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A liberdade e outras questões em Jorge Amado
Na Estante
21 dez 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Guilherme Roque / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Por Lígia de Castro (ligiaadecastro@gmail.com)

Por causa dele, a Bahia foi lida em 49 línguas diferentes. Por causa dele, a Bahia e a sua literatura tanto cresceram em tamanho como em qualidade. Jorge Leal Amado de Faria é baiano (é claro), e, desde cedo, aos 14 anos, começou a participar da vida literária – chegando a criar um grupo (juntamente a outros jovens) que se preocupava em renovar a literatura baiana. Nasceu em Itabuna em 1912, mudando-se para Ilhéus um ano depois e essas cidades, além de outras tantas da Bahia (como Salvador, onde morreu em 2001), serviram de cenário e de assunto para várias de suas histórias.

A política, o conservadorismo, o amor, a liberdade: gostava de falar sobre essas questões e, por causa disso, mesmo nos menores acontecimentos de seus livros elas aparecem, intrometidas, guiando todo o enredo. É no cotidiano que estão escondidas. É assim que, ao escrever Gabriela, Cravo e Canela, ou Dona Flor e seus Dois Maridos, Jorge Amado retrata os acontecimentos mais (aparentemente) banais do dia a dia de cidades baianas, e faz disso, no fim, quase uma tese, provando seus pensamentos sobre amor livre, sobre o que é progresso, o que é liberdade.

Um grande autor do modernismo brasileiro – movimento da literatura brasileira que procurava romper bruscamente com padrões literários anteriores –, suas obras se encaixam principalmente na segunda geração modernista, marcada pelo regionalismo e pela denúncia social. Em livros como Capitães da Areia (1937), Mar Morto (1936) e Cacau (1933), essa crítica social é muito clara – percebe-se com facilidade que o objetivo do livro é fazer denúncias, como por exemplo às condições de meninos de rua na Bahia. Em livros como Gabriela, Cravo e Canela (1958), A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (1961), Dona Flor e seus dois Maridos (1966), essa crítica mistura-se a uma forma muito leve de retratar os acontecimentos, o que os torna bastante divertidos – chegando a ser entretenimento. Escrevendo para o jornal carioca “Última Hora”, sobre A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, Vinicius de Moraes diz que Jorge Amado “brinca em serviço. E felizmente o faz”.

Essa divertida e acessível forma de narrar histórias rendeu a ele uma cadeira na Academia brasileira de Letras, além de muitos leitores não só baianos, não só brasileiros, mas também de vários outros países do mundo.

Gabriela, Dona Flor, Quincas Berro D’Água

Três de seus mais famosos livros são exemplos do estilo gostoso de escrita desse autor. Publicados quase seguidamente, eles se encaixam no que críticos literários chamam de “última fase” da literatura de Jorge Amado, a qual se compõe de Depoimentos Líricos e Crônicas de Costumes. Sendo diferentes entre si em seus acontecimentos, todos se aproximam, no entanto, nessa maneira mais leve, mais próxima de uma crônica, de narrar – além de serem parecidos também nas questões que trazem ao leitor no desenrolar das histórias.

A liberdade e o conservadorismo

“Me disse que queria ser livre como um passarinho. A verdade é que ele tinha graça”. Quem disse foi tia Marocas, do livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (1961), referindo-se ao personagem que deu nome à obra (“o cachaceiro-mor de Salvador”, “filósofo das gafieiras”, “vagabundo por excelência”). Na verdade, Quincas Berro D’Água, no início da história, não era Quincas Berro D’Água. Chamava-se Joaquim Soares da Cunha, era um funcionário da Mesa de Rendas Estadual e casara-se com Otacília – mulher dura, firme, sempre a colocá-lo nos trilhos. Tinha uma filha, Vanda, e tudo parecia encaminhado: os vizinhos o viam com respeito, era definitivamente um homem de bem. Então, um dia, sem mais nem menos, saiu de casa e nunca mais voltou, “como se estivesse a realizar o menor e mais banal dos atos”. Desde esse dia, começou a beber e tornou-se conhecido em Salvador entre os mais diversos jogadores e cachaceiros.

Essa é a história de um homem que não aguentou (nem quis mais aguentar) as pressões sociais que a própria família lhe fazia, essa cheia de repressões e julgamentos, e assim acabou indo para a rua e vivendo seus prazeres livremente – mesmo sem ter tostão algum. Idealizado (como inclusive costumam ser os personagens de Jorge Amado), Quincas passa a ser inteiramente feliz e principalmente livre, enquanto sua família fica para sempre amargurada em relação a ele. Essa é, portanto, uma história-tese: como se Jorge Amado quisesse colocar em forma de livro os seus pensamentos sobre como a liberdade (e junto dela, a felicidade) é o oposto do conservadorismo, e para isso construísse um devasso que, ao negar o que a família representava (o julgamento conservador), passou a viver feliz, livre, e cheio de amigos.

Nessa cena, tirada do filme “Quincas Berro D’Água”, aparecem Quincas e seus quatro melhores amigos.

O mesmo pensamento se repete em Dona Flor e seus dois Maridos, assim como em Gabriela, Cravo e Canela.

Dona Flor, desde menina, é infernizada pelos julgamentos da mãe, dona Rozilda. Rozilda é uma mulher frustrada que deseja incessantemente ascender socialmente (afastando-se assim de tudo o que é pobre, de tudo o que ela tem preconceito). Apresentando vários pretendentes ricos para a filha, ela fica surpresa quando Flor aparece namorando Vadinho. Muito parecido com Quincas Berro D’Água, Vadinho também vive a vida da forma como acha mais prazeroso (o que também envolve a bebida e os jogos de azar), e, para desgosto de Rozilda, não tem dinheiro algum. Sendo ele tão feliz e ela tão carrancuda, a tese de que pessoas livres (ao contrário de pessoas conservadoras) são felizes (e melhores) é presente também nessa obra.

Gabriela, por sua vez, é uma mulher doce e risonha. As adversidades da vida não parecem abalá-la, e ela vive feliz assumindo seus prazeres. É assim que, durante o livro, é recorrente vê-la de pés descalços andando pelas ruas de Ilhéus, brincando com crianças, gostando de ir ao circo, flertando com “moços bonitos”. Nacib, dono do famoso bar Vesúvio, passa a ser um deles. Os dois ficam juntos, felizes, mas ele começa a se incomodar com as atitudes libertinas dela e a pede em casamento – o que significava, para ela, não mais andar descalça, não mais brincar, dançar como gostava e, principalmente, flertar com outros homens. É a partir daí que o relacionamento deles começa a ir abaixo aos poucos, mesmo que ainda se gostassem. O casamento, sendo encarado como uma repressão à Gabriela (também um ato conservador), tira dela a sua liberdade e a deixa infeliz.

Sônia Braga interpretou Gabriela em uma telenovela produzida pela Globo em 1975.

A religião

Se não é tão presente em Gabriela, Cravo e Canela, tem uma força muito grande tanto em Dona Flor e seus Dois Maridos, quanto em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água. A religião aparece em forma de Orixás, fazendo parte das conversas e das crenças populares.

Em Dona Flor, é comum que os personagens mencionem orixás e recorram a eles em várias situações. Uma delas, que acontece no final do livro, é quando Dona Flor precisa que o fantasma de Vadinho vá embora novamente da Terra. Talvez seja preciso explicar melhor: logo nas primeiras páginas do livro, ele morre em um dia de carnaval, deixando Flor para trás – primeiro triste, depois apática, depois com muita saudade. Em determinado momento do livro, de tanto ela pedir, ele volta, fantasma, e passa a lhe fazer companhia. Sentindo-se dividida entre seu senso moral (pois nesse momento ela já está novamente casada, com um homem muito decente) e a vontade de ficar com ele, chega um momento em que explode e pede ajuda aos orixás para que levem Vadinho de volta. O penúltimo capítulo é uma luta entre esses seres poderosos, sendo responsáveis por decidir o final definitivo de Vadinho e do livro em si.

Em Quincas Berro D’Água não há luta nenhuma – nenhum orixá aparece assim materializado. Mas estão presentes entre os amigos de Quincas, tendo ele mesmo, no dia em que morreu, ervas a vender para uma mulher que era responsável pelas festas de Xangô – ervas essas que eram “imprescindíveis para obrigações de candomblé”.

Essa questão da religião, de dar espaço aos orixás, parecia tão importante para Jorge Amado que não só em seus livros apareceu. Deputado federal pelo PCB em 1945, ele foi autor de 15 emendas, sendo a mais importante delas (segundo ele mesmo considerou mais tarde) a que garantia a liberdade ao culto religioso. Lei, inclusive, que impera até hoje.

O amor (livre)

O amor é um tema que percorre sempre as obras de Jorge Amado. Em Gabriela, Cravo e Canela e em Dona Flor e seus Dois Maridos é o principal acontecimento, o que encadeia todos os demais. Seja entre Nacib e Gabriela, Dona Flor e Vadinho, Dona Flor e Teodoro, o amor romântico tem papel tanto de espalhar lirismo pelos episódios, quanto de causar inquietações. Até aí, talvez não seja tão diferente de outros livros, de outros autores. O que chama atenção em Jorge Amado é que essas inquietações são causadas principalmente pela falta de aceitação da sociedade em relação ao amor livre, à poligamia.

A cena mais clássica de Dona Flor e seus Dois Maridos, em que Vadinho, Dona Flor e Teodoro saem juntos a andar pela rua.

Gabriela se sente infeliz quando se casa e é impedida de flertar e sair com outros homens que não Nacib. Vadinho, mesmo depois de casado, continua saindo com outras mulheres enquanto Flor o espera em casa, triste. Ambas as situações apenas se resolvem, nos livros, quando Nacib e Gabriela se divorciam e voltam a ficar juntos despretensiosamente, ficando com outras pessoas também (ambos não entendem mais esse fato como traição ou como algo ruim); e quando Dona Flor aceita que gostar de Vadinho e gostar de Teodoro (seu segundo marido, um homem muito certinho e direito) não são coisas excludentes e não farão dela uma mulher vil – assim como Vadinho não era assim tão vilão por sair com outras mulheres quando estava vivo. Também livros-teses sobre amor livre, ambos constroem situações em que, aceitando a poligamia, os casais passaram a viver felizes e de forma mais saudável juntos.

A música

Está nas serenatas de Vadinho a Flor (com presença de um personagem muito curioso chamado Dorival Caymmi), nos ensaios de Teodoro com seu amado fagote, assim como nas trilhas sonoras que encheram as novelas e minisséries baseadas nos livros. Renderam lindas músicas. Gabriela, de Tom Jobim; Alegre Menina, Porto e Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi; O Que Será, de Chico Buarque (todas as três versões). Tão importante como todo o resto, as músicas têm tanto clima de Bahia que transportam inevitavelmente quem as ouve para as histórias, para os cenários de Jorge Amado.

Os prêmios e as telas

Levadas à televisão e ao cinema, essas três obras atingiram ampla visibilidade, sendo hoje algumas das mais conhecidas de Jorge Amado. Gabriela, Cravo e Canela apareceu uma vez como filme em 1983 (com Sônia Braga e Marcello Mastroianni nos papéis principais), e três vezes como novela em 1960, 1975 e 2012 (com destaque para Sônia Braga e Juliana Paes no papel de Gabriela); A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água apareceu em um “Caso Especial” da TV Globo em 1978, e uma vez como filme em 2010; Dona Flor e seus Dois Maridos tornou-se minissérie da TV Globo em 1998, e foi duas vezes cinema em 1976 e 2017 (também estrelando Sônia Braga e Juliana Paes, dessa vez no papel de Dona Flor).

Brilhou também um desses livros, Gabriela, Cravo e Canela, em premiações literárias recebidas no ano seguinte à sua publicação, 1959. São elas: Prêmio Machado de Assis, Prêmio Paula Brito, Prêmio Luísa Cláudia de Sousa, Prêmio Carmem Dolores Barbosa, e Prêmio Jabuti. Escritor de tais histórias, sendo reconhecido por “contribuir para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa”, Jorge Amado foi homenageado em 1994 ganhando o Prêmio Camões – muito importante para a literatura.

Nada disso é à toa: encantar-se com esses livros, na verdade, parece inevitável. Eles seduzem pelo desenrolar gingado dos acontecimentos, pelos personagens que “Jorge Amado ama e nos leva a amar” (como disse Chico Buarque), pelas ideias que tocam e despertam o leitor, e por serem, em suma, um jeito tão gostoso de passar o tempo.

 

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