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A jornada das histórias em quadrinhos pelo mundo
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23 out 2020 | Por Natane Cavalcante (natanecp13@usp.br)

As histórias em quadrinhos (HQs) configuram a arte de narrar através de uma sequência de desenhos e textos. Elas misturam as linguagens verbal e não-verbal, e seu enredo é contado quadro a quadro. Também podem ser denominadas como narrativa figurada, literatura ilustrada ou arte sequencial. 

As HQs caracterizam-se pelo uso de recursos como as onomatopeias, palavras que buscam reproduzir sons de animais, pessoas ou objetos. Por exemplo, “Tic-Tac” para representar o som dos ponteiros de um relógio, ou “Rrr” para expressar um rosnado. Esse recurso ajuda a dar movimento e agilidade às histórias. 

Outro artifício essencial que caracteriza as histórias em quadrinhos são os balões para indicar o que os personagens dizem ou pensam. Eles possuem formatos diferentes e cada um traduz uma intenção: os balões de linhas contínuas sugerem uma fala normal, os com linhas tracejadas indicam que o personagem está sussurrando, os traços pontiagudos expressam falas gritadas e os em formato de nuvem apontam pensamentos. Há também as retrancas, que são retângulos que indicam a passagem de tempo, a voz do narrador, ou alguma informação extra sobre o enredo. “Nos quadrinhos, tudo comunica: as cores, o estilo de desenho, o vocabulário utilizado, os personagens, a estrutura da página, o enquadramento das figuras e as metáforas visuais”, comenta Waldomiro Vergueiro, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos.

Exemplos de balões de diálogos utilizados nas histórias em quadrinhos [Imagem: Reprodução/Freepik]

Exemplos de balões de diálogos utilizados nas histórias em quadrinhos [Imagem: Reprodução/Freepik]

 

A origem das HQs

Não é de hoje que a humanidade busca se comunicar através de desenhos. A origem das histórias em quadrinhos remonta ao período pré-histórico. Os primeiros povos utilizavam a pintura rupestre para representar cenas do cotidiano e os desafios da caça, descritos em sequências de desenhos na parede das cavernas.

O ato de contar histórias por meio de imagens se desenvolveu em diversas culturas e civilizações, e dispõe de notáveis manifestações. Alguns exemplos são os egípcios que criaram os hieróglifos, os gregos que ilustraram cenas épicas em vasos e o povo Maia que retratou suas histórias em grandes tiras de papel. Na Idade Média, as tapeçarias e os vitrais das igrejas góticas narravam as passagens da Bíblia. Esses antepassados das HQs não possuíam textos, e todo o enredo era descrito por meio da sequência de ilustrações. 

A primeira história em quadrinhos com os recursos conhecidos hoje, ou seja, com os balões de diálogos, foi escrita pelo artista americano Richard Outcault em 1896. A HQ chamava-se The Yellow Kid (Garoto Amarelo), e inaugurou a publicação de quadrinhos nos jornais de Nova York. No início do século 20 as HQs tornaram-se um elemento indispensável nas páginas dos jornais, em formato de charges políticas e humorísticas, sendo consideradas um importante meio de comunicação. 

A década de 1930 é classificada como a Era de Ouro das HQs, devido ao surgimento das histórias de super-heróis. O personagem Super-Homem marca o início dessa nova era e abre portas para as diversas histórias de aventura, fantasia e ficção científica. Com sua própria linguagem, os quadrinhos se expandiram por todo o mundo e conquistaram seu espaço para além das bancas de jornais: as HQs adaptaram-se à televisão e ao cinema, e passaram a carregar o título de nona arte. 

As histórias em quadrinhos possuem diversas vertentes e formatos espalhados pelo mundo, e cada uma delas tem suas peculiaridades e recebe um título específico.

 

Mangá

As histórias em quadrinhos japonesas têm sua origem relacionada com o teatro de sombra e com os e-makimonos, desenhos que contavam histórias, pintados em grandes rolos de pergaminhos. Foi em 1814, que o termo mangá surgiu, nos Hokusai Mangá, uma coleção de figuras que ilustravam a cultura japonesa. 

A ordem de leitura de um mangá é feita de trás para frente, da direita para a esquerda, e normalmente ele é impresso em papel jornal, por isso é comum que os desenhos sejam em preto e branco. Os personagens possuem traços e características marcantes e as expressões do rosto são bem destacadas; suas emoções, ações e exibições de poder são representadas com exagero, conferindo ao artista maior liberdade de criação. O mangá possui diversos gêneros e se destina a diferentes faixas etárias, e a partir deles surgiram os animes, que são as populares animações japonesas. 

Mangás Dragon Ball Z [Imagem: Reprodução/Flickr - Matthew Paul Argall]

Mangás Dragon Ball Z [Imagem: Reprodução/Flickr – Matthew Paul Argall]

 

Graphic Novel

As graphic novels, ou romances gráficos em português, são as HQs que possuem histórias mais extensas, elaboradas e complexas, apresentadas em um único volume, e podem ou não possuir continuação. Seu formato varia, mas geralmente possuem tamanhos maiores e material de qualidade superior. A origem do termo é frequentemente atribuída ao quadrinista Will Eisner, por ter sido usada na capa da sua história; Um Contrato com Deus (1978)

Em 1922, MAUS, de Art Spiegelman, foi a primeira graphic novel a ganhar o Prêmio Pulitzer especial de literatura. A história se passa na Alemanha nazista, e o autor narra pela perspectiva de seu pai, que passou pelos horrores do holocausto. No quadrinho, os judeus são representados por ratos e os nazistas por gatos. 

 

Capa de Maus [Imagem: Reprodução/Flickr]

Capa de Maus [Imagem: Reprodução/Flickr]

Comics

Marvel e DC Comics são duas grandes editoras de histórias em quadrinhos de super-heróis. Frequentemente postos em disputa pelos fãs, os dois universos construídos são diferentes e ricos em personagens e tramas.  

A Marvel foi fundada em 1939, pela editora Timely Comics, de Martin Goodman. Nessa época, os principais personagens eram Tocha Humana, Namor, o príncipe submarino e Capitão América. Na década de 1960 a editora mudou seu nome para Marvel Comics, e a dupla Stan Lee e Jack Kirby criam o Quarteto Fantástico e também o personagem Homem-Aranha. Muitos outros heróis e heroínas surgiram no decorrer de sua história, e hoje a Marvel Comics possui um amplo multiverso. 

Já a DC Comics foi fundada em 1934, pelo Major Malcolm Wheeler-Nicholson, mas somente em 1977 teve seu nome oficializado. A primeira revista publicada pela editora era em formato de tablóide e se chamava Fun: The Big Comic Magazine #1, seguida das revistas New Comics e Detective Comics. Em 1938, o personagem Super-Homem surge na revista Action Comics e, no ano seguinte, outro grande herói foi criado por Bob Kane e Bill Finger: o tão conhecido Batman. A partir daí foram criados diversos super-heróis como Lanterna Verde, Mulher Maravilha e Aquaman.

Edições das revistas da Marvel Comics e da Action Comics [Imagem: Reprodução/Marvel Comics e Action Comics]

Edições das revistas da Marvel Comics e da Action Comics [Imagem: Reprodução/Marvel Comics e Action Comics]

 

Tirinhas

A sequência de quadrinhos com tom crítico, irônico, sentimental ou humorístico caracteriza as tirinhas, que são muito comuns em revistas e jornais. Costumam ser utilizadas em materiais didáticos e também são muito presentes em provas de vestibular. Um exemplo disso é o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que as utilizam tanto como texto de apoio nas provas de redação como nas questões objetivas. 

Muitos personagens de tirinhas são bem conhecidos, como é o caso de Mafalda, criada pelo cartunista argentino Quino em 1964. As tiras da menina de seis anos de idade que odeia sopa, é questionadora, preocupada com o meio ambiente e inconformada com o contexto mundial, conquistaram não só a América Latina, mas o mundo. 

Outra ilustre tirinha é Calvin and Hobbes, ou Calvin e Haroldo, como é conhecida no Brasil. Criados em 1985 pelo americano Bill Watterson, o garoto Calvin e o tigre Haroldo, que na realidade é uma pelúcia, protagonizam diversas aventuras com diálogos divertidos e intrigantes. 

Tirinha de Mafalda, do autor argentino Quino [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Tirinha de Mafalda, do autor argentino Quino [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

 

HQs no Brasil

Foi no século 19 que as histórias em quadrinhos chegaram ao solo brasileiro. A princípio eram publicadas em veículos jornalísticos no formato de charges e caricaturas humorísticas, e posteriormente apareceram as tirinhas. Um artista de destaque do período foi Angelo Agostini, que em 1869 escreveu As Aventuras de Nhô Quim, uma história que narra de forma satírica os costumes da época. Outro de seus famosos personagens é o Zé Caipora, criado em 1883. 

Já a primeira revista em quadrinhos, O Tico-Tico, foi publicada em 1905 pelo periódico O Malho. Foi por volta de 1930 que as HQs americanas passaram a ser publicadas no Brasil, com títulos como Gato Félix e Mickey Mouse. Na década de 1950, a Editora Abril, começou a publicar as histórias em quadrinhos da Disney. 

O termo gibi foi usado pela primeira vez em 1939, para nomear uma revista semanal lançada por Roberto Marinho. Posteriormente o nome passaria a ser conhecido como um sinônimo para revistas em quadrinhos. O primeiro gibi inteiramente colorido surgiu em 1960 com a publicação de A Turma do Pererê, do cartunista Ziraldo, também criador de O Menino Maluquinho. A história trazia personagens inspirados na cultura nacional. 

Foi também na década de 60 que Maurício de Souza criou as histórias do cachorro Bidu e seu dono Franjinha, publicadas inicialmente no jornal Folha de S. Paulo. Em seguida, outros personagens foram criados e a prestigiada Turma da Mônica nasceu. A marca, com suas histórias que divertem e emocionam todas as faixas etárias, teve grande reconhecimento no mundo dos quadrinhos e se expandiu para as telonas, se tornando um dos maiores sucessos do país.

 Primeira revista da Turma da Mônica [Imagem: Reprodução/Guia dos Quadrinhos/Erico Molero]

Primeira revista da Turma da Mônica [Imagem: Reprodução/Guia dos Quadrinhos/Erico Molero]

 

O cenário atual das HQs 

As HQs passaram por muitas fases, vertentes e artistas, e estão em constante evolução. Os artistas independentes, por exemplo, reúnem muito talento, criatividade e desenvolvem novas técnicas de desenho. Com o surgimento da internet e das redes sociais se tornou mais fácil divulgar e publicar HQs, charges e desenhos, e alcançam um maior número de pessoas. Ainda existem muitos desafios na área e não é fácil viver da produção e venda de HQs, mas o reconhecimento, a informação, e o interesse acerca desse universo está crescendo. 

O mundo dos quadrinhos enfrenta obstáculos externos e também internos, como a carência de representatividade tanto em seus personagens quanto de autores. Muitos grupos são minorias nas HQs, a exemplo das mulheres, que por muito tempo tiveram suas personagens marginalizadas e retratadas de maneira machista. “A exclusão das mulheres ainda é uma realidade, tanto de personagens quanto de autoras. As mulheres, embora estejam entrando mais no mercado de quadrinhos mainstream, ainda são minoria, assim como outros grupos”, explica Helô D’Angelo, jornalista, quadrinista e ilustradora. Helô diz que há um esforço contínuo dos artistas para mudar esse quadro, que se altera lentamente.

Em seu TCC de jornalismo, Helô fez uma reportagem em quadrinhos sobre o aborto no Brasil, intitulado 4 Marias. Ela conta a história de quatro mulheres anônimas, de diferentes contextos, idades e classes sociais. “Os quadrinhos são uma boa solução para explicar coisas que em geral as pessoas não entenderiam. Por isso eu defendo muito as reportagens em quadrinhos”, declara Helô. “As HQs possuem várias funções, mas para mim a principal é a de democratização de conteúdo.”

Helozinha, uma personagem da quadrinista Helô D’Angelo. [Imagem: Reprodução/Helô D’Angelo]

Helozinha, uma personagem da quadrinista Helô D’Angelo. [Imagem: Reprodução/Helô D’Angelo]

Muitos eventos, festivais e exposições nacionais acontecem para quem quer conhecer novos quadrinhos e artistas e se aventurar nesse efervescente universo. Um dos mais conhecidos é a Comic Con Experience (CCXP), que reúne muitos elementos da cultura pop. Mas ainda existe um certo preconceito e estereótipo em relação às histórias em quadrinhos, que persiste há décadas. “As pessoas ainda não entendem como as histórias em quadrinhos são importantes, e como não são só coisa de crianças”, comenta Raquel Segal, diretora de arte e criadora das tirinhas do projeto Aquele Eita. “Os quadrinhos podem nos ensinar muito mais do que as pessoas acham que eles podem”, completa.

Tirinha da página Aquele Eita [Imagem: Reprodução/Aquele Eita Oficial]

Tirinha da página Aquele Eita [Imagem: Reprodução/Aquele Eita Oficial]

Segundo Waldomiro Vergueiro a linguagem das histórias em quadrinhos narra de forma única. “Uma parte da mensagem o leitor recebe pelo desenho, outra parte pelo texto, e uma terceira parte, talvez a maior e a mais significativa, pelo espaço entre um quadrinho e outro, por fatos que não estão narrados pela imagem ou pela escrita, mas que o leitor constrói com sua imaginação”. 

As histórias em quadrinhos e suas vertentes vão muito além de uma ferramenta de lazer. Sua profundidade não se limita a isso, e por meio delas os leitores são teletransportados para realidades diferentes, sob novas perspectivas. Se deparam com críticas, reflexões, ajudas e sentimentos de inúmeras maneiras, confrontando múltiplas faces da realidade. Seja através de um herói, uma heroína, um sayajin, uma feiticeira, um robô, ou um ser humano como personagem, as HQs se conectam com seus leitores, e passam a fazer parte de suas histórias. 

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