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Além das cortinas
Em Cena
17 jul 2019 | Por Natália Milena (nataliamilena.0810@gmail.com)

Extinção do Ministério da Cultura.

Corte de patrocínios pela Petrobras na área cultural, afetando em especial as Artes Cênicas.

A vertente artística da cultura parece ter cada vez menos espaço diante de um cenário marcado pela não compreensão de sua importância e sua desvalorização. Ainda que a arte enfrente tais desafios, sua resistência fundamenta-se na capacidade de promover o desenvolvimento pessoal e coletivo para além da estrutura de ensino formal.

[Imagem: @theatromunicipal]

Afinal, qual a função da arte?

A arte é essencial para a composição da cultura. Para Eduardo Coutinho, professor do curso de Artes Cênicas da USP, a arte também é responsável por “colocar em movimento questões que não passam pelas outras ordens do racional”. Para Coutinho, ela “tem relevância tanto no campo individual, de tomada de consciência de si”, quanto no plano coletivo, em que não é apenas produto da cultura, “mas é parte constituinte do que se desenvolve enquanto sociedade.”

“A cultura não é uma coisa fixa que impõe. É resultado do que vem do grupo e, de alguma forma, é acordado e volta como regra. A arte é muito importante no quesito do deslocamento das normas, na parte de gerar movimento nas pessoas e nos seus acordos”. Em um ciclo cultural, ao mesmo tempo em que a arte é fruto, é também um mecanismo de questionamentos e determinações. Como esfera social, ela lida com as questões humanas e incita em ir além do conhecimento, ir além das verdades instituídas. 

Eduardo completa dizendo que a arte, sobretudo o teatro, não tem como objetivo  levar uma verdade única e pré-estabelecida para o público. Segundo ele, “o papel do artista é fazer acontecer em você”. É encorajar que a plateia desloque suas verdades através das questões abordadas pela obra, podendo ou não, reafirmar convicções, em que o espectador saia da peça diferente de quando chegou.

[Imagem: @teatrosantander]

O teatro na formação humana

Ao serem abertas as cortinas do teatro, além do que acontece no palco, existe um espaço marcado pela reunião de todas as artes – música, literatura, artes plásticas… –  e pela união entre os aspectos intelectual e emocional. Segundo Marcia Frederico, psicóloga especialista em psicodrama e professora de teatro há 30 anos, a arte teatral é encarregada de “desenvolver uma série de questões” entre indivíduo e sociedade.

Marcia traz enfoque para os aspectos pessoal e relacional. O primeiro diz respeito ao autoconhecimento, “à pessoa saber seus limites, explorá-los e ir além”. O segundo se refere ao trabalho em equipe que exige habilidades em expressar ideias de maneira clara e colocá-las em prática. “O teatro é uma arte que integra todos esses aspectos do ser humano, parte cognitiva, racional e emocional, e a parte da atitude, da ação”.

Além disso, o psicodrama, no campo da psicologia, “é uma forma de se trabalhar terapeuticamente com as ferramentas do teatro”, o que evidencia a capacidade educacional presente na arte. Para Marcia, “é uma potência muito grande, porque você acessa na pessoa todos os aspectos, não só o que ela tem para contar no verbal”. O teatro é capaz de gerar identificação entre o que é encenado e o que é sentido, dá acesso à emoções até então desconhecidas, sem a intenção de controlá-las. Através da expressão, a arte move o indivíduo a entender suas inquietudes. Ela aciona esse ser humano de uma forma muito completa.

Outro potencial desta arte alude à educação socioemocional. Considerando a necessidade das escolas e dos alunos terem um espaço de conversa em que possam expor suas emoções, seus sentimentos e promover a empatia, Marcia afirma que o teatro bem realizado nas escolas supre essas carências. Quando realizado com a finalidade de desenvolver o ser humano, é capaz de estimular o avanço coletivo e a socialização. Prepara o indivíduo para saber se expressar em público e garante um autoconhecimento, alcançando os objetivos da educação socioemocional.

[Imagem: @projetobuzum]

Acessibilidade ao meio teatral

O BuZum! é um projeto que foi criado em 2010 com o propósito de levar teatro infantil de bonecos para escolas, chegando a crianças e adolescentes que ainda não conhecem ou têm dificuldade de acesso a esse mundo lúdico. Por meio de um ônibus adaptado com palco, iluminação e sonorização para a apresentação das peças, a companhia viaja pelo Brasil ao encontro do público.

O projeto conta com o suporte de leis de estímulo cultural, como a Rouanet – agora intitulada Lei de Incentivo à Cultura -, o Programa de Ação Cultural (ProAC), do governo de São Paulo, a Lei de Fomento ao Teatro na cidade de São Paulo, o Procultura da Funarte, além do Prêmio Zé Renato de incentivo ao Teatro na cidade de São Paulo. Oferece apresentações gratuitas em escolas públicas e material pedagógico, desenvolvido em parceria com o Instituto Saberes, para os educadores trabalharem temas transversais nas aulas.

[Imagem: @projetobuzum]

Iniciativas como essa ilustram a necessidade de expandir o alcance dessa arte, tendo em vista o impacto gerado na vida das pessoas. Otávio Sarti é exemplo de alguém que foi encontrado pela arte e, desde então, vive em função dela. Aluno do curso de Artes Cênicas da USP e técnico em Teatro pelo Senac de Ribeirão Preto, Otávio teve o primeiro contato com esse mundo por volta dos quatro ou cinco anos de idade, quando foi com seu irmão assistir a uma peça no Teatro Municipal de Sertãozinho, a convite da escola pública em que estudava.

Otávio despertou interesse pela área, que se consolidou ao entrar em um grupo de iniciação no Teatro Municipal da cidade, em que permaneceu por cerca de dez anos. “Foi lá que comecei e impactou minha vida. A partir de então, tudo que eu fiz foi em função do teatro”. Otávio diz que não é sempre que sua cidade recebe peças teatrais, mas, apesar disso, costuma frequentar as que chegam ao local através do ProAC.

 

Políticas públicas para o teatro

O potencial de desenvolvimento humano promovido pela arte contrasta com o atual contexto caracterizado por uma desvalorização vinda dos próprios governantes e diminuição significativa de investimentos na área. Para Eduardo, uma das possíveis explicações para isso reside na questão do poder. 

“A ala do poder que não gosta é porque vê na arte o sentido de gerar aquele movimento, aquela desorganização que faz ter que atualizar o pensamento e postura”.  Através da arte, ao perceber coisas que não estão no cotidiano, o indivíduo se altera e então passa a interpretar situações de uma perspectiva diferente. “Então, à manutenção do poder de um determinado grupo não interessa que a arte faça isto”.

De acordo com Marcia, vivemos “uma falta de compreensão do valor da arte pelos nossos atuais governantes” e uma generalização dos erros causados pelo uso incorreto da Lei Rouanet. Por uma mistura de ingenuidade e falta de conhecimento, Marcia entende que alguns profissionais não sabiam usar esse mecanismo de patrocínio. 

Na contrapartida dos cortes de investimentos, a Economia Criativa representa um dos setores que mais cresce na economia mundial. Faz-se necessário um movimento maior de difusão da relevância do teatro para a sociedade e de preservação dos mecanismos já existentes que asseguram a cultura teatral. Assim, mais pessoas, como Otávio, encontrarão novas possibilidades na arte e mais projetos terão a estrutura necessária para levar o teatro estrada afora. E dissipa-se, aos indivíduos, a consciência daquilo que já os pertence.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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