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A TV aberta e suas causas invisíveis
Controle Remoto
07 ago 2019 | Por Por Sofia Aguiar (sofia.aguiar@usp.br)

[Imagem: Gabriel Bastos]

Entre ansiedade de esperar o horário chegar e decepção de perceber que já era tarde demais essas eram as sensações de crianças no início dos anos 2000. Dependendo das TVs aberta e pública, o conteúdo infantil era muito grande. E, o mais importante, uniformizado.

Os programas assistidos eram basicamente os mesmos. Castelo Rá-Tim-Bum, Sítio do Picapau Amarelo, TV Globinho, Bom dia e Cia e As Trigêmeas eram tidos como “universais” e conhecidos por toda uma geração. Com brigas para estabelecer as pessoas e seus respectivos personagens nas brincadeiras, o conhecimento sobre os programas era disseminado e fez restar naquela geração, agora mais madura, uma nostalgia interminável. 

Com o avanço dos canais por assinatura e das redes sociais, o panorama televisivo mudou. A publicidade se tornou mais rígida,migrou para outras emissoras e, acima de tudo, o contexto social se transformou. Apesar de mais desassistida se comparada ao início do século, a TV em geral é um enorme pilar no Brasil. Como formadora de opinião e como reflexo nacional, a televisão aberta ainda é uma grande voz.

Beth Carmona, envolvida na produção do Castelo Rá-tim-bum e atual diretora do ComKids, explica que “a TV aberta sempre trabalhou com públicos amplos, não só em termos socioeconômicos, mas também em gênero e faixa etária”. Esse trabalho com números grandes e massivos ocasionou uma dificuldade em lidar com o público infantil, segundo Beth. E acrescenta: “Pelo modelo comercial de televisão, um público segmentado e dirigido não dá sustentabilidade nem investimento à programação”.

Com o surgimento da TV a cabo no Brasil, iniciou-se uma migração de público. Como os canais pagos não são sustentados apenas pela publicidade, mas também pelos assinantes, eles foram se apropriando do público infantil. Com emissoras mais segmentadas e direcionadas a certo nicho, como um canal só para esportes, culinária ou para crianças, iniciou-se um intenso consumo. Não era preciso mais esperar a programação infantil começar. Agora, ela estava disponível em tempo integral.

 

Entre publicidade e facilidade, o atual entretenimento 

Para Mauro Garcia, presidente executivo da BRAVI (Brasil Audiovisual Independente), essa migração fez consolidar a publicidade em canais por assinatura. Ela se estabeleceu “com a premissa de que quem tem TV por assinatura tem um maior poder aquisitivo e vai poder fazer maior compra de produtos para criança. Portanto, ela teria mais resultados nesses canais”. Paralelamente , nos últimos anos a regulamentação da publicidade infantil intensificou-se. Assim,  essa migração de investimento tornou-se duradoura e determinante.

Publicidade infantil refere-se a um tipo de propaganda voltada à criança e, dessa forma, ao seu consumo. Como a criança ainda não tem discernimento, a publicidade pode incentivar um consumo intenso. Por isso,estabelecer um limite ao tipo de propaganda divulgada é também estabelecer uma delimitação ao incentivo da cultura do consumo desde os primeiros anos. No entanto, como a TV aberta é pautada em investimentos publicitários, a maior regulamentação em relação à publicidade infantil atinge sua programação.

Reynaldo Marchesini, produtor executivo e supervisor artístico do Sítio do Pica Pau Amarelo e responsável pela criação da série Princesas do Mar, diz concordar com a preocupação e a busca de cuidado ao falar com a criança, mas se diz contrário sobre a ideia de extinguir a publicidade. “Se vetar publicidade, de certa forma também se veta o modelo que permite a produção de conteúdos para as crianças, inclusive das empresas, porque esses canais vem de publicidade”. Saber como se comunicar com uma criança é essencial, mas aniquilar tal comunicação é, também, aniquilar a produção, de acordo com ele

A TV vive de negócio, mas como sobreviver sem investimento? Se compararmos com os anos 90, quando a produção televisiva para crianças era muito grande, é fato que o cenário social mudou. A ascensão de programas por assinatura trouxe novas possibilidades e o desenvolvimento das plataformas digitais ganharam grande repercussão nas famílias. Produzir conteúdo gasta, é trabalhoso e já não se rende mais como antes. 

 

Controle

Beth relata que, pelo investimento e migração do público para outros canais, a TV  comercial não se interessa mais na produção infantil porque, para eles, “não é mais negócio e, infelizmente, os canais vivem de investimento”. Com um ambiente de múltiplas telas, a criança achou mais opção do que ela gosta em outros lugares. “Ela escolhe o que ela quer, na hora que ela quer, quantas vezes quer, sem precisar esperar o horário da televisão”. 

E, imersa em uma cultura de botões que seguem os desejos momentâneos, cria-se uma ideia de imediatismo. Anna Carolina é psicóloga e analisou em seu mestrado os programas infantis brasileiros e como os efeitos contribuem para a aquisição da leitura. Segundo ela, antigamente era necessário que a criança desenvolvesse  uma habilidade de espera do horário para um programa. “Era preciso ter aquela paciência de esperar aquele um horário para ver aquele desenho que, às vezes, nem era o episódio que queria. Era uma forma de lidar que o que eu quero e na hora que eu quero nem sempre é possível”.

“Podemos ter as coisas com muita facilidade no conteúdo digital e temos mais liberdade de escolher, de fazer na hora que quisermos, sem precisar esperar. Acaba incentivando uma cultura de imediatismo”, acrescenta Anna.  Apesar de o consumo digital representar pequena parte na rotina da criança, “se ela cresce acostumada a tudo o que ela quer e na hora que ela quer, ela vai ser um adulto assim também”. Segundo Mauro, “o imediatismo da publicidade faz com que a nova geração infantil se afaste da TV aberta. E ele ainda questiona:  “Os produtores das novas plataformas digitais acompanham a evolução infantil, de forma educativa e reiterando a informação?” 

Visualiza-se um maior amadurecimento de conteúdo e ideia na nova geração de crianças, principalmente pelo mais amplo acesso à informação, em uma evolução na sociedade. Mauro entende que esse acesso dá uma maturidade, não necessariamente emocional, mas maturidade “do ponto de vista de informação, de acesso a outras fontes que contribuem para uma criança ter uma expectativa diferente e querer consumir outros tipos de produtos”. Ele ainda comenta que sentiu tal evolução em seus programas. “As crianças veem Cocoricó como um programa para bebê por conta dos bonecos parecidos com os Muppets. Então, nas novas temporadas, tivemos que refazer o roteiro e adequar a faixa etária”. E entre uma evolução e um não entendimento sobre a própria geração, reitera: “A gente não vê essa preocupação no desenvolvimento de outros programas infantis”.

 

Reestruturação geracional

Apesar da evolução dos meios de comunicação e de uma maior maturidade sobre alguns assuntos, ele analisa que “não podemos superestimar uma geração só pelo fato de que, com o acesso à informação, ela tem necessariamente uma maturidade preparada para lidar com esses assuntos muitas vezes postos em programas, como a sexualidade”.

A informação e o panorama brasileiros mudaram muito. Hoje, a informação é mais acessível, há outros diversos meios de comunicação e programas infantis. “Tem um universo muito maior via internet, mas a questão é saber se os produtores sabem lidar com essas novas plataformas”, segundo Mauro. 

No entanto, junto com a ascensão dessas plataformas, visualiza-se a falta de padronização de controle sobre os conteúdos, podendo levar uma exposição nociva pela inadequação às crianças. “Nessas novas formas de acesso, não se tem o controle que tem na televisão. Ainda não sabemos se os produtores estão sabendo lidar em relação a isso, como a exigência de indicação de classificação indicativa e se está adequado à nova faixa etária”. Sem esse controle, “corre o risco de deixar as crianças de uma determinada faixa etária tem acesso a conteúdos inadequados àquela idade.”

Para ele, o controle visualizado nas TVs abertas não é o mesmo das novas plataformas digitais. “Tem uma recomendação de elementos apropriados a serem levados em consideração, que devem reiterar o entretenimento”. Os elementos não são para fazer um programa educativo, mas para que um “entretenimento contribua para um crescimento saudável, que estimule a aproximação entre gerações e que contribua para uma harmonia familiar, respeitando a faixa etária da criança”. 

Reynaldo acredita que, apesar de muitas plataformas estarem já incentivando áreas para conteúdo exclusivamente infantil, seu alcance ainda é baixo. E até mesmo o acesso a tais ferramentas não necessariamente faz com que as crianças realmente as consuma. 

O YouTube, por exemplo, em decorrência ao grande acesso de crianças nos seus conteúdos, percebeu que não havia um mecanismo para filtrar a publicidade para elas. Assim, ele criou a plataforma Youtube Kids, contando apenas com conteúdo e publicidade direcionados às crianças. “De certa forma, elas [plataformas] estão sabendo lidar mais com essa situação pela maior responsabilidade pelo que chega aos olhos dessas crianças. Mas ainda não estão preparados se comparados a grande parcela da população que atingem”.

Assistir à TV era uma forma de convivência familiar e também de os pais saberem o que os filhos estavam assistindo. No entanto, a televisão segmentou-se em pequenos aparelhos e o conteúdo, portanto, passou a ser individual. Agora, fones de ouvidos e tablets tomam conta da vivência social. E, junto a isso, uma não seleção dos conteúdos assistidos. Para Beth, o problema é outro: “É saber selecionar. Os pais deveriam se interessar pelo que as crianças assistem e cuidar do que elas estão vendo”.

 

TVs desassistidas

Com tablets, celulares, plataformas digitais, como Netflix e programas de streaming, e canais por assinatura, o consumo é mais fácil. Reynaldo diz sentir que “pela maior exigência de poder econômico para ter acesso a esse conteúdo digital, tem uma parte da população infantil brasileira que não tem acesso. É, portanto, um público desassistido do conteúdo pensado para ele.” Mas estabelecer um panorama nacional apenas por tal visão é, também, consolidar uma paisagem segregacional. 

 A TV aberta não é mais a única opção no Brasil, mas ainda é a opção para muitos. Segundo ele, a TV aberta ainda tem um alcance que a televisão a cabo ainda não dominou, principalmente nas classes sociais menos favorecidas. “Me questiono se essa criança que não tem acesso aos canais por assinatura acaba assistindo o que tiver na TV aberta. Mas nela é conteúdo adulto e inadequado às crianças”. 

Pela ausência da televisão aberta em lidar com esse público, pensando a médio e longo prazo, “ele vai crescer sem nenhuma conexão emocional, porque os canais não estão dando voz às crianças. A responsabilidade dos canais públicos, como TV Cultura, Futura e Brasil, devem ser abraçados por outros canais”, afirma Reynaldo. E finaliza: “As crianças sem condições de ter canais por assinatura ou plataformas digitais perderam o principal fornecedor de conteúdo teoricamente de qualidade superior”. 

Para Mauro, as TVs abertas comerciais têm um dever social: são uma concessão pública e, portanto, têm esse compromisso para com a sociedade. “A Globo tem uma manhã inteira de programas jornalísticos e a programação infantil desapareceu. Mas ela não deveria esquecer esse público porque nem todo mundo tem TV por assinatura ou Netflix em casa”. A maior parte da parcela da sociedade permanece desassistida: com mais de 67 milhões de domicílios no Brasil, cerca de 7 milhões não têm TV com conversor, antena parabólica ou TV por assinatura.

O que antes era estopim para brincadeiras e união, agora também segrega. Dentre o enorme pilar que a televisão ocupa no Brasil, como formadora de opinião e grande ferramenta de entretenimento, seu papel social passa a ser esvaziado sob os olhos dos investidores. 

O acesso, apesar de estar disseminado pelas plataformas digitais, acaba selecionando. O investimento não acontece porque as crianças não assistem, ou os próprios programas nem tentaram inovar e acompanhar a evolução infantil? Com muita gente desassistida, há uma parcela significativa de responsabilidade na sociedade que a TV comercial deveria cumprir, mas não cumpre. Ao mesmo tempo é uma oportunidade para TV pública fornecer mais conteúdo para esse público e para família”.

 

Investimento

À medida que as plataformas de TV por  assinatura estão aos poucos substituindo a TV aberta, seu investimento é cada vez mais escasso. Mauro acredita que estamos caminhando até que as plataformas se transforme uma grande televisão ao vivo. 

“Vamos ter uma TV aberta cumprindo a finalidade de ser uma comunicação como o rádio é, mais imediata e ao vivo. O papel de falar com a família vai estar confinado aqueles que desenvolverem programação infantil e familiar em outros mecanismo e de outras formas, seja por assinatura ou em outras plataformas”. Com exceção das TVs públicas que continuarão a existir, “vamos migrar para outras formas de falar com as crianças e famílias em outras mídias, que não será mais em TV aberta”.

Entreter sem visar um público específico tornou-se mais rentável e determinante na contemporaneidade da TV aberta. 

Entre agradar várias faixas etárias e gêneros, sem investimento, a TV opta pelo tiro mais certeiro. Para Reynaldo, percebe-se um maior investimento em reality shows, pois, sem precisar de roteiro, modificação das câmeras ou uma grande equipe, se torna mais viável. Mas questiona-se: e o grande papel social da televisão na formação das pessoas? Em um grande programa ao vivo, seu papel de moldar crianças cabe, cada vez mais, aos pais, enquanto a concepção de leitura envolvida nos programas infantis na TV aberta diminui pelas gerações.

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