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‘Uma Segunda Chance’ é o que acontece quando uma trama se baseia em escolhas duvidosas

A adaptação do livro de Colleen Hoover gira em torno de um romance que talvez não devesse existir
Por Hellen Indrigo Perez (hellenindrigoperez@usp.br)

Em uma cena inofensiva e curtíssima de Uma Segunda Chance (Reminders of Him, 2026), Kenna (Maika Monroe) diz para Ledger (Tyriq Withers) que ele deveria ir à terapia. Apesar do tom de brincadeira que permeia a conversa entre os protagonistas, citar essa fala parece uma boa maneira de resumir a experiência do filme.

A obra, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 19 de março, é uma adaptação de Uma Segunda Chance (Galera, 2022), livro homônimo escrito por Colleen Hoover, e aborda os tropeços de uma mulher na tentativa de recuperar o controle da própria vida após deixar a prisão. À princípio, a trama pode parecer uma boa promessa – e seria mesmo, isso se sua abordagem não fosse marcada por uma estrutura de imperfeições sistêmicas. No momento em que os créditos começaram a subir pela tela, eu só conseguia pensar uma coisa: “será que isso deveria mesmo ser um romance? ”.

A protagonista é apresentada ao espectador em um conjunto de cenas deprimentes. Depois de cumprir pena por ter causado o acidente que tirou a vida de seu namorado, Scotty (Rudy Pankow), Kenna Rowan mal consegue encontrar um emprego ou um lugar confortável para morar. E o pior: é impedida de manter contato com a pequena filha, Diem (Zoe Kosovic), que vive sob a tutela dos avós paternos. Por acaso do destino – ou uma forçada de mão do roteiro – ela busca consolo na antiga biblioteca que costumava frequentar com Scotty, antes de descobrir que o estabelecimento foi transformado em bar.

O personagem de Rudy Pankow consegue ser um pouco mais carismático do que os protagonistas, mas não possui tempo em tela o suficiente para ser memorável
[Imagem: Reprodução/TMDb]

O dono do bar em questão é Ledger, que se interessa imediatamente por ela – nenhuma surpresa, considerando que estamos falando da mesma Colleen Hoover que escreveu a cena em que Atlas Corrigan desiste de tirar a própria vida apenas por ver uma linda garota pela janela em É Assim que Acaba (Galera, 2018), como se a depressão pudesse ser facilmente desligada por um interruptor. Apesar disso, a simpatia inicial desaparece quando Kenna descobre que o homem gentil por trás do balcão é, na verdade, o antigo melhor amigo de Scotty.

O choque entre ambos é inevitável: enquanto Ledger culpa Kenna pela morte do amigo, ela passa a odiá-lo por ajudar a mantê-la separada da própria filha, que trata-se de sua única motivação para ter retornado à cidade. Mas mesmo que o mérito dessa escolha seja questionável, o filme continua sendo um romance e, por isso, talvez você consiga imaginar o que acontece a partir daqui. Caso não consiga, eu esclareço: os dois se detestam, até não se detestarem mais.

O roteiro assinado por Lauren Levine em conjunto com a própria Colleen Hoover escolhe desenvolver os personagens por meio da revelação de informações soltas do passado. Mesmo sem se aprofundarem além do estritamente necessário, os vislumbres da vida anterior ao acidente são capazes de fazer com que o espectador compreenda a forma como a tragédia moldou a motivação dos protagonistas, além de servirem como um catalizador para a própria relação entre eles.

Entre idas, vindas, discussões e muitas caronas, os personagens passam a se entender. Kenna está fragilizada, e Ledger é a primeira pessoa a estender a mão. É fácil se questionar se o amor que surge entre eles é genuíno e saudável ou se é apenas um estepe emocional, a solução cômoda que cada um precisava para fazer um curativo superficial sobre os próprios traumas. Ao insistir em se moldar como um romance, o filme sabota os tópicos que, por si só, poderiam compor uma narrativa muito melhor caso estivessem em destaque.

Ao invés de lidar com os próprios traumas, Kenna usa Ledger como bote salva-vidas de maneira inconsciente – e romantizada pelo roteiro
[Imagem: Reprodução/TMDb]

É difícil se conectar com a paixão entre os personagens enquanto somos constantemente lembrados de que se trata da união entre a namorada e o melhor amigo de um homem que partiu dessa para a melhor. Talvez a morte não deixe espaço para emoções feias como o orgulho, o ciúme e o ressentimento, mas não consigo deixar de imaginar que eu me tornaria um fantasma bastante mal humorado se estivesse no lugar de Scotty.

O rumo escolhido para a trama é um tiro que sai pela culatra. O filme tenta exalar conexão, mas insiste em um cenário pouco propício para tal. Além da estranheza ao redor do relacionamento entre os personagens – que atinge o auge quando Ledger questiona se é melhor ou pior na cama em comparação ao amigo morto –, todo o resto também parece caricato. A impressão é a de que Uma Segunda Chance tenta assumir a difícil tarefa de agarrar o mundo com as mãos, mas falha.

Todo o drama que move a história parece ter sido escrito com a intenção de transmitir profundidade, mas o conjunto mediano de direção e atuações mina as oportunidades de concretizar esse plano. O pouco carisma e o frágil senso de urgência dos personagens fazem com que a obra remeta a algo que foi terminado com pressa, sem preocupação o suficiente com a construção dos protagonistas a ponto de torná-los algo vivo no imaginário do espectador.

É uma pena que o desenrolar da trama tenha optado por abordar de forma rasa uma quantidade maior de informações ao invés de se aprofundar em pouco, porque a luta de Kenna para se aproximar de Diem conseguiria ser cativante por si só. O caminho percorrido por uma mãe em pedaços para se reconstruir e se apresentar inteira para a própria filha é um pano de fundo emocionante para o filme, e teria ainda mais potência se esse contexto tivesse sido desenvolvido em primeiro plano.

As melhores cenas do filme envolvem Diem, demonstrando que a história teria um potencial maior caso tivesse escolhido esse enfoque ao invés do relacionamento entre Kenna e Ledger [Imagem: Reprodução/TMDb]

Para ser completamente justa, Uma Segunda Chance talvez pareça menos intolerável caso você não esteja assistindo com um caderno na mão e se atentando a cada inconsistência. Nesse caso, talvez seja mais fácil se deixar levar pelo sentimento representado na tela sem que cada interação resulte na vontade de bater a palma da mão na própria testa. Mas enquanto não testo essa teoria, prefiro focar na maior lição que esse filme me ensinou: não importa o quanto as coisas estejam ruins, pelo menos não sou o espírito de Scotty Landry.

Uma Segunda Chance já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer.

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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