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Brigitte Bardot: a mulher que bordou a autenticidade, brindou a beleza e bradou a liberdade
CINÉFILOS
31 ago 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Heloísa Iaconis
helo.iaconis@hotmail.com

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“a saudade

é Brigitte Bardot

num filme muito antigo”

           Para Zeca Baleiro, Brigitte Bardot encarna a saudade. Na opinião de Tom Zé, Brigitte envelheceu antes dos nossos sonhos. Caetano Veloso, em sua Alegria Alegria, fala em caras de presidentes, em grandes beijos de amor, em dentes, pernas, bandeiras, bomba e, claro, Brigitte Bardot. Há também uma marchinha de carnaval, de Jorge Veiga, que pergunta: BB, BB, BB, por que é que todo mundo olha tanto pra você? A primeira música que Bob Dylan compôs homenageia o ícone francês. Billy Joel, Elton John, Red Hot Chili Peppers e The Who são outros músicos que citaram BB em canções. Nem os Beatles escaparam do encantamento causado por Bardot. No universo das artes plásticas, Andy Warhol, expoente da Pop Art, pintou os traços da bela. Deusa de muitos artistas e homens comuns, inspiração para inúmeras mulheres, Brigitte personifica os significados de substantivos como autenticidade, beleza, liberdade, ativismo e simplicidade. Elegância, para Balzac, “é parecer aquilo que se é”. No seio de sua franqueza, BB é a elegância balzaquiana. Embora os verbos do título desse texto estejam conjugados no passado, a influência de Bardot continua a ser notada atualmente.

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Brigitte Anne-Marie Bardot, conhecida por suas iniciais BB, nasceu em Paris no dia 28 de setembro de 1934. Símbolo sexual dos anos 50 e 60, Brigitte não pode ser tomada apenas por essa denominação. Completamente sexy? Sim! E, principalmente, completa em várias outras qualidades que a constituem. Musa do cinema francês, conquistou cinéfilos, diretores, colegas de profissão e o público com a sua forma genuína de atuar. Julien Green, escritor norte-americano de expressão francesa, declarou à publicação Le Magazine Littéraire, em junho de 1989: “Gosto muito de Brigitte Bardot. Percebe-se nela um coração puro”. Nesse coração puro reina uma complexidade formadora de uma “persona integrante”, como pontua Marie-Dominique Lelièvre, autora de Brigitte Bardot Biografia (Brigitte Bardot Plein la vue), obra traduzida e publicada no Brasil pela editora Record em 2014. Se o termo “liberté”, que integra o lema da Revolução Francesa, tivesse um correspondente humano, certamente seria Brigitte Bardot.

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A pequena dançarina de Passy

“Uma frase da mãe a magoa terrivelmente: “Felizmente eu tenho Mijanou, pois Brigitte é desagradável, tanto no físico quanto nos seus atos”. Como se, no fundo, a mãe nunca a tivesse perdoado por ter nascido menina, e não menino” (LELIÈVRE, p. 19).

“É minha primeira foto de artista”, escreveu Brigitte sobre uma imagem tirada em Passy, na escola Bourgat, aos oito anos. No instantâneo, ela aparece com a boca fechada, escondendo o aparelho nos dentes, e já apresenta uma de suas marcas registradas diante das câmeras: o olhar fixo na objetiva. Ambientada em uma família burguesa, filha de Louis Bardot, o Pilou, ferido na Primeira Guerra Mundial, e Anne-Marie Mucel, a Toty, ela não possui lembranças felizes de sua infância. Pilou, apesar de adorar filmá-la e ser amante da fotografia, era apreciador do chicote como instrumento “educativo”. Toty sonhava com a carreira de artista que não construiu e era vítima de uma insatisfação crônica.

A garotinha, que teve a sua autoestima jogada às traças, achava-se feia e, de mais a mais, veio ao mundo com uma particularidade física designada ambliopia. No olho esquerdo, a visão falha. Problema relacionado ao cérebro e, não, ao globo ocular, a ambliopia é uma característica imperceptível que, no entanto, afeta, por exemplo, o rendimento escolar. BB repetiu a sétima série, mesmo contando com o auxílio de seu amado avô Boum nos estudos.

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Brigitte Bardot criança

 

Na dança, entretanto, a pequena BB encontrava o seu lugar: disciplinada, almejava ser bailarina e arrancar um sorriso materno de aprovação. O seu modo lindo de caminhar e o seu porte começaram a ser esculpidos nessa fase. Nos espelhos da academia, aprendeu a se amar; modelou-se a si mesma. Brigitte seguiu a recomendação de Nietzsche ao pé da letra: foi a sua própria escultora. Dos seus anos de infância e juventude datam as primeiras fotos para revistas como a Jardin des Modes. Uma beleza composta com doses cavalares de coragem.

 

Mini BB

Mini BB.

 

E Brigitte criou o mito Bardot no cinema

“’As pessoas costumam dizer que eu ‘fiz’ Brigitte Bardot. Foi pelo fato de ela não ter sido fabricada, nem seus pais, e de a sociedade nunca ter influenciado sua natureza profunda, que ela chocou, seduziu, criou uma moda e no fim das contas explodiu no mundo como um símbolo sexual’, disse Vadim” (LELIÈVRE, p. 72).

Dona de uma natureza profunda, Brigitte Bardot foi concebida, simplesmente, por… Brigitte Bardot. Das fotos em publicações famosas para o cinema foi um pulo. No meio desse caminho, BB ainda encontrou o seu primeiro amor: Roger Vadim Plemiannikov. O cineasta, seis anos mais velho que a jovem, ficou admirado com a capa da Elle francesa estampada por Bardot em 1950. Vadim mostrou a fotogenia da moça para Marc Allégret, cineasta e roteirista que a convidou para um teste. BB foi escolhida para o papel, mas a película em questão não chegou a ser produzida.

Aos 17 anos, Brigitte estreou nas telonas com Le Trou normand (1952). Aceitou esse convite para conquistar independência financeira e, assim, poder casar-se com Roger. Os pais dela não apoiavam o seu relacionamento com o boêmio, já que ele não ostentava status social semelhante ao da família Bardot. Encurralada com a ameaça de ser enviada para um internato inglês, Brigitte comete uma tentativa de suicídio. Diante do quadro, Pilou consentiu, enfim, que a filha trocasse alianças, contudo ela teria que esperar alcançar a maioridade. Casamento ocorrido, outras participações em longas se sucederam e, em 1953, a garota foi o centro das atenções em Cannes. Conquanto, Vadim acreditava que a sua mulher estava sendo subestimada pela indústria cinematográfica.

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Embebido pelo início da Nouvelle Vague, Roger Vadim escalou BB para protagonizar o seu filme E Deus Criou a Mulher (Et Dieu… créa la femme, 1956). O enredo gira em torno de Juliette Hardy, uma adolescente considerada amoral para os padrões desse tempo, que desestabiliza os alicerces de uma pequena cidade litorânea. Ao mesmo tempo em que a personagem assume o seu lado animal, ela coloca em cheque a ordem patriarcal, escolhendo os seus amantes. “Quando um homem tem muitas amantes, é considerado um dom-juan. Quando uma mulher tem muitos amantes, é considerada uma puta”, declarou Bardot na época, chocando-se com uma sociedade machista. A sua nudez apresentada na produção é leve e desprovida de remorso. Representante de um mundo novo, “E Deus Criou a Mulher não é um sonho que virou realidade, mas uma realidade que virou sonho”, aponta Marie-Dominique Lelièvre.

“Eu não sabia que o amor era uma doença”, diz Juliette em dado momento da película. “Quel cornichon, ce lapin” (“Que coelhinho mais estúpido!”) tornou-se uma fala emblemática da Nouvelle Vague francesa e o recurso da filmagem em luz natural, utilizado pelo diretor, expondo o rosto de BB quase nu, também virou uma assinatura do movimento cinematográfico nascente. Outro grande símbolo extraído desse longa é a cena na qual Brigitte dança descalça em cima de uma mesa: a sequência é considerada uma das mais eróticas da história do cinema. O filme, em suma, é o poema que Vadim fez sobre sua mulher, um ode à fascinação gerada por Brigitte Bardot e ao amor por prazer. Segundo BB, Roger permitiu que ela se expressasse livremente. Relacionada à fome que a França tinha por limpeza, Bardot “apaga as manchas que a guerra deixou no corpo das mulheres”, escreve a professora universitária inglesa Sarah Leahy, em uma data na qual todos querem lavar a sujeira da guerra. Nesse âmbito, E Deus Criou a Mulher levou a atriz para a fama mundial.

 

Brigitte Bardot em “E Deus Criou a Mulher” (Et Dieu... créa la femme, 1956)

Brigitte Bardot em “E Deus Criou a Mulher” (Et Dieu… créa la femme, 1956)

 

Nos Estados Unidos, o longa estourou as receitas e as cenas da menina-mulher de biquíni percorreu as telas de cinema do mundo todo. Além de abalar a conservadora Hollywood dos anso 50, a película foi proibida em alguns países e foi condenada pela Liga da Decência Católica. Vale salientar que em Manina, a moça sem véu (Manina, la fille sans voile, 1952), segundo filme de Bardot, as tomadas em que ela surge de biquíni fizeram com que Pilou acionasse a Justiça para impedir que as sequências circulassem, porém ele não obteve o resultado pretendido. Dessa forma, protagonizando, nas telonas e na vida real, o amor e o prazer, Brigitte criou o mito Bardot.

 

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Bardot em cena do filme “Minha Querida Brigitte” (“Dear Brigitte”, 1965)

 

BB atuou em numerosos projetos, trabalhou com nomes como Louis Malle, Jean-Luc Godard (no aclamado longa O Desprezo, (Le Mépris), de 1963) e Frederico Fellini e construiu uma filmografia  considerável. Entretanto, Brigitte não se sentia plenamente realizada nas telas de cinema e, depois de mais de duas décadas estrelando produções de sucesso, decide colocar um ponto final em sua carreira de atriz. Em 1973, ela filma o seu último longa, L’histoire très bonne et très joyeuse de Colinot Trousse-Chemise (As Aventuras de Colinot), lançado em outubro de 1974, o qual marcou a despedida dela do ofício que a sugava.

 

Sequência de “Minha Querida Brigitte” (Dear Brigitte, 1965)

 

Ressalta-se que a sua verdadeira paixão, a dança, foi descartada cedo. Bardot necessitava agradar e temia a rejeição: apesar de ter sido aceita, em 1947, no Conservatório de Dança e Música de Paris, ter vencido um prêmio e viajado em turnê, não conseguiu conciliar a dança, o cinema e o seu amor por Vadim. Deixou, pois, a dança antes que fosse abandonada pela arte que tanto adorava e tratava com seriedade. Mas, logo que saiu do meio cinematográfico, encontrou uma nova fonte de paixão: a luta pelos direitos dos animais. Encerrou a atividade como atriz no auge, mostrando, mais uma vez, coragem substancial ao dar uma guinada em sua vida e, concomitantemente, solidificou a sua figura como emblemática na esfera do cinema mundial.

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Quem canta, os males espanta

“Tu veux ou tu veux pas?

Tu veux, c’est bien

Si tu veux pas, tant pis

Si tu veux pas, j’en ferai pas une maladie”

Bardot não vive sem música. O primeiro som que a marcou, quando era criança, foi a canção de Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937). Adolescente, ouvia rumbas e chá-chá-chás. No decorrer do tempo, ela descobriu, com os homens com os quais ela se relacionou, novos ritmos: Bach, Mozart e a música clássica; Bossa Nova; música cigana. Em sua residência, deixa o rádio sintonizado, dia e noite, na Radio Classique.

Sempre envolta por melodias, gravou (em francês, inglês e português) algumas canções como Tu Veux Ou Tu Veux Pas, Bonnie And Clyde, La Madrague e Je T’aime… Moi Non Plus. “Cantar a divertia. Com sua voz tão especial, ela ficava entre a sereia e a menininha”, disse Eddy Barclay, produtor musical, cuja gravadora foi responsável por álbum de BB constituído de doze faixas.

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LP “Brigitte Bardot Sings”. Lançado em 1963 pela Philips, o álbum é uma colaboração com Serge Gainsbourg e inclui o sucesso “La Madrague”

 

Estilo Bardot: “bardotitude”

“Se BB tivesse registrado sua maquiagem no INPI, estaria hoje entre as grandes fortunas da lista da Forbes” (LELIÈVRE, p. 191).

O traço de delineador marcando bem os olhos, o cabelo bolo de noiva e desgrenhado, o batom, os shortinhos, os vestidos new look apertando a cintura, o beicinho e a aparência casual: ingredientes essenciais para adotar um estilo Bardot. Eleita pela TIME um dos cem nomes mais influentes da história da moda, BB ditou tendências. Hoje em dia, a sua influência continua enorme. Kate Moss e Amy Winehouse são dois exemplos de seguidoras da cartilha de Brigitte.

Na internet, não é difícil esbarrar com sites e vídeos que ensinam truques para que o estilo Bardot seja aplicado. Em seu livro, Marie-Dominique Lelièvre, no capítulo intitulado “Tutorial Bardot”, relata a transformação sofrida por Samantha Chapman, jovem descrita como inexpressiva. Após algumas fases de preparação, Samantha parece outra pessoa. Naturalmente, a moça não se metamorfoseou em Brigitte Bardot. Porém, incorporou uma “bardotitude”: “A morena não se transformou em Bardot, mas ao se apropriar de seus atributos, torna-se incrivelmente atraente. O olhar sombrio tem uma conotação sedutora. A maquiagem de BB desvenda e camufla ao mesmo tempo”, analisa Lelièvre. Não se trata de uma tentativa de cópia deslavada e, sim, de inspiração. O estilo de BB é um colocar-se no mundo, “um estado de espírito”, como realça Chapman.

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A locomotiva na história das mulheres

Brigitte Bardot: “uma locomotiva na história das mulheres”, na visão de Simone de Beauvoir.

Roger Vadim, no período em que estava namorando Brigitte, presentou a amada com O Segundo Sexo, obra de Simone de Beauvoir, tida como a cartilha da mulher emancipada. Independente, emblema da liberdade sexual feminina, livre, BB é um exemplo. Tanto na ficção quanto, primordialmente, em sua trajetória pessoal, pôs em prova estereótipos que rondam ainda, em 2015, as mulheres. Casou-se por amor e não por status social; fez dois abortos; não criou o filho único, Nicolas, fruto da relação com o ator Jacques Charrier, ganhando a alcunha de “mãe desnaturada”; não tem um laço com o descendente, afrontando a ideia de que a maternidade seja algo inato às mulheres; colecionou quatro matrimônios (Roger Vadim; Jacques Charrier; Gunter Sachs, playboy alemão; Bernard d’Ormale, empresário e conselheiro político ligado à extrema direita, casamento que perdura até hoje) e múltiplos namoros e casos (o ator Jean-Louis Trintignant, o cantor Sacha Distel, o ator Sami Frey, o jogador de pôquer profissional e empresário imobiliário Bob Zagury, o cantor Serge Gainsbourg, entre outros); traiu; reconheceu ter mantido relações com uma mulher mais jovem; vestiu calças para ir ao encontro do general De Gaulle, no Palácio do Eliseu, em 1967; enfrenta a velhice de frente, sem ter recorrido a intervenções estéticas drásticas.

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           A imprensa quase cega BB

“Eu recebi nessa hora um murro no rosto! Um flash espocou a 3 centímetros do meu olho direito, provocando um deslocamento de retina. Meio cega e atordoada, ainda assim eu consegui chegar ao saguão, agarrada a Louis Malle. Houve vários feridos nessa noite. Fiquei com uma lembrança terrível, e uma lesão irreversível no meu olho saudável” – Brigitte Bardot.

O trecho acima refere-se  à temporada em que Brigitte passou em Nova York para o lançamento de Viva Maria! (1965). Jornalistas, fotógrafos, policiais, admiradores, curiosos formavam uma maré humana inacreditável em torno de BB. Em meio à multidão enlouquecida, ocorreu o fato rememorado por ela nas sentenças transcritas. Bardot correu o risco de ficar cega, o grande temor dos amblíopes.

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           Ainda no âmbito da divulgação de Viva Maria!, BB concede uma memorável entrevista coletiva no Manhattan Plaza Hotel:

“- Não está cansada de ser a “garota sexy”?

– Eu adoro.

– Algum dia vai voltar a se casar?

– Eu penso melhor sem marido.

– Acha indispensável ser mãe para se sentir realizada?

– Na vida, devemos tentar de tudo. E você?

– Que acha do amor livre?

– Já tentou desde ontem à noite?

– Sim. E agora, que faço?

 – Comece de novo”.


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Percebe-se que o contato de Brigitte com a imprensa se dava em algumas vertentes: um assédio desmedido; notas críticas e, por vezes, destrutivas; entrevistas com respostas inteligentes. Um acontecimento influenciado por esse emaranhado midiático foi a gravidez de Brigitte e a depressão pós-parto que enfrentou. A reclusão em casa, devido à sede que a imprensa tinha por informações da celebridade, foi um dos coeficientes da dolorosa conta acerca da experiência de ser mãe. Por outro lado, ela soube fazer uso, a seu favor, de publicações em dados momentos. Um jogo que ela desacelerou ao deixar o meio cinematográfico.

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A dama no paraíso

           

“A beleza tranquila de seus domínios comove Brigitte. Um coelho atravessa o caminho na diagonal, contornando os montículos de terra revolvida pelos javalis. O grande javali solitário que se estabeleceu em La Garrigue reproduz-se descontroladamente. Por mais que a prefeitura exija uma limpeza do terreno, Brigitte nada faz” (LELIÈVRE, p. 291).

No começo dos anos 60, Brigitte Bardot mudou-se para Saint-Tropez, no sudoeste da França, sendo responsável pela popularização do local. Lá continua vivendo, isolada, na margem do circuito social, cercada por animais e pela calma advinda da natureza. Comunica-se com o mundo através das cartas que recebe (e responde), dos telefonemas que atende (Marie-Dominique Lelièvre ligou para BB, que atendeu e conversou com sua “voz de criança”, como caracterizou a escritora). Da sua casa, escondida entre árvores, coordena a sua fundação e trabalha em prol do seu ideal de preservação dos direitos dos animais.

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           Bebê-foca e um foco para BB  

“- Que foto gostaria que fosse publicada depois de sua morte?”

“- A foto com o bebê-foca, que simboliza toda a minha vida. Da celebridade ao isolamento na banquisa”.

Paris Match, 26 de março de 2009, declaração de BB a Christian Brincourt.

“Como ela é fofa!”, exclamou Brigitte Bardot sobre um filhote de foca. Em 1977, BB parecia uma Branca de Neve na banquisa: com a ajuda do Greenpeace, ela tirou uma foto com um bebê-foca e atraiu a atenção de todos para a causa. Orquestrada pela IFAW (International Fund for Animal Welfare) e pelo ecologista suíço Franz Weber, a viagem de Bardot ao Canadá teve um papel poderoso na propagação dos direitos dos animais.

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Recolhida em La Madrague, Brigitte tornou-se vegetariana e passou a viver por um ideal. Em 1986, ergueu a sua fundação, Fondation Brigitte Bardot, declarada de utilidade pública pelo governo francês em 1992. Entre as questões em que ela se envolveu estão as campanhas contra a caça de baleias, a proibição de brigas autorizadas entre cães e as experiências em labotaratórios com animais. Totalmente contra o uso de casacos de pele, BB influenciou e influencia muitas mulheres a não utilizarem roupas feitas às custas, por exemplo, das peles de focas jovens. Em 1995, nomeou Dalai Lama como seu membro honorário da fundação.

 

Brigitte Bardot Documentary.

 

“A Fundação é meu maior motivo de orgulho na vida”, diz Bardot. Ela coloca a sua alma em favor de um objetivo maior. Em 17 de junho de 1987, BB depositou inúmeros objetos valiosos em um catálogo. Jacques Tajan organizou o leilão. Para angariar recursos financeiros para a sua fundação, ela deu tudo: o vestido de noiva do casamento com Vadim, as três pulseiras Cartier presenteadas por Gunter, lembranças de família e do cinema, móveis, louças, obras de arte, figurinos… Tudo foi posto à venda. Tajan, maior leiloeiro da França naquele tempo, ficou comovido com o despreendimento material e a sensibilidade de Brigitte, a qual assistiu ao leilão pessoalmente. Até a sua pequena penteadeira entrou na lista, contudo o objeto afetivo voltou para a dona: Jacques Tajan, por gratidão, compra a penteadeira e envia o presente para o endereço de BB.

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Recentemente, em 22/07/2015, foi noticiado que Brigitte Bardot enviou uma carta ao governo australiano pedindo que o país desista do plano de matar dois milhões de gatos nos próximos cinco anos. Este projeto é um “escândalo”, escreveu Bardot na mensagem dirigida ao ministro do Meio Ambiente da Austrália, Greg Hunt. “Matar dois milhões de gatos em uma população estimada de 20 milhões é uma vergonha”. A ideia de Hunt surgiu devido ao fato dos gatos serem considerados uma ameaça à vida selvagem. BB sugere uma campanha de esterilização dos felinos e, não, uma matança. Brigitte está firme, há mais de 40 anos, em seu propósito.

Brigitte Bardot abandonou a fama e ganhou um ideal, no qual agarrou-se com unhas e dentes: segundo ela, se tivesse continuado no âmbito cinematográfico, estaria morta. Assim como, se não fossem os animais, sustenta que também não estaria mais viva. Ela tem certeza que a fundação e o seu trabalho nela realizado se mantarão após a sua morte. A cada animal salvo, ela encontra uma salvação para si própria.

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Para saber mais sobre a Fondation Brigitte Bardot, acesse o site: http://www.fondationbrigittebardot.fr.

           BB & BR

           

“C’est une bossa nova,

Que j’ai dansé avec toi.

Je n’me souviens plus très bien où ça”

BB tem algumas ligações com o Brasil: da Bossa Nova a Búzios. Na música, assunto tão caro para ela, Brigitte colocou em sua vitrola Jorge Ben e Tom Jobim. Gravou C’est une bossa nova e, em português, cantou a faixa Maria Ninguém, a qual Jackie Kennedy declarava ser sua canção favorita.

Música “Maria Ninguém”. “É Maria e é Maria, meu bem”.

No verão de 1964, Brigitte Bardot revelou ao mundo a cidade de Búzios, cidade do litoral do Rio de Janeiro. Em sua autobiografia, declarou que os momentos passados na região foram os mais lindos de sua vida. Veio ao Brasil com Bob Zagury e, desde então, Búzios tornou-se um dos pontos turísticos brasileiros mais procurados. No município, na Orla Bardot, há uma estátua de bronze de BB em tamanho natural. Ademais, no balneário existem diversas outras referências à BB, como o cinema sofisticado batizado com o seu nome, o Gran Cine Bardot.

 

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Estátua de BB em Búzios

 

Em 2014, no mesmo ano em que Búzios comemorou 50 anos da visita de BB, ocorreu a primeira Mostra de Cinema Francês da cidade. Brigitte mandou uma carta, escrita à mão: “Estou muito orgulhosa de inaugurar esta Mostra 2014 que exibirá 4 filmes meus. Tenho um grande amor pelo Brasil e pelos brasileiros, sou como eles, gosto de dançar, cantar, gosto do sol, do mar e mais que tudo gosto dos animais, não esqueçam disso. De longe mando todo o meu amor…”, declarou.

 

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Carta de Brigitte Bardot celebrando Búzios

 

            Bravo, Bardot!

“Não sei se é carisma, magnetismo ou algum feitiço que ela lança. Seja o que for, era realmente incrível. Brigitte tinha algo de único. Naturalmente, assume atitudes perfeitas com o corpo e tem um andar sublime. Mas era bem mais do que isso. Ela entrava numa sala cheia de gente e tudo parava” – Nina Companeez, roteirista francesa.

A parte de todas as polêmicas que circundam Brigitte Bardot, como as questões que envolvem a adoção de crianças por casais homossexuais e as críticas tecidas acerca da imigração árabe e do Islamismo, ela pode ser descrita em um adjetivo: gentil. De acordo com Marie-Dominique Lelièvre, o vocábulo “gentil” foi o que a autora de Brigitte Bardot Biografia mais escutou a respeito de sua biografada. Com um temperamento generoso e ardente, a eterna menina-mulher conquistou o mundo todo.

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“Ela tem o gênio e a ingenuidade da criança. A crueldade e o egoísmo da criança. Uma necessidade frenética de presença, de disponibilidade, de amor”, afirmou Vadim. Você pode discordar de várias posições de Brigitte, tem o direito de gostar ou não de seus filmes, músicas e escritos. Todavia, ela merece respeito por ter tido coragem de mudar de rumo, por abraçar um ideal, por ser autêntica em suas falas e em seus atos. Peça essencial para a história da França, das mulheres, dos animais, da moda e do cinema, BB possui um encanto fora do comum. “Une vie au service d’une cause”, frase que está em sua descrição em seu twitter e sintetiza o seu ser. Humana em seus erros e acertos, transpira coragem e amor. Bravo, Bardot!

Trecho do documentário “E Brigitte Criou Bardot” (“And Brigitte Created Bardot”, 2007).

 

BB no D&D em SP!

Brigitte Bardot ganha uma mostra de fotografia, em São Paulo, com entrada gratuita. A partir do dia 27 de agosto, o shopping D&D recebe a exposição, a qual possui curadoria de Ricardo Chaves Fernandes. Além das fotos inéditas no Brasil, o estilista finlandês Sami Korhonen elaborou, de modo exclusivo para a ocasião, dez vestidos inspirados no estilo de BB. Posteriormente, as peças serão leiloadas e a renda revertida para instituições de caridade. O evento, pois, é mais uma prova de como o símbolo-Bardot continua vivo.

 

Mais informações:

 

Brigitte Bardot (dans l’intimité)

Entrada livre e gratuita.

Shopping D&D – Avenida das Nações Unidas, 12.555, Brooklin. Telefones: (11) 3043-9000 | (11) 3043-9650.

De segunda a sexta-feira, das 10h às 22h; sábados, das 10h às 20h; e domingos, das 14h às 19h.
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Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
raissa
Sou apaixonada por essa mulher
27 maio 2016
 
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