seria um desperdício de dinheiro no momento em que o país ainda se recuperava das consequências do conflito. Apesar disso, a Olimpíada despertou o interesse dos londrinos logo nos primeiros bons resultados, fazendo-os esquecer da desconfiança inicial.

 

Vizinhos em disputa

As Grandes Guerras não foram as únicas responsáveis por interferências nos Jogos Olímpicos. As disputas territoriais entre países vizinhos e as guerras internas também influenciaram diretamente na participação e nos boicotes à competição.

Os países envolvidos em conflitos no Oriente Médio, por exemplo, protagonizaram mais de um caso problemático nos Jogos. Em 1956, Egito, Iraque e Líbano não participaram da Olimpíada de Melbourne como forma de protesto à tomada do Canal de Suez por Israel. Já em 1972, em Munique, o problema ocorreu devido ao conflito entre Israel e Palestina. Durante os jogos, terroristas palestinos do grupo Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica e mataram onze atletas israelenses. O episódio, conhecido como Massacre de Munique, levou à suspensão dos Jogos por 34 horas.

Cerimônia fúnebre realizada em homenagem aos israelenses mortos [Imagem: Arquivo / AE]

Algumas disputas entre países asiáticos também tiveram impacto nas participações olímpicas. As discordâncias entre China e Taiwan fizeram com que os chineses se recusassem a participar das Olimpíadas por mais de 20 anos – de 1956 a 1980. Já em 1964, como continuação de um impasse com Israel nos Jogos Asiáticos de 1962, a Indonésia decidiu boicotar a Olimpíada de Tóquio. Os conflitos entre as Coreias, por sua vez, fizeram a Coreia do Norte ficar de fora da Olimpíada de Seul, em 1988. Os norte coreanos tentaram sediar algumas provas naquele ano, mas enfrentaram oposição da Coreia do Sul e do COI (Comitê Olímpico Internacional) e decidiram não participar dos Jogos.

Quatro anos depois, a Iugoslávia foi impedida de participar de esportes coletivos na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Isso ocorreu porque, desde o ano anterior, os conflitos separatistas resultaram em uma guerra civil no país. Os atletas iugoslavos puderam somente se inscrever em modalidades individuais, sem o uso da bandeira nacional.

 

Questões raciais em foco

A competição também já foi utilizada como forma de luta para combater desigualdades. A África do Sul foi impedida de participar dos Jogos Olímpicos por 32 anos por se encontrar sob o regime do apartheid. A Olimpíada de 1960 foi a última em que o país participou antes do COI ceder à pressão internacional e aos protestos contra a segregação racial e punir o país africano.

Ainda em decorrência do apartheid, grande parte das nações africanas, juntamente com o Iraque e a Guiana, decidiram boicotar a Olimpíada de 1976. Esses países exigiam a expulsão da Nova Zelândia da competição porque o time de rugby havia feito uma excursão à África do Sul – na época, ainda sob o regime do apartheid. O COI se disse impossibilitado de tomar uma providência já que rugby não era uma modalidade olímpica. Os países, então, não participaram dos Jogos em protesto à decisão.

Além dos boicotes relacionados ao apartheid, houve situações marcantes em algumas Olimpíadas no que diz respeito à luta por igualdade. Nos Jogos Olímpicos de 1968, por exemplo, o protesto silencioso dos norte-americanos Tommie Smith e John Carlos na recepção das medalhas se tornou a imagem mais famoso da Olimpíada do México. Os atletas, ambos negros, subiram ao pódio com brasões do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos – movimento que defendia o boicote dos negros aos Jogos para chamar atenção para o racismo. Durante a execução do hino, os atletas abaixaram as cabeças e levantaram o punho com luvas negras, uma clara referência ao movimento Black Power. Ambos foram banidos dos Jogos Olímpicos de forma vitalícia pelo COI – pois não são permitidas  manifestações políticas nas Olimpíadas – mas ficaram marcados eternamente como símbolo da luta pela igualdade racial.

Tommie Smith e John Carlos em seu protesto silencioso na Olimpíada de 1968 [Imagem: Angelo Cozzi / Mondadori Publishers]

Potências mundiais medem forças

O período histórico conhecido como Guerra Fria, que se estendeu de 1945 a 1991, também influenciou diretamente nos Jogos Olímpicos. Além de serem as duas potências envolvidas nesse conflito indireto, os EUA e a URSS eram muito fortes esportivamente. A influência desses países ultrapassou o campo geopolítico durante esse período, gerando consequências, até, no esporte.

A chamada Guerra Fria esportiva se iniciou na Olimpíada de 1952, quando a URSS disputou a competição como bloco pela primeira vez. Quatro anos depois, nos Jogos de Melbourne, a Holanda, a Espanha e a Suíça boicotaram a Olimpíada como represália à invasão da Hungria pela URSS, o que já demonstrava a força das ações políticas nessa época.

Já nas Olimpíadas de 1980 e 1984, a tensão entre as duas potências chegou ao seu ápice no esporte. Nos Jogos de Moscou, em 1980, os EUA lideraram um boicote que contou com o apoio de aproximadamente 70 países em retaliação à invasão da URSS ao Afeganistão, executada no ano anterior. A ação demonstrou não só a força dos EUA como potência política, mas também seu protagonismo no esporte, enfraquecendo certas modalidades com sua ausência. Na Olimpíada seguinte, realizada em Los Angeles, a URSS, junto às nações socialistas, boicotaram os Jogos de 1984 em resposta ao boicote americano de 1980. O grupo alegou falta de segurança para suas delegações, mas era clara a intenção de retribuir a iniciativa americana.

Oscar Schmidt, um dos maiores jogadores de basquete brasileiros, participou de ambas as Olimpíadas. Maior cestinha da história mundial do esporte, Oscar relata a percepção que tinha em relação aos boicotes. “Na época eu não entendia bem o que significava isso, só sabia que tinha uma briga entre Estados Unidos e Rússia que dividiu o planeta. Eu estava muito feliz de ir para a Olimpíada e não prestava atenção nessas coisas de política, só fui entender bem o que significava o boicote mais velho”.

Assim como Oscar, Renan Dal Zotto – que fez parte da “geração de prata” do voleibol brasileiro e, hoje, é técnico da Seleção Brasileira Masculina de vôlei e do Vôlei Taubaté – jogou nas Olimpíadas de 1980 e 1984. “Minha primeira participação em Jogos Olímpicos foi em Moscou,1980, justamente quando teve o boicote americano. Na época, nós não sentimos grandes consequências porque a seleção americana de voleibol não tinha uma representatividade muito grande no cenário internacional. Claro que o evento perdeu como um todo, pois grandes atletas americanos não estavam presentes, mas para o voleibol não teve grandes reflexos e se falava pouco sobre isso”. 

Oscar Schmidt e Renan Dal Zotto nos anos 1980 [Imagem: www.renandalzotto.com.br e esporte.band.uol.com.br]

Já sobre os Jogos de 1984, Renan acrescenta: “Na época a União Soviética era uma das melhores seleções do mundo e houve sim uma repercussão muito grande, várias discussões e comentários. Talvez tenha comprometido o nível técnico da competição porque eles eram um dos fortes candidatos a subirem ao pódio e com a presença deles a ordem das medalhas poderia ter sido outra”.

Em relação ao clima dessas Olimpíadas, ambos concordam que nada abalava o sentimento de realização dos atletas de participar dos Jogos Olímpicos. “Eu não notava nada de diferente entre os atletas porque estavam todos felizes por jogar uma Olimpíada. Eu mesmo queria ganhar minha medalha e ponto, meu assunto não era participar de boicote.”, lembra Oscar. Já Renan compara as duas Olimpíadas que tiveram boicotes com a de 1988: “Em Seul, foi totalmente diferente, eu digo porque participei das três: uma sem o bloco americano, outra sem o bloco comunista e, depois, Seul, com todos. O extra quadra não afetou absolutamente nada. Quem está participando dos Jogos Olímpicos vive intensamente aquele momento e não fica muito preocupado com quem está e quem não está. Entende-se que, naquele momento, está quem deve estar e quem pode estar, sempre com o que tem de melhor. Não acredito que o brilho dos jogos tenha sido afetado por isso”.

 

O espírito olímpico como bandeira

Participar de uma Olimpíada significa, para muitos atletas, o momento de maior realização na carreira. Nos Jogos, eles têm a oportunidade de representar seu país em uma competição mundial, algo que já foi – e ainda é – muitas vezes boicotado por questões políticas mal resolvidas.

Para Oscar e Renan, o esporte é maior do que as desavenças políticas e, estes, não deveriam se misturar. “O esporte não deveria fazer parte de política nenhuma. É uma frustração muito grande para o atleta que treina para ir para a Olimpíada e chega na hora H e não vai. Eu acho que o esporte tinha que ficar de fora de tudo isso.”, argumenta Oscar. 

Renan, por sua vez, destaca a complexidade da interferência política nos Jogos. “Quando um país vai participar de Jogos Olímpicos, os atletas vão representando uma nação e, muitas vezes, eles não conseguem participar devido a uma série de circunstâncias, sejam elas financeiras, políticas, sociais, entre outras. Naquela época, foram problemas políticos. Eu sou absolutamente contra misturar esporte com política, mas, infelizmente, nesses momentos o atleta não está representando ele mesmo, ele está representando um país e fica dependente dessas decisões”.

Os boicotes ainda estão presentes nos Jogos, mas ocorrem de maneira mais isolada. Renan completa: “Ainda temos, nos Jogos Olímpicos, vários atletas e delegações disputando os Jogos sem bandeira, participando com a bandeira do COI, seja por motivos políticos, raciais, econômicos ou religiosos. Acho sim que cada um tem direito de levantar uma bandeira, mas os princípios dos Jogos Olímpicos são a favor da união dos países e dos povos. Então, os Jogos devem servir para isso. É o momento em que todo mundo tem que levantar a sua bandeira em prol de uma bandeira única de paz e união”.

Hoje, em decorrência da quantidade de interesses que a Olimpíada movimenta, o espírito olímpico é, a cada quatro anos, mantido mais fortemente pelos atletas. É verdade que a decisão de países como as Coreias de entrar nos Jogos Olímpicos de Inverno unidas na mesma bandeira poderia indicar uma tendência de retomada desse espírito por parte dos países. Porém, ainda são os interesses políticos que desencadeiam, inclusive, essas ações positivas.

Por parte da maioria dos atletas, entretanto, o que se percebe é a vontade de fazer parte desse evento. O esporte, para eles, supera, muitas vezes, as desavenças de seus países – a tal ponto de escolherem entrar com a bandeira do COI, em casos de conflito, para poderem participar dos Jogos. Os atletas são a peça fundamental para que o ideal de união dentro do esporte ainda seja mantido. São eles que fazem com que a importância dada às Olimpíadas, tão forte na Antiguidade, seja pelo menos parcialmente preservada.

Protestos após a morte dos atletas israelenses na Olimpíada de Munique [Imagem: Arquivo / AE]

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