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5 eventos históricos não eurocêntricos que renderiam ótimos filmes
CINÉFILOS
24 out 2020 | Por Ana Carolina Guerra (anacarolinariosguerra@usp.br)

O passado da humanidade sempre fascinou os homens. Desde de Heródoto – considerado o “Pai da História” – na Grécia Antiga até a atualidade, os seres humanos continuamente buscam estudar e compreender como viviam e quais foram os grandes feitos de seus antepassados. Isso reflete no interesse das pessoas pelos mais diversos momentos da história da raça humana, como o encanto pelas sociedades antigas egípcia, grega e romana até a curiosidade por eventos históricos mais recentes, como a 2º Guerra Mundial e a Guerra Fria.

A partir do advento do cinema – com o filme Empregados deixando a Fábrica Lumière (La Sortie de l’usine Lumière à Lyon, 1895) dos Irmãos Lumière – esse fascínio pela história logo invadiu a sétima arte também e as adaptações históricas tornaram-se produções recorrentes no cinema. A relação do cinema com a história rendeu inúmeros filmes, desde os clássicos Cleópatra (Cleopatra, 1963), O Nome da Rosa (Il nome della rosa, 1986) A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e Gladiador (Gladiator, 2000) até produções mais recentes como Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) e 1917 (2019), que receberam indicações de Melhor Filme e Melhor Diretor no Oscar, nas edições 2019 e 2020, respectivamente.

As produções cinematográficas com temáticas históricas – além de render, muitas vezes, sucessos de público e crítica, como o famoso O resgate do soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998) – tem uma importante função pedagógica. Segundo o professor de história Valdinei Matos, em entrevista à Jornalismo Júnior, o cinema é um forte aliado dos professores, pois, em muitos casos, os filmes são o primeiro contato dos alunos com um tema histórico que futuramente será estudado em sala de aula, sendo que esse primeiro contato incentiva a curiosidade dos estudantes para pesquisar e conhecer mais sobre esse evento histórico. O que, afirma o professor, aumenta o interesse dos alunos por esses conteúdos, quando estes são trabalhados em classe, com a devida análise historiográfica. 

Filmes históricos, como Infiltrado na Klan, têm uma importante função pedagógica [Imagem: Divulgação/Focus Features]

Filmes históricos, como Infiltrado na Klan, têm uma importante função pedagógica [Imagem: Divulgação/Focus Features]

Contudo, a maioria da obras cinematográficas que adaptam fatos históricos tendem a uma visão eurocêntrica, privilegiando eventos ocorridos na Europa e nos Estados Unidos. Isto acarreta uma produção de poucos longas que abordam a história da África, Ásia e Oceania. 

Mesmo quando eventos históricos não eurocêntricos são adaptados, eles, na maioria da vezes, são produzidos a partir de uma visão eurocêntrica, o que contribui para que haja vários erros históricos, além de uma visão desrespeitosa e preconceituosa com o povo e a cultura abordados no filme.

Essa problemática é visível em vários longas, por exemplo, em Tróia (Troy, 2004). Segundo o professor Valdinei, a obra reproduz a aparência dos personagens de acordo com os padrões hollywoodianos, o que difere em muito do que era na verdade os padrões físicos no contexto da antiguidade grega. Valdinei ainda comenta que a reprodução dos padrões hollywoodianos como a aparência de diversos povos é um dos principais erros das adaptações cinematográficas de eventos históricos. Isto é caracterizado como whitewashing, ou seja, a escalação de um elenco branco para representar personagens de outras etnias.

Para resolver esse problema, é necessário que se produzam mais filmes históricos sobre a Ásia, a África, a Oceania e a América Latina, sendo que essas obras devem realmente adaptar esses eventos como a historicidade os registrou e sem uma visão eurocêntrica. Já que, segundo o professor Valdinei, o estudo e, com isso, a produção de filmes sobre eventos históricos não eurocêntricos auxiliam na percepção de que a história não é linear e nem que há apenas uma visão ou interpretação histórica. “Além de possibilitar o fortalecimento da identidade e diversidade de cada povo”, ressalta Valdinei. Por isso, o Cinéfilos aproveita a oportunidade para listar 5 eventos históricos não eurocêntricos que renderiam ótimos filmes:


Maria Quitéria: A Mulan Brasileira

Retrato póstumo de Maria Quitéria de Jesus feito por Domenico Failutti em 1920. [Imagem: Reprodução/Domenico Failutti]

Retrato póstumo de Maria Quitéria de Jesus feito por Domenico Failutti em 1920. [Imagem: Reprodução/Domenico Failutti]

 Era uma vez… uma jovem que fugiu de casa e se passou por homem para ingressar o exército de seu país em uma importante guerra. Se você achou que essa é a história do filme Mulan (1998), o clássico da Disney que marcou a infância de várias gerações, na verdade,  estou me referindo à Maria Quitéria,  combatente brasileira e patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.

A história de Maria Quitéria como combatente começou  em 1822, quando o Conselho Interino do Governo da Bahia passou a recrutar voluntários para compor as tropas de apoio à Independência, na luta contra Portugal. Maria Quitéria logo interessou-se por se tornar voluntária, mas como apenas homens podiam compor o exército, ela se fingiu de homem e adotou o nome do cunhado, ficando conhecida como soldado Medeiros. 

Após um período, sua verdadeira identidade foi descoberta. Mesmo assim, devido as suas habilidades militares, Maria continuou a ser membro das tropas brasileiras e começou a usar seu verdadeiro nome, além de um uniforme feminino. Maria Quitéria se tornou um exemplo para várias mulheres que resolveram se voluntariar para o exército e formaram um batalhão comandado por ela mesmo. Devido aos serviços prestados pela Independência do Brasil, Maria Quitéria foi condecorada por Dom Pedro I com o Título “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”.      

Um filme sobre a história de Maria Quitéria seria uma excelente maneira de iluminar a sua partição na história do Brasil, visto que sua importância tem pouco destaque na história oficial ensinada nas escolas. O longa poderia retratar desde a mocidade de Maria, um pouco antes de ela se voluntariar, mostrando todo o processo de disfarce, até o momento que foi condecorada pelo Imperador. 

Além disso, a produção poderia abordar como Maria foi um exemplo para outras mulheres, dando bastante foco no batalhão que ela liderou. O longa também poderia ter várias cenas épicas de batalha e destacar a importância de Maria Quitéria para a vitória brasileira.


Resistência Maori ao Domínio Europeu

Maoris realizando a dança Haka. [Imagem: Foto de 1900/Universal History Archive]

Maoris realizando a dança Haka. [Imagem: Reprodução/Universal History Archive]

O povo Maori é de origem polinésia e já habitava o atual território da Nova Zelândia antes da colonização inglesa. Esse povo era composto por orgulhosos guerreiros que eram temidos pela resistência e brutalidade perante os inimigos, incluindo práticas de canibalismo e antrofagia, como explicou o professor Valdinei Matos. Com a chegada dos conquistadores europeus, nos séculos XVIII e XIX, os Maoris formaram uma forte resistência à colonização de seu território e de seu povo pelos britânicos, o que iniciou um conflito sangrento conhecido como Guerra dos Mosquetes. Nesse período, muitas comunidades Maori foram extintas tanto devido ao conflito como, em razão das enfermidades trazidas pelos europeus. 

A maioria das obras cinematográficas sobre a colonização de territórios pelos europeus é focada no ponto de vista do conquistador, assim, o genocídio dos povos nativos causado pelo domínio europeu é romantizado e não apresenta as consequências reais da colonização. Além disso, a cultura dos povos nativos é pouco explorada pelos filmes e, muitas vezes, é representada de maneira preconceituosa. Por essas razões é extremamente necessário que se produzam filmes sobre como realmente ocorreu o domínio europeu, sendo que essas produções devem ser focadas nos povos nativos e na sua resistência contra a colonização.

Por tais motivos, um evento histórico que necessita ser adaptado em um longa-metragem é a resistência do povo Maori ao domínio britânico na Nova Zelândia. O longa deve focar em como os Maoris montaram a sua resistência, mostrando as diferenças bélicas entre eles e os ingleses. Outro tema de destaque deve ser a cultura Maori, incluindo sua religião, mitologia e pinturas corporais – parte muito importante da cultura deste povo. 

O filme não pode deixar de representar a dança Haka, a típica dança de guerra Maori. A produção também poderia usar o Te Reo Mãori, idioma Maori. Para isso, os personagens Maoris poderiam em todas ou na maioria das cenas se comunicarem em seu idioma original.


Mansa Musa

Mansa Musa foi a pessoa mais rica da história. [Imagem: Reprodução/Iluminura do Atlas Catalão de 1375]

Mansa Musa foi a pessoa mais rica da história. [Imagem: Reprodução/Iluminura do Atlas Catalão de 1375]

Imagine alguém perguntando nas ruas “Quem foi a pessoa mais rica da história?”. Provavelmente, muitos indivíduos citariam o nome de magnatas da tecnologia, como Bill Gates e Jeff Bezos. Talvez, outros, mais ousados, falariam de personagens ficcionais como o Tio Patinhas, Bruce Wayne e Tony Stark. Contudo, a pessoa mais rica que já existiu na história foi Mansa Musa, chegando a ser classificado pela revista Times como “mais rico do que qualquer pessoa possa descrever.” 

Mansa Musa – recebeu o título de Musa, que significa rei – foi o rei do Império do Mali por 27 anos, de 1312 à 1337, quando faleceu. Ele foi o responsável por expandir os territórios e as riquezas do Império. Sua imensa fortuna – até hoje, historiadores e economistas não conseguiram calcular a quantia exata de seu patrimônio – se deve a quantidade incontável de ouro presente no território do Império do Mali. 

Musa tornou-se conhecido em seu período, quando, em 1324, ele realizou sua peregrinação a Meca, contando com uma caravana de mais de 60 mil homens, entre soldados, civis e escravos. Mansa Musa deixou como legado, além de sua enorme fortuna, diversas construções como escolas, museus, mesquitas, bibliotecas e até uma universidade.

Poucos filmes adaptam parte da história do continente africano, sendo que a maioria conta sobre o período neocolonialista ou eventos mais recentes. Por esse motivo, seria incrível se produzissem uma obra sobre um império africano no período da Idade Média e, com certeza, um evento histórico que se encaixa nesses requisitos, e merece virar filme, é a história do reinado de Mansa Musa.

O longa poderia se passar durante todo o reinado de Mansa Musa e contar sobre a cultura e tradições do povo do Mali. Além de destacar todas as questões políticas e administrativas do Império, assim, mostrando como Mansa expandiu seus territórios e riquezas, tornando-se o homem mais rico da história. 

Outro fato que não pode faltar é a peregrinação que Mansa Musa realizou até Meca. Essa parte do longa pode mostrar a cultura das várias regiões pelas quais passou Mansa em sua jornada, por exemplo, sua passagem pela cidade do Cairo, onde ele distribuiu ouro (no melhor estilo Silvio Santos de “Quem quer dinheiro?”), causando uma crise inflacionária na cidade que durou 12 anos.


As Viagens Marítimas do Almirante Zheng He

O almirante Zheng He realizou sete viagens marítimas. Foi um grande evento histórico [Imagem: Reprodução/Pintura existente no templo de Penang, na Malásia]

O almirante Zheng He realizou sete viagens marítimas. [Imagem: Reprodução/Pintura existente no templo de Penang, na Malásia]

Longas sobre viagens marítimas, normalmente, fazem muito sucesso, vide a franquia Piratas do Caribe (Pirates of the Caribbean), que sempre rende muito nas bilheterias. Como a maioria das expedições marítimas conhecidas no ocidente foram realizadas pelos europeus, uma maneira interessante de divulgar mundialmente as expedições realizadas por outros povos é o cinema. Um dos navegadores que merece, com certeza, que suas viagens sejam adaptadas pela sétima arte é o almirante chinês Zheng He.

O almirante chinês Zheng He foi o comandante de uma imensa frota, a Frota do Tesouro, que existiu de 1405 a 1433, durante o império de Yong Le, da Dinastia Ming. Sua frota realizou sete expedições e percorreu a Ásia e o leste da África, até a região da atual Tanzânia, entrando em contato com diferentes civilizações e culturas. Suas frotas eram imensas, com sua primeira viagem reunindo aproximadamente 28 mil homens e 317 navios. Além disso, os chineses já possuíam equipamentos e técnicas de navegação bem mais modernos do que os utilizados pelos europeus no período das Grandes Navegações.

Seria interesse adaptar cinematograficamente as viagens marítimas do Almirante Zheng He em uma saga com vários filmes, o que permitiria desenvolver mais detalhadamente as suas sete expedições. Os longas poderiam abordar o cotidiano nos navios, mostrando as técnicas de navegação do almirante e os equipamentos utilizados por ele. 

Outro ponto de destaque pode ser as passagens da frota por várias civilizações, sendo que os filmes teriam a capacidade de apresentar as relações comerciais dos chineses com esses povos e o choque cultural que ocorria ao entrarem em contato com diferentes povos e culturas. Também seria interessante adaptar a relação de confiança e amizade entre o almirante Zheng He e o Imperador Yong Le.


Inconfidência Mineira

Bandeira da Inconfidência - 1789: Os Inconfidentes pintada por Carlos Oswald em 1939. A inconfidência Mineira, grande evento histórico, retratada na pintura. [Imagem: Reprodução/Carlos Oswald]

“Bandeira da Inconfidência – 1789: Os Inconfidentes” pintada por Carlos Oswald em 1939. [Imagem: Reprodução/Carlos Oswald]

Com certeza, um dos eventos históricos brasileiro mais lembrado é a Inconfidência Mineira. Esse movimento foi uma revolta – que ocorreu em Minas Gerais, em pleno ciclo do ouro, no século XVIII – a qual foi organizada pela elite intelectual e econômica mineira com o intuito de separar e tornar independente de Portugal a capitania de Minas de Gerais. 

Após o fracasso do plano, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, foi executado e, assim, virou uma das figuras mais lembradas da história brasileira. Contudo, Tiradentes não era uma figura central da Inconfidência Mineira, sendo apenas um “bode expiatório” – seus colegas inconfidentes receberam penas bem mais brandas que ele – que foi transformado em herói nacional no nascimento da República. 

Por esse motivo e também por toda a importância histórica da Inconfidência Mineira é certo que essa conjuração merece ser revisitada em um longa-metragem. A produção poderia ser centrada nos planos dos inconfidentes e em suas reuniões, visto que muitos eram intelectuais que se inspiravam no Iluminismo. A obra deveria ter como personagens de destaque os inconfidentes Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, que além de liderarem o movimento, também foram os principais autores do Arcadismo no Brasil.

Além disso, uma das tramas secundárias poderia ser o relacionamento de Tomás Antônio Gonzaga com Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, que o inspirou a escrever o livro “Marília de Dirceu”, clássico do Arcadismo brasileiro. Outra personagem que merecia destaque no longa seria Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, única mulher a participar ativamente da Conjuração Mineira. O filme também poderia retratar o real papel de Tiradentes no movimento, sem o romantismo a qual o personagem foi envolto no início do período republicano.


Resgate histórico: cinema como ferramenta de estudo
 

Das civilizações clássica à contemporaneidade, vários períodos e eventos históricos foram adaptados pela sétima arte. Essa estreita relação entre história e cinema mostrou-se uma excelente ferramenta de estudo para muitos alunos. Contudo, a maioria dos filmes históricos tende para uma visão eurocêntrica, preconizando a história da Europa e dos Estados Unidos. 

Para reverter essa situação e tornar a sétima arte uma ferramenta de estudo mais completa é necessário produzir mais obras cinematográficas sobre eventos históricos que aconteceram em várias partes do mundo, principalmente sobre a história da África, Ásia, Oceania e América Latina. Essa lista é apenas um pequeno exemplo da variedade e da riqueza da história humana que merece e deve ser adaptada para o cinema e, dessa forma, conhecida pelo maior número de pessoas.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
Valdinei Matos de Araújo
Agradeço pela oportunidade de cooperar com o trabalho tão competente feito pelo Cinéfilos. Externaliso meu orgulho de ter minha querida ex aluna e atual amiga Ana Carolina Guerra mostrando o conhecido brilhantismo. Nada mais gratificante para um mestre que isso...
24 out 2020
 
Raíssa
Seria incrível ver nossa cultura nós cinemas, de forma íntegra. Imagina ler histórias do nosso folclore para as crianças, contar dos nossos guerreiros, falar do nosso povo de forma honrosa!
24 out 2020
 
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