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A Ditadura da Beleza

O desprezo pelo padrão de beleza da mulher eurocêntrica nos trouxe a ideia do empoderamento, quando na verdade estamos criando trocentos outros meios de nos reprimir

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20 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Gabrielle Torquato (gabrielletorquato17@usp.br)

Acordo pela manhã, pego o celular, são 8h. Olho as mensagens, minha agenda, estou no Instagram. Aquela influencer americana está viajando de novo, dessa vez o destino é a Itália. Dois toques, arrasto o dedo pra cima. Outra foto da blogueira, 6h da manhã e ela já está na academia, não vou curtir. Dessa vez.

Arrasto o dedo pra cima. Modelos. Arrasto o dedo. São novos tempos mesmo, várias influencers negras, quanta representatividade. E esses cabelos cacheados? Meu cabelo nunca vai ser igual ao dela. Arrasto o dedo. Quantas modelos plus size, que lindas, nem minha cintura é tão definida assim. Arrasto o dedo. “Confira agora o aplicativo que te deixa com o corpo definido em uma semana”. Arrasto o dedo. Arrasto o dedo até que tenha que levantar e viver a vida por fora de tudo isso.

O padrão de beleza que todo mundo conhecia sempre foi um: o da mulher branca, magra, cabelo liso. Não é algo que estava escrito em algum lugar, nem que fosse ensinado na escola, mas estava lá. Todo mundo sabia qual era, todo mundo desejava ter, ser. Vivemos anos de depressão, sofrendo com bulimia e anorexia. Tentando curar uma doença que estava na nossa sociedade, e não no nosso corpo.

Com a chegada do feminismo, descobrimos qual era o problema. A solução parecia fácil: se ame e aceite como você é. De repente, o bonito não era mais ser branca ou magra. Alguém podia ser negra e ser bonita, podia ser plus size e ganhar likes. A questão é: na tentativa de fugir de um padrão que só nos reprimia, acabamos criando outros trocentos.

Aline Zattar (@alinezattar 120k seguidores) conquistou sua autoestima através do movimento Plus Size. Construiu sua carreira em cima de um corpo que era antes julgado, mas que após o movimento se tornou objeto de desejo. Ela é uma das referências para várias mulheres com o corpo parecido com o seu, principalmente no Instagram.

Aline não pertence ao padrão de beleza da mulher branca, mas pertence ao da mulher plus size. Esse padrão é muito mais presente em concursos, como o Miss Plus Size Brasil, do qual ela foi ganhadora em 2013. “Não tem um padrão pra se inscrever, mas tem um que acaba ganhando. Geralmente o corpo sereia, sabe? Com curvas mais definidas. Não tem nas regras, mas a gente nota que há uma preferência”. Ela afirma que, assim como existe uma obrigação de manequim para modelos magras, o mesmo acontece com as plus size, que devem se manter entre o 44 e o 48.

Outro padrão é o da mulher negra. Os cabelos volumosos e a pele escura tomaram conta do Instagram, e fizeram de pessoas como Sarah Oliveira (@eusaholiveira 209k seguidores) um símbolo de representatividade e de empoderamento. Um poder que engana, pois exalta o cacho, os traços finos e exclui grande parte das mulheres. “A mulher negra de fato, a mulher afro, se tem a pele mais escura ou os traços um pouco mais fortes, não é bem aceita. Tanto que as atrizes de grande sucesso negras, tem traços finíssimos, Taís Araújo, Sheron Menezzes”, afirma Sarah.

(Ilustração: Laura Alegre/ Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

A mesma situação acontece em relação ao cabelo. Ao exaltarmos o cabelo natural nos esquecemos de várias mulheres que se sentem bem com o seu cabelo alisado. Criamos uma beleza no cacho que faz com que o liso químico não pareça bom ou bonito suficiente. “A gente saiu da ditadura do liso pra ir pra ditadura do cacho perfeito, da ditadura do cacho perfeito pra ditadura de que todo mundo tem que ter cabelo cacheado. E se você tem o cabelo cacheado, não pode alisar.”

Um padrão um pouco esquecido, mas igualmente importante é o padrão da mulher asiática. Apesar de grande parte da população ter essa origem, as mulheres dessa etnia ainda não são muito representadas nesse mundo da beleza brasileira.

Mariana Akemi (@seppukugirl 6.623 seguidores) de origem japonesa atraiu seguidores pelo seu interesse em falar sobre seus ancestrais. Ela conta como foi difícil se sentir representada no Instagram, tendo buscado novas referências asiáticas: “Precisava encontrar pessoas que se parecessem comigo.”

Além disso, as mulheres dessa etnia ainda sofrem com seus próprios padrões, definidos por questões relacionadas a outros países e que fogem da realidade da cultura e do clima brasileiro. Ela indica características físicas valorizadas: “Ter a pele bem clara, o que é meio impossível no Brasil, super magra, cabelo super liso, pele completamente lisa, uma aparência mais fofa, parecendo quase uma criança”. Ainda enfatiza o caso das coreanas, que optam por cirurgias ainda muito novas: “As meninas, antes mesmo de completarem 15 anos, já fazem aquela cirurgia para criar a dobrinha no olho. E isso é meio que uma coisa obrigatória, todo mundo faz.”

Outro problema envolvendo o padrão asiático é a falta de inclusão relacionado às etnias. Garotas indianas, por exemplo, apesar de serem asiáticas são completamente excluídas desse padrão.

A psicóloga Livia Beraldo, formada pela Faculdade de Medicina do ABC, ressalta a importância da união para resolver o problema, além de incentivar o diálogo sobre o assunto: “Sempre pedir ajuda é o mais importante. As mulheres precisam se unir mais, se empoderar. Eu acho que se nos apoiarmos mais que nos criticarmos, conseguimos mudar muito mais do que já estamos”.

Não existe uma cura para as redes sociais, elas são feitas por nós. Nos dias de hoje, pedir que alguém se desligue de todas elas é algo utópico. Vamos ter que conviver com a repressão. Os padrões que criamos são reflexo de um vício. Nos acostumamos a sempre desejar mais, a querer o que não temos. Ignorar essa ditadura é um exercício diário e de empatia consigo mesma. Entender que somos muitas e somos diferentes. Padronizar é perder cultura, formas, diversidade e autenticidade.

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