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A Febre do Amanhecer: Uma história de amor e esperança após a guerra
Na Estante
19 jun 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de Capa: Amanda Péchy

A febre do amanhecer, escrito e narrado por Péter Gárdos e com tradução do húngaro de Edith Elek, teve sua primeira edição lançada no Brasil em 2017 pela Companhia das Letras. Este é o primeiro romance do autor e foi publicado em mais de trinta de países, sendo que já teve uma adaptação para o cinema. Baseado em fatos reais da história de como sua mãe e seu pai se conheceram, ao longo das páginas, o autor, em primeira pessoa, revela detalhes da vida de seus pais e de outros sobreviventes após as tragédias causadas pela guerra.

Logo em sua capa, a obra convida o leitor a conhecer uma narrativa diferente sobre o pós-guerra. Ao contrário de muitos livros que relatam as tragédias que ocorreram durante ou depois da guerra, A febre do amanhecer oferece ao leitor outro olhar. Gárdos, ao longo das páginas, vai mostrando como seus pais se conheceram, se apaixonaram e, mais tarde, casaram-se. Há apenas breves passagens do texto que relatam os horrores vividos sob ameaça constante dos nazistas. Passagens essas que são suficientes para se fazer sentir um frio na espinha e uma angústia sem tamanho.

Miklós Gárdos, pai do autor, com cerca de 25 anos foi capturado pelos nazistas. Era judeu. Passou meses em um campo de concentração, realizando trabalhos forçados, alimentando-se mal – e às vezes, não se alimentando – sofrendo dia após dia com a tortura de não saber se ia ou não morrer, se ia ou não ser resgatado com vida. Lili Reich, mãe do autor, passou pela mesma situação. Lili, entretanto, tinha apenas 18 anos e uma vida toda pela frente, mas era judia também e acabou sendo capturada por nazistas e condenada ao mesmo destino daquele que um dia seria seu marido.

Ao ser resgatado do campo, Miklós, assim como outros companheiros, foi enviado a um acampamento de recuperação na Suécia, para receber tratamento. No entanto, o húngaro, após uma bateria de exames, descobriu que estava doente, tinha tuberculose. Lindholm, o médico do acampamento e que tinha grande apreço pelo paciente, chamou-o para uma conversa séria: Miklós não teria mais do que seis meses de vida. O sobrevivente, porém, tinha uma ânsia incansável de viver, desbravar o mundo e seguir com afinco seus ideais e recusou-se a acreditar no diagnóstico médico. Acreditava que, mais cedo ou mais tarde, se curaria. Um pouco distante do acampamento onde Miklós recebia tratamento, a judia Lili também se recuperava dos horrores sofridos no campo. Ao lado das amigas Sara e Judit Gold, melhorava a cada dia: ganhava peso, comia melhor e sentia-se mais animada, pronta para recomeçar sua vida ao lado da família, da qual não tinha notícias há mais de um ano.

Os pais do autor se conheceram através de cartas, enviadas primeiro por Miklós a várias moças – dentre elas, Lili – de diversos acampamentos, pois tinha certeza de que uma delas se casaria com ele, o que realmente aconteceu. Lili e Miklós se corresponderam durante seis meses, de setembro de 1945 a fevereiro de 1946, até se casarem em Estocolmo.

A cada dia que passava nos acampamentos de recuperação, os sobreviventes não só tentavam curar-se de doenças adquiridas durante o período em que foram prisioneiros, como tentavam esquecer e superar os traumas causados pelo holocausto. A cada dia lutavam contra os flashbacks que ainda tinham de quando ainda estavam sob controle nazista. Há uma passagem no texto muito forte e que ilustra muito bem a questão do estado psicológico em que essas pessoas se encontravam após o trauma que sofreram. Jakobovits, um dos companheiros de acampamento de Miklós, todos os dias no café da manhã roubava um pedaço de pão e guardava no bolso de seu casaco, como uma garantia de que teria algo para comer quando precisasse. O judeu fazia isso mesmo sabendo que no outro dia haveria comida e mais pão.

*O próximo parágrafo contém spoilers*

Durante todo o romance, Miklós é descrito como um jovem esperançoso, repleto de ideologias e ansioso por transformar o mundo em um lugar melhor. Ao final do livro, entretanto, no epílogo, em que o autor narra como tomou conhecimento das cartas que seus pais trocavam, revela-se que algum tempo após Lili e Miklós se casarem, aquele jovem sonhador que tomava o húngaro foi, aos poucos, desaparecendo. Percebe-se que muitas das coisas que o pai de Péter um dia desejou fazer ficaram apenas em suas ideias. Essa revelação, feita bem ao final do livro, pode trazer ao leitor certa quebra de expectativa, ao imaginar que após retornarem a seu país de origem e estar junto de seus familiares e casado com Lili, Miklós finalmente colocaria em prática todos os seus ideais.

A febre do amanhecer é um livro fluido e de fácil leitura. Ao longo da narrativa sobre o cotidiano dos húngaros na Suécia em acampamentos de recuperação intercalam-se trechos das cartas trocadas entre Lili e Miklós. Essa dinâmica de organização possibilita que o leitor acompanhe e até se sinta parte da evolução da relação do casal, que de início era fria e distante e em pouco tempo passou a ser de confiança e esperança. Além dessa estratégia de introduzir trechos das cartas ao texto, Péter também intercala a história contando um pouco sobre os momentos mais relevantes de Miklós no acampamento e em seguida os de Lili. Isso confere à narração certa simultaneidade, o que fica bastante visível em uma passagem específica da obra em que na mesma noite, os pacientes dos dois acampamentos estão, na hora do jantar, em uma espécie de sarau cantando a mesma música, relembrando momentos e pensando em como iriam reconstruir suas vidas.

Apesar de ser um livro comovente e que desperta curiosidade no leitor, existem passagens do texto que poderiam ter sido mais desenvolvidas. Em alguns momentos, espera-se que o autor vá acrescentar detalhes à narração, mas que acabam ficando por conta da imaginação do próprio leitor. Além disso, o romance apresenta um teor pouco descritivo, o que torna a leitura rápida e envolvente, mas que em alguns trechos pode vir a fazer falta quando o leitor for criar as imagens dos personagens em seu imaginário.

A obra de  é um convite ao leitor para refletir sobre os terrores da guerra. Grande parte dos personagens do livro, em algum momento da história, receberam a notícia de que familiares haviam sido mortos. Outros não sabiam e nem tinham como descobrir se ainda havia alguém no mundo com quem podiam contar. Muitos não tinham nada, tudo havia sido deixado para trás ou destruído. A única coisa que havia sobrado aos sobreviventes que se recuperavam eram uns aos outros. Durante a narração, o autor parece fazer questão de mostrar que entre eles não havia disputa, egoísmo, inveja ou ódio. Havia apenas companheirismo e apoio e era isso, pode-se dizer que era até a única coisa, a qual aquelas pessoas podiam se apegar.

A febre do amanhecer não é uma história sobre o legado da guerra ou da intolerância. Trata-se de uma história sobre superação e amor. É sobre saber que apesar dos horrores que foram vividos e vistos, sempre há esperança para reconstruir um mundo mais justo e uma vida melhor.

Por Ana Carolina Cipriano
ana_cipriano@usp.br

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