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As Transformações Mágicas de Georges Méliès
CINÉFILOS
23 nov 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Jullyanna Salles
salles.candido@gmail.com

O astro

Maries Georges Jean Méliès nasceu em 1861 e é reconhecido como uma das figuras de maior valor para a história do cinema. Até 1895, o ilusionista e mágico se tornou bastante famoso por conta das apresentações realizadas no “Theatre Robert Houdin”, em Paris. Neste ano, os irmãos Auguste e Louis Lumière revelaram o cinematógrafo, um aparelho que registrava um grande número de fotogramas que, quando rodados sequencialmente, davam a ideia de movimento de imagens. Méliès estava presente nesta apresentação e, ao ter sua oferta de compra do equipamento recusada pelos irmãos, decidiu elaborar a própria ferramenta e investir na nova técnica.

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No ano seguinte, o mágico já fazia sessões de cinema com produções próprias. Somente a disposição do ilusionista em investir nessa área e incentivar o desenvolvimento dela abrindo espaço para as exibições em seu teatro, já o colocariam em destaque na história do cinema. Entretanto, Georges não se limitou a reproduzir filmes já existentes, ou realizar novas produções semelhantes às dos irmãos Lumière. Aliando seu conhecimento em mágica e ilusionismo, o francês criou técnicas que o fizeram ser conhecido como o “pai dos efeitos especiais”.

Por trás das câmeras

O princípio básico de imagens que se moviam e eram projetadas já traziam consigo bastante inovação para a sociedade da época. A inclusão de efeitos fantásticos que colocam os personagens em situações surreais causou um natural espanto. Em 1907, Georges Méliès escreve um artigo de título “Les Vues cinématographiques” (As visões cinematográficas) para o Anuário Geral e Internacional de Fotografia. No texto, eram expostas algumas das técnicas utilizadas e, principalmente, a diferenciação das possíveis categorias que dividiam as produções. O autor explica, sucintamente, cada uma.

Visões Naturais são colocadas como cenas do cotidiano, feitas nas ruas, praças ou qualquer outro plano comum. São o início de todos os trabalhos do tipo. Depois comenta sobre as Visões Científicas, onde animais e humanos são gravados para fins acadêmicos. São feitas de modo que a anatomia e movimentos como o vôo de uma ave ou o trote de um cavalo possam ser analisados. A seguir inicia o detalhamento de sua área falando das Cenas Artificialmente Planejadas, em que cenários são montados e quaisquer personagens ou objetos presentes foram minuciosamente escolhidos. O último aspecto a ser tratado são as Visões de Transformações. Méliés já começa, no entanto, alterando seu nome: “Como eu fui o responsável pela criação deste campo, talvez vocês me permitam dizer que o termo “fantástico” seria mais correto”. O autor diz que o comum é acreditar que essas cenas apresentam mutações, metamorfoses e transformações, o que não é verdade, uma vez que o resultado é obtido através de truques, ilusões de ótica, encenações e artifícios teatrais.

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O diretor abusava de jogos de luzes, efeitos fotográficos e óticos, design de sets de filmagem, recortes e colagens de película e ilusionismo. Cada centímetro de seu estúdio era cuidadosamente trabalhado para a composição das cenas. Quase tudo era feito na base da experimentação. Trabalhar com sets coloridos, por exemplo, se mostrou bastante problemático uma vez que as filmagens eram feitas em preto e branco e algumas cores assumiam tons desfavoráveis. Com o tempo, foi possível diagnosticar a transformação de cada cor na captura da câmera e adaptar os cenários de acordo com padrões pré-definidos. Além disso, o mágico se empenhava em explorar sua imaginação, trazendo às telas, o que a realidade limitava.

Filmografia

A apresentação dos filmes era bastante diferente do que se vê atualmente. O cinema era então mudo, mas jamais silencioso. Havia um pianista que, durante a exibição, garantia uma trilha sonora que era muito significante para o conteúdo. Não só acompanhava o ritmo do filme como também contribuia para o suspense ou comicidade da obra. Um narrador também acompanhava a sessão, além de dizer o nome do curta e o seu produtor, também era responsável por pequenas locuções dos acontecimentos. O projecionista ficava encarregado de girar a manivela do aparelho de projeção e garantir os 18 filmes por segundo necessários para que a animação fosse perfeita. Era fundamental a contribuição de todos esses elementos em conjunto para que a exibição fosse possível.

As produções de Méliès eram quase todas descontraídas, com enfoque na diversão e com o objetivo de fazer com que os espectadores dessem gargalhadas. A simplicidade com que isso é feito é impressionante, por vezes, a gesticulação de um personagem ou as suas expressões são suficientes para garantir o tom humorístico do filme.

O mágico produziu mais de quinhentas obras num período de 17 anos, a maioria com duração de 3 a 5 minutos. Sua produção mais famosa é a Viagem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902), baseada no livro “Da Terra à Lua”, de Julio Verne. Produzido em 1902, conta a história de estudiosos que constroem uma cápsula e vão até a Lua, onde se encontram com seres chamados Selemitas. Os “heróis” voltam à Terra e são recebidos com festa por desbravarem os limites da galáxia. Nesse filme já foram introduzidas técnicas de dupla exposição, cortes e recortes.

Em outro curta, Les Cartes Vivantes (idem, 1904), são expostas as habilidades de mágico e ilusionista de Méliès, fazendo crescer cartas de baralho em suas mãos, e sua competência cinematográfica, levando as cartas para um grande painel em que uma dama ganha vida. O mesmo acontece em Les Affiches en Goguette (idem, 1905). As pessoas retratando anúncios em uma grande parede tornam-se reais e passam a provocar os pedestres, jogando farinha e outros produtos toda vez que eles passam sob as propagandas.

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O fato dos fotogramas serem em preto e branco não impediu que Méliès fizesse filmes coloridos. Com paciência, cada imagem era pintada à mão para garantir mais um atrativo à sua produção. Le chaudron infernal (idem, 1903) e Le locataire diabolique (idem, 1909) são algumas das obras coloridas do ilusionista. A última serve também como um bom exemplo da aplicação cômica que era realizada, além de conter muitos truques de ilusão, permitindo que um armário enorme saísse de uma bolsa de mão, ou uma mesa aparecesse assim que o personagem jogasse uma toalha no ar.

A Invenção de Hugo Cabret

Em 2007, Brian Selznick publicou o livro “A invenção de Hugo Cabret”. O protagonista é um órfão que vive com um tio alcóolatra dentro dos relógios de uma estação de trem. O garoto herda um autômato (um boneco que deixa mensagens a partir de um mecanismo de engrenagens)  de seu pai. Consertar o equipamento torna-se a grande obsessão de Hugo, que rouba peças e passa a trabalhar na loja de brinquedos de Papa Georges. O enredo acaba por revelar que o patrão é George Méliès, e conta grande parte de sua história.

A adaptação cinematográfica do livro foi feita em 2011 por Martin Scorsese. Ben Kingsley leva consigo a responsabilidade de interpretar o grande mágico em uma fase bastante amarga da vida, quando seu sucesso como cineasta acaba e seu estúdio entra em falência, o que é baseado em fatos reais. Só por volta de 1920, a França reconheceu a importância do produtor e o presenteou um um título de honra e um apartamento. No filme, este último fato é alterado, um estudioso de cinema promove um festival de cinema com a recuperação de mais de 80 obras originais de Papa Georges, que sobe ao palco emocionado e faz agradecimentos.

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Com o longa, Scorsese é indicado a onze categorias no Oscar de 2012 e conquista cinco, inclusive a de efeitos especiais, direção de arte e de fotografia. De alguma forma, o trabalho ao qual Méliès dedicou a vida é reconhecido, não só por suas obras, mas também indiretamente através do legado de sua Visão Fantástica, em um filme que conta a sua própria história depois de quase 100 anos de seu auge.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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