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A costura de uma história existencial de detetive, fetichismo e ovinos
Na Estante
18 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Imagem:  Hugo Vaz – Jornalismo Júnior

Por Hugo Vaz | hugo.vaz.reis@gmail.com

A costura de uma história existencial de detetive, fetichismo e ovinos

Escrito no início da década de 80, Caçando Carneiros situa-se no centro da linha do tempo que conecta o primeiro romance de Haruki Murakami até o best-seller mundial que o catapultou ao estrelato, Norwegian Wood. Mas, diferentemente deste último, centrado completamente no realismo, aqui o escritor desfila suas principais marcas de estilo, como trama recheada de mistério e um quê sobrenatural.

No decorrer das mais de 300 páginas o nome dos personagens jamais é mencionado, nem mesmo o do narrador, conferindo à narrativa em primeira pessoa uma nebulosidade quase experimental. Quem quiser ler esse romance deve estar preparado para certas epifanias que podem nunca chegar. Essa escolha desse estilo não é gratuita, entretanto. Ela possui o efeito de nos alienar deliberadamente da sensação de imersão, normalmente desejada em uma história.

É como se, entranhada nas páginas, entre um parágrafo e outro, Murakami houvesse aplicado uma força de empuxo, nos forçando à superfície toda vez que tentamos mergulhar. Desse modo, compartilhamos o desespero existencial do nosso protagonista sem rumo — talvez o verdadeiro mistério do livro. “Mas o senhor já tem um nome’, alguém dispara. “E não é que é verdade? Tinha-me esquecido”, ele retruca.

Uma História de Anônimos

Mas quem é esse anônimo que se reporta a nós e que seguimos ao longo da história? Em suma, um rapaz no último suspiro dos seus 29 anos, sabendo tanto sobre o que fará em sua próxima década de vida, quanto consegue fazer sentido da última que viveu, ou seja, muito pouco. Enquanto ele vaga de um lado ao outro, somos apresentados aos elementos que compõem sua existência: parceiro de negócios, ex-esposa, gato idoso. Tudo muito comum e ordinário. “Minha história é banal. Tão banal que você vai acabar pegando no sono”, ele admite. Mas ainda é cedo para dizer.

Após erguer uma empresa de publicidade do alicerce ao teto junto com o amigo (previamente sociável, agora, alcóolatra), os negócios parecem ter crescido demais. Se antes as principais preocupações eram panfletar e pensar em algo criativo, agora contadores e agências rivais roubam seu sossego. No âmbito pessoal, a recém ex-esposa retorna ao apartamento do casal apenas para apagar os traços de sua existência. Sem muita conversa, ela leva embora objetos pessoais, roupas, presentes antigos e até mesmo suas imagens dos álbuns de fotografia (recortando fotos ao meio, se necessário). “Perguntei-me se ela não teria apagado até as impressões digitais.”

Nosso herói parece estar se desfazendo diante de nossos olhos. Sua identidade fica cada vez mais debilitada e tudo que podemos fazer é assistir, até que…

Assim como o extraordinário se esconde dentro das pessoas, ele também se esconde no mundo que as cerca, ou pelo menos assim é nos romances de Murakami. Surge, de súbito, uma fagulha para acender o caminho — é a nova namorada do protagonista, ou mais precisamente, suas orelhas.

As orelhas sobrenaturais

Apesar da aparência sem graça como a vida do protagonista, a nova personagem contrasta com ele e com a história. Mais jovem, interessante e trabalhando em três profissões diferentes —tradutora, garota de programa e modelo de orelhas— sua entrada altera a trama completamente.

Ela também esconde um segredo. O autor caminha na linha entre fetichismo e simbolismo, ao conferir qualidades sobre-humanas aos ouvidos da moça. Atenção para este trecho no qual o novo casal janta num restaurante quando, em certo ponto, a moça prende os cabelos para revelar as benditas: “Pessoas voltavam-se de outras mesas e nos contemplavam absortas. O garçom que se preparava para reabastecer nossas xícaras de café perdeu a compostura. Um estranho silêncio reinou na sala.” Sim, orelhas. Peculiar, no mínimo.

Mas os membros da moça não servem apenas para se olhar, ou melhor, ouvir. Eles também possuem um certo poder de clarividência e logo percebem que o mistério do carneiro está prestes a começar.

Entra o carneiro

De fato, nosso protagonista logo é convidado (ou seria convocado?) para uma conversa na sua agência com um sujeito seriamente enigmático, de aparência meticulosamente letal. Ele quer saber de onde surgiu uma foto publicada pela empresa. Na foto, um pasto cheio de carneiros. Aparentemente, encontrar um específico, com mancha marrom em forma de estrela no pêlo, é a coisa mais importante do mundo para o chefe do sujeito misterioso —um figurão do mais alto escalão da ‘direita japonesa’, com influência incalculável nas esferas política, publicitária e do crime.

Nosso protagonista agora deverá encontrar o carneiro em algum lugar do Japão, ou ter sua vida arruinada por forças que ele não pode compreender. Mas será que vale a pena lutar pela vida que ele vinha levando? Junto com a namorada, parte para viagem, sem muitas pistas além de um mínimo de dedução lógica e a intuição das orelhas. A falta de detalhes em certos pontos do livro é quase cômica e, mesmo assim, o autor parece confiante de que nos manterá interessados na história,

Graças ao estilo apurado, reflexões existenciais e viradas rápidas na narrativa, Caçando Carneiros triunfa nesse esforço, transitando do surreal ao cômico, do mundano ao misterioso, e do confessional ao investigativo. Aos poucos, abandonamos o espaço convencional do início para explorar o território japonês, desvendar suas paisagens e conhecer personagens que conversam com Deus pelo telefone, cativam-se voluntariamente em quartos de hotel e carneiros capazes de mudar o mundo.

Ao decidir por um romance de ficção, temos a expectativa de que, progressivamente, seremos envolvidos pelo universo que ele define, cercados pelas possibilidades do enredo e representados pelos pensamentos e ações dos personagens. Caçando Carneiros toma muitos riscos ao camuflar esses elementos abaixo da superfície narrativa, mas oferece suas recompensas para quem decidir explorá-lo além desta.

 

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