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A transexualidade em foco
CINÉFILOS
02 fev 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Luiza Queiroz
luly.agnol@gmail.com

Normas de gênero são as imposições mais primárias que qualquer ser humano sofre. Desde a escolha de um carrinho para um menino, ou de uma boneca para uma menina, somos ensinados que nosso sexo biológico determina também o tipo de comportamento que devemos ter. Entretanto, sexo e identidade de gênero não são sinônimos, ao contrário do que prega o senso comum. Assim, a transexualidade é um assunto até hoje bastante polêmico, justamente por questionar os papéis de gênero impostos a cada sexo. Por isso, pessoas que não se identificam com as normas estabelecidas são quase sempre vítimas de transfobia – e durante muito tempo, tanto o preconceito quanto a própria existência de transexuais foi um assunto desprezado pelo debate público.

Felizmente, porém, o tema vem ganhando visibilidade e o cinema, como toda forma de arte, tem um grande potencial para fomentar a questão. Inclusive, um dos lançamentos mais esperados de 2016, A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015), terá como foco a história da primeira transexual a realizar o procedimento cirúrgico de mudança de sexo. A série Orange Is the New Black, da empresa norte-americana Netflix, também foi uma das mais recentes produções a dar visibilidade ao tema com a personagem Sophia Burset, interpretada pela atriz transexual Laverne Cox.

“Eu sinto que finalmente, finalmente eu sou a mulher que Deus tinha planejado que eu fosse”

Mas muito antes do drama carcerário de Piper Chapman, o cinema já havia trabalhado a transexualidade – de maneira não-estereotipada – em diversos filmes sobre a identidade de gênero e o que ela representa na vida de alguém. Um dos exemplos mais marcantes é o icônico Priscilla, A Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, 1994), que foi um dos pioneiros em buscar retratar o universo LGBT sem estereótipos. A história gira em torno dos drag queens Anthony (Hugo Weaving) e Adam (Guy Pearce), e da transexual Bernadette (Terence Stamp). O trio é contratado para realizar um show em uma cidade remota em meio ao deserto australiano, para a qual partem a bordo de seu ônibus, apelidado de Priscilla. Ao longo da jornada, eles acabam enfrentando o preconceito e a intolerância de muitos, incluindo a esposa de Anthony. Lançado em 1994, a obra logo foi aclamada por sua carga dramática e excelentes performances – principalmente a de Stamp.

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Três anos após a Bernadette de Terence Stamp, o longa Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose, 1997) também se empenhou em trabalhar seriamente o assunto, a partir da história de Ludovic (Georges du Fresne), um garoto que luta para ter sua identidade de gênero feminina aceita por sua família. O título é uma referência tanto à transexualidade de Ludovic quanto à famosa canção La vie en rose, de Édith Piaf. O longa merece reconhecimento, primeiramente, pela abordagem sensível e ao mesmo tempo irreverente com a qual trata a transexualidade no final do século XX. A personagem principal, Ludo (como é chamada), é uma menina transexual que não entende o espanto de seus familiares com relação à sua preferência por roupas femininas, ou ao seu desinteresse pelo “universo masculino”. Para Ludo, sua condição biológica de menino não passa de um erro, enquanto para seus pais, esse tipo de pensamento é apenas uma fase; assim, a única fonte de aceitação que a jovem possui é sua avó.

A obra, embora flerte bastante com a comédia, não hesita em mostrar a crueldade dos episódios de homofobia e transfobia sofridos por Ludo, que não desejava nada além do direito de ser ela mesma. É cômico, e ao mesmo tempo tocante, a incompreensão que a personagem tem com relação à intolerância de sua família e de sua comunidade. Justamente por ainda ser uma criança, Ludo não compreende todos os tabus envolvidos na sexualidade e na identidade de gênero; o que ela compreende é que está destinada a ser uma menina, independentemente de seu gênero biológico. Por sua coragem em abordar explicitamente a transexualidade ainda na infância, além de um roteiro bem elaborado e performances admiráveis, Minha Vida em Cor-de-Rosa venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 1997.

ma vie en rose

Outro filme cuja protagonista é uma mulher transexual segura de sua identidade é Transamérica (Transamerica, 2005), um drama que conta a história de Bree (Felicity Huffman). Bree é uma mulher transexual que está prestes a realizar sua cirurgia para mudar de sexo, quando recebe a notícia inesperada de que possui um filho adolescente. Buscando cortar todos os laços com seu gênero biológico, Bree não faz questão de ter qualquer contato com o jovem, mas sua terapeuta acaba forçando-a a resolver o assunto. Dessa forma, ela viaja de Los Angeles para Nova Iorque para conhecer Tobey, seu filho rebelde de dezessete anos, e os dois decidem voltar juntos de carro para a Califórnia.

transamerica

“Meu corpo pode ser um trabalho em andamento, mas não tem nada de errado com a minha alma”

A obra possui um tom despretensioso de um road movie, sabiamente utilizado para abordar de maneira um pouco mais leve o “tabu” da transexualidade. Apesar dos momentos cômicos, porém, o drama ainda impera na maior parte da jornada de auto-descobrimento realizada por Bree. Por sua atuação, Felicity Huffman foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e venceu o Globo de Ouro na mesma categoria.

transamerica poster

 

Já em 2013, Jared Leto, ator e vocalista da banda Thirty Seconds to Mars, ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação como a transexual Rayon, em Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013). A obra, estrelada por Matthew McConaughey, é inspirada na história real de Ron Woodroof, um homem que inicia uma rede de contrabando de medicamentos em fase de teste contra AIDS, após ter sido diagnosticado como soropositivo. É a partir do diagnóstico também que Woodroof conhece Raymond “Rayon”, uma mulher transexual que também é portadora de AIDS. Situado em uma época na qual tanto a AIDS quanto a transexualidade eram assuntos extremamente obscuros, o longa emociona ao retratar o florescimento da amizade entre o inicialmente transfóbico Woodroof e Rayon. Uma das cenas mais comoventes ocorre quando Woodroof a defende de um de seus antigos amigos, que na verdade representa a visão inicial do protagonista em relação ao assunto. Apesar dos pontos positivos e da bela atuação de Leto, porém, o filme recebeu críticas consideráveis por não ter utilizado alguém de fato transexual para o papel.

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De fato, é bastante perceptível que, mesmo com a maior repercussão da temática transexual no cinema, o espaço conferido a atores transexuais continua mínimo. Questionar estereótipos através de roteiros bem elaborados é um grande avanço que o cinema pode oferecer, porém isso por si só não é suficiente. Parece que a palavra-chave para as futuras produções cinematográficas a respeito da transexualidade não deve mais ser “visibilidade”, e sim, de fato, “inclusão”. Quem sabe a inclusão nas telas possa ser o primeiro passo para uma inclusão na vida real.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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