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A vida e a filantropia de J.K. Rowling
Na Estante
30 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

Quando Peter Rowling e Anne Volant se conheceram na Estação King’s Cross, em Londres, mal sabiam que o relacionamento ultrapassaria suas profissões na Marinha Britânica. Fruto do casamento, J.K. Rowling transcenderia gerações e iria além do condado de Yate, ajudando desde mães solteiras à vítimas de esclerose múltipla. Hoje, o que era a pequena menina de cabelos pretos e sardas marcadas é nada menos que a mulher mais influente da Grã-Bretanha, acima até mesmo da Rainha Elizabeth II, devido, em grande parte, a seu humanitarismo e espírito filantrópico.

O altruísmo, contudo, é resultado de uma história cheia de luta e discórdia. Nascida Joanne, a escritora cresceu cercada pelos bosques em uma vila pequena ao sudoeste da Inglaterra, juntamente com os pais e a irmã mais nova. Durante a adolescência, rompeu relacionamentos com o pai e enfrentou o duro e lento desenvolvimento da esclerose múltipla da mãe. Formou-se aos 21 anos em Línguas Clássicas na Universidade de Exeter, depois de ter sido recusada em Oxford, onde sonhava graduar Literatura Inglesa.

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Joanne Rowling, ao lado da irmã Dianna (à dir.) e da mãe, Anne. Foto: Reprodução.

Pouco tempo depois, Joanne se mudou para Londres, onde começou a morar sozinha. Um emprego conseguido na Anistia Internacional, apesar de pagar com dificuldades o aluguel, rendeu histórias de pessoas das quais Jo nunca se esqueceu: ler cartas contrabandeadas de regimes totalitários, de refugiados, de vítimas de sequestros e estupros, ver suas consequências em feridas e pobreza, tornaram-na uma pessoa cuja experiência de vida passou a ser baseada majoritariamente no poder de aprender e compreender sem ter experimentado.

Nesse período, em um curto desenrolar de tempo, Harry Potter “simplesmente caiu em sua cabeça”. Jo sofreu com a morte precoce da mãe, que nem mesmo sabia sobre a história, e se casou com o jornalista Jorge Arantes. O conturbado relacionamento acabou quando Jo estava grávida, vítima de violência doméstica e expulsa da própria casa. Desempregada, mãe solteira e vivendo de benefícios estatais, sem amparo da mãe ou do pai, foi diagnosticada com profunda depressão clínica. Nesse processo, duas causas mantiveram Joanne longe do suicídio: sua filha, Jessica, e a história do menino bruxo.

Doze. Esse foi o número de vezes que o manuscrito de Harry Potter e a Pedra Filosofal foi recusado por editoras, que inclusive recomendaram que ela “não perdesse mais nem um dia de trabalho”. Do fracasso ao sucesso, Joanne se tornou J.K. Rowling. A Editora Bloomsbury decidiu publicar o livro em 1997, surpreendendo-se com o resultado. Apesar de Rowling nunca ter esperado sustentar-se escrevendo, em pouco tempo se tornou milionária e alavancou o que seria um dos favoritismos mais rentosos do mundo: a pottermania.

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Foto: Divulgação.

A partir de então, J.K. Rowling redescobriu-se muito além do prédio londrino da Anistia Internacional. Em 2000, criou o Volant Charitable Trust, agência financiadora de movimentos que ajudam crianças carentes, mães solteiras e pesquisas médicas sobre doenças neurodegenerativas — como é o caso da esclerose múltipla — de toda a Escócia. Trabalhando ali, decidiu escrever e publicar Quadribol Através dos Séculos e Animais Fantásticos e Onde Habitam, cujo lucro (cerca de 30 milhões de libras) foi totalmente destinado a ajudar crianças que trabalhavam nas ruas da Guatemala, nas indústrias de tapetes do Paquistão, e crianças deficientes das favelas de Bangalore, na Índia.

Em 2004, Rowling tornou-se presidente da Gingerbread, caridade que foi criada há quase 100 anos para servir de abrigo alternativo para mães e bebês sem lar da Grã-Bretanha. Atualmente, o grupo fornece aconselhamentos para famílias monoparentais, como informações sobre os benefícios e direitos da família, programas de treinamento, empregabilidade e reforço de confiança de mães solteiras.

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Foto: Reprodução.

Utilizando o nome do feitiço que seus personagens bruxos utilizam para clarear a escuridão, em 2005 J.K. Rowling fundou a Lumos, uma ONG que tenta transformar a vida de crianças que vivem em orfanatos. Os Contos de Beedle, O Bardo, escrito em meados de 2007 (dez anos após publicação do primeiro livro da saga Harry Potter), foi produzido no intuito de ajudar a entidade. Leiloada por quase dois milhões de libras, a obra entrou no Guiness Book como o manuscrito mais caro já leiloado, além de ganhar o gosto dos fãs como um conto-de-fadas contemporâneo.

Por outro lado, até hoje Anne Volant não é esquecida nas entrevistas dadas por J.K. Rowling. O choque pela perda da mãe levou-a, em 2006, a continuar ajudando vítimas de esclerose múltipla: a escritora contribuiu para a construção de um novo centro de medicina regenerativa, em Edimburgo. Naquele mesmo ano, leu em uma rádio, em Nova York, para arrecadar em prol do programa Médico Sem Fronteiras, que leva ajuda médica gratuita à localidades de conflitos armados. Assim, Rowling tenta evitar a dor que é perder um ente querido, tema muito presente em suas obras.

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Foto: Reprodução.

Nos anos seguintes, depois de ajudar instituições de caridade à dislexia, J.K. Rowling apoiou projetos de leitura em prisões da Grã-Bretanha que tinham como objetivo reeducar detentos e ensinar analfabetos encarcerados a ler. Crente no poder transformador da leitura, em meio a tantas doações, Rowling perdeu em 2013 o posto de bilionária levantado pela Revista Forbes, depois de conceder cerca de 16% do seu patrimônio líquido.
Se vocês escolherem usar seu status e influência para levantar suas vozes em nome daqueles que não têm voz”, proferiu Rowling em seu discurso aos formandos de Harvard, em 2008, “então não vão ser apenas as suas orgulhosas famílias que vão celebrar vossas existências, mas milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês têm ajudado a transformar para melhor.”

Na Internet, defende a causa LGBT e contra-ataca abusos misóginos. Em seu escritório, lê cartas de pedidos humanitários. Assina contratos, participa de reuniões, lida com a fama dos mais de 400 milhões de exemplares vendidos. Em casa, é mãe: faz bolos, o que a faz “sentir estar fazendo uma coisa realmente de mãe”. Joanne Kathleen Rowling é, antes de tudo, um ser humano, capaz de transformar as próprias experiências no poder da empatia. “Nós não precisamos de magia para mudar o mundo, nós já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: nós temos o poder de imaginar melhor.”

Por Leonardo Mastelini
leomastelini@gmail.com

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