Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Superstições que podem alterar o resultado de um jogo

Entenda como as crenças presentes no mundo esportivo influenciam atletas e torcedores

Por Mariana Pontes (mariana.kpontes@usp.br) superstições

Passar por baixo da escada, abrir um guarda-chuva dentro de casa e quebrar um espelho são todas coisas que trazem má sorte — segundo a cultura popular brasileira e suas tradições. Esses são alguns exemplos de superstições, ou seja, crenças de que determinados objetos ou comportamentos podem influenciar o futuro, muitas vezes ao atrair sorte ou azar, sem nenhuma base lógica.

No passado, quando a razão por trás de certos acontecimentos, como eventos climáticos e doenças, era incerta, as pessoas comumente buscavam respostas no sobrenatural. Após serem passadas de geração em geração, essas histórias transformaram-se em hábitos ainda muito difundidos na sociedade atual.

No esporte, esse fenômeno também está presente. Os amuletos ou vestimentas de sorte são usados e reutilizados por jogadores quando associados ao bom resultado de uma partida, assim como outros rituais. Em entrevista ao Arquibancada, a psicóloga Rafaela Pereira, cujos estudos na graduação foram focados na área da Psicologia Esportiva, diz que esse é um comportamento esperado, por ser uma maneira que os atletas encontram de lidar com questões como ansiedade, incerteza e pressão por resultados.

“Desde que a gente conseguiu antecipar o futuro, isso lá atrás, temos essa potencialidade de criar expectativas e pensar em coisas que podem aumentá-las”

Rafaela Pereira

Esse fenômeno é visto como um mecanismo de defesa que auxilia no enfrentamento de determinadas situações, como o receio causado pela antecipação do futuro. A psicóloga conta que, em seu tempo como nadadora, repetia a mesma oração e fazia o sinal da cruz antes de subir na baliza: “isso não necessariamente era algo ruim, mas era algo que me fazia focar naquele momento e ajudava a me sentir mais preparada para a prova em si”.

Entretanto, não é somente do lado das quatro linhas que as superstições são encontradas. Com ações muitas vezes semelhantes às dos jogadores, alguns torcedores acreditam que podem influenciar o resultado de um jogo — mesmo que estejam em suas próprias casas.  

De dentro do campo

Não há nada que comprove que girar os braços três vezes antes de subir no bloco foi o que trouxe a Michael Phelps 28 medalhas olímpicas — das quais 23 são de ouro —, ou que entrar em campo com o pé direito deu a chance para que Cristiano Ronaldo marcasse os seus 961 gols. Entretanto, essas ações podem acalmar os jogadores e trazer uma maior confiança para eles durante a competição.

Michael Phelps, nadador competitivo americano, é o atleta com a maior quantidade de medalhas olímpicas [Imagem: Reprodução/WikimediaCommons]

Muitas vezes, as superstições de atletas surgem acidentalmente, quando suas ações ou as condições a que estão expostos coincidem com uma vitória. Um exemplo é a ciclista britânica Laura Trott, que ganhou uma corrida júnior quando competiu com meias úmidas e, desde então, gosta de pisar em uma toalha molhada antes de colocar as sapatilhas de corrida.

Mas os jogadores não são os únicos na equipe que possuem essas crenças. Em 1992, antes de conquistar ouro nas Olimpíadas de Barcelona com a seleção masculina de vôlei, José Roberto Guimarães tinha sido servido por um garçom corcunda. Vinte anos depois, agora como técnico da seleção feminina de vôlei nos Jogos Olímpicos de Londres, ele avistou um voluntário corcunda e o tocou, momento em que fingiu estar trocando um pin e pediu para irem à final. O treinador contou isso depois da vitória de virada contra as americanas, na partida final, que garantiu o bicampeonato à equipe brasileira.

Rafaela Pereira ressalta que as superstições adotadas pelos atletas não são algo necessariamente negativo, e podem servir como suporte em momentos de maior pressão. Entretanto, revela que é importante estabelecer limites para que esse comportamento não entre na categoria de transtornos obsessivos: “Quando trata-se de algo que se a pessoa não fizer ela não consegue executar uma tarefa, estamos falando de algo patológico”.

Nessa linha tênue, é importante que o acompanhamento psicológico dos atletas seja capaz de identificar se determinado ritual é apenas um simbolismo capaz de gerar motivação, ou se está trazendo prejuízos. Caso entre em um caráter patológico, ou seja, torne-se algo capaz de atrapalhar sua vida e seu desempenho, é necessário iniciar um tratamento para minimizar os impactos da questão.

Antes de chegar nesse ponto crítico,de acordo com Pereira, o acompanhamento não busca reforçar ou destruir a crença. Pelo contrário, os atletas são incentivados a aceitá-la e, a partir disso, trabalhar com ela sem que isso se torne algo condicionante. “[Muitos dizem]: ‘Eu fiz uma vez, deu certo, então vai dar certo todas as vezes’. E, às vezes, não dá”, comenta a psicóloga. Segundo ela, a reação do atleta frente a essas situações é o que deve estar no radar dos profissionais responsáveis.

Além de superstições, outros rituais podem marcar uma forma de união e motivação da equipe. O “Haka” é uma dança cerimonial do povo Maori, da Nova Zelândia, que inclui gritos sincronizados, caretas com a língua para fora, gestos fortes e batidas no corpo. Ele surgiu como um grito de guerra para intimidar os inimigos, mas hoje em dia também é utilizado para homenagear e celebrar. A dança ficou mundialmente famosa por conta da seleção de rugby All Blacks, que realizava o “Ka Mate” antes de seus  jogos.

De fora do campo

Agora, qual a função de superstições dos torcedores, cuja tranquilidade e segurança não podem impactar diretamente o resultado de um jogo? As técnicas de utilizar a mesma roupa de partidas vitoriosas ou trazer consigo um amuleto da sorte também são comuns entre aqueles que vestem a camisa 12. Mas enquanto para os atletas essas crenças são basicamente um modo de se concentrar e se preparar melhor antes do jogo, para a torcida elas representam um modo confiante de assistir a partida. 

“Quando se está falando da torcida, sempre vai ter o jogo seguinte. Se não deu certo, eles têm a esperança de que uma hora vai dar”

Rafaela Pereira

Diferentes para cada torcedor, as crenças variam desde não gritar gol antes da hora até assistir o jogo com o volume da televisão igual ao número de títulos do time em campo. Mas pode-se destacar alguns casos em que a crença dos torcedores pareceu mudar o rumo de um jogo.

No dia 25 de agosto de 2013, o São Paulo venceu o Fluminense por 2×1. Essa vitória encerrou a série de derrotas do tricolor paulista, que já perdurava há 12 rodadas. Para aqueles que acreditam, o segredo para o resultado estava na escadaria de acesso ao gramado do Morumbi. Comumente usado para combater o azar, o sal grosso foi espalhado no degrau pelo qual os jogadores necessariamente passariam para entrar em campo.

Também vale lembrar de Clóvis Fernandes, o “Gaúcho da Copa”, que ficou conhecido como torcedor assíduo ao acompanhar, por sete edições consecutivas da Copa do Mundo, as partidas do Brasil pessoalmente, até o seu falecimento em 2015. Clóvis tornou-se parte de superstições alheias, pois muitos acreditavam que sua presença e seu apoio aos jogadores nos estádios poderia garantir o sucesso do time verde e amarelo. Seu filho mais velho, Frank Fernandes, conta que, em 1994 — ano da conquista do tetra —, usava uma camisa que ganhou de seu pai em todos os jogos, sem lavar. Segundo ele, essa prática pode ter sido responsável por acabar com os 24 anos de espera.

Nascido no Rio Grande do Sul, o “Gaúcho da Copa”, acompanhou a seleção em todas as competições mundiais desde a Copa do Mundo FIFA de 1990, até a sua última em 2014 [Imagem: Reprodução/Instagram @kamyllejoly.dto]

Pereira afirma que as superstições das torcidas servem simplesmente para que elas consigam assistir ao jogo sem culpa, com a ideia de que já fizeram tudo o que era possível para ajudar seu time. Ainda que as ações dos torcedores não possam afetar o jogo, ao contrário das dos atletas, são uma maneira de lidar com a expectativa e com o futuro incerto.

“Se eu puder fazer alguma coisa que dará a sensação de que eu ajudei o time, eu vou fazer”

Rafaela Pereira

Nos momentos em que as superstições não dão certo, o torcedor pode começar a procurar razões extras para explicar o porquê de um resultado negativo. A psicóloga diz que a derrota “gera uma desestabilização muito grande para o torcedor, porque ele tem que achar um motivo racional para justificá-la”. Muitas vezes, essa resposta busca isentar seu time e o ritual de qualquer culpa.

Quando a torcida entra em campo

“Se um torcedor está com uma certa blusa que usou no dia em que o Palmeiras foi campeão, isso não vai influenciar”, comenta Pereira. Mas ela também pontua que uma torcida na arquibancada, vaiando jogadores que já estão sob pressão, é um exemplo de ação que seria capaz de interferir no resultado de um jogo. 

Em um momento anterior ao início da partida, o apoio ou negatividade que um atleta recebe — tanto pessoalmente quanto pelos meios digitais — podem provocar uma reação que varia de indivíduo para indivíduo. A psicóloga afirma que uma mesma fala, vinda de um torcedor que não acompanha o cotidiano do atleta, pode ser vista tanto como motivação quanto como pressão para um bom desempenho. 

Na época da pandemia de Covid-19, os jogos de futebol retornaram sem a presença da torcida. Em entrevista à CNN, o neurocirurgião Fernando Gomes afirma que a performance dos atletas foi, sem dúvidas, alterada por esse fator. Os torcedores de seu time servem de reforço positivo e estimulam o circuito dopaminérgico, aumentando a motivação do atleta, enquanto a torcida contrária causa um efeito de encorajar o instinto, a raiva ou o medo. “Uma torcida é capaz de baixar a autoestima do outro time ou de provocar raiva, o que pode motivar a equipe a jogar com mais afinco – ou não”, afirma Gomes.

Ainda que de maneira contraintuitiva, um artigo do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte do Departamento de Educação Física da UNESP Rio Claro constatou que tanto a torcida a favor quanto a contrária atuam de forma positiva no rendimento dos atletas. Notou-se que o apoio e o incentivo podem aumentar a motivação dos jogadores, enquanto a intimidação da torcida adversária aumenta a pressão, mas também acende a vontade de ganhar.Estar em uma torcida também pode trazer o sentimento de pertencimento, principalmente em relação às torcidas organizadas, que fazem com que o individual se desmanche no coletivo. “Cria-se uma identidade coletiva da torcida, porque você passa a ser pertencente a um grupo de pessoas que querem o mesmo objetivo e tem uma ação concreta de ajudar a alcançar aquilo”, diz Pereira. Ela pontua também que as brigas entre torcidas são extremamente comuns, mas, depois que o momento acaba, as pessoas nem sempre sabem dizer o porquê do conflito: “o individual vira tão coletivo que pegam a dor do outro e tomam atitudes que, se estivessem sozinhas, talvez não tomassem”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima