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40ª Mostra Internacional de SP: Lobo e Ovelha
CINÉFILOS
25 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Uma das experiências mais mágicas que o cinema pode propiciar é o contato entre diferentes culturas. Perceber essa multiplicidade de hábitos e crenças é um exercício de alteridade necessário, por isso a importância de produções como Lobo e Ovelha (Wolf and Sheep, 2016). O filme é uma co-produção entre Afeganistão, Dinamarca, França e Suécia, e foi vencedor do prêmio Art Cinema na Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes. A partir do cotidiano das crianças de um vilarejo na região central do Afeganistão, o longa retrata os costumes, as lendas e as perspectivas de vida dos habitantes locais.

A história gira em torno das caminhadas diárias nas montanhas feitas pelas crianças da região, responsáveis pelo pastoreio. Meninas e meninos trabalham separados, ainda que exerçam as mesmas tarefas. Por meio dos diálogos estabelecidos entre os grupos, é possível entender a realidade do vilarejo, especialmente a forte afirmação de papéis de gênero e as lendas como fatores determinantes nas relações sociais. Enquanto os meninos brincam de estilingues, como se caçassem lobos, as meninas negociam dotes, imitando o processo de casamento. Alheia a tudo isso está Sediqa, de 11 anos, tida como amaldiçoada pelas outras garotas. Ela anda sozinha pelas montanhas até que faz amizade com Qodrat ― menino que passa a ser alvo de fofocas quando a mãe se casa novamente com um homem velho, pouco tempo após a morte do pai.

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No entanto, a amizade dos dois tem curta duração, já que o padrasto de Qodrat não aceita os filhos de sua terceira esposa. Assim, o menino eventualmente vai morar com a tia em outra cidade, deixando Sediqa no vilarejo. A amizade dos dois mal pode ser considerada o fio condutor da trama, já que alguns conflitos e atividades cotidianas, como o fazer dos pães e o sacrifício de animais, conseguem dar dinamismo à narrativa. Logo no início, a cena de um senhor rezando na paisagem montanhosa ao anoitecer é de tirar o fôlego. A serenidade da imagem, também propiciada pelos escuros tons de azul do céu, é quase abalada quando o homem ouve lobos uivarem ao fundo ― o que é bastante representativo das aflições que rondam a comunidade que vive ali.

Tal enredo é um reflexo da infância e adolescência da diretora Shahrbanoo Sadat, a mais jovem na história a ser selecionada para o programa de residência do Cinéfondation de Cannes. Sadat é iraniana, mas ainda pequena mudou-se para um isolado vilarejo no Afeganistão, onde viveu durante sete anos. Devido a sua miopia severa, seu sotaque e a mediunidade de seu avô, ela era rejeitada pelo resto do povoado, vivendo como uma total outsider. Segundo ela, os moradores de lá não conheciam o mundo para além das montanhas que os rodeavam e, por isso, viviam de acordo suas próprias regras. “Em toda parte haviam linhas que você não deveria atravessar. Elas eram visíveis para todos, menos para mim”, diz.

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Ainda que Sadat evidencie um olhar crítico em Lobo e Ovelha, sua delicadeza por entender a complexidade dessas relações é evidente. A fotografia de Virginie Surdej está em sintonia com isso, e é excelente ao valorizar o contraste entre a paisagem árida e os coloridos lenços das roupas das mulheres. Seu trabalho também se destaca nas filmagens à noite, quando Sadat resolve dar vida à lenda do Lobo de Kashmir ― inimigo dos ricos e cruéis e amigo dos pobres. O mito diz que por baixo da pele de lobo há uma fada verde, a mais bela de todas as fadas. As aparições dessas figuras ao longo da narrativa são um acerto, tanto por seu valor estético quanto pelo simbolismo que trazem ao filme. Fica claro que não se tratam de figuras incoerentes com o teor documental da trama ― já que os atores não são profissionais e têm os mesmos nomes de seus personagens ―, mas uma representação visual da forte presença que elas têm no imaginário popular.

A presença de um filme tão bem executado e longe de clichês como Lobo e Ovelha na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é elogiável. É emocionante ver uma mulher iraniana, que viveu por tanto tempo em um vilarejo isolado no Afeganistão, encontrar espaço na cena internacional. Mais do uma explosão de cultura, o filme é rico em reflexões para além das questões afegãs: desigualdades sociais e de gênero, miséria e altruísmo vêm à tona. Sadat consegue transmitir de forma sensível a dureza da vida das personagens, conquistando o espectador até nas cenas mais fortes. Os olhos do mundo precisam se voltar para produções como Lobo e Ovelha.

Confira o trailer:

por Laila Mouallem
lailaelmouallem@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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