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Aquele em que Friends ainda é uma das séries mais assistidas
Controle Remoto
21 fev 2020 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

Mais de duas décadas após o lançamento do seu episódio piloto nos Estados Unidos, a série Friends ainda faz parte da programação do Warner Channel e é um grande sucesso do catálogo da Netflix. A série até ganhou homenagem do Google em 2019 pela comemoração do seu aniversário de um quarto de século: o site divulgou informações dos personagens e perguntas mais pesquisados, além de incluir pequenos ícones bem-humorados representando os personagens em seu buscador.

Em outubro de 2019, foi divulgado um ranking das séries mais assistidas na Netflix dos Estados Unidos. A lista foi liderada pelo seriado The Office, exibido entre 2005 e 2015, e o segundo lugar ficou com Friends (1994-2004). A contagem foi de 52,98 bilhões de minutos assistidos para a primeira colocada, enquanto Friends contou com 32,6 bilhões. No Brasil, The Office não está disponível na Netflix. Apesar de ter perdido o posto nos Estados Unidos em 2019, no ano anterior Friends foi a série mais assistida do mundo, de acordo com o aplicativo TV Time. 

Homenagem feita pelo Google em 2019 [Imagem: Google]

Homenagem feita pelo Google em 2019 [Imagem: Google]

De toda forma, é inquestionável que, mesmo tanto tempo depois da sua estréia e do seu fim, a série ainda é uma das preferidas dos fãs de sitcoms e atrai muitos admiradores: não só aqueles que a assistiam quando os episódios eram inéditos, como jovens e adolescentes que se interessam e decidem conferir a produção que faz tanto barulho na internet. Entretanto, muitas pessoas não entendem porque a série continua fazendo sucesso e se perguntam o que há de tão especial na produção. 

Friends conta a história de seis jovens amigos que vivem em Nova York em meados dos anos 1990 e início dos 2000. Com episódios relativamente independentes entre si, o roteiro se utiliza de questões básicas do cotidiano para criar situações divertidas e engraçadas. Os personagens são um pouco caricatos, mas apresentam características com as quais é fácil se identificar, e, em alguns momentos, as piadas se tornam bastante universais.

 

Depois de todo esse tempo?

Para Patrícia Rossetto, publicitária formada pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó e autora do artigo “As experiências de consumo de jovens fãs brasileiros de ​Friends​ e suas identificações com os personagens da série“, o principal motivo para que as pessoas continuem se interessando tanto pela série é a identificação com a temática e com os personagens. “São jovens adultos, longe dos pais, que precisam aprender a se virar. Quantas pessoas não vivem as mesmas situações que eles? Pouco dinheiro, longe de casa, problemas em relacionamentos”, explica. 

Cena em que os protagonistas estão conversando em seu café preferido [Imagem: Reprodução]

Cena em que os protagonistas estão conversando em seu café preferido [Imagem: Reprodução]

Apesar de ser possível se identificar com as situações da série, em muitos momentos ela não retrata de fato a realidade, o que é bastante criticado por alguns. Os personagens passam muito tempo nas casas uns dos outros ou no café, experienciam algumas situações extremamente improváveis e têm personalidades um pouco exageradas, por exemplo. Entretanto, segundo Patrícia, esse tipo de questão pode fazer com que a série se torne ainda mais atrativa: “Acredito que conforta também. Por vezes nos sentimos solitários, e, falando por mim, eu gostaria de ter meus amigos mais perto, vendo eles mais vezes por semana ou até por mês, mas a correria do dia a dia impede”.

O fato é que o seriado se consolidou na cultura pop e ainda atrai muitos jovens. Raquel Magalhães, 18, conta que se interessou pela série a princípio por meio da internet. “Eu comecei a assistir Friends por conta de sua influência nas redes sociais, principalmente nas contas que eu seguia.” Essa presença da série nas mídias muitas vezes tem relação com a facilidade de identificação com as piadas: é fácil colocar as frases dos personagens em diversos contextos, e muitos se sentem contemplados por elas. Além disso, é frequente que as pessoas postem referências à série ou comentem sobre o quanto gostam de assistir, devido à grande quantidade de fãs. “Acho que, de certa forma, a série ainda faz tanto sucesso pelo imenso saudosismo, já que temos disponíveis outras séries tão boas quanto e, talvez, melhores”, conta Raquel.

Cena em que a personagem Monica coloca a cabeça dentro de um peru de Ação de Graças [Imagem: Reprodução]

Cena em que a personagem Monica coloca a cabeça dentro de um peru de Ação de Graças [Imagem: Reprodução]

Entre o velho e o novo

Apesar do sucesso, há muitas críticas em relação à série, atualmente. De fato, algumas piadas e situações acabaram se tornando inapropriadas com o passar do tempo, o que incomoda espectadores mais jovens e antenados. Por exemplo, o fato de todos os personagens principais serem brancos chamou tanta atenção que, em 2017, o cantor Jay-Z fez uma crítica ao recriar uma cena de Friends com atores negros no clipe da sua música Moonlight

Jay-Z faz reinterpretação de Friends em clipe [Imagem: Reprodução]

Jay-Z faz reinterpretação de Friends em clipe [Imagem: Reprodução]

Além disso, há algumas passagens e decisões de roteiro que refletem um tom preconceituoso em diversos aspectos. “Lembro de existirem cenas com frases ainda um pouco machistas e transfóbicas”, comenta Raquel. A questão de gênero é um problema em diversos momentos da série, mas, para quem assiste a todas as dez temporadas, a diferença entre o começo e o final é evidente. Patrícia ressalta que esse tom preconceituoso se torna mais claro na postura de alguns personagens em específico: “As atitudes do Ross são por vezes machistas e homofóbicas. Existem muitas pessoas que odeiam alguns personagens e acredito que isso seja mais normal em relação a ele”.

Cena de episódio em que Ross desconfia de um profissional para tomar conta da sua filha pelo fato de ele ser homem e babá [Imagem: Reprodução]

Cena de episódio em que Ross desconfia de um profissional para tomar conta da sua filha pelo fato de ele ser homem e babá [Imagem: Reprodução]

Entretanto, apesar de questões como essa serem alvo de críticas, muitos fãs entendem que a série foi produzida em outro período e, portanto, algumas delas são consequências de comportamentos que eram normalizados. “[Essas problemáticas] refletem o comportamento da época, ainda que não seja uma desculpa, visto que a mesma série diversas vezes entrou em choque com o pensamento comum da década”, opina Raquel. Há quem diga, inclusive, que alguns desses momentos questionáveis são utilizados como forma de crítica ou sem intenção de realmente apoiar esses pensamentos. “Elas simplesmente retratam uma realidade da época”, comenta Patrícia.  “Acredito que se fosse gravada nos dias atuais não seria tão diferente, pois ainda vemos muitas questões relatadas na série no nosso dia a dia.”

De forma geral, a série representa a cultura da época em que foi produzida, refletindo padrões de comportamento e pensamento que eram vistos como normais. A publicitária enumera momentos em que isso é perceptível: “Algumas falas demonstram como as pessoas que eram do convívio da Rachel acham que ela não teria como se virar sem o pai, ou que precisaria de um marido; e quando o Ross fala para a Rachel que eles deveriam se casar, já que ela estava grávida”. Patrícia lembra também de episódios em que o personagem em questão faz comentários sobre não existir amizade entre homem e mulher e tem condutas obsessivas. “São atitudes machistas, mas que naquela época eram normais, as pessoas realmente pensavam isso”, completa.

Episódio em que Ross fica desesperado ao ver seu filho com uma boneca, comprada pela sua ex-mulher, Carol, e respectiva esposa, Susan [Imagem: Reprodução]

Episódio em que Ross fica desesperado ao ver seu filho com uma boneca, comprada pela sua ex-mulher, Carol, e respectiva esposa, Susan [Imagem: Reprodução]

Mesmo assim, muitos espectadores ainda consideram Friends uma série progressista para o período em que foi gravada. Diversas questões que, à época, eram polêmicas ou incomuns são abordadas, e os personagens têm posicionamentos, por vezes, mais atrevidos. “Gosto muito de citar a forma como a série retrata as diferentes formas de ter filhos. Todas as formas como foram mostradas na série na época não eram tão normais ou comentadas”, diz Patrícia, citando os momentos em que a série retrata a barriga de aluguel e a adoção, também lembrando da ênfase dada à liberdade feminina, na produção. “Também teve o casamento da Carol e da Susan, que não era normal na época.” 

 

Mais que o retrato de uma década

Seja para o bem ou para o mal, Friends traz uma representação vívida dos anos 1990 e dos costumes da década, e ajudou até mesmo a moldar alguns pensamentos do período. “A cultura da época é bem representada nas vestimentas, nos cenários e em algumas falas, mas é nítido que a série abordava assuntos mais polêmicos para os anos 1990 de forma bem natural. O impacto disso moldou a cultura da década e preparou alguns pensamentos para a próxima”, opina Raquel. 

Esse também é um fator que contribui para que a série se mantenha no círculo de interesse dos jovens até os dias de hoje. Com a “volta dos anos 90”, Friends ganha força e até mesmo passa a impulsionar tendências. “Andei observando e vi notícias de que a Ralph Lauren lançou uma coleção inspirada na Rachel. A moda dos anos 1990 está voltando, então a série serve de inspiração para as marcas e para as pessoas”, conta Patrícia. Raquel observa o mesmo movimento: “De 2015 em diante é possível notar o forte retorno da moda vintage e o saudosismo por peças que durante os anos 2000 foram ignoradas”. 

Comparação entre roupas usadas pela personagem Monica Geller e peças utilizadas como indicação no blog Look Todo Dia [Imagem: Reprodução/Pinterest]

Comparação entre roupas usadas pela personagem Monica Geller e peças utilizadas como indicação no blog Look Todo Dia [Imagem: Reprodução/Pinterest]

A influência que Friends exerce na cultura, contudo, ultrapassa o universo da moda. Alguns seriados posteriores, especialmente sitcoms, importaram algumas ideias da série, como piadas ou até mesmo o contexto geral. “Todo mundo conhece a série, sabe algo sobre, por mais que não tenha assistido. Existem muitas séries que se parecem com Friends, que têm inclusive aspectos e até falas parecidas, mas que focam em outras histórias”, pondera Patrícia. Os fãs constantemente comparam a produção com How I Met Your Mother (2005-2014), que também gira em torno dos percalços de um grupo de amigos em Nova York.  

Protagonistas de How I Met Your Mother e mesa do bar favorito do grupo [Imagem: Divulgação/ Canal Sony]

Protagonistas de “How I Met Your Mother” e mesa do bar favorito do grupo [Imagem: Divulgação/ Canal Sony]

Apesar de ter uma influência forte nas produções que a seguiram, é, contudo, arriscado dizer que Friends moldou um padrão de seriados de comédia. Para Raquel, isso não condiz com a diversidade e criatividade das produções mais atuais. “Friends surge depois de sitcoms muito similares aos moldes apresentados na série. Obviamente, pelo seu sucesso, outros seriados posteriores reproduziram alguns padrões, mas hoje há uma distância maior desses moldes.”

De qualquer forma, Friends deixou a sua marca no mercado audiovisual e continua cativando jovens e conquistando inúmeros fãs ao redor do mundo. Seja por nostalgia e saudosismo, seja por capacidade de promover identificação, a série ainda tem o poder de arrancar risadas dos espectadores e cativá-los. Mesmo com todas as falhas, o seriado permanece atual e continua a refletir situações do cotidiano jovem. Patrícia defende que a série trata com leveza o cotidiano de pessoas normais, o que é um dos pontos centrais do seu sucesso: “Você pode chegar para qualquer pessoa que assistiu à série, ela sempre vai se identificar com algum personagem ou até com um pouquinho de cada um, porque Friends é isso, somos nós retratados em seis personagens.” 

É impossível dizer o que exatamente fez com que a produção ganhasse tanta importância na televisão mundial, mas, de toda forma, ainda não apresenta sinais de que vai perdê-la. Para os fãs, não poderia ser melhor. Para quem não gosta muito, a boa notícia é que o mercado está repleto de novas e diversas produções, que pretendem agradar aos públicos mais variados. 

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